Gestão de Pessoas, Liderança, Times e Cultura
0 min de leitura

Sim, a antropologia é “as a service”

Como o ferramental dessa ciência se bem aplicado e conectado em momentos decisivos de projetos transforma o resultado de jornadas do consumidor e clientes, passando por lançamento de produtos ou até de calibragem de público-alvo.
Carol é antropóloga, regional coordinator EPIC - Latam e CO-CEO da Kyvo.

Compartilhar:

“As a service”. Dominante nesta década até aqui, o conceito do “a serviço” já faz parte da rotina do mundo da tecnologia da informação e também do universo freelancer. Agora, imagine se a Antropologia, sempre sob a ótica de negócios, também passasse a adotar a modelagem “as a service”.

O conhecimento antropológico, quando usado de maneira prática em direção ao dia a dia corporativo, pode não apenas analisar e interpretar a realidade, mas também transformá-la. Porque ele nos desafia a questionar nossas certezas e a construir novos caminhos para entender o mundo, tornando-se uma ferramenta poderosa para criar narrativas que reflitam uma diversidade de perspectivas e experiências. A antropologia, portanto, não é apenas uma ciência do estudo das humanidades, mas também uma prática de inovação e mudança social, que nos convida a repensar o mundo de formas mais inclusivas e justas.

Diante da robustez dessa ciência, e por extensão da narrativa acima, naturalmente seu uso no universo de negócios é cada vez mais requisitado. E como não é algo trivial, por óbvio é custoso.

Ao longo da minha formação como antropóloga, aprendi que uma das lições mais valiosas é questionar constantemente minhas próprias certezas. Não me refiro ao exercício da matriz de hipóteses, tão presente no cotidiano dos antropólogos, mas aos padrões que moldam nosso dia a dia, desde as ações mais triviais até nossos valores mais profundos.

Duvido do que vejo, compreendendo que, muitas vezes, aquilo que parece ser real é, na verdade, uma construção social.

Com essa perspectiva crítica e questionadora, percebi que minha atuação como pesquisadora poderia transcender os limites tradicionais do espaço acadêmico. Hoje, me realizo ao encontrar colegas que aplicam o conhecimento antropológico em diversas áreas, sempre com um olhar crítico e inovador.

Nesse sentido, o uso no dia a dia dos negócios passa a ser uma peça importante no tabuleiro das macro decisões, porque a antropologia consegue usar as lentes dos pequenos desdobramentos. Nesse sentido, o ato de plugar em projeto reforça a tese do “as a service”.

Porque vejamos. A antropologia, como enfatizado por Eliane Cantarino O’Dwyer em “O papel social do antropólogo”, demonstra seu valor prático ao interagir com outras áreas, como o direito. O’Dwyer explora como o saber antropológico pode ser uma ferramenta poderosa nos debates públicos sobre os direitos de populações indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais. Por meio da produção de laudos antropológicos, os profissionais dessa área do conhecimento humano ajudam a legitimar publicamente os direitos dessas comunidades e grupos, desempenhando um papel fundamental no reconhecimento de seus direitos constitucionais.

Essa abordagem prática do conhecimento antropológico está alinhada com a visão da filósofa e historiadora Isabelle Stengers, que argumenta a favor de uma “cosmopolítica”, ou seja, a necessidade de incluir diferentes paradigmas e realidades na construção do saber. Stengers sugere que o conhecimento não deve se limitar aos parâmetros da racionalidade tradicional, mas também considerar outras formas de entender o mundo, valorizando o sutil e o intangível como evidências válidas. Essa perspectiva abre espaço para que a antropologia não seja apenas um campo teórico, mas uma prática transformadora que desafia as narrativas convencionais e cria novas possibilidades de entendimento.

Na prática, isso significa que o conhecimento antropológico pode ser aplicado para reimaginar e redefinir as normas e expectativas sociais. Por exemplo, O’Dwyer discute como o termo “quilombola” foi ressignificado, promovendo uma nova compreensão dos direitos territoriais dessas comunidades. Esse processo de ressignificação é um exemplo claro de como o saber antropológico pode influenciar e moldar políticas públicas, ampliando a maneira como o Estado reconhece e interage com as comunidades tradicionais.

Além disso, o conhecimento antropológico pode oferecer novas maneiras de entender os desafios contemporâneos. Ao estudar a situação dos grupos indígenas Awá-Guajá, no Estado do Maranhão, por exemplo, vemos como a antropologia pode revelar formas modernas de opressão. Esse tipo de análise não apenas ilumina as injustiças atuais, mas também oferece caminhos para a construção de políticas mais justas e inclusivas.

Em minha própria prática, procuro aplicar essas lições ao meu trabalho. Em uma recente pesquisa para um cliente, utilizei a abordagem da “cosmopolítica de Stengers” para entender melhor as motivações de seus interlocutores e ampliar a compreensão de um fenômeno de interesse estratégico. Ao incorporar diferentes perspectivas e valorizar o sutil, fui capaz de fornecer insights mais profundos e criar uma narrativa que ultrapassa as explicações convencionais para mediação de redes de produção e a negociação a partir dos valores dos produtores.

Um bom exemplo é o evento realizado na capital paraense, Belém, no início de agosto deste ano,  batizado como Bioeconomy Amazon Summit (BAS). Organizado pela gestora de fundos de venture corporate KPTL e o Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU) – Rede Brasil, o BAS procurou estabelecer uma ponte entre fundos de investimento e empreendedores da bioeconomia. Sem deixar de buscar uma conexão mais genuína com os povos originários, representados por lideranças indígenas da Amazônia em roda de saberes ancestrais e outras inserções ao longo do dia. Estive em uma dessas rodas de conversa e encaro como um movimento relevante.

Desta forma, enxergo que o conhecimento antropológico é capaz de prover transformações profundas no contexto onde é inserido. E isso é poderoso, porque destrói certezas e abre espaço para caminhos outros, que no conforto da prática diária naturalmente os repelem.

Em outras palavras, quando conectado em determinadas etapas do projeto, a antropologia reúne predicados científicos para dirimir dúvidas, ajustar certezas e promover o melhor resultado possível. Que o diga a jornada do cliente.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que CEOs e CFOs realmente avaliam nas reuniões de orçamento

Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

Quando a geopolítica entra pela porta da empresa

Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

O mito da falta de qualificação das pessoas com deficiência

Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

O tempo que doamos é o futuro que aceleramos

O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
29 de agosto de 2026 07H00
Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Ísis P. Fontenele - Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de agosto de 2026 17H00
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

7 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de agosto de 2026 12H00
Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG
28 de agosto de 2026 07H00
O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

Ana Carolina Viana - Vice-Presidente de Operações Industriais da Braskem no Brasil

3 minutos min de leitura
Vendas, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de agosto de 2026 18H00
A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
27 de agosto de 2026 15H00
Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
27 de agosto de 2026 08H00
O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

Jefferson Nesello - Cofundador & Managing Partner na Zaxo M&A Partners e Conselheiro de Empresas

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
26 de agosto de 2026 14H00
A norma exige que as empresas avaliem fatores como jornada, ritmo, metas, autonomia e organização do trabalho. Em nenhum momento a NR-1 fala sobre diagnósticos individuais. Ainda assim, grande parte das organizações respondeu com pesquisas de saúde mental e mapeamentos de sintomas. Agora, com a suspensão temporária das multas pelo STF até setembro, surge uma oportunidade rara: abandonar as respostas equivocadas e voltar à pergunta original que a norma sempre fez sobre o trabalho, e não sobre as pessoas.

Claudia Cavallini - Psicóloga, psicanalista e professora convidada da HSM

8 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo