Gestão de pessoas, Dossiê: Experiência do Colaborador

A experiência do colaborador como estratégia no combate ao turnover

A pandemia transformou o mercado de trabalho. E, para enfrentar a alta rotatividade de colaboradores, o RH também precisa se transformar
É colaborador de HSM Management.

Compartilhar:

Algo viral atingiu o mercado de trabalho americano – e não estamos falando do coronavírus. Foi a Great Resignation (ou Grande Renúncia), nome dado à epidemia de pedidos de demissão nos EUA. Ao longo de 2021, mais de 4 milhões de pessoas por mês chegaram a pedir as contas. O fenômeno atingiu particularmente os trabalhadores operacionais, aqueles do chão de fábrica ou de atendimento ao público, mas também profissionais de escritórios, de tecnologia e até mesmo [executivos C-levels](https://www.nytimes.com/2022/02/16/business/executives-quitting.html).

Remuneração insuficiente, más condições de trabalho, [esgotamento](https://blog.lg.com.br/burnout-reconhecido-fenomeno-ocupacional-oms/) pandêmico, falta de oportunidade de crescimento e oportunidade de ganhos maiores em outros lugares estão entre as razões para a debandada. No entanto, os psicólogos organizacionais adicionam outro fator: desistir é contagioso. À medida que um funcionário sai, muitos se sentem à vontade para refletir sobre suas carreiras e buscar oportunidades com que tenham mais sinergia e propósito. Foi o que sugeriu um estudo da Universidade de New South Wales. Em outra [pesquisa recente](https://www.linkedin.com/posts/linkedin-news_is-the-great-resignation-contagious-activity-6889270475533381632-WzTU/), com mais de 21.000 usuários do LinkedIn, 59% disseram que a saída de um colega os levou a pensar em desistir do emprego.

Seja como for, está mais do que claro que a pandemia transformou o mercado de trabalho. E não só nos EUA, onde a taxa de desemprego em março foi de 3,6%. Na Inglaterra, a grande renúncia também é realidade. Na China, os pedidos de demissão vêm especialmente dos mais jovens, que criaram um movimento chamado “tang ping” ou “lie flat”, algo como “fique deitadão”. Exaustos, os chineses preferem o desemprego a jornadas extenuantes de trabalho.

Enquanto isso, no Brasil, onde a taxa de desemprego é de 11,2%, o turnover nas empresas não é expressivo a ponto de criar um movimento como a grande renúncia. Mas nem por isso deixa de preocupar as organizações. Seja da indústria, comércio ou serviços, várias empresas têm relatado dificuldade para [atrair e reter profissionais qualificados](https://blog.lg.com.br/investir-atracao-retencao-talentos/) em seus times. Não à toa, o país figura na 75ª posição no [Global Talent Competitiveness Index](https://www.insead.edu/faculty-research/research/gtci) (Índice Global de Competitividade de Talentos), ranking elaborado pela escola de negócios francesa Insead, composto por 134 países a partir de fatores como capacidade de atrair pessoas para o mercado de trabalho, retê-las e desenvolvê-las.

## Falta empatia da liderança?
Para Wanda T. Wallace, sócia do Leadership Forum, a resposta para a pergunta acima é um retumbante “sim”. [Em um artigo recente](https://www.strategy-business.com/blog/Is-the-great-resignation-coming-for-you), ela compartilhou que as causas da grande renúncia são anteriores à pandemia e podem estar [ligadas às lideranças](https://www.revistahsm.com.br/post/sua-organizacao-esta-na-mira-da-great-resignation). Segundo Wanda, a ausência de [feedback](https://blog.lg.com.br/feedback-continuo/), a sobrecarga de trabalho e a falta de perspectiva na carreira são alguns dos fatores que motivam um profissional, antes encantado com a empresa, a oficializar um pedido de demissão.

Para ilustrar o problema, Wanda conta a história de Linda, uma funcionária dedicada e talentosa, predestinada a ser uma executiva sênior. Acontece que seu chefe, principal mentor e padrinho, trocou de cargo, e ela recebeu um novo líder. Embora ele se preocupe com a equipe e com Linda, seu estilo é menos solidário. Algum tempo depois, Linda o procurou para relatar que o aumento da carga de trabalho estava afetando negativamente tanto ela quanto o restante do time. Mas não houve empatia a ponto de as coisas mudarem. Sobrecarregada, com a saúde prejudicada e sem o apoio do chefe, Linda pediu demissão. Após uma pausa de três meses para descansar e se divertir um pouco, ela obteve um emprego em um concorrente, com uma promoção e um aumento significativo de salário.

Daria para evitar a [perda de um talento](https://blog.lg.com.br/investir-atracao-retencao-talentos/) como Linda? Com certeza. O problema é que muitos líderes atuais ainda não viraram a chave para a nova era do trabalho, marcado pela [gestão humanizada](https://www.revistahsm.com.br/post/retorno-ao-escritorio-deve-ser-hibrido-com-ambientes-integrados-e-gestao). O estudo [*2021 EY Empathy in Business Survey*](https://www.ey.com/en_us/news/2021/09/ey-empathy-in-business-survey), realizado com mil funcionários de empresas nos EUA, constatou que 58% dos entrevistados deixaram o emprego anterior porque não se sentiam valorizados pela chefia, 54% saiu por falta de empatia da liderança e 49% disseram que os empregadores não demonstravam preocupação genuína pelas pessoas.

Quando os entrevistados estavam diante de um líder __empático__, a coisa mudava de figura: 90% afirmou que a liderança __empática__ leva a uma maior satisfação no trabalho e quase oito em cada dez pessoas (79%) concordam que a empatia diminui o turnover voluntário.

“O profissional tem que ser humano”, [defende](https://www.revistahsm.com.br/post/uma-funcao-grilo-falante) Andrea Orcioli. Para a CEO da Sephora no Brasil, empatia é uma característica intrínseca dessa [humanização](https://blog.lg.com.br/transformacao-digital-humanizacao/). Portanto, é preciso que o líder se coloque no lugar dos outros, escute e tome decisões com base nessa perspectiva. “A empatia e a transparência nos proporcionam confiança, o elo fundamental para o verdadeiro trabalho em equipe”, diz.

## Experiência do colaborador
Mas não é apenas a empatia gerencial que atrai os melhores talentos e os convence a ficar na empresa. Outros aspectos pesam nessa equação. A flexibilidade, por exemplo. Ela não se caracteriza unicamente pela oferta de [trabalho híbrido](https://www.revistahsm.com.br/dossie/gestao-de-times-hibridos) ou remoto. Pode ser também pelo horário flexível (onde os funcionários trabalham quando bem entendem, desde que cumpram a carga horária pré-estabelecida), uma semana útil de quatro dias ou cargos de meio período.

Geralmente, a gestão do [trabalho flexível traz desafios ao RH](https://blog.lg.com.br/tendencias-modelos-trabalho/). Talvez isso explique o resultado de um levantamento recente da Deloitte, que ouviu 112 organizações no Brasil. Segundo o Valor Econômico, a pesquisa mostrou que [apenas 46% das companhias](https://valor.globo.com/carreira/noticia/2022/04/04/muito-se-fala-em-home-office-mas-minoria-da-flexibilidade.ghtml) estão oferecendo __práticas flexíveis__ de __trabalho__ no pós-pandemia. Seriam os desafios do __trabalho flexível__ um obstáculo para o progresso?

O uso de [tecnologia é o caminho para o RH](https://blog.lg.com.br/etapas-jornadas-digitalizacao-rh/) superar qualquer desafio, além de identificar e solucionar outros problemas. A capacidade de coletar, analisar e cruzar dados relacionados à rotatividade em tempo real e a tendências históricas costumam gerar insights valiosos à empresa. Todo RH moderno sabe disso: o mapeamento do capital humano com tecnologia de [people analytics](https://blog.lg.com.br/people-analytics-rh/) é vital para uma [gestão mais eficiente e inclusiva](https://www.revistahsm.com.br/post/quando-o-rh-funciona-como-uma-startup).

Quanto ao salário, embora sozinho não seja a solução no combate turnover, ainda é um fator de grande influência. Especialmente em tempos de trabalho remoto (onde é possível trabalhar do Brasil para empresas internacionais e ganhar em dólar ou euro) e de inflação galopante (que em março bateu em 11,3% ao ano, a maior em quase 20 anos no país). Além de considerar um aumento, as empresas podem olhar a remuneração de forma mais sofisticada e estratégica, criando uma filosofia própria. Essa filosofia de remuneração é composta por informações transparentes sobre como os colaboradores são pagos, as condições que resultam em aumento de salário e de quando os bônus são apropriados. [Benefícios flexíveis também são bem-vindos](https://blog.lg.com.br/beneficios-flexiveis-atrair-reter-talentos/).

“Ah, mas vai onerar a empresa”, alguém pode dizer. De fato, investir em um curso de soft skills para que o gestor desenvolva empatia, em tecnologias de people analytics ou conceder aumento salarial significa maior custo à organização. Mas lembre-se: a substituição de um talento, além de cada vez mais difícil, costuma [sair mais caro](https://www.americanprogress.org/wp-content/uploads/2012/11/CostofTurnover.pdf) do que os esforços em retê-lo, conforme um estudo do *Center of American Progress (CAP)*, nos Estados Unidos. Enquanto o profissional ideal não é encontrado, a equipe fica sobrecarregada com o acúmulo de funções, tendo o desempenho reduzido. O [turnover é caro para o negócio](https://www.revistahsm.com.br/post/cinco-maiores-causas-de-turnover-e-como-evita-las) e prejudicial para o desempenho e a motivação da equipe. Se é para sobreviver à guerra de talentos, e evitar uma grande renúncia, concentrar-se na experiência do colaborador é indispensável a todo e qualquer RH.

Compartilhar:

Artigos relacionados

“Strategy Washing”: quando a estratégia é apenas uma fachada

Estamos entrando na temporada dos planos estratégicos – mas será que o que chamamos de “estratégia” não é só mais uma embalagem bonita para táticas antigas? Entenda o risco do “strategy washing” e por que repensar a forma como construímos estratégia é essencial para navegar futuros possíveis com mais consciência e adaptabilidade.

Como a inteligência artificial impulsiona as power skills

Em um universo do trabalho regido pela tecnologia de ponta, gestores e colaboradores vão obrigatoriamente colocar na dianteira das avaliações as habilidades humanas, uma vez que as tarefas técnicas estarão cada vez mais automatizadas; portanto, comunicação, criatividade, pensamento crítico, persuasão, escuta ativa e curiosidade são exemplos desse rol de conceitos considerados essenciais nesse início de século.

iF Design Awards, Brasil e criação de riqueza

A importância de entender como o design estratégico, apoiado por políticas públicas e gestão moderna, impulsiona o valor real das empresas e a competitividade de nações como China e Brasil.

Transformando complexidade em terreno navegável com o framework AIMS

Em tempos de alta complexidade, líderes precisam de mais do que planos lineares – precisam de mapas adaptativos. Conheça o framework AIMS, ferramenta prática para navegar ambientes incertos e promover mudanças sustentáveis sem sufocar a emergência dos sistemas humanos.

Inovação & estratégia, Liderança
29 de agosto de 2025
Estamos entrando na temporada dos planos estratégicos - mas será que o que chamamos de “estratégia” não é só mais uma embalagem bonita para táticas antigas? Entenda o risco do "strategy washing" e por que repensar a forma como construímos estratégia é essencial para navegar futuros possíveis com mais consciência e adaptabilidade.

Lilian Cruz, Cofundadora da Ambidestra

4 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Inovação & estratégia
28 de agosto de 2025
Startups lideradas por mulheres estão mostrando que inovação não precisa ser complexa - precisa ser relevante. Já se perguntou: por que escutar as necessidades reais do mercado é o primeiro passo para empreender com impacto?

Ana Fontes - Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME) e do Instituto RME

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Tecnologia & inteligencia artificial
26 de agosto de 2025
Em um universo do trabalho regido pela tecnologia de ponta, gestores e colaboradores vão obrigatoriamente colocar na dianteira das avaliações as habilidades humanas, uma vez que as tarefas técnicas estarão cada vez mais automatizadas; portanto, comunicação, criatividade, pensamento crítico, persuasão, escuta ativa e curiosidade são exemplos desse rol de conceitos considerados essenciais nesse início de século.

Ivan Cruz, cofundador da Mereo, HR Tech

4 minutos min de leitura
Inovação
25 de agosto de 2025
A importância de entender como o design estratégico, apoiado por políticas públicas e gestão moderna, impulsiona o valor real das empresas e a competitividade de nações como China e Brasil.

Rodrigo Magnago

9 min de leitura
Cultura organizacional, ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
25 de agosto de 2025
Assédio é sintoma. Cultura é causa. Como ambientes de trabalho ainda normalizam comportamentos abusivos - e por que RHs, líderes e áreas jurídicas precisam deixar a neutralidade de lado e assumir o papel de agentes de transformação. Respeito não pode ser negociável!

Viviane Gago, Facilitadora em desenvolvimento humano

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Estratégia, Inovação & estratégia, Tecnologia e inovação
22 de agosto de 2025
Em tempos de alta complexidade, líderes precisam de mais do que planos lineares - precisam de mapas adaptativos. Conheça o framework AIMS, ferramenta prática para navegar ambientes incertos e promover mudanças sustentáveis sem sufocar a emergência dos sistemas humanos.

Manoel Pimentel - Chief Scientific Officer na The Cynefin Co. Brazil

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Finanças, Marketing & growth
21 de agosto de 2025
Em tempos de tarifas, volta de impostos e tensão global, marcas que traduzem o cenário com clareza e reforçam sua presença local saem na frente na disputa pela confiança do consumidor.

Carolina Fernandes, CEO do hub Cubo Comunicação e host do podcast A Tecla SAP do Marketês

4 minutos min de leitura
Uncategorized, Empreendedorismo, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
20 de agosto de 2025
A Geração Z está redefinindo o que significa trabalhar e empreender. Por isso é importante refletir sobre como propósito, impacto social e autonomia estão moldando novas trajetórias profissionais - e por que entender esse movimento é essencial para quem quer acompanhar o futuro do trabalho.

Ana Fontes

4 minutos min de leitura
Inteligência artificial e gestão, Transformação Digital, Cultura organizacional, Inovação & estratégia
18 de agosto de 2025
O futuro chegou - e está sendo conversado. Como a conversa, uma das tecnologias mais antigas da humanidade, está se reinventando como interface inteligente, inclusiva e estratégica. Enquanto algumas marcas ainda decidem se vão aderir, os consumidores já estão falando. Literalmente.

Bruno Pedra, Gerente de estratégia de marca na Blip

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
15 de agosto de 2025
Relatórios de tendências ajudam, mas não explicam tudo. Por exemplo, quando o assunto é comportamento jovem, não dá pra confiar só em categorias genéricas - como “Geração Z”. Por isso, vale refletir sobre como o fetiche geracional pode distorcer decisões estratégicas - e por que entender contextos reais é o que realmente gera valor.

Carol Zatorre, sócia e CO-CEO da Kyvo. Antropóloga e coordenadora regional do Epic Latin America

4 minutos min de leitura