Diversidade

A arrogância aniquila a diversidade

Será que queremos deixar a diversidade ser aniquilada pela dificuldade dos indivíduos narcisistas e egóicos em lidar com o desejo que lhes infringe o diferente?
Administradora pela EAESP – FGV, mestra em Sustentabilidade e Governança com artigo publicado em 2020 na RECADM sobre “A representatividade das mulheres na liderança”. Tem especialização no PIM na HEC e no Diversity Program da INSEAD na France. Possui 25 anos de vivência internacional em cargos de liderança (França, Brasil, Argentina, Chile) no Groupe Renault France. Desde 2011 se dedica ao desenvolvimento humano como coach, mentora, facilitadora, palestrante, educadora e consultora cultural com o Barrrett Model.

Compartilhar:

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro 1948 se inicia dizendo em seu Artigo n°1 

*“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.São dotados(as) de razão e consciência e devem agir em relação uns/umas aos(às) outros(as) com espírito de fraternidade e sororidade”.*

Vale Lembrar que mais de 190 países são membros da ONU e deveriam velar pelo cumprimento desta afirmação.

As formas de governo baseadas na democracia também sustentam a [igualdade de todos](https://revistahsm.com.br/post/sua-lideranca-e-inclusiva) e todas perante a lei ao invés de instituir uma hierarquia entre as pessoas. Hierarquia que permitiria a existência de figuras como, por exemplo, servos(as) e escravos(as).

No entanto, o neoliberalismo, baseado na falsa meritocracia, que ignora os privilégios, abre a porta para uma arrogância que cria novamente a possibilidade de direitos e oportunidades diferenciados em função, por exemplo, da raça, gênero, orientação sexual, classe social e poder aquisitivo. 

As diferentes abordagens que os autores desenvolvem no livro *l’Arrogance, un mode de domination néo-libéral, sous la direction de Eugène Enriquez* sobre a arrogância, trazem uma visão comum que confronta o neoliberalismo de forma significativa com o tema da inclusão da diversidade.

![](https://lh5.googleusercontent.com/UYwsPAPNhavrMd_HoWNRgWEXviNfrJ-ECxtlcLUH5uEXvm9HRC–6Y0QasW_uAVq9DHkyPwOGKSnWm9iPnwi2BFikWpNskt6s8PJzcmg0t5ch7AHYShPkz7idhZaj5yGIe_nMDKO)

## O difícil convívio com as diferenças

Na realidade, incapazes de conviverem com a apreciação de pessoas diferentes do seu jeito de ser ou que impedem a satisfação das suas necessidades e desejos, indivíduos narcisistas e egóicos impõem sua visão e trabalham para eliminar ou escravizar as pessoas diferentes. 

Fica claro que a arrogância é uma resposta que estes constroem para subjugar o diferente e fugir da igualdade almejada, tanto pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, quanto pelas bases da democracia.

Contrariando Sócrates, cada vez mais percebemos nossa interdependência com o universo. O homem não é um Ser a parte que pode explorar como quer o meio ambiente sem sofrer consequências. 

O que dizer da interdependência entre as nações? E entre os indivíduos? *Esta arrogância do neoliberalismo pressupõe que cada pessoa possa se passar das outras*. Como seria possível ignorar todo sistema que construímos em termos de trocas comerciais? E a inovação tecnológica que nos coloca cada vez mais conectados(as) e vinculados(as)?

Será que queremos deixar a diversidade ser aniquilada pela dificuldade dos indivíduos narcisistas e egóicos em lidar com o desejo que lhes infringe o diferente? Vamos deixar que a violência e a força com que atuam prevaleça e crie uma ditadura, que apesar de velada, contamina a existência humana e cria sujeitos zumbis?

Um exemplo recente da atuação deste perfil é a atitude do Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump. Seu comportamento desde o início da apuração dos votos visa impor seus desejos, fazer de conta que sua verdade é a única possível e impô-la por meio de intimidação e *Fake News*. 

Sendo impossível para ele conviver com verdades e vontades diferentes, busca impor as suas pelo poder adquirido com privilégios. Trump persegue este caminho de força até as vésperas da confirmação do novo presidente pelo senado americano na quarta-feira dia 6 de janeiro de 2021.

Acreditar que [cada indivíduo é um universo em si mesmo](https://revistahsm.com.br/post/programas-de-talentos-derrubem-os-estereotipos), muda a estruturação da própria vida em sociedade, ameaçando sobretudo as populações menos favorecidas, inclusive promovendo a corrupção do sistema social, político, econômico e atingindo nossos registros morais. 

O neoliberalismo, aliado ao isolamento propiciado pelas redes sociais, projeta os indivíduos cada vez mais diante de uma incapacidade de viver uma experiência, refletir, integrar e usufruir dos benefícios sem danificar o futuro. 

Existe cada vez mais uma necessidade de extrair excitação constante e prazer imediato, favorecendo o curto prazo em detrimento de uma reflexão que englobe também as consequências de médio e longo prazo. 

Instala-se a preguiça que se sobrepõe ao esforço que traz o prazer dos resultados. Buscam-se milagres e mitos para realizar a tarefa. Uma sucessão infindável destes(as) assumem o lugar de cada indivíduo que perde sua potência e dignidade tornando-se cada vez mais incapaz de exercê-las! 

## Viva a diversidade, fujamos do modelo imposto

Essa arrogância vem travestida de uma cultura de massa que finge opor duas dimensões: elitismo e populismo. Na realidade, ela se serve destas polaridades para alimentar sua existência, ela joga com o desejo de possuir algo do qual somos privados(as). Os lugares bons e de prestígio seriam poucos. Alguns exemplos deste jogo:

– O contrato de trabalho, que insere uma subordinação cega que contraria a liberdade de discernimento levando muitas organizações à morte pela arrogância dos seus(suas) dirigentes.

– O esporte, que era um meio de competição saudável para desenvolver performances, se tornou um meio necessário para expansão das possibilidades de notoriedade, instituindo corrupção e doping dos(as) participantes para ocupar pódios ao invés de buscar resultados reais.

– A inovação, tornou-se um mito, uma arrogância que impõe a transformação sem conectá-la com um propósito!

– A vulnerabilidade do ser humano é suprimida e substituída por uma crença na qual ele(a) é o centro e, nada além dele(a), determina os acontecimentos. Desenvolvendo, por sinal, a arrogância da ilusão de comando-controle, completamente inadaptada às necessidades para se viver o VUCA (volátil, incerto, complexo, ambíguo), tudo é novo todo dia! Precisamos da agilidade que pressupõe confiança e aceita as diferentes maneiras de realizar.

– A cultura da performance impõe a constante superação de si mesmo(a) para manter a excitação se arrogando da realização pessoal cujo propósito seria obter prazer.

– A arrogância dos(as) economistas se traduz pela imposição de reconhecermos a natureza científica nas suas previsões e ao mesmo tempo a ausência de necessidade destes reconhecerem seus erros de previsão. Consideram-se uma ciência da previsão sem se pautar em um mínimo na realidade evidente! 

Coincidência? No dia 2 de janeiro, a primeira informação com a qual me deparo na folha de SP, é este texto do [Vinicius Torres Freire](https://www1.folha.uol.com.br/colunas/viniciustorres/), *tout à fait en phase* com os autores deste livro:

*“É fácil fazer previsão. Difícil é acertar. Desde o começo do século, dois terços das previsões de crescimento da economia feitas em dezembro (para o ano seguinte)estavam muito erradas: não ficaram nem dentro do intervalo das estimativas mínima e máxima de “o mercado”.*

Eu quero um mundo no qual cada vez mais as pessoas possam desenvolver sua subjetividade construindo uma autoestima elevada. A autoestima precisa se sobrepor a arrogância do indivíduo narcisista e egóico que é incapaz de conviver com a diferença e cujo objetivo é aniquilá-la! 

Quero evitar que a sociedade continue caminhando para um lugar onde, alguns indivíduos, se valendo de mentiras, se sobrepondo às leis e autoridades, ignorando argumentos e fatos, se autorizam a se arrogarem da dignidade de muitas pessoas. 

Um exemplo recente, que traduz de forma clara meu querer e traz tangibilidade para ele, é a decisão do Magazine Luiza de [realizar um programa de trainee exclusivo para negros(as)](https://revistahsm.com.br/post/diversidade-e-inclusao-em-pauta-na-pandemia).  Esta ação permite que uma empresa se substitua ao Estado no combate às desigualdades sociais e no cumprimento do Estatuto da Igualdade Racial, presente na própria Constituição.

Quero que ninguém possa exercer seu poder sobre mim retirando parcialmente ou totalmente meu direito de ser um(a) Humano(a) livre! Quero mais pessoas agindo e demonstrando que também querem mais criatividade, fraternidade e sororidade!

Que os aprendizados de 2020 enriqueçam nossa autoestima e nos levem para um mundo mais amplo e inclusivo!

Compartilhar:

Artigos relacionados

De UX para AX: como a era dos agentes autônomos redefine o design, os negócios e o papel humano

Com a ascensão dos agentes de IA, nos deparamos com uma profunda mudança no papel do designer, de executor para curador, estrategista e catalisador de experiências complexas. A discussão de UX evolui para o território do AX (Agent Experience), onde o foco deixa de ser somente a interação humano-máquina em interfaces e passa a considerar como agentes autônomos agem, decidem e colaboram com pessoas em sistemas inteligentes

O álibi perfeito: a IA não demitiu ninguém

Quando “estamos investindo em inteligência artificial” virou a forma mais elegante de não explicar por que o planejamento de headcount falhou. E o que acontece quando os dados mostram que as empresas demitem por uma eficiência que, para 95% delas, ainda não existe.

Da reflexão à praxis organizacional: O potencial do design relacional

Entre intenção e espontaneidade, a comunicação organizacional revela camadas inconscientes que moldam vínculos, culturas e resultados. Este artigo propõe o Design Relacional como ponte entre teoria profunda e prática concreta para construir ambientes de trabalho mais seguros, autênticos e sustentáveis.

Ninguém chega ao topo sem cuidar da mente: O papel da NR-1

Na montanha, aprender a reconhecer os próprios limites não é opcional – é questão de sobrevivência. No ambiente corporativo deveria ser parecido. Identificar sinais precoces de sobrecarga, entender como reagimos sob pressão e criar espaços seguros de diálogo são medidas preventivas muito eficazes.

User Experience, UX, Inovação & estratégia
14 de abril de 2026 07H00
Com a ascensão dos agentes de IA, nos deparamos com uma profunda mudança no papel do designer, de executor para curador, estrategista e catalisador de experiências complexas. A discussão de UX evolui para o território do AX (Agent Experience), onde o foco deixa de ser somente a interação humano-máquina em interfaces e passa a considerar como agentes autônomos agem, decidem e colaboram com pessoas em sistemas inteligentes

Victor Ximenes - Senior Design Manager do CESAR

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
13 de abril de 2026 14H00
A aceleração da destruição criativa deixou de ser um conceito abstrato e passou a atravessar o cotidiano profissional, exigindo menos apego à estabilidade e mais capacidade de adaptação, recombinação e reinvenção contínua.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
13 de abril de 2026 07H00
Quando "estamos investindo em inteligência artificial" virou a forma mais elegante de não explicar por que o planejamento de headcount falhou. E o que acontece quando os dados mostram que as empresas demitem por uma eficiência que, para 95% delas, ainda não existe.

Atila Persici Filho - COO da Bolder

11 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
12 de abril de 2026 14H00
Entre intenção e espontaneidade, a comunicação organizacional revela camadas inconscientes que moldam vínculos, culturas e resultados. Este artigo propõe o Design Relacional como ponte entre teoria profunda e prática concreta para construir ambientes de trabalho mais seguros, autênticos e sustentáveis.

Daniela Cais - TEDx Speake e Designer de Relações Profissionais

9 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
12 de abril de 2026 09H00
Na montanha, aprender a reconhecer os próprios limites não é opcional - é questão de sobrevivência. No ambiente corporativo deveria ser parecido. Identificar sinais precoces de sobrecarga, entender como reagimos sob pressão e criar espaços seguros de diálogo são medidas preventivas muito eficazes.

Aretha Duarte - Primeira mulher negra latino-americana a escalar o Everest

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de abril de 2026 13H00
A adoção de novas tecnologias está avançando mais rápido do que a capacidade das lideranças de repensar o trabalho. Este artigo mostra que a IA promete ganho de performance, mas expõe lideranças que já operam no limite.

Felipe Calbucci - CEO Latam da TotalPass

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de abril de 2026 08H00
Quando a empresa cresce, o modelo mental do fundador precisa crescer junto - ou vira obstáculo. Este artigo demonstra que criar uma empresa exige um tipo de liderança. Escalá‑la exige outro.

Gustavo Mota - CEO do Lance

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de abril de 2026 15H00
Enquanto o Brasil envelhece, muitas empresas seguem desenhando experiências para um usuário que já não existe. Este artigo mostra que quando a tecnologia exige adaptação do usuário, ela deixa de servir e passa a excluir.

Vitor Perez - Co-fundador da Kyvo

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
10 de abril de 2026 08H00
Este artigo mostra que o problema nunca foi a geração. Mas sim a incapacidade da liderança de sustentar a complexidade humana no trabalho.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Marketing & growth
9 de abril de 2026 14H00
À medida que a tecnologia se democratiza, a vantagem competitiva migra para a forma de operar. Este artigo demonstra que como q inteligência artificial já é comum, o diferencial agora está em quem sabe transformá‑la em sistema de crescimento.

Renan Caixeiro - Co-fundador e CMO do Reportei

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...