Sustentabilidade, Empreendedorismo

A “arte” de vender barato

O agronegócio brasileiro reduz sua potência no mercado nacional e internacional ao deixar de valorizar elementos intangíveis, como a cultura brasileira, e os esforços de combate ao risco climático
Técnico Agrícola e administrador, especialista em cafeicultura sustentável, trabalhou na Prefeitura Municipal de Poços de Caldas (MG) e foi coordenador do Movimento Poços de Caldas Cidade de Comércio Justo e Solidário. Ulisses é consultor de associações e cooperativas e certificações agrícolas.

Compartilhar:

No último artigo, falei sobre o [impacto das mudanças climáticas no agronegócio brasileiro](https://www.revistahsm.com.br/post/o-agro-brasileiro-e-as-mudancas-climaticas “O agro brasileiro e as mudanças climáticas”) e a necessidade de repensar um modelo que, se apresenta muito sucesso, também pode se tornar mais vulnerável devido às alterações do clima, bem como às mudanças políticas, econômicas, culturais e sociais que se somam para diminuir os riscos de um superaquecimento global.

Do meu ponto de vista, teremos que repensar a visão do modelo de negócios baseada na competição por escala. Ou seja, ter volume e não ter qualidade, ter preço e não ter valor. Quando se fala em alimento, certamente o preço pode ser um limitador ao acesso, porém é importante diferenciar preço e valor.

O Brasil é mundialmente conhecido por ser um grande produtor de commodities, com pouco valor agregado e preços acessíveis. Quem opera no mercado internacional de alimentos sabe que é muito difícil apresentar o valor do produto brasileiro para compradores internacionais, que estão procurando, na maioria dos casos, volume e preço.

Internamente, o consumidor brasileiro também já se acostumou com a compra de produtos baratos e sempre se ateve ao preço ao comprar alimentos, e não à sua qualidade e procedência.

Nossa imagem nos dois mercados é de sermos um grande produtor de baixa qualidade, porém com preços atrativos. Tal percepção nacional e internacional sobre o setor agropecuário brasileiro tem um grande impacto na decisão de cada um dos atores do nosso agronegócio. Para competir por preço, muitas vezes é preciso abrir mão de práticas sustentáveis e do pensamento de longo prazo, pois o norte são as estreitas margens que trazem equilíbrio ao negócio no curto prazo.

## O que fica fora

Vender barato significa exportar o que temos de melhor sem incorporar os custos – ambientais e sociais – e também sem valorizar a cultura por trás da produção de um alimento. É fato que o mundo compra cultura, respeito social e ambiental de outras regiões produtoras, e valoriza muito mais o produto de outros países do que o brasileiro.

Não se trata de uma queixa, mas de uma constatação com a qual desejo provocar os agentes do agronegócio brasileiro a se perguntarem o motivo dessa diferenciação.

Certamente muitas empresas ligadas ao agronegócio brasileiro, muitas cooperativas e grandes players aqui instalados são responsáveis por essa imagem.

Outro dos motivos dessa falta de valorização é a forma como nos comunicamos. Somos terrivelmente infelizes na comunicação do impacto do agronegócio brasileiro, ao ponto de sermos considerados um problema global e não parte da solução para os desafios do futuro.

Quando digo que devemos nos comunicar melhor, isso passa, em primeiro lugar, por melhorar internamente. É preciso uma definição clara e compartilhada do nosso propósito enquanto à “nação do agro”: queremos ser a nação que continua entregando alimento barato para o mundo e, para isso, continuar a destruição ambiental e a exploração social em curso?

Ainda nos falta uma política e uma visão de longo prazo para o setor, tenho citado isso em praticamente todos os artigos aqui em __HSM Management__.

É impressionante quando assistimos o ex-ministro da Agricultura do Peru Luís Ginocchio Balcázar falar sobre como o país desenvolveu seu plano de valorização da cultura, do alimento e da culinária peruana, chegando ao ponto de transformar o país em um dos principais destinos gastronômicos do mundo. Sabemos que temos muito a mostrar, mas muitos irão concordar que não temos a mesma integração nacional.

Certamente somos um país com dimensões continentais e nossos desafios são sempre maiores que os de outras nações, porém não tenho dúvida de que somos capazes de fazer isso.

Um exemplo interessante – e que pode vir a ser um divisor de águas neste cenário – é a criação da [Associação Brasileira de Indicações Geográficas](https://www.agenciasebrae.com.br/sites/asn/uf/NA/sebrae-comemora-criacao-da-associacao-brasileira-de-indicacoes-geograficas,22b95492f02fa710VgnVCM100000d701210aRCRD “Associação Brasileira de Indicações Geográficas (ABRIG)”) (ABRIG), uma iniciativa que busca unir as regiões reconhecidas pelos produtos e serviços com qualidade baseada na origem controlada.

Se as políticas nacionais não surgem no nível federal, elas certamente estão se formatando na base produtiva, um movimento que leva muito mais tempo, mas pode ser uma alavanca para o Brasil deixar de ser exportador e consumidor de produtos de baixa qualidade e pensar em segurança alimentar, responsabilidade ambiental, social e ainda na valorização de nossas culturas e tradições.

Somos um país rico que precisa reconhecer e ser reconhecido pelo valor de sua produção.

*Gostou do artigo do Ulisses Ferreira de Olveira? Saiba mais sobre agronegócio e sustentabilidade assinando gratuitamente [nossas newsletters](https://mitsloanreview.com.br/newsletter “Revista HSM – Newsletters”) e escutando [nossos podcasts](https://www.revistahsm.com.br/podcasts ” Podcast da HSM”) em sua plataforma de streaming favorita.*

Compartilhar:

Artigos relacionados

O consumidor já é omnichannel. Sua empresa também é?

A antiga disputa entre e-commerce e lojas físicas perdeu sentido. O consumidor atual transita naturalmente entre ambientes digitais e presenciais, esperando uma experiência única, integrada e sem atritos. O artigo mostra por que o sucesso no varejo já não depende da força de um canal específico, mas da capacidade de conectar dados, tecnologia, atendimento e conveniência para construir jornadas fluidas e relevantes em todos os pontos de contato com a marca.

Posicionamento não é desculpa para ser do contra

Existe uma crença silenciosa nas empresas de que profissionais experientes precisam ter opinião sobre tudo e discordar de quase todos. O problema é que posicionamento não é sinônimo de oposição. Neste artigo, o autor provoca uma reflexão sobre como a necessidade de marcar território pode comprometer relacionamentos, confiança e crescimento na carreira, e por que profissionais verdadeiramente influentes são aqueles que contribuem para a qualidade das decisões, independentemente de quem trouxe a ideia para a mesa.

Por que o marketing precisa sair da própria bolha

As grandes ideias raramente surgem da repetição das mesmas referências. Em uma época de acesso democratizado à informação e às tecnologias, o diferencial competitivo passa a ser a qualidade das perguntas que fazemos. Ao refletir sobre arte, cultura e criatividade, o artigo argumenta que as marcas mais inovadoras serão aquelas capazes de formar pessoas que aprendam a observar, conectar e interpretar o mundo de formas que ainda não foram exploradas.

Por que alguns eventos entram para a história e outros são esquecidos na semana seguinte

Por trás dos maiores eventos do mundo existe um trabalho que começa muito antes da abertura dos portões. Leitura de cenário, curadoria estratégica, construção de comunidade e a capacidade de reunir as pessoas certas explicam por que alguns encontros se tornam plataformas de influência, inovação e negócios, enquanto outros permanecem apenas como eventos.

O fim da guerra fiscal: como a Reforma Tributária pode mudar a logística brasileira

Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Saudável, gostoso e acessível: a equação que desafia a indústria de alimentos no Brasil 

Reduzir açúcar, sódio e gorduras sem comprometer sabor, performance culinária e competitividade de preço tornou-se uma das equações mais complexas da indústria de alimentos. O artigo explora como mudanças regulatórias, comportamento do consumidor e inovação tecnológica estão redefinindo estratégias de produto, marketing, cadeia de suprimentos e crescimento no setor de bens de consumo.

Marketing & growth, User Experience, UX
24 de agosto de 2026 14H00
A antiga disputa entre e-commerce e lojas físicas perdeu sentido. O consumidor atual transita naturalmente entre ambientes digitais e presenciais, esperando uma experiência única, integrada e sem atritos. O artigo mostra por que o sucesso no varejo já não depende da força de um canal específico, mas da capacidade de conectar dados, tecnologia, atendimento e conveniência para construir jornadas fluidas e relevantes em todos os pontos de contato com a marca.

André Seibel - CEO do Circuito de Compras

3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
24 de agosto de 2026 08H00
Existe uma crença silenciosa nas empresas de que profissionais experientes precisam ter opinião sobre tudo e discordar de quase todos. O problema é que posicionamento não é sinônimo de oposição. Neste artigo, o autor provoca uma reflexão sobre como a necessidade de marcar território pode comprometer relacionamentos, confiança e crescimento na carreira, e por que profissionais verdadeiramente influentes são aqueles que contribuem para a qualidade das decisões, independentemente de quem trouxe a ideia para a mesa.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento Empresarial

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Inovação & estratégia
23 de agosto de 2026 13H00
As grandes ideias raramente surgem da repetição das mesmas referências. Em uma época de acesso democratizado à informação e às tecnologias, o diferencial competitivo passa a ser a qualidade das perguntas que fazemos. Ao refletir sobre arte, cultura e criatividade, o artigo argumenta que as marcas mais inovadoras serão aquelas capazes de formar pessoas que aprendam a observar, conectar e interpretar o mundo de formas que ainda não foram exploradas.

Rui Piranda - Sócio-fundador da ForALL

4 minutos min de leitura
Marketing & growth
23 de agosto de 2026 08H00
Por trás dos maiores eventos do mundo existe um trabalho que começa muito antes da abertura dos portões. Leitura de cenário, curadoria estratégica, construção de comunidade e a capacidade de reunir as pessoas certas explicam por que alguns encontros se tornam plataformas de influência, inovação e negócios, enquanto outros permanecem apenas como eventos.

Evandro Monteiro - CEO da Origami Marketing e Eventos.

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
22 de agosto de 2026 14H00
Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Caio Navarro - Fundador e CEO da consultoria Hand

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Bem-estar & saúde, Marketing & growth
22 de agosto de 2026 07H00
Reduzir açúcar, sódio e gorduras sem comprometer sabor, performance culinária e competitividade de preço tornou-se uma das equações mais complexas da indústria de alimentos. O artigo explora como mudanças regulatórias, comportamento do consumidor e inovação tecnológica estão redefinindo estratégias de produto, marketing, cadeia de suprimentos e crescimento no setor de bens de consumo.

Mayara Marcon - Head de Marketing na Lightsweet

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
21 de agosto de 2026 18H00
Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.

Rose Kurdoglian - Fundadora da RK Mentoring Hub

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de agosto de 2026 14H00
À medida que organizações se tornam dependentes de ambientes digitais para sustentar suas operações, a indisponibilidade de sistemas passa a representar muito mais do que uma questão técnica. O artigo mostra por que calcular o impacto real de uma falha exige uma visão integrada entre tecnologia, finanças, operação e governança, e como essa análise pode orientar decisões críticas sobre modernização e resiliência dos negócios.

Philippe Rosa - Diretor de Inovação e Novos Negócios da TQI

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
21 de agosto de 2026 08H00
Por que a metáfora mais repetida do momento também é a mais mal compreendida pelas lideranças

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

8 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
20 de agosto de 2026 14H00
Ao reduzir distorções tributárias que incentivavam a internalização de atividades, o novo sistema tende a estimular terceirizações, fortalecer o mercado B2B e abrir espaço para novos modelos de negócio, criando oportunidades para empresas capazes de se posicionar como parceiras estratégicas de seus clientes.

Frederico Turolla - Sócio Fundador da Pezco Economics, Presidente do PSP Hub e Coordenador do Comitê de Economia e Infraestrutura da SWISSCAM - Câmara de Comércio Suíço Brasileira.

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo