Uncategorized

A causa que inspira o Airbnb a crescer

O CEO millennial da empresa, Brian Chesky, busca expandir seus negócios fortalecendo o relacionamento com seus anfitriões como se fosse um culto; a proposta é construir um diferencial sustentável e não continuar competindo com base em preço
é autor de Design Crazy: Good Looks, Hot Tempers, and True Genius at Apple.

Compartilhar:

> Vale a leitura porque… 
>
> … é interessante acompanhar como o Airbnb vem modelando seus negócios em torno de uma causa: agora coloca os anfitriões em primeiro lugar e os hóspedes em segundo. … o CEO da empresa, Brian Chesky, é um gestor típico da geração Y, aos 34 anos de idade; é importante entender seu diferente olhar sobre os negócios. … o Airbnb é um negócio que ganhará todos os holofotes na Olimpíada do Rio e que se vê desafiado por um “cisne negro” como o terrorismo.

O segundo encontro anual Airbnb Open aconteceu no Parc de la Villette, em Paris, dos dia 12 a14 de novembro de 2015, reunindo 5 mil anfitriões de 110 países, como Cuba, Nova Zelândia, Brasil, Quênia e Groenlândia, e 645 funcionários. 

Eram para ser três animados dias de palestras, festas e turismo, pelos quais cada anfitrião tinha pagado US$ 295 do próprio bolso, em prol de uma causa assim sintetizada pelo CEO da empresa, Brian Chesky: “Compartilhem suas casas e compartilhem também seus mundos”. 

Chesky conclamava os anfitriões a lutar para oferecer aos hóspedes um senso verdadeiro de como é a vida em um país estrangeiro, explicando que o setor de hospitalidade tradicional perde contato com seus clientes ao alojá-los em quartos antissépticos, como se o objetivo fosse assegurar que nada de remotamente interessante aconteça na estada. 

Na noite do terceiro dia do evento, o executivo líder da empresa de US$ 25,5 bilhões estava jantando quando recebeu uma mensagem em seu celular: tiros haviam sido disparados perto de onde estavam funcionários do Airbnb. Dali a pouco, nova notícia: explosões no Stade de France, o estádio de futebol, e uma saraivada de tiros em cafés da cidade e na casa de shows Bataclan. 

No encerramento do evento  Airbnb Open, os terroristas do Estado Islâmico haviam assassinado 130 pessoas em uma ação coordenada. Chesky respirou fundo, subiu as escadas e entrou no chuveiro. Depois, ligou para o chefe de segurança do Airbnb. “Eu me concentrei em ficar calmo; tentei descobrir como ser responsável por 5,6 mil pessoas. A gravidade do momento pesou muito sobre mim”, contaria ele semanas depois. A equipe do Airbnb ligou para cada funcionário e anfitrião que estava em Paris; por sorte, ninguém havia se ferido.

A preocupação de Chesky não eram os negócios naquele momento, mas seu audacioso projeto (que tendia a determinar o futuro da companhia e de sua ideologia de união de culturas) podia ser abalado ali. Em Paris, o cofundador começava a investir no recurso mais subutilizado de sua empresa: os anfitriões. 

Há mais de 1 milhão deles no mundo, e Chesky planejava transformá-los em ativos participantes do negócio e em porta-vozes de uma nova visão sobre o ato de viajar – e o atentado atrapalharia isso. Não apenas as viagens poderiam ser reduzidas a partir daquele momento. Também o ethos da empresa, de abertura e inclusão, corria o risco de ser afetado negativamente.

**O REAL DIFERENCIAL**

O Airbnb já mudou as grandes redes hoteleiras. Agora elas vêm tentando adequar seus quartos para parecerem únicos e ajustados ao gosto dos clientes e também aperfeiçoar seu programa de concierge para refletir peculiaridades locais. 

Segundo o professor de hotelaria William Caroll, aposentado da escola de administração hoteleira de Cornell, “os hotéis até podem concorrer [com o Airbnb] em preços e conveniências, mas não na experiência”. Até o momento, no entanto, o negócio Airbnb parece ter sido impulsionado mais pelos preços e pela localização atraente do que pela experiência em si. Ele melhorou com um sistema identificador de anfitriões que recebem boas críticas e que são rápidos nos pedidos de reservas com o termo “superanfitrião” na página de busca. 

Os que oferecem Wi-Fi, escrivaninha e itens de higiene básicos são considerados “prontos para viagens de negócios”. Em termos de conveniência, foi firmada, por enquanto em Paris, uma parceria com empresas de fechaduras eletrônicas, para que o anfitrião não precise entregar as chaves pessoalmente. Porém ainda falta a experiência de que fala o ex-professor de Cornell. “Os viajantes estão buscando experiências em que se conectem com pessoas e com a cultura. Não se pode automatizar a hospitalidade”, enfatiza Chesky. 

O CEO está tentando implantar novidades nesse sentido. Em outubro, lançou um programa piloto, o Journeys, que é um pacote de três dias em San Francisco com traslado do aeroporto, refeições e transporte diurno por US$ 500. No evento de Paris, ele pediu que os anfitriões oferecessem benefícios grátis aos turistas, como lanches, tours e caronas. 

O problema é que a maioria dos anfitriões não se dedica em tempo integral a receber hóspedes; eles estão mais preocupados com sua renda e com chegar ao trabalho na hora certa. Outro imperativo de Chesky é transmitir mais intensamente aos hóspedes a ideia de que o Airbnb é importante como conceito. 

Para isso, foi lançado um esforço de branding em 2014, que culminou em uma nova logomarca, batizada de bélo, nome criado para designar “o símbolo universal do pertencimento”. A novidade veio com uma tagline: “Sinta-se em casa em qualquer lugar”. Para explicar o significado de bélo, o CEO desenhou a pirâmide de necessidades de Maslow e explicou que a maior parte dos anúncios da empresa foca a base dessa pirâmide – as necessidades básicas de alimento e abrigo. 

Chesky quer dirigir-se, contudo, aos “indivíduos apaixonados”, e sua intenção é “ligar-se com as pessoas certas e desligar as erradas”. Os anfitriões são as pessoas certas; eles são o produto do Airbnb e a chave de seu crescimento. “Essa empresa diz respeito primeiro aos anfitriões, depois aos hóspedes”, diz.

**CULTO E CAUSA**

Se tudo lhe soa como um culto, é para ser assim mesmo. O líder de comunidade do  Airbnb, Douglas Atkin, já é conhecido por extrair lições de negócios de cultos do reverendo Moon e do movimento Hare Krishna e diz abertamente que o Airbnb é uma marca com ideologia. 

O problema com os cultos é que tendem a levantar intensa oposição, como ocorre com o Uber. As pessoas presentes ao encontro de Paris pareciam realmente devotas do Airbnb. “A ideologia da empresa tem eco em mim”, disse Michele Martinez, que alugava quartos em Nova York e agora vive uma vida em torno do serviço a Chesky e da pressão por menos leis restritivas ao Airbnb.

Não é certeza, porém, que a companhia consiga conciliar sua filosofia do “Sinta-se em casa em qualquer lugar” com a politização de sua comunidade de anfitriões. Ainda que Chesky queira manter todos dentro dos valores e narrativas do Airbnb.

**PROPAGANDA EFICAZ**

Defender a missão da empresa no cenário de violência e terrorismo chega a parecer ridículo, tanto quanto foi a mensagem de harmonia da Coca-Cola durante a guerra do Vietnã: “Todos bebem a mesma bebida, não importa se você é o presidente da República, Liz Taylor ou uma pessoa comum”. O fato, no entanto, é que essa mensagem virou verdade de alguma forma. 

O capitalismo global, impulsionado por marcas como a Coca-Cola, ajudou a criar um período de calma relativa e de riqueza sem precedentes em muitas partes do mundo. Ao crermos nas propagandas, nós praticamente as tornamos reais. 

Mais recentemente, começamos a lutar contra o consumo de massa: a ideia de que “não somos todos iguais” fica evidente na obsessão da geração Y por autoexpressão nas mídias sociais e no gosto por produtos locais e artesanais. (Fica evidente também, diga-se, na popularidade de grupos como o Estado Islâmico.) 

O Airbnb, ao oferecer aos viajantes uma experiência que é única e mais local do que os hotéis proporcionam, beneficia-se dessa preferência do consumidor pela diferença, por ideias locais. O fato de que os representantes locais da marca não são padronizados torna a viagem melhor, como prega Chesky, e talvez nos faça melhores. A nova mensagem de harmonia é que, ao vivenciarmos diferentes culturas, aprenderemos a nos enxergar e também a enxergar o outro com mais humildade. “Não digo que isso garantirá a paz mundial, mas a imersão em outras culturas faz as pessoas se entenderem mais”, diz o CEO.

**SÓ PROPAGANDA?**

A primeira reação de qualquer pessoa de negócios à proposta do Airbnb é o ceticismo. No entanto, após o ocorrido em Paris, quando parisienses usaram a hashtag #PorteOuvert (porta aberta) para avisar sobre casas seguras para os estrangeiros e os taxistas desligaram o taxímetro, uma esperança surge. Se hoje o Airbnb é só um bom negócio com um grande marketing, talvez vire mais do que isso

> Você aplica quando…
>
> … experimenta enxergar seu negócio com um olhar ideológico, entendendo se ele pode defender (para valer) uma causa que atraia e sustente devotos. … identifica ameaças externas a sua empresa e se planeja para enfrentá-las com iniciativas práticas imediatas e de longo prazo. … coloca seus colaboradores e/ou distribuidores em  primeiro lugar e o cliente final em segundo, concentrando-se  em estreitar seu relacionamento com eles.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Previsibilidade não é sorte: é engenharia comercial

Em um cenário de mercado mais seletivo e volátil, este artigo mostra por que resultados consistentes não dependem de talento individual, mas da capacidade da liderança comercial de estruturar processos, diagnosticar com precisão e transformar vendas em uma operação científica.

Cargo versus competências

O futuro do trabalho não está nos cargos. Este artigo revela por que a competitividade das empresas passa a depender menos do organograma e mais da capacidade de mapear, desenvolver e combinar competências.

Para quem você escreve: pra pessoas ou pros algoritmos?

Em meio à queda de alcance e às mudanças constantes dos algoritmos, este artigo propõe um ajuste de rota: mais do que tentar “jogar o jogo” das plataformas, a verdadeira conexão, e relevância, ainda nasce da capacidade de ser humano, autêntico e presente nas interações.

Confiança demais, conhecimento de menos

Pior do que não saber é achar que já sabe. Este artigo expõe um risco silencioso nas organizações: não é a falta de conhecimento que mais compromete decisões, mas a combinação perigosa entre entendimento superficial e confiança excessiva.

Marketing & growth
13 de junho de 2026 08H00
Em um cenário de mercado mais seletivo e volátil, este artigo mostra por que resultados consistentes não dependem de talento individual, mas da capacidade da liderança comercial de estruturar processos, diagnosticar com precisão e transformar vendas em uma operação científica.

Natalia Coca - Fundadora da FunFlow, estrategista de vendas e palestrante

7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
12 de junho de 2026 14H00
Entre piscinas, quadras e salas de conselho, este artigo mostra por que a performance sustentável não nasce do excesso de esforço, mas da capacidade de alinhar foco, descanso, decisão e leitura de contexto na liderança.

Thierry Marcondes

0 min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth
12 de junho de 2026 09H00
O preço do aparelho é só o começo - o custo real aparece no uso. Este artigo revela como custos ocultos e recorrentes redefinem a lógica de consumo de smartphones e impulsionam novos modelos de uso.

Stephanie Peart - Head da Leapfone

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
11 de junho de 2026 16H00
O futuro do trabalho não está nos cargos. Este artigo revela por que a competitividade das empresas passa a depender menos do organograma e mais da capacidade de mapear, desenvolver e combinar competências.

Felipe Ribeiro - Cofundador da Evermonte Executive & Board Search

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Inovação & estratégia
11 de junho de 2026 09H00
Em meio à queda de alcance e às mudanças constantes dos algoritmos, este artigo propõe um ajuste de rota: mais do que tentar “jogar o jogo” das plataformas, a verdadeira conexão, e relevância, ainda nasce da capacidade de ser humano, autêntico e presente nas interações.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

2 minutos min de leitura
Lifelong learning
10 de junho de 2026 17H00
Pior do que não saber é achar que já sabe. Este artigo expõe um risco silencioso nas organizações: não é a falta de conhecimento que mais compromete decisões, mas a combinação perigosa entre entendimento superficial e confiança excessiva.

Jorge Inafuco - Consultor e Palestrante da HSM, Sociólogo, Professor de MBAs, Conselheiro e Mentor

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de junho de 2026 08H00
Dentro dos bilhões investidos em IA existe uma única aposta: a de que a inteligência vai deixar de ser escassa. Se ela se confirmar, não vai apenas cortar os seus custos. Vai dissolver os fossos competitivos sobre os quais as partes mais lucrativas da sua empresa foram construídas, muitas vezes sem ninguém perceber.

Átila Persici Filho - COO da Bolder, Professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação

8 minutos min de leitura
Marketing
9 de junho de 2026 18H00
Em um mundo onde a presença digital se estende para além das redes sociais, este artigo mostra que a reputação de um líder não é construída pelo que ele publica, mas pela coerência entre discurso, comportamento e cada interação do dia a dia.

Bruna Lopes de Barros

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Cultura organizacional
9 de junho de 2026 09H00
Nunca tivemos tanto acesso à informação. E, paradoxalmente, nunca foi tão difícil saber o que está realmente acontecendo.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
8 de junho de 2026 16H00
Este artigo mostra por que a inteligência artificial está deslocando o centro da competitividade das empresas, da tecnologia para a qualidade do pensamento organizacional.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão