Estratégia e Execução

A construção de trust em ecossistemas de negócios

Estudo conduzido pela BCG Henderson Institute mostra que 60% dos ecossistemas de negócios bem-sucedidos têm comportamentos cooperativos entre os participantes, sendo que 80% deles incorporaram um modelo trust sistêmico na gestão de suas plataformas
Marcos Aguiar é sócio sênior do BCG Brasil e fellow do BHI, e Santino Lacanna é principal do BCG Brasil e ambassador do BHI.

Compartilhar:

Trust (confiança) é fundamental na construção e fortalecimento das relações interpessoais. Sabemos disso instintivamente, mas são poucos os executivos que se dão conta de que essa verdade vale também para os ecossistemas de negócios. Esses ecossistemas são negócios que só funcionam se todos os participantes cooperarem – AirBnb, Amazon, Apple iOS são todos exemplos de ecossistemas.

Trust é crucial para o sucesso dos ecossistemas, mas é também extremamente frágil, uma vez que os [participantes precisam cooperar uns com os outros](https://www.revistahsm.com.br/post/cooperativismo-e-sgcs-uma-parceria-de-sucesso), sem que haja uma força externa que os obrigue. Em outras palavras, trust construído de forma mútua, assim como interesses mútuos, são fundamentais para o sucesso de ecossistemas.

Por ainda ser um assunto pouco estudado, grande parte dos líderes não considera ativamente trust ao criar ou orquestrar seus ecossistemas de negócios. Ao invés de incorporá-lo de forma sistemática e específica no desenho e funcionamento dos ecossistemas, muitos assumem que trust emergirá espontaneamente ao longo do tempo, como um efeito colateral. Todavia, trust é difícil de se criar – e muito fácil de se deteriorar, levando ecossistemas inteiros ao fracasso (menos de 15% dos ecossistemas se sustentam no longo prazo).

## Trust na prática: resultados de um estudo

Recentemente, o BCG Henderson Institute (BHI), think tank global de estratégia do BCG, conduziu um dos primeiros estudos globais focado no papel de trust em ecossistemas de negócios, contrastando ecossistemas que fracassaram com os seus competidores, que tiveram sucesso. De acordo com o estudo, a ausência de trust contribuiu para o fracasso de 52% (57 dos 110) dos ecossistemas malsucedidos analisados pelo estudo.

Muitos ecossistemas falharam por ingenuamente assumirem que cooperação ancorada em trust emergiria espontaneamente entre os participantes, muitas vezes completos estranhos. O estudo mostra que a presença de comportamentos não-cooperativos esteve presente em mais de 70% dos fracassos e todos os fracassos apresentaram fricções relacionadas à falta de trust.

Ainda nos fracassos, trust se mostrou importante em todos os estágios do ciclo de vida de um ecossistema, mas foi particularmente crítico no estágio de crescimento, em que dois terços dos que fracassaram apresentaram desafios relacionados a trust.

Por outro lado, mais de 60% dos ecossistemas bem-sucedidos apresentaram comportamentos cooperativos entre os participantes. A vasta maioria destes casos de sucesso (80%) ativamente incorporaram trust no centro do funcionamento de suas plataformas – construindo trust sistêmico.

Assim como o sangue nos sistemas biológicos, podemos dizer que trust é essencial para manter ecossistemas vivos e funcionando.

## Criação e gestão de trust

No entanto, como construir trust sistêmico? Apresentamos a seguir algumas das lições extraídas do estudo, que podem orientar as ações que líderes na criação e gestão de trust em seus ecossistemas, visando aumentar as suas chances de sucesso:

– Estar atento aos conflitos relacionados a trust e aos primeiros sinais iniciais, muitas vezes fracos, de sua erosão, para rapidamente tomar medidas para evitar o início de um círculo vicioso de desconfiança, difícil de ser revertido, uma vez que esteja plenamente estabelecido.

– Priorizar a entrega da proposta de valor do ecossistema – o seu propósito. É importante que cada membro do ecossistema esteja comprometido e engajado com a entrega do propósito, da proposta de valor do ecossistema, como uma medida de trust sistêmico.

– Criar incentivos entre os participantes do ecossistema para que a cooperação seja o comportamento racional. Trust sistêmico é alimentado à medida que as expectativas estabelecidas pelo orquestrador são correspondidas.

– Incorporar ativamente o fator trust nas plataformas, criando ecossistemas em que as interações e os relacionamentos entre os membros gerem e sustentem trust entre os participantes ou, alternativamente, trust no sistema.

– Usar uma combinação de ferramentas para construção de trust, em vez de buscar uma solução única, uma bala de prata. Combinações bem desenhadas de ferramentas digitais (por exemplo, blockchain, rating) e não digitais (como governança, contratos) se mostraram cruciais em 90% dos ecossistemas bem-sucedidos. Ferramentas para reforçar trust ou substituir trust, devem criar as condições essenciais para promover a cooperação entre os participantes, garantindo o sucesso do ecossistema ao longo do tempo.

As empresas que planejam investir em ecossistemas devem desenhá-los para incorporar sistemicamente trust em suas plataformas desde o início. Isso irá, por um lado, melhorar a operação do ecossistema em si, já que trust leva a uma maior cooperação entre os participantes, reduzindo fricções e custos de transação associados.

Por outro lado, trust protege o ecossistema, gerando os efeitos de rede que impulsionam seu crescimento e levam à vantagem competitiva. À medida que trust aumenta no ecossistema, estabelece-se um círculo virtuoso em que a necessidade de orquestração se reduz. Ainda assim, é importante não deixar o sucesso ao acaso.

*Gostou do artigo escrito por Marcos Aguiar e Santino Lacanna? Saiba mais sobre trust em ecossistemas de negócios assinando gratuitamente nossas newsletters e escutando nossos podcasts em sua plataforma de streaming favorita.*

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quanto vale uma franquia da Omie?

Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Como a inteligência artificial pode destravar R$ 2,5 trilhões em crédito

Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Nem toda empresa precisa de um C-level

Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Hiperconectados, solitários e irrelevantes?

Mais contatos, mais mensagens, mais reuniões e menos impacto. Em uma economia movida por redes e ecossistemas, a vantagem competitiva não está em estar conectado o tempo todo, mas em construir conexões capazes de gerar confiança, influência, inovação e transformação ao longo do tempo.

A próxima revolução será humana?

Este artigo propõe uma reflexão sobre por que atenção, presença, pensamento crítico e conexão humana podem se tornar os ativos mais valiosos de uma era cada vez mais dominada pela tecnologia.

Direito, Regulação & Compliance
2 de agosto de 2026 13H00
Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Sthefano Scalon Cruvinel - Doutrinador do Direito, Auditor Judicial com atuação no STJ e CEO da EvidJuri

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de agosto de 2026 08H00
Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Fernando Wosniak Steler - Co-Fundador e CEO da Delend

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, ESG
1º de agosto de 2026 14H00
Impulsionadas pelas exigências de investidores, certificações ambientais e adaptação climática, as edificações sustentáveis consolidam-se como ativos estratégicos para empresas que buscam eficiência, resiliência e geração de valor de longo prazo.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor e responsável técnico da HotFloor

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de agosto de 2026 08H00
Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Roberto Vilela - Consultor empresarial, estrategista de negócios, escritor e palestrante 

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de julho de 2026 14H00
Mais contatos, mais mensagens, mais reuniões e menos impacto. Em uma economia movida por redes e ecossistemas, a vantagem competitiva não está em estar conectado o tempo todo, mas em construir conexões capazes de gerar confiança, influência, inovação e transformação ao longo do tempo.

Tássia Galvão - Fundadora e CEO da Konne

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de julho de 2026 08H00
Este artigo propõe uma reflexão sobre por que atenção, presença, pensamento crítico e conexão humana podem se tornar os ativos mais valiosos de uma era cada vez mais dominada pela tecnologia.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

6 minutos min de leitura
Cultura organizacional
30 de julho de 2026 14H00
Tecnologias, processos e estratégias podem mudar rapidamente. O que diferencia organizações resilientes é a capacidade de preservar os princípios que orientam decisões e comportamentos, transformando a cultura em um elemento de coerência em meio à mudança contínua.

Diego Alegre - CEO do Arquipélago "Culturas que transformam"

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de julho de 2026 07H00
A agricultura é uma das grandes forças econômicas do Brasil, mas seus mecanismos de inovação ainda são pouco compreendidos fora do setor. Este artigo parte de uma conversa com Jonas Hipólito, CEO da Biotrop, para observar como ciência, bioinsumos, biodiversidade, dados e competição global começam a redesenhar a próxima etapa da produtividade agrícola.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

21 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
29 de julho de 2026 14H00
Enquanto parte do mercado ainda vê a indústria como “velha economia”, empresas como WEG e John Deere mostram uma realidade diferente: na era da inteligência artificial, o ativo mais valioso pode não ser o algoritmo, mas os dados únicos gerados por ativos físicos que ninguém mais consegue reproduzir.

Átila Persici - COO da Bolder

8 minutos min de leitura
Liderança
29 de julho de 2026 07H00
Embora a presença feminina no mundo do trabalho tenha avançado de forma consistente nas últimas décadas, os desafios permanecem. Neste artigo, a autora propõe uma mudança de perspectiva: menos foco nos obstáculos e mais atenção às alavancas capazes de impulsionar transformações. Entre elas, destaca-se uma competência cada vez mais valiosa em tempos de incerteza: a capacidade de administrar paradoxos e liderar pela lógica do “E”, integrando eficiência e inovação, resultado e cuidado, racionalidade e sensibilidade.

Betania Tanure - PhD, Sócia fundadora da BTA, membro do Conselho de Administração do Magalu e da MRV e cofundadora do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo