Desenvolvimento pessoal

A coragem dos líderes é contagiosa

A aclamada Brené Brown, da University of Houston, traz seu tema da vulnerabilidade para o terreno da liderança

Compartilhar:

“Defino um líder como alguém que assume a responsabilidade de identificar o potencial das pessoas e dos processos, e que tem a coragem de desenvolver esse potencial. Em corporações, organizações sem fins lucrativos, organizações do setor público, governos ou mesmo escolas e comunidades religiosas, precisamos desesperadamente de um número maior de líderes comprometidos com uma liderança corajosa e sincera, que possuam autoconsciência suficiente para liderar como base no coração.” 

Quem faz essa provocação, bastante atual, é Brené Brown, pesquisadora na University of Houston, que se tornou mundialmente famosa com seu TED Talk sobre “O poder da vulnerabilidade”. Ela também é autora de cinco best-sellers: A arte da imperfeição, A coragem de ser imperfeito, Mais forte do que nunca e, mais recentemente, A coragem para liderar e Eu achava que isso só acontecia comigo.

Mas é fácil encontrar essa coragem em quem manda? Não. “Não temos conseguido desenvolver as habilidades necessárias nos líderes porque não nos aprofundamos na humanidade desse trabalho”, escreve a professora em artigo na revista Rotman Management. “Basicamente também nós não temos coragem de falar a verdade sobre isso.”

Com base em entrevistas e com envolvimento de estudantes de MBA, Brené Brown apresenta um conjunto de habilidades que representam a coragem que se procura nas lideranças dos dias de hoje. 

**CORAGEM INCLUI ASSUMIR A VULNERABILIDADE**

Na essência de uma liderança ousada, como tem explicado Brown, está uma verdade profundamente humana que raramente é reconhecida, especialmente no trabalho: coragem e medo não são excludentes. “A maioria de nós se sente corajosa e com medo ao mesmo tempo. Às vezes, vulnerável o dia todo.”

No caso da liderança, a coragem necessária também passa, obrigatoriamente, por “assumir” a vulnerabilidade, o que inclui, por exemplo, manter-se curioso e “generoso” em relação ao que é novo, saber avançar em meio à confusão que caracteriza a identificação e a solução de problemas, não ter medo de tomar partido e ouvir com a mesma paixão que se quer ser ouvido. “Mais  do que tudo, é manter o coração e a mente abertos, de modo a poder servir o trabalho e as outras pessoas, não o nosso ego”, define a professora.

Segundo sua pesquisa, a coragem depende de quatro habilidades que podem ser aprendidas e medidas: 

> (a) assumir a própria vulnerabilidade, que é a base de tudo; 
>
> (b) viver de acordo com seus valores; 
>
> (c) saber confiar; e 
>
> (d) aprender a se erguer. 

**AUTOCONHECIMENTO E AUTOESTIMA FAZEM DIFERENÇA**

As pessoas tendem a pensar que coragem é algo inerente a cada um. Brown explica que não se trata de quem o líder é, mas de como ele ou ela se comporta em situações difíceis. O medo é o maior obstáculo à coragem? Sim, mas não é. Todos os líderes ouvidos admitiram sentir medo em diversas situações. 

Em outras palavras, o medo não é a principal barreira a ser vencida; o importante é responder ao medo. “A verdadeira barreira é nossa couraça: os pensamentos, as emoções e os comportamentos que usamos para nos proteger, e que nos desalinham em relação a nossos valores e corroem nossas relações com os colegas”, explica Brown. Autonhecimento e autoestima ajudam a tirar a couraça.

**A CORAGEM É CONTAGIOSA**

Para promover a liderança ousada e estimular a coragem nas equipes e na organização como um todo, é preciso cultivar uma cultura na qual o trabalho corajoso, as conversas difíceis e os corações íntegros sejam aquilo que se espera das pessoas. E que as couraças não sejam recompensadas (e, assim, não sejam necessárias). “Se queremos que as pessoas se exponham completamente, ofereçam todo o seu eu, com o coração inteiro e desarmado, para que possamos inovar, resolver problemas e servir, devemos ter uma cultura na qual as pessoas se sintam seguras, reconhecidas, ouvidas e respeitadas”, destaca Brené Brown.

As informações coletadas na pesquisa evidenciaram que o cuidado e o estabelecimento de vínculos com as pessoas são atitudes obrigatórias na construção de relacionamentos íntegros e produtivos entre os líderes e suas equipes. É preciso desenvolver essas habilidades ou encontrar outros líderes que façam isso melhor do que você. “Não é nenhuma vergonha admitir quando não podemos servir plenamente as pessoas que lideramos”, comenta Brené Brown.  

Além disso, ela aponta o tipo de consequência negativa que as couraças trazem para a empresa. Quando a organização recompensa comportamentos defensivos, alerta a professora, como acusações, vergonha, cinismo e perfeccionismo, por exemplo, não consegue promover a inovação no ambiente de trabalho. “Agindo amparados por couraças, não conseguimos crescer e contribuir plenamente”, afirma. 

Brené Brown ressalta ainda que todas as habilidades identificadas em sua pesquisa podem ser aprendidas por qualquer um, tenha essa pessoa 14 anos ou 40 anos. Ela é firme em contrariar quem crê que a coragem é determinada pela genética ou pelo destino. 

© Rotman Management

Editado com autorização da Rotman School of Management. Todos os direitos reservados.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Da cultura ao caixa: O impacto real (e subestimado) de nomear o líder errado

Nada destrói uma empresa tão rápido – e tão silenciosamente – quanto um líder mal escolhido. Uma única nomeação equivocada corrói cultura, paralisa times, distorce decisões e drena resultado. Este artigo expõe por que insistir nesse erro não é só imprudência: é um passivo estratégico que nenhuma organização deveria tolerar.

A migração do poder para pessoas que resolvem problemas reais

Neste artigo, exploramos por que a capacidade de execução, discernimento aplicado e proximidade com a realidade estão redefinindo o que significa liderar – e por que títulos, discursos sofisticados e metodologias brilhantes já não bastam para garantir relevância em 2026.

Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de março de 2026 08H00
Enquanto as empresas correm para adotar IA, pouquíssimas fazem a pergunta que realmente importa: o que somos quando nosso modelo de negócio muda completamente?

Bruno Stefani - Fundador da NERD Partners

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de março de 2026 13H00
Nada destrói uma empresa tão rápido - e tão silenciosamente - quanto um líder mal escolhido. Uma única nomeação equivocada corrói cultura, paralisa times, distorce decisões e drena resultado. Este artigo expõe por que insistir nesse erro não é só imprudência: é um passivo estratégico que nenhuma organização deveria tolerar.

Sylvestre Mergulhão - CEO e fundador da Impulso

3 minutos min de leitura
Estratégia
18 de março de 2026 06H00
Sua estratégia de 3 anos foi desenhada para um ambiente que já virou história. O custo de continuar executando um mapa desatualizado é mais alto do que você imagina.

Atila Persici Filho - COO da Bolder

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
17 de março de 2026 17H15
Direto do SXSW 2026, surge um alerta: E se o maior risco da IA não for errar, mas concordar demais?

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Empreendedorismo
17 de março de 2026 11H00
No SXSW 2026, Lucy Blakiston mostrou como uma ideia criada na faculdade se transformou na SYSCA, um ecossistema de mídia com impacto global.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
17 de março de 2026 08H00
Neste artigo, exploramos por que a capacidade de execução, discernimento aplicado e proximidade com a realidade estão redefinindo o que significa liderar - e por que títulos, discursos sofisticados e metodologias brilhantes já não bastam para garantir relevância em 2026.

Bruno Padredi - CEO da B2B Match

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
16 de março de 2026
A tecnologia acelera tudo - inclusive nossos erros. Só a educação é capaz de frear impulsos, criar critérios e impedir que o futuro seja construído no automático.

Adriana Martinelli - Diretora de Conteúdo da Bett Brasil

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
15 de março de 2026 14H30
Direto da cobertura do SXSW 2026, este artigo percorre as conversas que dominam Austin: quando a tecnologia entra em superciclo e a IA deixa de ser apenas inovação para se tornar força estrutural, a pergunta central deixa de ser técnica - e passa a ser profundamente humana: como preservar significado, pertencimento e propósito em um mundo cada vez mais automatizado?

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

6 minutos min de leitura
Marketing & growth, Inovação & estratégia
15 de março de 2026 11H00
Diretamente da cobertura do SXSW 2026, este artigo parte de uma provocação de Tom Sachs para tensionar uma pergunta incômoda a líderes e criadores: é possível engajar pessoas, construir mundos e sustentar visões quando nem nós mesmos acreditamos, de verdade, no que comunicamos todos os dias?

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Estratégia
15 de março de 2026 08H00
Quando empresas tratam OKR como plano, roadmap como promessa e cronograma como estratégia, não atrasam por falta de prazo - atrasam por falta de decisão. Este artigo mostra por que confundir artefatos com governança é o verdadeiro custo invisível da execução.

Heriton Duarte e William Meller

15 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...