DIA DA MENTIRA

A cultura da mentira e a gestão de empresas

O hábito de dizer inverdades é particularmente forte no meio executivo. Pesquisas e especialistas nos ajudam a entendê-lo e a ficar alertas
Florencia Lafuente é colaboradora de HSM Management.

Compartilhar:

Nos Estados Unidos, o executivo Scott Thompson passou pelo cargo de CEO do Yahoo como uma tempestade de verão: ficou quatro meses no posto. E tudo isso porque “embelezou” um pouco seu currículo. Ele afirmou que era graduado em contabilidade e ciências da computação pelo Stonehill College, de Boston, Massachusetts (EUA), mas só o primeiro diploma existia.

No Brasil, a empreendedora Bell Pesce, “a menina do Vale, foi best-seller e influencer mais ou menos como uma tempestade de verão também: vendeu 170 mil cópias de seu livro (depois de ter 3 milhões de dowloads) e 1,7 milhão de seguidores no Facebook, além de uma agenda lotada de palestras lotada. Hoje, seus treinamentos de serendipidade têm menos demanda e os seguidores, embora ainda em quantidade significativa, caíram a um terça – 546 mil (e 183 mil no LinkedIn). E tudo isso porque ela também “embelezou” um pouco seu currículo. Ela afirmou que tinha cinco diplomas no MIT – Massachusetts Institute of Technology, quando eram “apenas” dois (o resto eram minors), e que cofundou a fintech Lemon Wallet no Vale do Silício (quando, na verdade, começou a trabalhar lá no ano seguinte à fundação).

Todos nós mentimos ou criamos fantasias em certa medida, mas, segundo dados do recente estudo “Academic Dishonesty in Graduate Business Programs: Prevalence, Causes, and Proposed Action”, feito com 5.331 alunos de 32 cursos de pós-graduação dos Estados Unidos e Canadá, e publicado na *Academy of Management Learning & Education*, revelou que 56% dos que cursam mestrado em administração de empresas admitiram ter mentido, índice dez pontos percentuais superior ao encontrado entre os mestrandos trapaceiros de outras áreas do conhecimento.

## Nariz comprido
Dan Ariely, autor de *A Mais Pura Verdade sobre a Desonestidade* e especialista da Duke University, passou anos estudando as motivações da mentira e da trapaça e nos ajuda a entendê-las: “A desonestidade tem natureza paradoxal: mentimos para nos beneficiarmos e, ainda assim, mantemos uma visão positiva de nós mesmos. Achamos que algumas armações são inofensivas e até necessárias. Por exemplo, se um estudante guardar Coca-Cola e dinheiro em sua república, o refrigerante tende a desaparecer muito antes que o dinheiro, pois os integrantes do grupo não gostam de ser vistos como ladrões, mas tudo bem ter sede”, compara Ariely para exemplificar nosso complexo parâmetro sobre as desonestidades permitidas e as proibidas.

Ariely sustenta que a maioria das pessoas está propensa a mentir porque, apesar de querer parecer honesta, gosta de desfrutar as pequenas vantagens advindas de mentirinhas que ressaltam qualidades e encobrem defeitos.

Liz Killik, consultora de organizações sobre getão de conflitos pessoais e autora do guia [*How to Resolve Interpersonal Conflicts in the Workplace*](https://lizkislik.com/resolve-conflict/) (que pode ser baixado gratuitamente), relaciona três gatilhos principais da mentira num artigo para o blog da *Harvard Business Review*: (1) medo de aborrecer alguém ou de iniciar um conflito, (2) não querer expor as próprias inadequações (incompetência, falta de conhecimento, falta de agilidade etc.) e (3) obter benefícios – os currículos superlativos parecem ilustrar o último gatilho.

## Pernas curtas
A verdade é que na era digital, mais cedo ou mais tarde, a verdade vem à tona
–com o Google, os smartphones e as redes sociais, apagar o rastro de uma mentira anda cada vez mais difícil. Assim como surgiu uma série de serviços de checagem de fake news, a mídia e influencers ficaram mais vigilantes em relação aos currículos de quem faz sucesso – no caso de Bel Pesce, por exemplo, pessoas como o blogueiro Izzy Nobre e o influencer Felipe Neto fizeram soar o alarme.

Nos Estados Unidos, a mentira também é legalmente dificultada nas empresas, ao menos para companhias de capital aberto. Em 2002, a Lei Sarbanes-Oxley criou mecanismos para vigiar a conduta das empresas listadas na bolsa de valores. Com ela, CEOs e diretores financeiros são responsáveis legais pela divulgação de resultados fraudulentos de suas empresas (como ocorreu com Enron e WorldCom): se mentirem, podem ser condenados a até dez anos de prisão. Existem, para o caso dos currículos, empresas de checagem de referência, como a [Checkster](https://www.checkster.com/are_you_hiring_charlatans) – aliás, os levantamentos mostram que de [36%](https://resumelab.com/resume/lying) a 78% dos candidatos a vagas nas empresas incluem alguma mentirinha no CV. No Brasil, está em tramitação na Câmara dos Deputados um [projeto de lei sobre fake news](https://www.camara.leg.br/noticias/863031-relator-apresenta-nova-versao-do-projeto-sobre-fake-news-conheca-o-texto/) – a expectativa é que seja votado ainda em abril –, mas ainda não se sabe se será aplicável a mentiras de LinkedIn, por exemplo.

De acordo com Ariely, há algumas estratégias simples que podem ajudar os executivos a não cair em tentação, tais como criar códigos de honra, gerar mais mecanismos de supervisão, trabalhar com os incentivos adequados e aplicar os castigos corretos.

Liz Kislik fala sobre estratégias para os líderes lidarem com a cultura da mentira – para ela, o princípio-chave é considerar mentiras inadmissíveis – elas sempre causam algum mal, por mais que não pareça, seja ao negócio ou às pessoas. Conforme ela, mentiras devem ser documentadas (ainda que privadamente), os mentirosos devem receber feedbacks e, se isso se repetir, a demissão é a solução. Enfim, todo líder precisa saber gerenciar mentiras para evitar que uma cultura de mentira se instale. Mas, segundo os levantamentos, chefes tendem a mentir mais do que os subordinados, ainda que sejam mentiras “leves”: 37% mentem uma vez por semana, ante 28% dos funcionários no primeiro nível hierárquico, conforme [pesquisa Simply Hired](https://www.payscale.com/career-advice/is-your-boss-lying-to-you/).

O fato é que o Dia da Mentira, no meio executivo, não acontece só no 1º de abril. E levando em conta a necessidade cada vez maior de inovar, que muitas vezes requer quebrar regras, a mentira nos ambientes de negócios provavelmente provavelmente não acabará tão cedo.

Obs.: Este texto contém uma peça de 1º de abril, desculpe! O estudo “Academic Dishonesty in Graduate Business Programs: Prevalence, Causes, and Proposed Action” não é recente; foi realizado dez anos atrás, em 2012. Mas continua atualíssimo, não?

Compartilhar:

Artigos relacionados

O fim da guerra fiscal: como a Reforma Tributária pode mudar a logística brasileira

Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Saudável, gostoso e acessível: a equação que desafia a indústria de alimentos no Brasil 

Reduzir açúcar, sódio e gorduras sem comprometer sabor, performance culinária e competitividade de preço tornou-se uma das equações mais complexas da indústria de alimentos. O artigo explora como mudanças regulatórias, comportamento do consumidor e inovação tecnológica estão redefinindo estratégias de produto, marketing, cadeia de suprimentos e crescimento no setor de bens de consumo.

A fadiga de decidir em tempos de excesso

Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.

Quanto custa quando o sistema para? Alguns minutos fora do ar podem custar milhões

À medida que organizações se tornam dependentes de ambientes digitais para sustentar suas operações, a indisponibilidade de sistemas passa a representar muito mais do que uma questão técnica. O artigo mostra por que calcular o impacto real de uma falha exige uma visão integrada entre tecnologia, finanças, operação e governança, e como essa análise pode orientar decisões críticas sobre modernização e resiliência dos negócios.

A Reforma Tributária vai criar uma nova onda de negócios B2B

Ao reduzir distorções tributárias que incentivavam a internalização de atividades, o novo sistema tende a estimular terceirizações, fortalecer o mercado B2B e abrir espaço para novos modelos de negócio, criando oportunidades para empresas capazes de se posicionar como parceiras estratégicas de seus clientes.

Direito, Regulação & Compliance
22 de agosto de 2026 14H00
Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Caio Navarro - Fundador e CEO da consultoria Hand

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Bem-estar & saúde, Marketing & growth
22 de agosto de 2026 07H00
Reduzir açúcar, sódio e gorduras sem comprometer sabor, performance culinária e competitividade de preço tornou-se uma das equações mais complexas da indústria de alimentos. O artigo explora como mudanças regulatórias, comportamento do consumidor e inovação tecnológica estão redefinindo estratégias de produto, marketing, cadeia de suprimentos e crescimento no setor de bens de consumo.

Mayara Marcon - Head de Marketing na Lightsweet

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
21 de agosto de 2026 18H00
Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.

Rose Kurdoglian - Fundadora da RK Mentoring Hub

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de agosto de 2026 14H00
À medida que organizações se tornam dependentes de ambientes digitais para sustentar suas operações, a indisponibilidade de sistemas passa a representar muito mais do que uma questão técnica. O artigo mostra por que calcular o impacto real de uma falha exige uma visão integrada entre tecnologia, finanças, operação e governança, e como essa análise pode orientar decisões críticas sobre modernização e resiliência dos negócios.

Philippe Rosa - Diretor de Inovação e Novos Negócios da TQI

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
21 de agosto de 2026 08H00
Por que a metáfora mais repetida do momento também é a mais mal compreendida pelas lideranças

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

8 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
20 de agosto de 2026 14H00
Ao reduzir distorções tributárias que incentivavam a internalização de atividades, o novo sistema tende a estimular terceirizações, fortalecer o mercado B2B e abrir espaço para novos modelos de negócio, criando oportunidades para empresas capazes de se posicionar como parceiras estratégicas de seus clientes.

Frederico Turolla - Sócio Fundador da Pezco Economics, Presidente do PSP Hub e Coordenador do Comitê de Economia e Infraestrutura da SWISSCAM - Câmara de Comércio Suíço Brasileira.

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
20 de agosto de 2026 08H00
Embora as máquinas assumam atividades repetitivas e analíticas, competências como liderança, criatividade, pensamento crítico, negociação e julgamento continuam sendo essencialmente humanas. O desafio das empresas será criar ambientes em que essas capacidades atuem de forma integrada para impulsionar inovação e crescimento.

Ricardo Scheffer - CEO da SONDA no Brasil

3 minutos min de leitura
User Experience, UX, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de agosto de 2026 14H00
Consumidores estão mais exigentes, mais conectados e menos tolerantes a experiências frustrantes. Ao mesmo tempo, os avanços em inteligência artificial estão permitindo que startups evoluam da simples automação para modelos capazes de interpretar contexto, tomar decisões e resolver demandas de forma autônoma. O resultado é uma nova lógica de crescimento baseada na qualidade da resolução, e não apenas na velocidade do atendimento.

Alan Schulte - Vice-presidente de Vendas para Startups e PMEs da Zendesk na América Latina.

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de agosto de 2026 08H00
Enquanto o Congresso debate mudanças na jornada de trabalho, empresas já precisam lidar com uma pergunta prática: como reorganizar pessoas, escalas e recursos sem comprometer produtividade, atendimento e sustentabilidade financeira? Neste cenário, dados, planejamento e governança tornam-se ferramentas essenciais para transformar incerteza regulatória em vantagem competitiva.

Marcelo Gomes - CEO da Nexti

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de agosto de 2026 14H00
Em mercados cada vez mais competitivos, escolher uma máquina apenas pelo menor preço pode significar abrir mão de produtividade, automação e eficiência operacional. O artigo propõe uma mudança de perspectiva: substituir a lógica do custo inicial pela análise do valor que o investimento é capaz de gerar para a empresa ao longo dos anos.

Fábio Kreutzfeld - CEO da Delta Máquinas Têxteis

2 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo