Artigo

A estratégia de 50 anos do povo Paiter Suruí

O tempo dos suruís, povos originários que habitam um território situado entre MT e RO, pode nos ensinar muito sobre como planejar
Heloisa Rios é especialista em estratégia e transformação de negócios. É membro da Comissão de Estratégia do IBGC, conselheira de empresas e ONGs, consultora e CEO da Universidade do Futebol, edtech fundada em 2003 voltada a aprendizagem e soluções de negócio para o esporte. É coordenadora acadêmica da formação de líderes no futebol na CBF Academy e Federação Paulista de Futebol e coautora do livro *Muito Além da Bola: O futebol que transforma.*

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Meus interesses e experiências plurais me permitem conviver atualmente com pelo menos três mundos de planejamento estratégico. Um mundo veloz, onde as startups de sucesso formulam suas estratégias em horizontes de 3, 6 e 12 meses. Um mundo do futebol, que se vê diante de uma oportunidade única de transformação a partir de uma estratégia de país levada a cabo de modo disciplinado nas próximas décadas. E o mundo do povo Paiter Suruí, que tem um horizonte estratégico de 50 anos.

O primeiro é o mais fácil de entender e aceitar, embora extremamente desafiador. O segundo exige uma mudança radical, mas acabamos de encerrar uma Copa do Mundo de Futebol e sabemos o quanto isso vale a pena. E o terceiro é uma grande interrogação para a maioria das pessoas de negócios. O terceiro é o meu tema neste artigo.

Fui pega de surpresa quando, em julho de 2022, visitei a floresta dos suruís com os colegas de conselho de administração do World Wide Fund for Nature (WWF). Apresentaram-nos uma série de iniciativas e disseram: “Tudo isso é parte da nossa estratégia de 50 anos, iniciada em 1994”. Eu me surpreendi. Não te surpreende?
Daquele momento em diante não parei até entender, o mais profundamente possível, o que poderia ter motivado uma estratégia de 50 anos – as razões, a história, o processo, as expectativas.

Tudo começou com Marimop Suruí, o então cacique do povo Paiter Suruí, pai do atual cacique e líder Almir Suruí. (Paiter significa “gente de verdade”.) Começou quando ele viu 400 caminhões de madeira clandestinos saindo de dentro da floresta, chamou seu filho e disse: “Temos de dar um basta nesse ciclo de destruição da floresta”.

Os dois sabiam que a solução não seria apenas tentar impedir o desmatamento. “Temos de achar uma solução de mudança, porque ninguém está tirando esse volume de madeira sozinho. Certamente tem muita gente envolvida, inclusive do nosso próprio povo”, disseram um ao outro. Mais que acabar com o desmatamento da floresta, eles precisavam buscar perenidade e autonomia para seu povo.

Logo me lembrei dos três Ds que aprendi com Pavan Sukdev como sendo os impulsionadores de uma transformação. Mudanças acontecem por DESIGN, quando antecipamos o futuro formulando estratégias, fazendo escolhas e alocando recursos para realizar o que foi planejado. Mudamos por DECRETO, quando somos obrigados por alguma norma ou lei. E mudamos quando acontece uma DESGRAÇA, porque ela aconteceu.

Os suruís utilizaram todos esses Ds: houve uma desgraça (400 caminhões de madeiras!), o cacique determinou uma nova norma e foi desenhada uma estratégia, assim como o sistema de governança que daria suporte a ela. Eles viram que o único modo de fortalecer seu povo seria mudar e fazer a gestão do próprio território. E começaram isso com a busca de alternativas econômicas melhores, baseadas em conhecimento e sabedoria. Algo grandioso estava nascendo. Algo para acontecer em 50 anos.

## Do contexto à estratégia
Antes de detalhar a estratégia desse povo, preciso compartilhar dois aprendizados que contextualizam o que foi feito. O primeiro é que, para os suruís, não existem o povo e a floresta como entes separados; o povo se considera a própria floresta. Foi Txai Suruí, filha de Almir e hoje voz ativa global no combate às mudanças climáticas, além de minha colega de conselho do WWF, quem me ensinou.

O segundo, me explicaram outros indígenas, é que aquela estratégia não era algo para o mandato de um líder. Não serviria como resposta aos concorrentes, por exemplo, se é que os madeireiros ilegais podem ser definidos assim. Eles queriam formular uma estratégia para 50 anos, ou seja, buscar diretrizes e ações de transformação de todo o povo ao longo de várias gerações.

A estruturação do processo estratégico dos suruís começou com as cinco perguntas canônicas da estratégia. Para responder a “quem sou eu?” e “onde estou”, foi feito um trabalho de diagnóstico, em 1994, que envolveu mais de 2 mil pessoas, indígenas e não indígenas, finalizado somente no ano 2000. Com stakeholders diversos engajados no processo, eles levantaram suas forças e fraquezas, as potencialidades e as ameaças que identificavam até aquele momento.

As respostas para “aonde quero chegar e “como fazer isso”, mais as métricas que confirmariam a chegada, também foram cocriadas. Durante esse processo, questionaram-se sobre como seria a melhor forma de lidar com a floresta, resgatar e engajar seu povo, sim, mas também se perguntaram como poderiam influenciar a sociedade consumidora a adotar um comportamento mais sustentável. Além disso, investigaram os potenciais econômicos que a floresta tinha e chegaram ao maior deles: o combate às mudanças climáticas.

Desse processo coletivo saíram 12 eixos de ação, que incluíram, entre outras, frentes como economia, mercado consumidor, reflorestamento, saúde e educação (do mundo, inclusive).

Em 2021, Txai Suruí, filha de Almir, ficou conhecida internacionalmente ao discursar na abertura da COP26, em Glasgow, na Escócia, e destacar o papel das mulheres e dos jovens na estratégia de 50 anos dos suruís. O documento intitulado “Plano de Estratégia de 50 anos do Povo Paiter Suruí” circulou no planeta e virou referência para desenvolvimento econômico comprometido com a preservação de recursos naturais e vivências dos povos da floresta.

## Entendendo o que é único
Então, o que há de tão especial nessa estratégia? Muita coisa. O primeiro ponto é que eles decidiram fazer um processo realmente coletivo e de escuta ativa. Foram ouvidas mais de 2 mil pessoas, na aldeia e fora dela, durante um período de seis anos, e elas foram questionadas sobre temas muito importantes e complexos.

Com esse processo, os suruís construíram a base de sua sustentabilidade (do povo e da floresta), definindo em que cadeias produtivas poderiam apostar – e planejaram como seria o manejo sustentável dessas produções sem agredir a natureza. A voz do coletivo norteou, de fato, a constituição das cadeias produtivas de café, cacau, banana, castanha, peixes e artesanatos, e também o desenvolvimento do ecoturismo. A partir da estratégia cocriada, eles também resolveram fundar a primeira universidade indígena do Brasil, a Universidade Paiter, que recebe pesquisadores e cientistas de toda parte.

Outro elemento especial foram as conexões e parcerias geradas. Eles resolveram juntar forças com organizações do conhecimento para facilitar a execução de suas metas de futuro. Em 2007, por exemplo, Almir foi à Califórnia para propor uma parceria inédita com o Google com vistas à produção de um mapa multimídia sobre sua tribo por meio da plataforma Google Earth. Hoje o Mapa Cultural Suruí reúne fotos, vídeos, animações em 3D, além de depoimentos publicados pelos próprios indígenas como forma de apoiar a preservação da região.

Essa estratégia é especial também pela capacidade de inovação – talvez inesperada para nós quando vindas de povos originários, nos quais tradição é regra. A tribo foi pioneira na venda de crédito de carbono e em uso do mecanismo hedge, ambos feitos com a finalidade de reduzir as emissões por desmatamento e degradação.

Por fim, ficou muito claro que a liderança foi – e é –um dos elementos mais fundamentais desse processo. Se não houvesse gente como Almir e seus familiares, não teríamos esses resultados. A visão de longo prazo que o pai dele estabeleceu não é trivial para implementar: é preciso “não querer ganhar no curto prazo” e “esforçar-se por algo que se concretizará quando não estivermos mais aqui”. Como ocorre com o reflorestamento que eles vêm fazendo.

Essa liderança firme viabilizou que esse povo desse um passo para trás e conseguisse pensar em como atacar a destruição da floresta e a corrupção sistêmica garantindo sua sobrevivência e perenidade.

CRIAR E FAZER NEGÓCIOS com responsabilidade é um desafio para todas as organizações, não importam suas características. O legado dos Paiter Suruí nos ensina sobre a importância do envolvimento coletivo, da diversidade convocada a participar, da liderança com visão de futuro e desprendimento, da abertura a campos de conhecimento diversos, da importância de decidir como crescer, do aprimoramento constante e, principalmente, da cultura da paciência que os povos ancestrais carregam com seus ritos e conexão com a floresta.

Eu já incorporei esse aprendizado transformador à minha visão de mundo e convido o leitor a fazer o mesmo. Assim como mais pessoas poderiam adotar uma mentalidade digital, mais pessoas poderiam incorporar uma mentalidade ESG inspiradas pela estratégia de 50 anos do povo Paiter Suruí. ESG não deveria ser apenas uma sigla da moda; deveria ser a base das estratégias que nos levarão, coletivamente, a um Brasil e a um mundo melhores para todos.

Será que, mesmo em tempos velozes como os atuais, deveríamos investir em desenhar um futuro à moda do povo Paiter Suruí? Talvez não com um horizonte de tempo tão longo, mas realmente acredito que sim. Lembre-se de que, antes da coroa, já havia o cocar. As necessidades, os desejos e a sabedoria de organizações ligadas a povos longevos deveriam fazer parte da nossa educação em estratégia e gestão.

O dia em que Almir Suruí falou no Congresso do IBGC

Em novembro último, um dos destaques do 23º Congresso do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), foi o líder indígena Almir Narayamoga Suruí, coordenador da Associação Metareilá e cacique do povo Paiter Suruí, uma ideia da conselheira do IBGC Heloísa Rios. Almir apresentou a conferência “Inspiração para manter a floresta em pé – Plano de 50 anos”, na qual discorreu sobre a estratégia delineada para garantir a sustentabilidade e perenidade dos suruís e da floresta que habitam.

A uma plateia formada por especialistas em governança corporativa, empresários e executivos de empresas do Brasil e da América Latina, ele explicou como a Terra Indígena Sete de Setembro, que ocupa uma área de 249 mil hectares entre Rondônia e Mato Grosso, é preservada de maneira eficaz, com produção sustentável de café, cacau, banana, castanha, artesanatos e peixes.

Na região, que reúne 30 aldeias de seu povo, iniciam-se serviços de ecoturismo, por enquanto limitados aos pesquisadores e cientistas que contribuem com a Universidade Paiter, a primeira universidade indígena do Brasil. Tudo isso foi criado a partir de uma estratégia feita para 50 anos, batizada de Plano 50. “Estamos usando o nosso conhecimento ancestral para construir um novo caminho para o futuro, utilizando com responsabilidade os recursos naturais”, disse o líder à plateia do Congresso do IBGC.

Seguindo as metas de reflorestamento do plano, os suruís plantaram mais de 1 milhão de mudas de plantas nativas do território. E isso serviu de base para a montagem do projeto de geração de créditos de carbono pelo mecanismo de Redução de Emissões Provenientes de Desmatamento e Degradação Florestal (REDD), para o qual Almir Suruí procura captar recursos públicos e privados, de maneira a tornar a venda comercialmente viável.

Almir destacou o papel das mulheres e dos jovens na elaboração e execução do Plano 50″ e em funções de liderança em todas as áreas na terra suruí. Exemplo disso é sua própria filha, a estudante de direito Txai Suruí, que ficou conhecida internacionalmente ao discursar na abertura da COP 26, em Glasgow, na Escócia, em 2021, e também levou as questões do povo suruí à COP 27, no Egito, em 2022.

“O Brasil tem condições de ser o país exemplo para os países amazônicos, em equilíbrio ambiental para enfrentar as mudanças climáticas”, declarou o líder indígena. “Temos esperança num futuro melhor e precisamos participar ativamente do novo governo para que, em nosso País, tenhamos governança e, em todo o mundo, voltemos a ser respeitados”, finalizou.

(Reportagem de Lúcia Camargo)

Artigo publicado na HSM Management nº 155

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