Assunto pessoal

A ética do cuidado e o cuidar de si

A ciência e a história mostram que o cuidado, e principalmente o autocuidado, são obrigatórios para adultos serem viáveis
Diretora de soluções educacionais in company da HSM Educação Executiva, atua como consultora de empresas e é professora e gerente de projetos da Fundação Dom Cabral. Formada em psicologia pela PUC Minas, também é mestre em educação a distância.

Compartilhar:

Não estamos vivos por acaso: temos um propósito. A realização desse propósito, no entanto, depende do cuidado de si mesmo. Afinal, se não nos conhecemos bem e não nos cuidamos, fica difícil reconhecer nossas necessidades e nos preparar para essa realização.

Cuidar de si mesmo é um dos grandes desafios existenciais para os seres humanos. Essa afirmativa se torna cada vez mais verdadeira no mundo atual, em que os aspectos mais valorizados pela sociedade são dinheiro, status e beleza, e onde não há lugar para demostrarmos dúvidas, fraquezas e medos.

Esse processo fomenta uma fragilidade ou uma ruptura do conviver, gerando relações superficiais e vínculos efêmeros. De maneira geral, cada um vive para si e por si. O outro não tem lugar na minha vida senão para favorecer os meus planos e projetos, em uma relação totalmente utilitarista. Observamos, então, que o homem se esquece de ser e de conviver. E assim vive continuamente insatisfeito. Por isso, sofre e adoece, o que pode ser comprovado pelos aumentos das doenças de ordem mental e psíquica e das dores da alma.

O pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott, um estudioso da natureza humana, debruçou-se sobre o assunto. Sua atenção se voltou para a história real das relações do indivíduo com seu ambiente, desde o início da vida, por atender sistematicamente bebês e suas mães, no campo da pediatria, e adultos psicóticos, em especial os que puderam regredir à dependência, com a psicanálise.

Ele estabeleceu uma conexão entre os transtornos emocionais que os bebês apresentavam e os distúrbios de tipo esquizofrênico, num estudo minucioso dos estágios iniciais do amadurecimento. Seu objetivo era descobrir quais são as condições ambientais que favorecem (ou falham em favorecer) os processos pelos quais um bebê, imaturo e altamente dependente de início, chega a tornar-se uma pessoa viável, capaz de estabelecer relações com a realidade externa, de achar algum sentido no fato de estar vivo e de ser capaz, razoavelmente, de tomar conta de si mesmo.

Antes de dividir a descoberta, vale trazer uma questão ética sobre o valor da vida. Não nos basta estar fisiologicamente vivos; é preciso que nos sintamos vivos e razoavelmente à vontade com isso, que, em algum nível, nossas vidas valham a pena ser vividas. E sentir-se vivo corresponde a sentir-se atendido em sua dependência, sentir que alguém se importa e se dedica a cuidar de suas necessidades, suprindo sua limitação de cuidar de si mesmo. Esse foi o achado de Winnicott.

## Dois tipos de cuidado
Numa palestra para médicos e enfermeiros, proferida em outubro de 1970, Winnicott formula uma nova ética ao relembrar à audiência que a palavra “cura”, em sua raiz etimológica, significa “cuidado”. Foi só por volta de 1700 que “cura” passou a designar tratamento médico, dando início a um processo de objetificação da cura; o cuidado foi substituído pela aplicação de elementos curativos.

Winnicott prossegue dizendo que a cura (a bem-sucedida erradicação da doença e de sua causa pelo medicamento) tende a se sobrepor ao cuidado. Mas é preciso impedir, assinala, que os dois significados – tratamento e cuidado – percam contato um com o outro. Embora tratamentos sejam imprescindíveis, é claro, não se pode perder de vista o cuidado.

Para resgatar o verdadeiro sentido do cuidado, faz-se necessário que a pessoa tenha a consciência do que ela é; de suas capacidades e fragilidades,
e do que efetivamente quer. Ou seja, a pessoa precisa fazer exercícios de autoconsciência, autoanálise e autocrítica, dando significado a seu viver. Precisa cuidar-se. Mas o que entender por cuidado?

O termo tem, normalmente, duas significações básicas intimamente ligadas. A primeira é a atitude de desvelo, solicitude e atenção com o outro. A segunda, de preocupação, de inquietação e de responsabilidade, porque a pessoa que tem cuidado sente-se envolvida e ligada ao outro.

As definições que ainda hoje utilizamos para cuidar e cuidado vêm da Antiguidade, dos gregos, dos romanos, passando por santo Agostinho e culminando em Martin Heidegger, pensadores que veem no cuidado a própria essência do ser humano no mundo, com os outros, e voltado ao futuro.
A partir dessas fontes, identificamos quatro grandes sentidos, todos mutuamente implicados.

1. O cuidado é uma atitude de relação amorosa, suave, amigável, harmoniosa e protetora com a realidade pessoal, social e ambiental. Metaforicamente, podemos dizer que é a mão aberta que se estende para a carícia essencial, para o aperto das mãos, com os dedos que se entrelaçam com outros dedos para formar uma aliança de cooperação e a união de forças, em oposição à mão fechada e ao punho cerrado para submeter e dominar o outro.
2. O cuidado é todo tipo de preocupação, inquietação, desassossego, incômodo diante de pessoas e realidades com as quais estamos afetivamente envolvidos e por isso nos são preciosas. Esse tipo de cuidado acompanha-nos em cada momento e em cada fase de nossa vida. É o envolvimento com pessoas que nos são queridas ou com situações que nos são caras.
3. O cuidado é a vivência da relação entre a necessidade de ser cuidado e a vontade e a predisposição de cuidar, criando um conjunto de apoios e proteções que torna possível essa relação indissociável, em nível pessoal, social e com todos os seres viventes. O cuidado-amoroso, o cuidado-preocupação e o cuidado-proteção-apoio são existenciais e, portanto, prévios a qualquer outro ato e a tudo o que empreendermos. Por isso pertencem à essência do humano.
4. O cuidado-precaução e o cuidado-prevenção constituem as atitudes e os comportamentos que devem ser evitados por suas consequências danosas previsíveis e imprevisíveis diante da insegurança dos dados científicos e da imprecisão dos efeitos que podem causar ao sistema-vida e ao sistema-Terra. O cuidado-prevenção e o cuidado-precaução nascem de nossa missão de cuidadores de todos os seres e do planeta. Somos seres éticos e responsáveis, quer dizer, nos damos conta das consequências benéficas ou maléficas de nossos atos, atitudes e comportamentos.

Somos filhos e filhas do cuidado. É a condição prévia que permite a um ser vir à existência.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Villain Era: a oportunidade das marcas para escutar quem cansa de agradar

Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Por que a filosofia voltou a ser uma ferramenta de gestão

Ao recorrer a pensadores como Foucault, Hannah Arendt e Kant, o artigo mostra por que cultura, ética, reflexão crítica e capacidade de julgamento continuam sendo ativos indispensáveis para líderes e organizações que desejam tomar melhores decisões em um mundo cada vez mais automatizado.

A tecnologia muda. A essência da advocacia permanece.

Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Chega de olhar pelo retrovisor

A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.

Empresas preparadas para a próxima década não usam IA. Elas se reorganizam ao redor dela.

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

O que separa empresas inovadoras das que apenas fazem inovação

Programas de startups, laboratórios de inovação e investimentos em inteligência artificial tornaram-se comuns nas grandes organizações. O problema é que poucas conseguem transformar experimentação em resultado de negócio. O artigo discute como estruturar processos que convertam conhecimento externo em decisões estratégicas capazes de gerar crescimento, adaptação e vantagem competitiva.

Cultura organizacional
30 de julho de 2026 14H00
Tecnologias, processos e estratégias podem mudar rapidamente. O que diferencia organizações resilientes é a capacidade de preservar os princípios que orientam decisões e comportamentos, transformando a cultura em um elemento de coerência em meio à mudança contínua.

Diego Alegre - CEO do Arquipélago "Culturas que transformam"

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de julho de 2026 07H00
A agricultura é uma das grandes forças econômicas do Brasil, mas seus mecanismos de inovação ainda são pouco compreendidos fora do setor. Este artigo parte de uma conversa com Jonas Hipólito, CEO da Biotrop, para observar como ciência, bioinsumos, biodiversidade, dados e competição global começam a redesenhar a próxima etapa da produtividade agrícola.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

21 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
29 de julho de 2026 14H00
Enquanto parte do mercado ainda vê a indústria como “velha economia”, empresas como WEG e John Deere mostram uma realidade diferente: na era da inteligência artificial, o ativo mais valioso pode não ser o algoritmo, mas os dados únicos gerados por ativos físicos que ninguém mais consegue reproduzir.

Átila Persici - COO da Bolder

8 minutos min de leitura
Liderança
29 de julho de 2026 07H00
Embora a presença feminina no mundo do trabalho tenha avançado de forma consistente nas últimas décadas, os desafios permanecem. Neste artigo, a autora propõe uma mudança de perspectiva: menos foco nos obstáculos e mais atenção às alavancas capazes de impulsionar transformações. Entre elas, destaca-se uma competência cada vez mais valiosa em tempos de incerteza: a capacidade de administrar paradoxos e liderar pela lógica do “E”, integrando eficiência e inovação, resultado e cuidado, racionalidade e sensibilidade.

Betania Tanure - PhD, Sócia fundadora da BTA, membro do Conselho de Administração do Magalu e da MRV e cofundadora do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 14H00
Rampas, tecnologias assistivas e conformidade regulatória são apenas o ponto de partida da inclusão. Entre a conformidade técnica e a adoção real existe um elemento frequentemente negligenciado: a cultura. Este artigo explora como a Inteligência Cultural pode determinar o sucesso ou o fracasso de estratégias globais de inclusão.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor e Clara Choen - Fundadora da Savant Consulting

12 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 08H00
Inspirado pelo legado de Oscar Motomura, o artigo questiona uma das crenças mais difundidas da gestão contemporânea: a ideia de que a transformação acontece apenas por meio das pessoas. A verdadeira mudança, argumenta o autor, depende da capacidade de revisar as estruturas invisíveis que moldam comportamentos, decisões e culturas organizacionais.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
27 de julho de 2026 14H00
Após anos de perda de passageiros e desafios financeiros, o transporte coletivo brasileiro ganha um novo marco regulatório que busca ampliar fontes de financiamento, reduzir desequilíbrios tarifários e criar condições para mais investimentos em qualidade, eficiência e experiência do usuário.

Vinicius Ladeira - Diretor Adjunto Nacional do SEST SENAT

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
27 de julho de 2026 08H00
Enquanto o debate sobre inteligência artificial continua concentrado em modelos, automação e produtividade, uma outra transformação acontece nos bastidores: a tensão gerada entre a democratização e a concentração de poder que pode definir a próxima fase da economia global.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

8 minutos min de leitura
Liderança
26 de julho de 2026 13H00
Após décadas em grandes empresas, o autor trocou a segurança da carreira corporativa pelo desafio de empreender na gastronomia. Nesta reflexão, mostra por que os princípios que sustentam uma multinacional - planejamento, processos, gestão financeira e foco no cliente - são exatamente os mesmos que garantem o sucesso de um restaurante.

Caio Fontenelle - Fundador dos restaurantes Figueira, Oliv e Pepper Jack

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de julho de 2026 07H00
A IA pode economizar horas em atividades operacionais, mas seu maior valor talvez esteja em outro lugar: ampliar perspectivas, conectar ideias e elevar a qualidade das decisões. O desafio é entender quando estamos ganhando velocidade e quando estamos construindo algo melhor.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo