Inovação

A experiência de uma grande empresa com IA

Tassilo Festetics, vice-presidente de soluções globais da AB InBev, indica os principais desafios da transição vivenciada pela maior cervejaria do mundo

Compartilhar:

À medida que se torna mais usual, a inteligência artificial (IA) se integra às operações cotidianas das empresas tradicionais. É o que vem acontecendo, por exemplo, na Anheuser-Busch InBev, a maior cervejaria do mundo, e uma das maiores companhias de bens não duráveis de consumo rápido do planeta [controlada pelo fundo de investimentos 3G Capital, de brasileiros].  

Com uma atividade cervejeira que remonta a 1366 graças à empresa belga Interbrew, a AB InBev está descobrindo que a IA pode ajudar a organização em diversos campos, como precificação, gestão da cadeia de fornecimento e serviços administrativos. 

Uma transição como essa, no entanto, não costuma ser fácil. Como empresa de atuação global, a AB InBev tem dados dispersos – e dados são a matéria-prima da inteligência artificial. Além disso, até recentemente, poucos funcionários eram suficientemente capacitados para lidar com IA. 

O quadro começa a mudar, no entanto. Como vice-presidente de soluções globais, Tassilo Festetics vem supervisionando há dois anos as operações de tecnologia, análise de dados e back-office. Sua equipe está estruturando a inteligência artificial ao longo de toda a companhia – e tem feito isso muito rapidamente. 

A entrevista a seguir é resultado de uma conversa de Festetics com Philipp Gerbert, sócio sênior do Boston Consulting Group (BCG) e membro do BCG Henderson Institute.

**Quais têm sido as principais áreas de aplicação da IA nas empresas?**

Antes de tudo, é importante destacar que a inteligência artificial já está em todo lugar nas grandes empresas. A maioria delas vai conviver com IA em algum lugar, sabendo ou não.

Para começar, acho que precificação é um bom lugar. A atividade traz retornos significativos, que são diretamente mensuráveis. Além disso, há muitos dados disponíveis. 

Também há o back-office. A área administrativa sempre vem por último na maioria das empresas, porque não é a mais atraente, porém é preciso ter em mente que ela pode ser substancialmente transformada pelo machine learning. 

**Como fazer com que a mudança aconteça? Como conseguir que a alta direção “compre” a ideia?**

A resposta é bem fácil. Você mostra a eles o dinheiro. No momento em que surge o ganho financeiro, a mudança se torna muito mais fácil. Não é brincadeira: esse é o melhor caminho. Focar em iniciativas que tenham os mais altos retornos sem demora pavimenta a rota para as demais atividades. 

**Como envolver a equipe?**

Essa provavelmente é a parte mais decisiva – e também a mais complicada. Por um lado, é preciso contratar pessoas novas. Não somos uma empresa digital; somos uma companhia que está sendo digitalizada. Então, temos de trazer pessoas que entendam de inteligência artificial. 

Por outro lado, estamos treinando as pessoas que fazem parte da equipe. Por exemplo, levei todo o meu time, no ano passado, para [a University of California em] Berkeley, e passamos uma semana nos debruçando sobre machine learning e IA. 

**Em nossas pesquisas, observamos que desenvolver aplicações específicas para IA é a parte fácil da equação. O mais difícil é escalar para toda a empresa. Para você, quais são os desafios centrais?**

O primeiro desafio é a disponibilidade de dados e o acesso a eles. Nossa empresa vem trilhando um longo caminho de fusões e aquisições, e isso faz com que nosso panorama de dados se encontre em extrema fragmentação. E o segundo desafio é o que você mencionou: fazer com que os recursos e as capacidades da companhia estejam prontos para funcionar com algoritmos. 

**Quais as ações mais importantes até agora?**

Nós envolvemos nossa operação da Índia desde o início. Também iniciamos logo a contratação dos talentos certos e o desenvolvimento das capacidades que não tínhamos. O envolvimento com as universidades também foi importante; trabalhamos muito com o MIT [Massachusetts Institute of Technology], obviamente, mas também com universidades da Índia. É preciso ser capaz de construir uma marca forte nessa área de IA, de modo que essa marca consiga recrutar os recursos certos de que precisa. 

**Em retrospectiva, você teria feito algo diferente?**

Sim, teria investido bem mais cedo nas capacidades necessárias. Também teria destinado bem mais tempo à questão dos dados, fazendo isso desde o início. Se você for observar a maioria dos projetos que temos em andamento, verá que os especialistas em dados passam 60% a 70% do tempo lidando com a aquisição de informação, o que é uma enorme perda de tempo. O problema é que os dados se encontram muito fragmentados para nós. 

**Quais foram suas maiores surpresas?**

Muitas empresas organizam seu back-office em grandes prédios em que milhares de pessoas interagem e realizam transações. Minha surpresa foi perceber que, fazendo uma projeção, de cinco ou dez anos mais para frente, esses prédios não existirão mais; serão substituídos por um punhado de programadores lidando com algoritmos. 

**Qual a percepção dos funcionários da AB Inbev sobre o programa de inteligência artificial? E como vocês lidam com as eventuais preocupações deles?**

Essa percepção é diferente nos diversos níveis hierárquicos. E, é claro, há preocupações. 

Pense, por exemplo, na questão que eu mencionei anteriormente, sobre as atividades de back-office. Eu realmente acredito que essa área vai passar por uma total revolução. Mas é muito difícil se colocar diante da equipe e dizer: “Uau. Acho que a área administrativa vai desaparecer”.

Antes de tudo, eu não creio que os funcionários perderão seus empregos. Essas posições passarão por uma transformação. É preciso um processo de educação para que as pessoas não fiquem com medo, para que se conscientizem de que seus empregos estão evoluindo. Trata-se de desmistificar a transformação em curso. 

**Há algo nesse front que a AB InBev gostaria de aprender com outras empresas?**

Uma coisa que acho que nós não pensamos é como definir uma trajetória de carreira para os profissionais que estão trabalhando como campo da inteligência artificial. Estamos nos perguntando: “Como podemos dar uma perspectiva de carreira para essas pessoas? Como podemos garantir que elas não nos deixem assim que esse projeto de dois anos termine? Como fazer com que enxerguem oportunidades de crescimento em nossa companhia, sem a necessidade de mudar de trabalho constantemente?”

**Você pode nos dar um exemplo de como a IA contribuiu para a cadeia de fornecimento da InBev?**

Gerenciamos 400 cervejarias em todo o mundo. São fábricas repletas de máquinas que, como é natural, acabam quebrando. Quando isso acontece sem aviso prévio, interrompe-se toda a cadeia de produção e é preciso trocar o equipamento.  

Encontramos uma empresa que possui uma ferramenta de IA que “ouve” as máquinas e aprende a característica básica do barulho do motor. Alguns motores chegam a fazer cinco diferentes ruídos antes de quebrar. Isso foi uma ajuda enorme.

_© BCG_

_Editado com autorização. Todos os direitos reservados._

Compartilhar:

Artigos relacionados

O futuro do trabalho será criativo, conectado e escalável

A IA vai tirar empregos ou reinventar o trabalho? A pergunta mais comum sobre inteligência artificial ainda gira em torno da substituição de empregos. O artigo propõe uma reflexão sobre o futuro das carreiras, questionando a estrutura tradicional das organizações e defendendo um modelo em que pessoas se concentram cada vez mais em criar, conectar, verificar e escalar, enquanto a IA assume grande parte das atividades operacionais.

Criatividade deixou de ser campanha. Tornou-se estratégia.

O artigo defende que a criatividade deixou de ser um recurso pontual para se tornar uma capacidade organizacional capaz de conectar tecnologia, inovação, cultura e estratégia, sustentando o crescimento contínuo e a relevância das empresas no longo prazo.

O que os lugares ensinam sobre controle

Marca de empresa é criada, marca de lugar é descoberta. Os gestores corporativos têm muito o que aprender com o “place branding” sobre gerir algo que não tem dono

Circulando pelo mundo, com sotaque brasileiro

Os padrões abertos já permitem que uma credencial de competência seja lida em qualquer país. O que ela significa depende de quem constrói o trilho por onde ela passa. Europa e Ásia já fizeram essa escolha, e o Brasil tem todas as peças para fazer a sua.

Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
23 de outubro de 2026 08H00
A IA vai tirar empregos ou reinventar o trabalho? A pergunta mais comum sobre inteligência artificial ainda gira em torno da substituição de empregos. O artigo propõe uma reflexão sobre o futuro das carreiras, questionando a estrutura tradicional das organizações e defendendo um modelo em que pessoas se concentram cada vez mais em criar, conectar, verificar e escalar, enquanto a IA assume grande parte das atividades operacionais.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

10 minutos min de leitura
Estratégia, Marketing & growth
22 de outubro de 2026 15H00
O artigo defende que a criatividade deixou de ser um recurso pontual para se tornar uma capacidade organizacional capaz de conectar tecnologia, inovação, cultura e estratégia, sustentando o crescimento contínuo e a relevância das empresas no longo prazo.

Thais Lima - Diretora da MarkUp

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
22 de outubro de 2026 08H00
O artigo explora como a colaboração entre montadoras, startups, centros de pesquisa e programas de fomento está acelerando a criação de soluções centradas na experiência humana, mostrando que o futuro da mobilidade será construído pela capacidade de conectar tecnologia, ecossistemas de inovação e necessidades reais da sociedade.

Ana Claudia Didier -

4 minutos min de leitura
Marketing, Estratégia
21 de outubro de 2026 12H00
Marca de empresa é criada, marca de lugar é descoberta. Os gestores corporativos têm muito o que aprender com o “place branding” sobre gerir algo que não tem dono

Caio Esteves

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de outubro de 2026 08H00
Os padrões abertos já permitem que uma credencial de competência seja lida em qualquer país. O que ela significa depende de quem constrói o trilho por onde ela passa. Europa e Ásia já fizeram essa escolha, e o Brasil tem todas as peças para fazer a sua.

Carolina Ferrés - Diretora POK Brasil

Oferecido por POK Brasil
8 minutos min de leitura
ESG, Liderança
20 de outubro de 2026 08H00
Ao celebrar 13 anos de atuação, o Grupo Mulheres do Brasil reafirma seu compromisso com a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e diversa. Mas sua trajetória revela um impacto que vai além das causas e dos projetos: a força de uma rede capaz de conectar mulheres, criar oportunidades, fortalecer vínculos e promover desenvolvimento pessoal e coletivo.

Alexandra Segantin - CEO do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de outubro de 2026 14H00
Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

11 minutos min de leitura
Estratégia
19 de outubro de 2026 08H00
Este é o quinto artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira. Após examinarmos a posição global do país, o acesso a medicamentos e a capacidade científica e industrial, a conversa com Norberto Prestes, da Abiquifi, amplia a investigação para as conexões entre empresas, pesquisadores, universidades e financiamento. Como avaliar investimentos e resultados com informações pouco comparáveis? Entre orçamentos de P&D, incentivos acadêmicos e descobertas de pequenas equipes, buscamos parâmetros para examinar como o conhecimento se converte em aplicações, capacidade econômica e benefícios para a população.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
18 de outubro de 2026 15H00
Recursos avançados, aplicativos e conectividade impressionam, mas raramente são o motivo principal de uma decisão de compra. O que as pessoas realmente buscam é uma solução capaz de tornar a vida mais simples e agradável. O artigo explora por que o sucesso de produtos inteligentes depende menos das funcionalidades e mais da capacidade de entregar uma experiência intuitiva e consistente.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor responsável técnico da Hotfloor

5 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de outubro de 2026 09H00
Inclusão não se resume ao acesso ao emprego. Ela envolve reconhecimento, desenvolvimento, representatividade e perspectivas reais de carreira. O artigo reflete sobre os avanços conquistados, os desafios que persistem e o papel das organizações na construção de ambientes onde todas as pessoas possam prosperar.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução