Gestão de Pessoas

A fragilidade da relação de trabalho e os impactos na marca empregadora

O emprego está perdendo a centralidade identitária para o trabalhador e se tornando algo que viabiliza a realização de propósitos pessoais
Atua como consultora em projetos de comunicação, employer branding e gestão da mudança pela Smart Comms, empresa que fundou em 2016. Pós-graduada em marketing (FGV), graduada em comunicação (Cásper Líbero) e mestranda em psicologia organizacional (University of London), atuou por 13 anos nas áreas de comunicação e marca em empresas como Johnson&Johnson, Unilever, Touch Branding e Votorantim Cimentos. É professora do curso livre de employer branding da Faculdade Cásper Líbero, um dos primeiros do Brasil, autora de artigos sobre o tema em publicações brasileiras e internacionais e co-autora do livro Employer Branding: conceitos, modelos e prática.

Compartilhar:

Filmes e séries sempre colocaram temas de dinheiro e poder como centrais em diversas tramas e, de uns anos para cá, a conexão desses assuntos com o mundo do trabalho pela ótica de quem trabalha vem ganhando força em produções para TV. *The White Lotus* (especialmente na primeira temporada), *Severance*, *The Dropout* e *We Crashed*, só para citar algumas das mais recentes, exploram em diferentes contextos e intensidades o quanto o mundo do trabalho escancara o impacto de assimetrias econômicas e sociais em termos de possibilidades, espaços e, principalmente, de consequências para erros cometidos no ambiente organizacional.

Nos Estados Unidos, a mídia tem descrito o sucesso desses conteúdos como reflexo de um momento pós-pandemia em que o discurso “eat the rich”, algo como “comam os ricos”, ganha força. Na esfera do trabalho, ele se reflete em questionamentos sobre entregar seu tempo, talento e esforço a uma relação frágil, que parece beneficiar poucos e de forma muito desproporcional. As conversas já um pouco desatualizadas sobre a demissão silenciosa (o tal quiet quitting) acompanharam esse caminho em 2022 e talvez já sinalizassem uma ficha caindo sobre valer ou não a pena fazer esforço extra quando tudo pode terminar com uma ligação de 5 minutos ou uma mensagem no Slack.

Desde o começo de 2022, vejo reflexos mais intensos disso tudo na esfera de marca empregadora por aqui. Começou com um movimento bem crítico a qualquer demonstração de apreço pela empresa onde se trabalha – seja porque algumas pessoas postam seus kits de onboarding comemorando a chegada na empresa antes mesmo de verem se vai dar certo, seja porque postam textos de agradecimento quando deixam a empresa voluntaria ou involuntariamente. Uma passada rápida pelo Linkedin rende vários exemplos.

Do fim do ano para cá, com o número elevado de demissões em massa realizadas por diversas organizações – especialmente pelas startups (mas não só elas, importante dizer) – o tom da conversa aumentou. Não à toa: estamos vendo gente demitida depois de poucos meses de contratação e equipes desfeitas antes mesmo de terem a chance de mostrar resultados, a comunicação desses movimentos muitas vezes feitas sem qualquer tato e perfis profissionais normalmente muito disputados no mercado aparecendo nas planilhas de demitidos que circulam nas redes para ajudar na recolocação.

## Ninguém que precisa de um emprego para viver está a salvo
As postagens nas redes e as conversas cara a cara agora questionam CEOs que lamentam as decisões de demitir em massa, mas mantém seus salários ou até os reduzem, talvez mais para sinalizar preocupação do que para realmente sentir um impacto ao menos parecido com o de quem perde o emprego. Discutem a irresponsabilidade de contratar agora sem qualquer planejamento do que vem depois, sendo que as consequências disso para os indivíduos sempre são bem mais duras do que para as empresas que se reestruturam. Trazem à tona estudos que indicam que cortar pessoas é muitas vezes o jeito mais rápido, mas menos sustentável de resolver problemas. As antes celebradas filosofias de ganhar mais à base de intermináveis cortes de custos começam a ser questionadas ao estarem no cerne de organizações que tremeram em suas bases recentemente.

Talvez tenha sido sempre assim sempre e agora estejamos testemunhando um despertar mais numeroso sobre a fragilidade das relações de trabalho. No começo dos anos 2000, no livro Cultura Organizacional: identidade, sedução e carisma, a brilhante professora Maria Ester de Freitas escreveu sobre o trabalho tomando um espaço central da vida das pessoas ao passo que outras referências sociais – família, comunidade, religião, crença – perdiam espaço. Primeiro, porque precisávamos dedicar cada vez mais horas a “ganhar a vida”, depois, porque passamos a costurar nossas identidades pessoais às identidades profissionais de forma cada vez mais inseparável, encorajados, em parte, por discursos organizacionais altamente sedutores e pela validação social ampla de uma “carreira de sucesso”. Isso tudo é válido especialmente para os chamados “trabalhadores do conhecimento” e de maior renda, pois é importante entender da bolha de que estamos falando.

Agora, ouso dizer que estamos vendo uma outra transição, uma em que o trabalho perde essa centralidade identitária para ser algo que viabiliza o que realmente queremos ser e fazer da vida e que, muitas vezes, não é trabalho. E se o trabalho for minimamente alinhado ao nosso propósito pessoal, melhor. Afeto envolvido? Até pode ser, mas de forma cada vez mais cuidadosa, porque a gente sabe que pode se machucar a qualquer momento, então melhor proteger os sentimentos e deixá-los para as relações mais profundas.

## O que isso tudo significa para o trabalho de marca empregadora?
Do lado das empresas, mais pé no chão, penso eu. Mais coragem para falar claramente o que se oferece às pessoas e o que se espera delas em troca, tudo isso em tons mais voltados a informar do que apenas encantar – ou com clareza sobre o momento certo para cada coisa. Percebo, também, a escalada de atributos de solidez, estabilidade e segurança nos itens valorizados em empregadores e que antes pareciam chatices diante de tanta coisa mais sedutora oferecida ao redor. Do lado das pessoas, espero que tenhamos talentos mais letrados em leituras de balanços e de cenários de mercado ao fazerem escolhas de carreira, porque se tem algo que tempos assim deveriam ensinar é olhar para fundamentos.

Para aqueles que têm o privilégio de trabalhar para suprir algo além do básico, está ficando cada vez mais evidente a necessidade de entender e limitar o espaço que o trabalho pode ocupar na vida – e as escolhas de carreira serão cada vez mais pautadas por isso. Agora, cabe ver como tudo isso se desenrola em um contexto em que o poder de escolha volta a estar mais nas empresas – sempre está, mas há ciclos em que o cenário se equilibra um pouco melhor – e observar se os esforços por marcas empregadoras fortes eram apenas contextuais ou realmente pautados por posicioná-las de forma verdadeira diante dos talentos.

– *The White Lotus* e *Succession* estão disponíveis na plataforma HBO+; *WeCrashed* e *Severance* na Apple TV+ e *The Dropout* na Star+
– Em uma reunião recente, a expressão “caiu a ficha” surgiu e nos perguntamos: “qual é o jeito mais novo de dizer isso?”. Alguém ajuda?

Compartilhar:

Artigos relacionados

Executivos estão estudando contabilidade para chegar ao C-level. Eu fiz o caminho inverso.

O artigo reflete sobre a evolução da carreira financeira e sobre o papel da contabilidade como ferramenta de gestão, mostrando que lucro, sozinho, raramente conta a história completa de uma empresa. Mais do que interpretar demonstrações financeiras, entender balanços, fluxo de caixa e capital de giro tornou-se uma competência essencial para líderes que desejam crescer de forma sustentável, tomar decisões mais consistentes e enxergar riscos e oportunidades antes que eles apareçam nos resultados.

Segurança cibernética: o orçamento está protegendo os riscos certos?

O crescimento das ameaças digitais exige mais do que aumentar recursos destinados à segurança cibernética. Exige compreender quais riscos realmente importam para o negócio. O artigo explora por que as organizações precisam abandonar modelos baseados na inércia e adotar uma lógica orientada por risco para direcionar seus investimentos.

O Brasil tem muitos fundos ou muito risco? O que os números realmente mostram

O Brasil lidera os rankings globais em número de fundos de investimento, mas essa estatística nem sempre é interpretada corretamente. O artigo analisa a diferença entre quantidade de veículos e volume de patrimônio administrado, discutindo por que a elevada quantidade de fundos pode refletir características regulatórias e de transparência do mercado brasileiro, e não necessariamente riscos associados à opacidade ou à ocultação patrimonial. Mais do que um debate sobre números, a reflexão propõe uma análise crítica sobre regulação, rastreabilidade e o papel da indústria de fundos no financiamento da economia.

Liderança
3 de novembro de 2026 14H00
O artigo reflete sobre a evolução da carreira financeira e sobre o papel da contabilidade como ferramenta de gestão, mostrando que lucro, sozinho, raramente conta a história completa de uma empresa. Mais do que interpretar demonstrações financeiras, entender balanços, fluxo de caixa e capital de giro tornou-se uma competência essencial para líderes que desejam crescer de forma sustentável, tomar decisões mais consistentes e enxergar riscos e oportunidades antes que eles apareçam nos resultados.

Darcio Zarpellon - Diretor Financeiro (CFO) e membro certificado do Conselho de Administração (CCA-IBGC | CFO-BR IBEF)

6 minutos min de leitura
ESG
3 de novembro de 2026 08H00
Velocidade, por si só, não garante melhores decisões. A partir das recentes mudanças nos processos normativos da CVM, o artigo propõe uma reflexão sobre os desafios de conciliar eficiência, excelência técnica e diversidade de perspectivas na construção regulatória.

Renata Oliva Battiferro - Diretora Executiva e Head do Investors Group do 30% Club Brazil

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
2 de novembro de 2026 15H00
Dados não estruturados, documentos físicos e processos legados impactam a adoção da IA e por que a automação inteligente se tornou uma peça-chave dessa transformação. O texto explora por que a preparação dos dados pode ser mais importante do que a própria tecnologia.

Alexandre Cardoso - Business Development Manager da Ricoh LATAM

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
2 de novembro de 2026 08H00
O crescimento das ameaças digitais exige mais do que aumentar recursos destinados à segurança cibernética. Exige compreender quais riscos realmente importam para o negócio. O artigo explora por que as organizações precisam abandonar modelos baseados na inércia e adotar uma lógica orientada por risco para direcionar seus investimentos.

Ricardo Moraes - Sócio-líder de segurança cibernética e Daniel Pacheco - Sócio-líder de consultoria em tecnologia da KPMG no Brasil

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Estratégia
1º de novembro de 2026 15H00
O mercado de saúde vive um novo ciclo de fusões e aquisições impulsionado pela busca por capacidades estratégicas já consolidadas. O texto mostra como infraestrutura, conhecimento regulatório, tecnologia e acesso a clientes estão se tornando ativos cada vez mais valiosos para empresas que precisam acelerar sua expansão.

Sergio Luconi - Sócio-diretor da Zaxo M&A Partners

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
1º de novembro de 2026 08H00
O Brasil lidera os rankings globais em número de fundos de investimento, mas essa estatística nem sempre é interpretada corretamente. O artigo analisa a diferença entre quantidade de veículos e volume de patrimônio administrado, discutindo por que a elevada quantidade de fundos pode refletir características regulatórias e de transparência do mercado brasileiro, e não necessariamente riscos associados à opacidade ou à ocultação patrimonial. Mais do que um debate sobre números, a reflexão propõe uma análise crítica sobre regulação, rastreabilidade e o papel da indústria de fundos no financiamento da economia.

José Roberto Meirelles - Sócio da área de mercado de capitais e fundos de investimento do Silveiro Advogados

5 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Liderança
31 de outubro de 2026 15H00
A partir de referências históricas e filosóficas que atravessam de Hegel a Beethoven, o artigo propõe uma reflexão sobre os valores que parecem ganhar força na sociedade contemporânea. Em um cenário marcado por transformações políticas, sociais e culturais, temas como autonomia, propósito, afeto, pertencimento e responsabilidade compartilhada surgem como elementos centrais para compreender os desafios do presente.

André Naves - Defensor Público Regional de Direitos Humanos em SP, Comendador Cultural, Escritor e Professor

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Estratégia
31 de outubro de 2026 08H00
Conselhos, mentorias, projetos estratégicos, participações societárias e posições temporárias estão redesenhando o papel dos executivos mais experientes.

Renata Fabrini - Sócia-fundadora da Plongê

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de outubro de 2026 15H00
O artigo reflete sobre os riscos das chamadas “câmaras de eco algorítmicas” e sobre o papel da IA na construção de decisões mais robustas e menos complacentes.

Ricardo Scheffer - CEO da SONDA do Brasil

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
30 de outubro de 2026 08H00
Ferramentas generativas estão acelerando a produção de conteúdo nas áreas de comunicação e relações públicas. O desafio é que rapidez não substitui contexto, discernimento nem responsabilidade.

Ana Paula Soares - Diretora-fundadora da Encaso Comunicação

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

CAPA_HSM_30_ANOS-1_pages-to-jpg-0001

Acesse agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #175

EDIÇÃO ESPECIAL DE 30 ANOS DA HSM MANAGEMENT