Sustentabilidade

A Mulher da Cultura Netflix

Conheça Patty McCord, a autora do “mais importante documento que já foi criado no Vale do Silício”

Compartilhar:

**Vale a leitura porque…**

… o arquivo de PowerPoint “Netflix Culture: Freedom & Responsibility” já teve mais de 13 milhões de compartilhamentos, e personalidades da gestão como Sheryl Sandberg, executiva-chefe de operações do Facebook, admitem ser muito influenciadas por ele.

… sua autora, a ex-diretora de talentos da Netflix, Patty McCord, agora vem estendendo os princípios-chave ali descritos a mais empresas, como Warby Parker e Birchbox. 

É fácil esquecer que antes de ter se tornado a gigante do streaming de filmes que é hoje, com sucessos como House of Cards, Making a Murderer e Orange Is the New Black, a Netflix era uma empresa de entrega de DVDs por correio. É difícil imaginar, agora, que o maior serviço de filmes por assinatura do mundo, que deixa os executivos das redes de televisão de cabelo em pé, já foi um negócio de varejo de ruptura para a Blockbuster. 

Parte de como a companhia foi transformada tão rapidamente tem a ver com sua reverenciada cultura de trabalho, registrada em um arquivo de PowerPoint de 124 slides, compartilhado mais de 13 milhões de vezes pelo Slideshare e considerado por Sheryl Sandberg, do Facebook, “o mais importante documento que já foi criado no Vale do Silício”. A pessoa que assina “Netflix Culture: Freedom & Responsibility” (Cultura Netflix: liberdade e responsabilidade, em tradução livre) era a diretora de talentos da Netflix na época, Patty McCord. 

“O cofundador da Netflix, Reed Hastings, e eu já havíamos trabalhado juntos em outro lugar e não gostávamos de como estava quando o deixamos”, disse McCord, que agora atua como consultora de empresas sobre liderança e cultura. “Era uma companhia como outra qualquer.” 

Então, os dois decidiram iniciar um tipo diferente de organização. Em vez de listar seus valores principais, como todas faziam, McCord decidiu relacionar as coisas que a empresa valorizaria, o que importaria para ela e o que seria esperado das pessoas. Por exemplo, se a empresa queria contar com colaboradores corajosos, também queria que eles soubessem o que é e o que não é “coragem”. 

O resultado foi o documento que evidencia a demanda por funcionários autossuficientes que se sintam responsáveis pela empresa. Nenhuma palavra sobre política de férias ou de viagens nem sobre avaliações anuais de desempenho. De acordo com McCord, é uma cultura que tem como objetivo atrair apenas “adultos completamente formados”. “Se você examinar a mente de um inovador, verá que ele nunca diz ‘Eu sei o que devemos fazer: olhar em volta, ver o que todos estão fazendo e, então, fazer um pouquinho melhor’”, comentou McCord. “Nós simplesmente assumimos riscos nos assuntos ligados a pessoas, da mesma forma como os assumimos naqueles ligados ao negócio.” 

Não houve nenhum processo formal para que a Netflix alcançasse sua “cultura sem processos formais”. Enquanto criava a cultura corporativa, McCord se certificou de não receber influência de outras organizações – e do que faziam com a cultura delas. Chegou a deixar de ler notícias sobre empresas e só participava de uma conferência de recursos humanos a cada dois ou três anos. Quando isso acontecia, ficava frustrada com as conversas e voltava ao isolamento, dentro dos muros da Netflix.

“O que eu via entre meus colegas, quando frequentava esses encontros de RH, eram pessoas reclamando por não terem um assento à mesa de comando nem o respeito de seu CEO, falando sobre como conseguir o reconhecimento merecido. Isso tudo me irritava”, confessou McCord. “Como consigo um assento à mesa? Faça por merecer, oras. Como consigo reconhecimento? Faça algo que mereça ser reconhecido.” 

“Cansei da atitude de bebê. Não, você não fica se queixando de sua camiseta, porque já está com 40 anos, tem um financiamento da casa própria, uma família, um carro. Sou eu que devo dizer qual a política orçamentária para o dinheiro a ser gasto em seu departamento? Isso é loucura”, continuou ela.

Ou seja, para descobrir o que funcionaria para a Netflix, McCord se fechou para o mundo. Ela se arriscou para testar pessoas e o modo como trabalhavam. Decidiu que, se isso mostrasse ser a coisa mais tola que já haviam feito, eles simplesmente mudariam e fariam qualquer outra coisa. Afinal, a cultura era “somente uma apresentação de PowerPoint”, como explicou McCord, querendo dizer que poderia ser mudada a qualquer tempo. 

**OS 7 ITENS DO HISTÓRICO DOCUMENTO**

**1. OS VALORES (NOVE):**

• tomada de decisões com perspectiva estratégica;

• comunicação precisa, com respeito pelo outro;

• foco em resultados, antes de processos;

• curiosidade para aprender rapidamente sobre a estratégia, o mercado, os clientes e os fornecedores da empresa;

• capacidade de inovar, buscando soluções práticas para problemas e ajudando a manter a companhia ágil;

• coragem para dizer o que pensa, tomar decisões, assumir riscos e avaliar ações de acordo com os valores Netflix;

• paixão por excelência, que inspira os outros;

• honestidade para admitir erros e discordar dos outros;

• desprendimento, para pensar antes na companhia e depois em objetivos individuais e ajudar colegas. 

**2. ALTO DESEMPENHO.** Diz respeito a efetividade, e não necessariamente a trabalho duro. As pessoas são avaliadas com base em como, quão rápido e quão frequentemente entregam o trabalho. Atuar em equipe é obrigatório. 

**3. LIBERDADE E RESPONSABILIDADE.** Privilegiam-se o alto desempenho, a autodisciplina e a criatividade, e não regras e procedimentos, crendo que é assim que se evita o caos e se continua a crescer, apesar das mudanças de mercado. 

**4. CONTEXTO, EM VEZ DE CONTROLE.** Os gestores devem definir o contexto para sua equipe, em vez de tentar controlá-la. O contexto tem de ligar o trabalho aos objetivos da empresa e indicar sua prioridade, o grau de precisão esperado, os stakeholders e as principais métricas. 

**5. ALINHAMENTO FORTE, UNIÃO LEVE.** Refere-se à convocação de poucas reuniões, à confiança entre as equipes, à possibilidade de líderes contarem com coordenadores e à revisão ocasional de planos e táticas para aperfeiçoar o alinhamento. 

**6. REMUNERAÇÃO ELEVADA.** A Netflix só quer pessoas de alto desempenho, que fazem mais e custam menos. Em vez de bônus e benefícios, estas são recompensadas com salários acima do mercado. 

**7. PROMOÇÕES E DESENVOLVIMENTO.** A Netflix não tem de ser um empregador para toda a vida. Para alguém ser promovido, é necessário que cuide de uma tarefa maior e que já tenha se tornado uma superestrela na posição atual. E cada pessoa deve se desenvolver por conta própria.

**Fonte:** _“Netflix Culture: Freedom & Responsibility”._

**A ESSÊNCIA DA FILOSOFIA MCCORD**

Férias ilimitadas e inexistência de avaliações de desempenho são apenas dois dos pontos estranhos da filosofia de Patty McCord. Aplicando seus princípios-chave de cultura organizacional como executiva da Netflix e consultora de empresas, entre as quais Warby Parker e Birchbox, ela os divide em quatro: 

**1. Jogar fora os manuais de gestão**

McCord observa que alguns executivos de startups implantam estrutura, como hierarquia complexa e sistemas de remuneração, tão logo conseguem investimento para seu negócio. Para ela, isso está errado; imitar uma empresa estabelecida pode inibir a inovação quando os colaboradores tiverem de ficar correndo atrás de aprovações dos gerentes. 

A consultora recomenda que as pequenas entrantes, como uma empresa de três anos com 75 funcionários, deixem para lá os sistemas e foquem em progredir. 

**2. Pensar como um treinador esportivo**

Quando todos trabalham por longas horas, as relações podem ser encaradas como se as pessoas fossem da mesma família, mas essa é uma dinâmica que ofusca a capacidade de julgamento quando é necessário dispensar alguém. 

Na Netflix, McCord repetia “Somos uma equipe, não uma família” e estimulava os executivos a tratar os funcionários como jogadores de um time de atletas profissionais, no qual sempre pode haver cortes, e não como amigos. 

**3. Ligar benefícios a propósitos**

Alguns benefícios populares nas empresas de tecnologia, como redes de dormir no local de trabalho e chefs de cozinha particulares, são o caminho para o ridículo, na visão de McCord. Em vez disso, ela sugere que se conectem esses extras aos valores da empresa. 

Se você administra uma varejista que doa roupas para crianças, por exemplo, envie seus colaboradores para um país em desenvolvimento a fim de entregarem as peças. “Os benefícios são criados para tornar as pessoas mais felizes no trabalho, mas não se chega a lugar nenhum só dando mais coisas a elas”, afirma a especialista. 

**4. Ter funcionários inexperientes – e ser franco com eles**

McCord diz que, se a novata Warby Parker tivesse empregado só veteranos do varejo, estes talvez tivessem tentado impedir os fundadores de abrir um showroom quando o setor começava a tornar-se digital. 

Para que sempre se corram riscos, ela recomenda incluir amadores na equipe, mas deixando claro a eles que, se suas ideias não derem certo, será feito o melhor para a empresa. Essa transparência é a chave para a construção de uma cultura baseada em confiança, de acordo com McCord.

**EQUIPE, NÃO FAMÍLIA**

Em 2012, Reed Hastings pediu a McCord que deixasse a empresa. Seu trabalho havia terminado, uma vez que a cultura estava claramente definida e o momento de transição que o negócio vivia requeria outras habilidades.

McCord perdeu seu emprego na Netflix graças à eficiência de seu sistema. Uma abordagem de RH segundo a qual a empresa não é uma família, e sim uma equipe, leva à demissão dos que perdem relevância para o negócio, sejam eles quem forem.

O fato é que, nos 14 anos em que foi diretora de talentos da empresa, McCord e sua abordagem nada convencional de RH formaram uma força de trabalho capaz de transformar um serviço de DVDs por correio em uma gigante do entretenimento mundial. E mais: em ícone da gestão de pessoas.

**Você aplica quando…**

… compartilha o objetivo de Reed Hastings e Patty McCord de atrair só adultos que não queiram ser tratados como “bebês”.

… adota no mínimo os quatro princípios-chave de McCord ou, então, o documento da cultura Netflix integralmente.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Mudar para continuar o mesmo

Ao visitar um dos vinhedos mais renomados de Bordeaux, o autor encontrou uma reflexão que ultrapassa o universo do vinho e alcança empresas, famílias e instituições. A decisão do Château Lafleur de abandonar uma denominação de origem histórica revela um dilema cada vez mais presente nas organizações: como preservar princípios e identidade em um mundo que exige adaptação constante?

SOMPO Holdings: da crise provocada por si mesma a uma transformação guiada por propósito

Após mergulhar em uma crise provocada por escândalos que abalaram sua credibilidade, a SOMPO Holdings encontrou na liderança de Mikio Okumura o impulso para redefinir sua identidade. Inspirado por aprendizados adquiridos no Brasil, o executivo promoveu uma transformação que combinou propósito, tecnologia e foco no cliente para reconstruir a confiança e conduzir a seguradora a resultados recordes.

Por que lavar as mãos ainda é uma das maiores armas da medicina?

Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Vamos falar sobre vendas?

Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Se o estagiário lidera a reunião, quem é o líder?

Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

Inovação & estratégia, Marketing
14 de agosto de 2026 13H00
Ao visitar um dos vinhedos mais renomados de Bordeaux, o autor encontrou uma reflexão que ultrapassa o universo do vinho e alcança empresas, famílias e instituições. A decisão do Château Lafleur de abandonar uma denominação de origem histórica revela um dilema cada vez mais presente nas organizações: como preservar princípios e identidade em um mundo que exige adaptação constante?

Antonio Carlos Matos da Silva - Conselheiro independente associado ao IBGC

5 minutos min de leitura
Liderança
14 de agosto de 2026 08H00
Após mergulhar em uma crise provocada por escândalos que abalaram sua credibilidade, a SOMPO Holdings encontrou na liderança de Mikio Okumura o impulso para redefinir sua identidade. Inspirado por aprendizados adquiridos no Brasil, o executivo promoveu uma transformação que combinou propósito, tecnologia e foco no cliente para reconstruir a confiança e conduzir a seguradora a resultados recordes.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

13 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de agosto de 2026 14H00
Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Marcos Gurgel - Diretor Comercial na divisão Avitum da B. Braun Brasil

4 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Vendas
13 de agosto de 2026 08H00
Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança
12 de agosto de 2026 14H00
Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
12 de agosto de 2026 08H00
O artigo defende que o verdadeiro valor surge quando a IA deixa de operar de forma isolada e passa a integrar toda a jornada de negócio, conectando pessoas, processos, dados e governança em um único sistema de performance.

Guilherme Stefanini - CMO do Grupo Stefanini, CEO da Stefanini Marketing e sócio da W3haus e Gauge.

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo