Artigo

A neurociência da mudança

Mudanças são frequentes no dia a dia, e nosso cérebro está programado para resistir a elas. Mas nós não vivemos mais em cavernas e, por isso mesmo, temos à disposição os mecanismos para assimilarmos um processo de transição – e evoluirmos
Flora Alves é líder de aprendizado (CLO, na sigla em inglês) da SG Aprendizagem Corporativa. Tatiany Melecchi ocupa o mesmo cargo na Transforma People & Performance Consultoria.

Compartilhar:

Planejar e implementar mudanças de maneira ágil e bem-sucedida é fundamental para as organizações. Mas a forma como fazemos essa gestão se mostra cada vez mais ultrapassada. Como consequência, de acordo com a McKinsey, entre 50% e 70% das iniciativas para mudar algo falham devido à resistência das pessoas.

Mudança é algo executável, factual, que pode estar em um plano com metas e prazos. Já a transição é a resposta psicológica humana à mudança. William Bridges, autor de Managing Transitions, diz que, com muita frequência, a liderança falha ao se concentrar apenas na mudança, deixando de gerir a transição. Esse processo exige que as pessoas aceitem e participem.

Coloque em prática

Highlights da pesquisa

– Mapas e marcos visuais ajudam as pessoas a identificar que estão no caminho certo.
– Comunique os hábitos que precisam ser implementados e dê suporte para que as pessoas consigam desenvolvê-los.
– Seja uma presença constante. O líder deve ser fonte de apoio.
– Propósito, autonomia e maestria são os pilares da motivação, segundo Daniel Pink em seu livro Motivação 3.0. Processos de mudança abalam esses pilares: esteja atento e cultive cada um deles.
– Empatia é fundamental.

![071-074 – ilustra1](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/2G5wiypQOEH3uetHhJOM70/f9c922707bb889926af920a51ffe9774/071-074_-_ilustra1.png)

Nós somos programados biologicamente para resistir às mudanças, o que garantiu a sobrevivência de nossa espécie. Uma transição mal gerida pode potencializar a resistência, gerando custos elevados, muitas vezes irrecuperáveis.

O custo não é tudo. Uma mudança fracassada pode prejudicar a satisfação dos clientes e o engajamento dos colaboradores. O relatório *State of the Global Workforce* mostra que, no Brasil, 13% da força de trabalho está ativamente desengajada.

Para gerir mudanças, é preciso considerar as dimensões e incluir estratégias que contemplem a resposta das pessoas. O modelo de jornada de mudança, criado por Britt Andreatta e apresentado em seu livro *Programado para resistir*, apresenta uma nova forma de conduzir a transição, com ferramentas para a implementação de mudanças com sucesso.

Biologicamente, as mesmas estruturas que nos ajudam a sobreviver nos impedem de agir quando uma mudança é apresentada. Quatro estruturas cerebrais atuam nesse processo. A amígdala é responsável pelo medo e faz com que, por meio de nossos sentidos, identifiquemos a mudança como um perigo potencial. O córtex entorrinal é responsável por criar mapas tridimensionais que facilitam a navegação em espaços físicos e estruturas sociais, diminuindo o gasto de energia para a execução de tarefas cotidianas. Os gânglios basais capturam nossos comportamentos frequentes e os transformam em hábitos – quando uma mudança surge, vem a necessidade de adquirir novos hábitos e abandonar antigos. A quarta estrutura é a habênula, que atua como centro de prevenção de fracassos e relutância para mudanças futuras. Ela libera substâncias químicas que causam bem-estar quando fazemos algo considerado certo.

No mundo organizacional, as mudanças são frequentes e se sobrepõem. Ou seja, estamos constantemente em estado de alerta. Como resultado, as pessoas ficam ansiosas, preocupadas. É assim que rumores de cortes no orçamento, demissões e fusões se espalham, e é assim que os níveis de ansiedade, estresse e fadiga disparam.

## Os tipos de mudança
A neurociência da mudança nos ajuda a compreender essas emoções e como lidar com elas. A conhecida curva da mudança, elaborada a partir da pesquisa de Elisabeth Kübler-Ross, foi muito estudada por pesquisadores de diversas áreas, que perceberam que o modelo parecia ser aplicável a todo tipo de mudança pessoal. Se você fizer um paralelo com o que experimentamos com a pandemia, fica fácil compreender cada etapa e suas emoções.

![071-074 – ilustra2](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/DtafPKy5X2BMuxu85II2K/e983b7905be8f7b5eb168f178374f5e6/071-074_-_ilustra2.png)

Na primeira metade da curva, sentimos as emoções mais negativas, pois estamos presos ao passado e às possíveis perdas. Isso é fruto do instinto de sobrevivência. No meio da curva surge a resignação. Aqui, as pessoas podem desistir ou, como desejamos que aconteça, embarcar emocionalmente na mudança.

O método analisa esses aspectos e propõe alterações na curva, de modo que ela represente uma montanha: só é possível vislumbrar os eventuais ganhos futuros ao chegar ao cume. São quatro tipos de curva, cada uma com emoções distribuídas de maneira diferente {veja mais no quadro acima}.

Você pode usar esse modelo para mapear, identificar e prever mudanças. É fundamental analisar a sobreposição de curvas, sinalizando no mapeamento eventos que acontecem periodicamente no ano fiscal da organização. Isso dá condições para identificar os períodos em que seu time tende a dar sinais de estresse.

## Os participantes e seus papéis
__Planejadores da expedição:__ são os executivos e líderes que determinam a estratégia para o futuro. Também podem ser gerentes de nível médio e funcionários, já que às vezes ideias e planos de mudança vêm da linha de frente da organização. A eles cabe identificar os pontos de partida e de chegada, traçar a rota e analisar os detalhes.

![Thumbs HSM 156-03](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/ATuHjRYTYhNnBPzaQt2Yl/6a2752e51b2ba32a0da21d01ea7984f4/Thumbs_HSM_156-03.jpg)

![Thumbs HSM 156-04](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/4zn3FXrvVxcozTQb9toyvq/b47323d90f74f6dc0954f3a530886c8c/Thumbs_HSM_156-04.jpg)

__Desbravadores:__ são responsáveis por colocar tudo no lugar, permitindo que os viajantes concluam a jornada com sucesso. Eles assumem muitas formas e frequentemente envolvem serviços administrativos importantes. Alguns exemplos de áreas que atuam como desbravadores são: tecnologia, recursos humanos, aprendizagem corporativa, finanças e compras.

__Guias:__ cada um deles tem uma experiência única, a fim de conduzir grupos específicos de viajantes, com as próprias habilidades, competências e motivações. Bons guias cuidam das necessidades de seu pessoal e fornecem o que eles precisam.

__Viajantes:__ os colaboradores, responsáveis por fazer a mudança acontecer, independentemente do tipo de jornada.
A mesma pessoa pode desempenhar mais de um papel. Um líder de TI pode ser desbravador, ao preparar o caminho para todos da organização, e guia do próprio time.

## Mapear a motivação dos funcionários
Além da resposta natural de resistência às mudanças, dois outros fatores influenciam o engajamento das pessoas. Estamos falando de desejo e escolha. Aqueles que desejam a mudança, e escolhem fazer parte dela, influenciarão os demais. Os que desejam uma mudança, mas não a escolheram, caminham em direção a ela e aproveitam a oportunidade. Um bom exemplo é a oferta de uma bolsa de estudos em um momento de carreira não muito oportuno.

Por sua vez, há os que não desejam a mudança, mas acabam escolhendo-a, – esses aceitam mudar; são aqueles que parecem se arrastar em direção a ela. E, em quarto lugar, há os que não desejam a mudança nem a escolhem. Estes são os que oferecem maior risco à organização, pois poderão lutar contra a mudança. Constituem o perfil que requer maior atenção e cuidado dos líderes.

Artigo publicado na HSM Management nº 156.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que alguns eventos entram para a história e outros são esquecidos na semana seguinte

Por trás dos maiores eventos do mundo existe um trabalho que começa muito antes da abertura dos portões. Leitura de cenário, curadoria estratégica, construção de comunidade e a capacidade de reunir as pessoas certas explicam por que alguns encontros se tornam plataformas de influência, inovação e negócios, enquanto outros permanecem apenas como eventos.

O fim da guerra fiscal: como a Reforma Tributária pode mudar a logística brasileira

Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Saudável, gostoso e acessível: a equação que desafia a indústria de alimentos no Brasil 

Reduzir açúcar, sódio e gorduras sem comprometer sabor, performance culinária e competitividade de preço tornou-se uma das equações mais complexas da indústria de alimentos. O artigo explora como mudanças regulatórias, comportamento do consumidor e inovação tecnológica estão redefinindo estratégias de produto, marketing, cadeia de suprimentos e crescimento no setor de bens de consumo.

A fadiga de decidir em tempos de excesso

Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.

Quanto custa quando o sistema para? Alguns minutos fora do ar podem custar milhões

À medida que organizações se tornam dependentes de ambientes digitais para sustentar suas operações, a indisponibilidade de sistemas passa a representar muito mais do que uma questão técnica. O artigo mostra por que calcular o impacto real de uma falha exige uma visão integrada entre tecnologia, finanças, operação e governança, e como essa análise pode orientar decisões críticas sobre modernização e resiliência dos negócios.

Marketing & growth
23 de agosto de 2026 08H00
Por trás dos maiores eventos do mundo existe um trabalho que começa muito antes da abertura dos portões. Leitura de cenário, curadoria estratégica, construção de comunidade e a capacidade de reunir as pessoas certas explicam por que alguns encontros se tornam plataformas de influência, inovação e negócios, enquanto outros permanecem apenas como eventos.

Evandro Monteiro - CEO da Origami Marketing e Eventos.

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
22 de agosto de 2026 14H00
Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Caio Navarro - Fundador e CEO da consultoria Hand

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Bem-estar & saúde, Marketing & growth
22 de agosto de 2026 07H00
Reduzir açúcar, sódio e gorduras sem comprometer sabor, performance culinária e competitividade de preço tornou-se uma das equações mais complexas da indústria de alimentos. O artigo explora como mudanças regulatórias, comportamento do consumidor e inovação tecnológica estão redefinindo estratégias de produto, marketing, cadeia de suprimentos e crescimento no setor de bens de consumo.

Mayara Marcon - Head de Marketing na Lightsweet

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
21 de agosto de 2026 18H00
Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.

Rose Kurdoglian - Fundadora da RK Mentoring Hub

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de agosto de 2026 14H00
À medida que organizações se tornam dependentes de ambientes digitais para sustentar suas operações, a indisponibilidade de sistemas passa a representar muito mais do que uma questão técnica. O artigo mostra por que calcular o impacto real de uma falha exige uma visão integrada entre tecnologia, finanças, operação e governança, e como essa análise pode orientar decisões críticas sobre modernização e resiliência dos negócios.

Philippe Rosa - Diretor de Inovação e Novos Negócios da TQI

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
21 de agosto de 2026 08H00
Por que a metáfora mais repetida do momento também é a mais mal compreendida pelas lideranças

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

8 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
20 de agosto de 2026 14H00
Ao reduzir distorções tributárias que incentivavam a internalização de atividades, o novo sistema tende a estimular terceirizações, fortalecer o mercado B2B e abrir espaço para novos modelos de negócio, criando oportunidades para empresas capazes de se posicionar como parceiras estratégicas de seus clientes.

Frederico Turolla - Sócio Fundador da Pezco Economics, Presidente do PSP Hub e Coordenador do Comitê de Economia e Infraestrutura da SWISSCAM - Câmara de Comércio Suíço Brasileira.

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
20 de agosto de 2026 08H00
Embora as máquinas assumam atividades repetitivas e analíticas, competências como liderança, criatividade, pensamento crítico, negociação e julgamento continuam sendo essencialmente humanas. O desafio das empresas será criar ambientes em que essas capacidades atuem de forma integrada para impulsionar inovação e crescimento.

Ricardo Scheffer - CEO da SONDA no Brasil

3 minutos min de leitura
User Experience, UX, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de agosto de 2026 14H00
Consumidores estão mais exigentes, mais conectados e menos tolerantes a experiências frustrantes. Ao mesmo tempo, os avanços em inteligência artificial estão permitindo que startups evoluam da simples automação para modelos capazes de interpretar contexto, tomar decisões e resolver demandas de forma autônoma. O resultado é uma nova lógica de crescimento baseada na qualidade da resolução, e não apenas na velocidade do atendimento.

Alan Schulte - Vice-presidente de Vendas para Startups e PMEs da Zendesk na América Latina.

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de agosto de 2026 08H00
Enquanto o Congresso debate mudanças na jornada de trabalho, empresas já precisam lidar com uma pergunta prática: como reorganizar pessoas, escalas e recursos sem comprometer produtividade, atendimento e sustentabilidade financeira? Neste cenário, dados, planejamento e governança tornam-se ferramentas essenciais para transformar incerteza regulatória em vantagem competitiva.

Marcelo Gomes - CEO da Nexti

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo