Empreendedorismo

A nova era do empreendedorismo

Pandemia provoca paradoxos no mercado de trabalho, altera estereótipos e ressalta o heroico empreendedorismo feminino
Elisa Rosenthal é a diretora presidente do Instituto Mulheres do Imobiliário. LinkedIn Top Voices, TEDx Speaker, produz e apresenta o podcast Vieses Femininos. Autora de Proprietárias: A ascensão da liderança feminina no setor imobiliário.

Compartilhar:

O ano de 2021 começa com a sinalização de um importante marco para o universo empreendedor: o maior número de empreendedores na história do Brasil. 

O aumento substancial de pessoas que decidiram empreender no país não ocorre exatamente por vocação e sim, principalmente, por necessidade.

Foram quase [2 milhões de novos empreendedores](https://atarde.uol.com.br/economia/noticias/2153508-brasil-ganha-mais-de-2-milhoes-de-mei-em-2020), segundo dados do Portal do Empreendedor, do governo federal. Somado às mais de 7,5 milhões de micro e pequenas empresas, esse setor representa 99% dos negócios privados e 30% do Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e serviços produzidos) do país.

Com isso, o Brasil alcançou um total de 11,3 milhões de MEIs ativos, 20% a mais do que no fim de 2019, quando o segmento tinha 9,4 milhões de registros.

## Espaço no mercado de trabalho 

No ano que tivemos o maior afastamento das mulheres do mercado de trabalho nas últimas três décadas, o volume no empreendedorismo pode indicar um caminho possível para quem precisa inovar por necessidade.

A mesma pandemia que afastou as mulheres do mercado de trabalho impulsionou o empreendedorismo feminino, como apontou a [pesquisa elaborada](http://www.agenciasebrae.com.br/sites/asn/uf/NA/pesquisa-do-sebrae-mostra-que-mulheres-adotaram-mais-inovacoes-em-suas-empresas-durante-a-pandemia,b25d469b3c0c4710VgnVCM1000004c00210aRCRD) pelo Sebrae com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostrando que as empreendedoras demonstraram maior agilidade e competência ao implementar inovações em seus negócios durante os meses impactados pela Covid-19.

É sabido o quanto a carreira profissional das mulheres é impactada pela maternidade – [segundo a FGV](http://ibe.edu.br/metade-das-mulheres-brasileiras-fica-desempregada-um-ano-apos-ter-filho/#:~:text=Metade%20das%20mulheres%20brasileiras%20fica%20desempregada%20um%20ano%20ap%C3%B3s%20ter%20filho,-Home%20Blog%2Dantigo&text=Get%C3%BAlio%20Vargas%20(FGV%2FEPGE).&text=licen%C3%A7a%20maternidade%20entre%20os%20anos%20de%202009%20e%202012.&text=ap%C3%B3s%20o%20in%C3%ADcio%20da%20licen%C3%A7a%20maternidade%2C%2048%25%20das%20trabalhadoras%20j%C3%A1,dos%20seus%20postos%20de%20trabalho.), 48% das mulheres ficam fora do mercado de trabalho até dois anos após a licença-maternidade.

Agora, os dados da pesquisa Pnad Contínua, do IBGE, apontam que, no subgrupo de mulheres com filhos de até dez anos, a participação feminina no mercado de trabalho caiu de 58,3%, no segundo trimestre de 2019, para 50,6% no segundo trimestre de 2020.

Se a jornada feminina já era um grande desafio para o equilíbrio do tripé carreira, família e vida pessoal, agora, no cenário que se aproxima do pós-pandemia, vivemos uma verdadeira “chamada para a aventura”, para o início de uma jornada empreendedora heroica.

## Arquétipos em transformação 

A ‘jornada do herói’ é o conceito descrito por Joseph Campbell e que ficou conhecido pelo livro “O Herói de Mil Faces” (1949). A saga de uma nova jornada inicia-se por algo que nos afasta da normalidade, provocando um estado de crise.

Daí tal percentual de mulheres e mães fora do mercado de trabalho representarem esse início de uma jornada. Vivemos uma verdadeira crise profissional no universo feminino.

“Nós somos lentos em dar crédito à mãe, mas rápidos em culpá-la por todos os males da sociedade”, escreveu Maureen Murdock na sua versão da Jornada da Heroína (1990), em resposta a Joseph Campbell e seu “Herói de Mil Faces”.

Murdock é uma autora americana que publicou o livro “The heroine’s journey” (A Jornada da Heroína), como uma resposta ao modelo da jornada do herói proposto Campbell.

Não por acaso, o início da jornada heróica de Murdock começa quando a mulher (heroína), notando as dinâmicas da sociedade em que vive, identifica o [arquétipo feminino](https://www.revistahsm.com.br/post/o-mundo-precisa-de-uma-sacudida) como passivo, manipulador, não produtivo, sem foco, inconstante e emocional demais.

O universo de trabalho convencional, que tende a penalizar as mulheres que precisam de maior flexibilidade, perdeu força para o empreendedorismo heróico, um paradoxo do contexto atual. 

A transformação digital imposta pela pandemia, deveria aproximar, facilitar e conectar as mulheres que estavam no mercado de trabalho tradicional, promovendo assim o ambiente mais flexível de que tanto precisamos. 

No entanto, a digitalização chamou o universo feminino para a aventura rumo ao empreendedorismo, esvaziando os números do mercado clássico, seja de forma voluntária ou não.

A pandemia não permitiu, na grande maioria dos casos, a tomada de decisão consciente pela saída do mercado de trabalho convencional. Contudo, os arquétipos mencionados acima são os principais motivos por este afastamento, como a dificuldade de produzir e manter o foco numa rotina tão impactada.

## Mulheres que empreendem

Pelos indicadores e números trazidos aqui, o universo do empreendedorismo feminino pode ser o caminho de acolhimento para esta crescente parcela de mulheres impactadas pelos meses em isolamento social.

No Brasil, cerca de 9,3 milhões de mulheres são empreendedoras, representando 34% de todos os donos de empresas do País. 

As análises mostram que as mulheres empreendedoras são mais jovens e têm um nível de escolaridade 16% superior comparado aos homens. Nós representamos 48% dos microempreendedores individuais (MEI), com destaque em setores como beleza, moda e alimentação.

A participação das mulheres na vida econômica brasileira aumenta consideravelmente a cada ano. De acordo com a pesquisa GEM Brasil 2015 (Global Entrepreneurship Monitor), o público feminino já era mais expressivo do que o masculino quando o assunto é a abertura de novos empreendimentos, e a expectativa para 2020 estava em mulheres detendo quase um terço de toda a riqueza privada global.

Os números do empreendedorismo mostram que existe uma jornada possível para as mulheres e, como escreveu Murdock, um lugar onde existe a integração do masculino com o feminino, “um lugar no qual a heroína aprende a integrar e equilibrar todos os aspectos de si mesma, tornando-se finalmente uma mulher plena, um ser humano em sua totalidade.”

Que os indicadores do empreendedorismo feminino possam, cada vez mais, mostrar que existem jornadas possíveis para muitas heroínas que (re)nascem desta pandemia, acolhendo as mulheres que mobilizam e contribuem economicamente com a sociedade.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O mito da falta de qualificação das pessoas com deficiência

Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

O tempo que doamos é o futuro que aceleramos

O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

O cliente ainda precisa de vendedores?

A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

76% das organizações já têm um Chief AI Office (CAIO). E agora, qual é o papel do CEO?

Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Empresa familiar sem governança é refém do fundador; com governança, vira legado

O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

A NR-1 perguntou sobre o trabalho. A empresa respondeu sobre as pessoas.

A norma exige que as empresas avaliem fatores como jornada, ritmo, metas, autonomia e organização do trabalho. Em nenhum momento a NR-1 fala sobre diagnósticos individuais. Ainda assim, grande parte das organizações respondeu com pesquisas de saúde mental e mapeamentos de sintomas. Agora, com a suspensão temporária das multas pelo STF até setembro, surge uma oportunidade rara: abandonar as respostas equivocadas e voltar à pergunta original que a norma sempre fez sobre o trabalho, e não sobre as pessoas.

ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de agosto de 2026 12H00
Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG
28 de agosto de 2026 07H00
O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

Ana Carolina Viana - Vice-Presidente de Operações Industriais da Braskem no Brasil

3 minutos min de leitura
Vendas, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de agosto de 2026 18H00
A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
27 de agosto de 2026 15H00
Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
27 de agosto de 2026 08H00
O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

Jefferson Nesello - Cofundador & Managing Partner na Zaxo M&A Partners e Conselheiro de Empresas

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
26 de agosto de 2026 14H00
A norma exige que as empresas avaliem fatores como jornada, ritmo, metas, autonomia e organização do trabalho. Em nenhum momento a NR-1 fala sobre diagnósticos individuais. Ainda assim, grande parte das organizações respondeu com pesquisas de saúde mental e mapeamentos de sintomas. Agora, com a suspensão temporária das multas pelo STF até setembro, surge uma oportunidade rara: abandonar as respostas equivocadas e voltar à pergunta original que a norma sempre fez sobre o trabalho, e não sobre as pessoas.

Claudia Cavallini - Psicóloga, psicanalista e professora convidada da HSM

8 minutos min de leitura
Marketing & growth, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de agosto de 2026 08H00
Freelancers, consultores, creators e pequenas agências estão redesenhando a lógica de crescimento no marketing digital. Em vez de ampliar estruturas, apostam em tecnologia para expandir capacidade, ganhar eficiência e aumentar resultados. O desafio agora não é apenas fazer mais em menos tempo, mas construir operações capazes de escalar com inteligência, previsibilidade e qualidade.

Renan Caixeiro - Cofundador e CMO do Reportei

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
25 de agosto de 2026 14H00
O artigo mostra que inovação não é um destino nem um grande projeto isolado, mas um processo contínuo de testar hipóteses, aprender com evidências e evoluir com intenção estratégica.

Thomas Rebergue - Chief Business Officer da GINGA

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
25 de agosto de 2026 08H00
O artigo demonstra que a criatividade deixa de ser atributo exclusivo da inovação e passa a ocupar um papel central na capacidade das organizações de compreender problemas complexos e construir soluções que gerem valor no longo prazo.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up, futurista e especialista em sustentabilidade e live marketing.

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, User Experience, UX
24 de agosto de 2026 14H00
A antiga disputa entre e-commerce e lojas físicas perdeu sentido. O consumidor atual transita naturalmente entre ambientes digitais e presenciais, esperando uma experiência única, integrada e sem atritos. O artigo mostra por que o sucesso no varejo já não depende da força de um canal específico, mas da capacidade de conectar dados, tecnologia, atendimento e conveniência para construir jornadas fluidas e relevantes em todos os pontos de contato com a marca.

André Seibel - CEO do Circuito de Compras

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo