Marketing e vendas

A preocupação em usar as palavras certas

Pense em uma marca de produto ou serviço, um processo, um programa, uma empresa. Ou mesmo em um problema. O modo como qualquer dessas coisas é nomeada importa tanto quanto os resultados que pode produzir. O “wording” mobiliza as pessoas.
Adriana Salles Gomes é diretora-editorial de HSM Management.

Compartilhar:

Muitos líderes gostam de repetir o slogan “a pessoa certa no lugar certo”. Alguns mencionam também “no timing certo”, completando a frase original do filósofo chinês Mêncio, o mais eminente seguidor do confucionismo (372 a.C.-289 a.C.). Mas não há registros de acréscimo de “com a palavra certa”. Deveria haver. Ou alguém acha que os Beatles chegariam aonde chegaram, com a velocidade e intensidade que o fizeram, sem um nome que combinou “beat” (ritmo) e “beetles” (besouros), associando a banda à rebeldia que estava no ar com os beatniks nos anos 1950, pós-guerra.

O comentário sobre os Beatles é mera hipótese, ainda que muitos a advoguem. Porém a intuição de que o nome nos predestina é unânime – ou a escolha do nome de um filho que vai nascer não tomaria tanto tempo das famílias.

No mundo corporativo, no entanto, isso se tornou verdade só mais recentemente. Sim, marcas de produtos e serviços sempre receberam muita atenção – nomear melhor é vender mais nesses casos –, mas marcas institucionais não necessariamente, e o mesmo se pode dizer das palavras usadas para identificar um problema ou uma iniciativa. Para que perder tempo com isso? É agora, na era dos memes, que vem ficando clara a relação entre palavras virarem memes e os respectivos impactos gerados.

Pense no fundo de investimento-anjo que acaba de ser criado para apoiar fundadoras de startups mulheres – Sororité. Ao brincar com as palavras de ordem da revolução francesa, imediatamente evoca uma revolução feminina nos negócios, de mulheres apoiando mulheres. Fundada em 2022 por Flávia Mello, Erica Fridman e Jaana Goeggel, já conta com mais de R$ 3 milhões de funding, mais de 100 investidoras-anjo, centenas de startups no portfólio e é a maior comunidade de investidoras da América Latina de startups com mulheres entre os fundadores que estejam sediadas na região ou que tenham esse mercado em seu plano de expansão.

Outro exemplo é a Cainiao, divisão logística do Alibaba Group. A palavra, que em chinês quer dizer “novata, iniciante” segundo o COO da empresa no Brasil, William Tang, remete justamente a olhar as coisas com novos olhos, mente de iniciante [veja artigo na pág. 73]. Foi exatamente assim que a Cainiao enfrentou o desafio logístico na China, de grandes distâncias e pouca infraestrutura (coconstruindo esta), e é assim que está trabalhando criativamente na operação de cross-border do Brasil para reduzir os prazos de entrega e apoiar as plataformas asiáticas que endereçam de modo inclusivo consumidoras insuficientemente atendidas pelo varejo nacional.

(Essas plataformas oferecem mais acessibilidade a pessoas com deficiência, mais opções de vestuário plus-size, mais produtos para a beleza negra.)

Palavras têm força nas mais variadas iniciativas, e as empresas que percebem isso andam levando vantagem. Um caso nos EUA é o da Amazon, que batizou uma de suas ferramentas de inovação como “press release”. Trata-se de um documento criado pelas equipes de produtos para conceber tais produtos como se fossem anunciá-los para a imprensa e o mercado, o que inclui título, subtítulo, resumo, problema, solução, citação entre aspas de porta-voz da empresa, como começar, aspas de consumidor etc.

Outro caso é o da Imetame Metalmecânica, sediada em Aracruz, ES, que foca as palavras com que as pessoas se tratam, estimulando pertencimento, engajamento e colaboração. “A empresa incentiva o uso de palavras diferentes das usuais para manter um ambiente positivo e energizado”, conta Vanderlei Pedrini, supervisor de gestão de pessoas. Exemplos? Ali fala-se “ótimo dia” em vez de “bom dia” e “lembre-se sempre” em vez de “nunca se esqueça”. E a área de segurança chama-se “valorização da vida”.

Um bom começo para mudar o wording em sua organização é colocar no vocabulário ativo mais “palavras poderosas”. Michele McGovern, jornalista especializada em gestão e negócios, lista oito palavras, tanto faladas quanto escritas, que podem mobilizar pessoas (a lista original é em inglês; foi traduzida): você, imagine, porque, agora, acredite, garantia, agir e ajuda. Experimente!

Conhecida como uma das gestoras de fundos mais ativistas em ESG, a agora renomeada fama re.capital explica que sua mudança de nome reflete o desejo de ressignificar o mercado de capitais a partir do que ele pode e deve ser – daí vem o prefixo “re”. “O mundo precisa de mudanças – profundas, revolucionárias, que demandam articulações impensáveis, soluções escaláveis e resultados em benefício de todos que fazem vivo esse planeta”, explica Fabio Alperowitch, fundador e CIO da fama re.capital. “E o mercado financeiro é ponto de partida. Ele arrisca, promove, sustenta e financia a realidade que a gente vê.”

A promessa da empresa é, com conhecimento de finanças sustentáveis e network, fazer isso por meio de produtos financeiros de alta performance que tenham impacto positivo para todos os stakeholders. O neologismo “re.capita” remete tanto ao propósito específico – ressignificar o mercado de capitais – como ao geral – ressignificar a humanidade para que ela possa ter futuro.

__ Antes__
![Antes](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/1N9dPw7ZkXXJKV5dvWV93I/ea7aa0165423541004baa874215a6944/Logo_FAMA.jpg)

__Depois__
![Depois](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/6EAszNH2H2iUhX1mxMi2CU/98367405ff93bf624111a3e0ffcb65ac/230929_fama_recapital_Marcas-01.png)

Compartilhar:

Artigos relacionados

O Brasil na corrida farmacêutica global

Este é o segundo artigo de uma série que explora o setor farmacêutico brasileiro, suas capacidades industriais, dependências e posição na nova corrida global da saúde. Para sua elaboração, foram consideradas contribuições de Reginaldo Braga Arcuri, presidente executivo do Grupo FarmaBrasil, entidade que reúne algumas das principais fabricantes nacionais de medicamentos. Recomenda-se também a leitura do primeiro artigo da série.

Sem operação, agentes inteligentes são apenas promessas

IA sem operação é só experimento caro. Este artigo revela por que a maioria das iniciativas ainda não gera impacto real – e como o verdadeiro desafio não está na tecnologia, mas na capacidade de estruturar, governar e operar processos em escala.

Inovação & estratégia
28 de maio de 2026 17H00
Este é o segundo artigo de uma série que explora o setor farmacêutico brasileiro, suas capacidades industriais, dependências e posição na nova corrida global da saúde. Para sua elaboração, foram consideradas contribuições de Reginaldo Braga Arcuri, presidente executivo do Grupo FarmaBrasil, entidade que reúne algumas das principais fabricantes nacionais de medicamentos. Recomenda-se também a leitura do primeiro artigo da série.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

20 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
28 de maio de 2026 13H00
IA sem operação é só experimento caro. Este artigo revela por que a maioria das iniciativas ainda não gera impacto real - e como o verdadeiro desafio não está na tecnologia, mas na capacidade de estruturar, governar e operar processos em escala.

Daniel Torres - CEO da Roboteasy

3 minutos min de leitura
Estratégia, ESG
28 de maio de 2026 08H00
Este artigo mostra como o mercado voluntário de carbono foi da narrativa ambiental para a lógica de investimento - e por que empresas que ainda tratam o tema como reputação estão ignorando uma nova infraestrutura de valor global.

Eduardo Joaquim da Silva - Coordenador do Comitê Estratégico e Expansão de Negócios da Sustentalli

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
27 de maio de 2026 17H00
Este artigo traz um compilado dos principais insights que emergiram da edição do ATD Summit 2026. Realizada em Los Angeles, entre os dias 17 e 20 de maio, as reflexões desse evento global precisam entrar, com urgência, na agenda de líderes e organizações.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
27 de maio de 2026 14H00
Ao propor o conceito PACE, este artigo argumenta que a inteligência artificial não apenas intensificou o caos, mas criou uma nova infraestrutura de ação - deslocando o foco da sobrevivência para a capacidade de operar, decidir e criar valor em um mundo reprogramável.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT e membro do Conselho de Administração da IMA

13 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
27 de maio de 2026 08H00
A crise do trabalho não é de esforço - é de estrutura. Este artigo mostra que nunca se investiu tanto em produtividade, e nunca o trabalho pareceu tão insustentável.

Tiago Amor - CEO na Lecom

3 minutos min de leitura
Estratégia
26 de maio de 2026 14H00
O problema das govtechs não é a burocracia - é tratar o governo como cliente quando ele deveria ser parceiro.

Luiz Costa - Gerente de Inovação da Dome Ventures e Lincoln Ferdinand - Gerente de Marketing da Dome Ventures

3 minutos min de leitura
Estratégia, Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de maio de 2026 07H00
Ao criticar abordagens superficiais e reativas, este artigo mostra por que cumprir a norma não basta - e como organizações precisam ir além do diagnóstico de risco para construir, de fato, ambientes que sustentem o florescimento humano.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

11 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
25 de maio de 2026 17H00
Diante da crescente complexidade dos negócios, este artigo propõe uma mudança estrutural: sair de modelos organizacionais fragmentados para desenvolver a nexialidade - a capacidade de conectar inteligências, integrar decisões e operar como um sistema coletivo em rede.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

7 minutos min de leitura
Estratégia
26 de maio de 2026 14H00
Quando a inteligência deixa de ser centralizada, a criatividade deixa de ser limitada - e a organização inteira passa a responder melhor ao mundo real.

Marcos Brabo - Chief Strategy Officer (CSO) e sócio da Agência Ginga

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão