Reportagem

A versão virtual do Digio

Com a pressão cada vez maior dos profissionais de tecnologia pelo modelo de trabalho remoto full time, a nativa digital Digio decidiu investir na criação de um espaço virtual próprio de trabalho, com a sua cara
Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios, com mais de 30 anos de experiência como redatora, repórter, editora e revisora. Colaboradora de HSM Management e de MIT Sloan Management Review Brasil.

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Apesar das tentativas de retorno ao presencial – vide a convocação de Elon Musk para os funcionários da Tesla –, o modelo híbrido e o home office devem ser o novo padrão das empresas. Porém faltam exemplos consistentes de como manter uma cultura forte, sustentando o pertencimento e o engajamento dos times quando todas as pessoas estão a quilômetros de distância.

Com a queda da pressão pandêmica, surgem experimentos nesse sentido. Um é o do Digio, que tem por trás o Banco Bradesco. Desde maio de 2022, parte dos funcionários retornaram no modelo híbrido – na bantech, o tempo é dividido por mês, sendo que 60% deve ser presencial e os 40% restantes onde o colaborador preferir. O restante do time continua – e continuará – full time no remoto, o que levou a empresa a apostar em uma solução inovadora.

Para o primeiro grupo, a empresa mantém seu escritório físico funcional em Alphaville, na Grande São Paulo. E o mesmo espaço está disponível para os colaboradores que trabalham a distância: a empresa criou uma versão virtual do ambiente. Sua inauguração estava sendo preparada quando ele foi apresentado em primeira mão para __HSM Management__ em junho. Ele reproduz quase totalmente o ambiente real, exceto por um extra: uma varanda virtual “ao ar livre”. Quem “caminha” pelo espaço digital encontra recepção, arena, copa, salas de reunião, entre outros. Quem está logado consegue ver todos os presentes, inclusive os diretores.

Inicialmente, o escritório virtual será o espaço de trabalho de 111 colaboradores das áreas de tecnologia e produtos, a maioria deles 100% em home office. Detalhe importante: muitos foram contratados durante a pandemia e estão espalhados, geograficamente, por todo o Brasil.

“Nem todos vão voltar ao presencial. Esse projeto é a opção que encontramos para promover a vivência na empresa, a interação entre as pessoas”, conta Beatriz Cara Nóbrega, superintendente executiva de gente, gestão e experiência do cliente no Digio. Outro objetivo, diz ela, é para perpetuar a cultura da empresa. Sem esse espaço virtual, as pessoas que se mantêm em home office só se encontrariam duas vezes por ano: na festa de final de ano e no CarnaDigio (o evento carnavalesco que faz parte do calendário da bantech).

## Casa em construção
Tal e qual um prédio real, parte da construção do escritório virtual do Digio passou por uma longa etapa de documentação e validação. Iniciado em 2021, o projeto envolveu vários testes a partir de outubro para a escolha do player que forneceria a plataforma, envolvendo a execução de análises minuciosas das documentações de cada uma das ferramentas pesquisadas.

Dedicar tempo a esse processo e obter as garantias exigidas de segurança da informação, algo vital em uma empresa do sistema financeiro, foi imprescindível. “Esse foi o maior desafio e onde investimos mais tempo e dedicação da equipe”, relembra Nóbrega.

Com essa etapa superada, “veio a parte gostosa do design”, diz ela. Depois de todo o processo de validação, a ferramenta escolhida para abrigar o escritório virtual do Digio foi o Gather Town. Lançada em maio de 2020 no modelo de SaaS com a proposta de tornar as interações virtuais mais humanas, a plataforma já abriga mais de 25 mil times globalmente.

O valor investido no projeto não é informado pela bantech, que disse apenas ter contratado o Gather por um ano, fora o investimento feito no design e customização do piloto. Porém o leitor de __HSM Management__ pode dimensionar financeiramente um projeto no Gather – que oferece diversos tipos de assinatura, inclusive uma versão gratuita – fazendo uma simulação com a própria calculadora da ferramenta. Para 420 usuários, o total de colaboradores do Digio, o valor anual apresentado foi de US$ 35,2 mil – ou US$ 7 por mês por usuário.

## Desenhando a experiência
Plataforma escolhida, agora era preciso fazer o ambiente ficar com a cara do Digio. Missão para a Weme, consultoria de design e inovação fundada em 2017, a quem coube o desenvolvimento e implantação. “É um projeto de employee experience, que olha para os colaboradores de ponta a ponta para oferecer a jornada mais incrível possível”, diz Carolina Kia, sócia e CEO da Weme.

Indo na contramão da máxima de que “santo de casa não faz milagre”, um dos diferenciais para a seleção da Weme, segundo Nóbrega, foi sua própria experiência com o Gather. De fato, a pandemia levou a consultoria a criar seu escritório virtual na plataforma ainda no começo do isolamento.

Seus 70 funcionários, os chamados “wemers”, trabalhavam presencialmente até então e migraram para o trabalho remoto. “Estudamos as ferramentas e testamos até encontrar o Gather, que simula nosso ambiente físico, ajudando a imergir no metaverso”, relembra Kia. Agora, além dos wemers, que continuam imersos no hiperespaço, o escritório virtual recebe inclusive alguns dos clientes da empresa, lista que inclui iFood, Faber-Castell e Visa.

## Símbolos e acordos
A Weme, também responsável pelos treinamentos do pessoal do Digio, vai acompanhar as ondas de inclusão dos digiolovers (como os colaboradores são chamados) no escritório virtual, tirando dúvidas e fazendo os ajustes que se mostrarem necessários.

Kia lembra que a ferramenta permite bons acordos para a convivência das pessoas. “Estamos desenhando os acordos junto com o time de RH do Digio, que é quem detém o conhecimento da cultura. Mas vamos descobrir novos; é parte do processo”, afirma ela, que lembra ser um ciclo de experimentação e aprendizado, “uma curva que é fluida e sutil – em poucos minutos de uso a pessoa já fica imersa”. O acompanhamento, segundo ela, vai levar alguns (poucos) meses “até a Weme sair de cena para que o Digio continue de forma independente.”

Outro fator essencial é a participação dos líderes como influenciadores para o engajamento das pessoas e, para esse grupo, o foco da bantech foi a sensibilização de melhores práticas. No conteúdo, conselhos de quem já viveu a experiência, ações de estímulo à realização de reuniões no Gather e de reforço aos símbolos. Aliás, na opinião de Nóbrega, são os símbolos – como as happy hours de meritocracia e rituais que hoje ocorrem no Microsoft Teams – que vão ajudar a sustentar a adoção bem-sucedida do escritório virtual.

É o caso dos encontros de calibração. “Quero que as pessoas vejam as reuniões de calibração acontecendo no escritório virtual, apesar de elas ocorrem com portas fechadas. Vai ser um símbolo muito importante.” Vale lembrar que quem está no ambiente pode ver – mas não ouvir – quem está nos espaços privados do Gather.
Para o processo inicial, a estratégia do Digio conta com treinamento de cinco colaboradores, nomeados “embaixadores” da iniciativa. O onboarding dos times também é importante. Nele, os funcionários são ensinados a criar seu avatar, decorar seu espaço de trabalho, utilizar as sinalizações que desejarem e se divertir. “Mas é na prática que a coisa vai acontecer, por isso a importância dos embaixadores”, afirma Nóbrega. Isso não só deve facilitar a adaptação, como a sustentação promete ser mais fácil, na opinião da superintendente.

Com o lançamento do escritório ocorrendo simultaneamente à publicação desta edição de __HSM Management__, ainda não havia dados relativos à efetividade do projeto e à experiência dos usuários. Como métricas, devem ser adotadas a medição da presença física e virtual nos eventos da empresa, como o happy hour online mensal. Para medir as experiências, devem ser incluídas perguntas sobre o escritório virtual nas pesquisas pulso já no terceiro trimestre de 2022. Além, é claro, de feedbacks espontâneos. Nóbrega está confiante que a estratégia adotada garantirá que os objetivos pretendidos sejam alcançados.

Três gerações de digiolovers

O escritório do Digio no ciberespaço recebeu, em julho de 2022, 111 dos 420 funcionários da bantech, com adesão voluntária. A maioria deles trabalha de modo remoto, sem contato
presencial com os demais, e o ambiente virtual permitirá a possibilidade de interação de profissionais de três gerações diferentes:

![Imagens Prancheta 1 cópia 66](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/4zi8MgiVqsb18Y8wl5BG0x/e667af320bfa01e31dc1c83f235f215e/Imagens_Prancheta_1_c__pia_66.png)

## Unidade virtual de propósito
Paralelamente, o Digio vai desenvolver outro projeto com Lara Bezerra, cujo case sobre propósito consta do livro *[Rehumanizing Leadership](https://www.amazon.com.br/Rehumanizing-Leadership-Putting-Purpose-Business-ebook/dp/B083V8SW52)*, de Sudhanshu Paulsule e Michael Chavez. A iniciativa visa criar uma unidade virtual de propósito, “como se fosse uma BU, uma vertical virtual, com colaboradores voluntários e indicados pelos demais como inspiradores, com um espaço só no escritório virtual. Eles vão entregar o propósito da bantech e cuidar de sua gestão, que inclui a curadoria das ações que esbarram no propósito”, conta a superintendente, com entusiasmo.

“SE QUEREMOS O ESCRITÓRIO VIRTUAL COMO UM CATALISADOR DE CULTURA, então esse espaço será valorizado, lembrando o tempo todo como as ações se darão ali e como serão as experiências”, conclui Nóbrega.

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