Vale Ocidental

Ágil, nos projetos e na carreira

As metodologias ágeis desenvolvidas para startups também se aplicam ao plano de carreira
__Ellen Kiss__ é empreendedora e consultora de inovação especializada em design thinking e transformação digital, com larga experiência no setor financeiro. Em agosto de 2022. após um período sabático, assumiu o posto de diretora do centro de excelência em design do Nubank.

Compartilhar:

As metodologias ágeis tornaram-se conhecimento essencial para a gestão da inovação. Tanto as startups como as organizações tradicionais estão buscando incorporar o comportamento ágil em suas culturas. Assim, conseguem garantir prontidão e capacidade de adaptação às constantes transformações do mercado.
Passei a acreditar ainda mais no ágil depois de participar, como executiva, da implementação desse processo em uma grande organização. Essa experiência me fez refletir se essa abordagem não poderia ir além… Será que a cultura ágil vale somente para projetos? Ou seus valores poderiam ser aplicados também no desenho de carreira das pessoas?

Como a minha própria “carreira” foi não linear e contou com alguns atalhos e desvios, alguns provocados e outros ocasionais, me aprofundei no assunto. Para a minha monografia de MBA em Liderança Criativa em Berlim, busquei entender o protagonismo do indivíduo no desenho de seu futuro e seu nível de consciência em relação a essa construção.

No contexto atual, o conceito de carreira não pode permanecer limitado à origem da palavra: “estrada rústica, via, percurso”, do latim “carraria”. Até a década de 1970, a progressão era linear e vertical e o projeto de vida profissional era aposentar-se na mesma empresa. Indivíduos aguardavam o “prêmio” da promoção para os cargos mais altos, que permitiam ascensão social e acesso à liderança, como resposta ao seu comprometimento e lealdade à organização.

Hoje, o contexto é outro. Cabe ao indivíduo desenhar sua carreira com inúmeras possibilidades de caminhos a serem percorridos. As estradas sequenciais predefinidas e previsíveis do passado deixaram de existir. É nesse sentido que eu enxergo convergências com a metodologia ágil.

O manifesto ágil nasceu em 2001 com outro propósito, mas desafio similar. O grupo de desenvolvedores de softwares, idealizadores do movimento, buscava uma alternativa às metodologias tradicionais, na época configuradas também por sequência e previsibilidade. Assim, acredito que os quatro pilares do modelo ágil podem oferecer bons insights sobre como desenhar uma carreira mais adaptável e alcançar seus objetivos profissionais e pessoais:

1. __Processos e ferramentas > Indivíduos e interações.__ No ágil, as pessoas são o centro de tudo e mais importantes que os processos em que estão inseridas. Essa premissa deve ser utilizada por você no seu ambiente de trabalho. Priorize construir relações sólidas com as pessoas com quem você interage, uma ampla rede para trocar ideias e crescer. Além de contribuir para sua evolução no presente, essas pessoas podem ajudar você com indicações ou referências numa recolocação de trabalho futura. Invista na construção da sua reputação profissional.
2. __Documentação abrangente > Software em funcionamento.__ Da mesma forma que, no modelo ágil, software funcionando é mais importante que a documentação, entenda que muitas de suas competências serão desenvolvidas na prática. Não serão resultado único da certificação formal. Procure adquirir novos conhecimentos em ciclos de dois ou três anos de trabalho, para que o entusiasmo de cada recomeço construa novas competências. Além disso, permita-se explorar outras habilidades ao longo da jornada, fazendo cursos curtos, testando interesses e aptidões. Um caminho alternativo, descompromissado, talvez possa até transformar-se em uma nova profissão.
3. __Negociação de Contratos > Colaboração com o cliente.__ A tomada de decisão, no ágil, acontece em conjunto: é trabalho em equipe em prol de um único objetivo. Dessa forma, profissionais com mindset ágil desenvolvem-se em conjunto, buscando ou oferecendo feedback constante. Monte um feedback squad com pessoas que você admira: mentores, parceiros ou mesmo amigos. Procure entender se está no caminho certo, quais características devem ser adaptadas e as competências que ainda precisam ser desenvolvidas. E não se esqueça de retribuir sendo também mentor de alguém.
4. __Seguir um plano > Responder ÀS mudanças.__ O ambiente de incerteza exige que um software seja desenvolvido em um processo de aprendizado com informações e feedbacks, e adaptado a todo o momento. Invista em entender as mudanças e os impactos dos avanços da tecnologia na sua profissão e ajuste sua carreira. Investigue novos mercados e encontre lacunas que você poderia ocupar. Ensine, ofereça consultoria, crie projetos paralelos que contribuam para ampliar suas perspectivas.

A carreira é sua, e não da empresa para a qual trabalha. Inspirando-se no método ágil, gerencie-a como um produto digital, estruturando ciclos curtos de desenvolvimento, construindo relacionamentos, obtendo feedback recorrente e, mais importante, adaptando-se às constantes mudanças.

Como dizia Darwin, “não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o mais adaptável à mudança”. Por experiência própria, estou cada vez mais convencida de que o futuro do trabalho demanda indivíduos com mentalidade ágil, nos projetos e na carreira.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A pressão que não aparece no organograma: a carreira das mulheres exige mais remédios do que reconhecimento

Quando mulheres consomem a maior parte dos antidepressivos, analgésicos, sedativos e ansiolíticos dentro das empresas, não estamos falando de fragilidade – estamos falando de um modelo de liderança que normaliza exaustão como competência. Este artigo confronta a farsa da “supermulher” e questiona o preço real que elas pagam para sustentar ambientes que ainda insistem em chamá‑las de resilientes.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
2 de abril de 2026 08H00
À medida que a IA assume tarefas operacionais, surge um risco silencioso: como formar profissionais capazes de supervisionar o que nunca aprenderam a fazer?

Matheus Fonseca - Cofounder da Leapy

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de abril de 2026 15H00
Entre renováveis, risco sistêmico e pressão por eficiência, a energia em 2026 exige decisões orientadas por dados e governança robusta.

Rodrigo Strey - Vice-presidente da AMcom

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
1º de abril de 2026 08H00
Felicidade não é benefício: é condição de sustentabilidade para mulheres em cargos de liderança.

Vanda Lohn

4 minutos min de leitura
Lifelong learning
31 de março de 2026 18H00
Quando conversar dá trabalho e a tecnologia não confronta, aprender a conviver se torna um desafio estratégico.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de março de 2026 08H00
Quando mulheres consomem a maior parte dos antidepressivos, analgésicos, sedativos e ansiolíticos dentro das empresas, não estamos falando de fragilidade - estamos falando de um modelo de liderança que normaliza exaustão como competência. Este artigo confronta a farsa da “supermulher” e questiona o preço real que elas pagam para sustentar ambientes que ainda insistem em chamá‑las de resilientes.

Marilia Rocca - CEO da Funcional

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
30 de março de 2026 15H00
Números não executam estratégia sozinhos - pessoas mal posicionadas também a sabotam. O verdadeiro ganho de eficiência nasce quando estrutura, dados e pessoas operam como um único sistema.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de março de 2026 06H00
No auge do seu próprio hype, a inovação virou palavra‑de‑ordem antes de virar prática - e este artigo desmonta mitos, expõe exageros e mostra por que só ao realinhar expectativas conseguimos devolver à inovação o que ela realmente é: ferramenta estratégica, não mágica.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

12 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
29 de março de 2026 18H00
Do SXSW 2026 à realidade brasileira: O luto deixa o silêncio e começa a ocupar o centro do cuidado humano. A morte entrou na agenda do bem-estar e desafia indivíduos, empresas e sociedades a reaprenderem a cuidar.

Dilma Campos - CEO da Nossa Praia e CSO da Biosphera.ntwk

3 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
29 de março de 2026 13H00
Os números de assédio e a estagnação das carreiras de pessoas com deficiência revelam uma verdade incômoda: a inclusão no Brasil ainda para na porta de entrada. Em 2026, o desafio não é contratar, mas desenvolver, promover e garantir permanência - com método, responsabilidade e decisões que tratem diversidade como estratégia de negócio, e não como discurso.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Estratégia
29 de março de 2026 07H00
Este artigo revela por que entender o nível real de complexidade do próprio negócio deixou de ser escolha estratégica e virou condição de sobrevivência.

Daniella Portásio Borges - CEO da Butterfly Growth

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...