Uncategorized

Ambiente inclusivo: de onde veio?

João Roncati é CEO da People+Strategy, consultoria de estratégia, planejamento e desenvolvimento humano.

Compartilhar:

No início do século XXI, passamos a compreender que a discussão sobre a inclusão poderia ser um diferencial competitivo fundamental. De onde surgiu esta necessidade e porque o esforço em estruturar um ambiente de diversidade?

Aparentemente a origem é diversa, mas acredito que três movimentos convergiram criando uma iniciativa em nossa sociedade de grande valor.

Em meados da década de 80 até a de 90, o Terceiro Setor viveu um grande florescimento no Brasil. Várias eram as pautas. E, uma delas, a busca da construção de espaços “inclusivos” na sociedade, e nas organizações, de um modo geral. A ideia era ampliar a capacidade de mobilidade, aceitação e de construção da dignidade e cidadania. 

Vimos a transformação em espaços públicos, vagas de garagens, criação de vagas de emprego e uma forte mudança de políticas públicas. Com todo este movimento, o “diferente”, o “defeituoso”, o “deficiente” ganharam novos substantivos, menos adjetivos e muito mais oportunidades. Beneficiou-se toda a sociedade por perceber direta ou indiretamente quanto o “diferente” pode ser igual, ou ainda melhor, como ao ser “diferente” transforma e amplia nossas próprias perspectivas. 

Com isto, muitos hábitos (alguns já bem arraigados) passaram a ser questionados. E, por força de lei ou por aumento da consciência dos indivíduos e das organizações, **os espaços de inclusão foram progressivamente considerados e incorporados.**

Quase simultaneamente, muitos estudos sobre o funcionamento do cérebro humano ganharam impulso com o aumento ao acesso de pesquisadores para o uso do TEP/TC (ou tomografia).  Foi possível ver o cérebro em funcionamento e o processo decisório se “desenhando” (numa grande síntese). 

Ainda há muita coisa a ser descoberta, mas foi possível compreender importantes elementos do nosso processo decisório. Para as mais simples escolhas, as mais intrincadas, foi possível com apoio da psicologia compreender o quanto está na base de nosso processo sináptico a construção de “rotinas”, com objetivo de acelerar nossas decisões. Isto facilita, economiza energia e libera o processamento cerebral para outras atividades. Na gênese de nossas rotinas, a pesquisa que fazemos aos nossos registros históricos à busca de referências e a formação dos pré-conceitos na tentativa de acelerar a decisão.

Multiplicaram-se estudos e informações sobre a necessidade de “think out the box”, achar novos caminhos para sinapse, compreender diferentes perspectivas. Enormes ressalvas ecoam ainda hoje sobre modelos mentais e dominância para um indivíduo ou grupo. Percebeu-se, ou lançaram-se elementos científicos sobre o alerta (que já existia) sobre o perigo de darmos ares absolutos para uma linha de pensamento sob o enorme risco de obsolescência ou simples incapacidade de enxergar mudanças de variáveis ou de todo um contexto. 

A história das organizações e nações está recheada de pessoas empreendedoras ou líderes que perderam sua capacidade de “enxergar” o cenário e, portanto, de mudança, e acabaram em grandes derrocadas, levando junto consigo pessoas, organizações e até nações.

Seguindo a cronologia da história e o desenvolvimento dos sistemas econômicos, **assistimos um aumento significativo da competição e, portanto, crescente necessidade de diferenciação.**

Neste contexto ganham eloquência em muitas indústrias e mercados, organizações e pessoas, que conseguiram destaque e diferenciação. Inovação surge com muita força e gera uma onda mundial de entender e cultivar, como forma de preservar e sobreviver.

Ao estudá-la, na expressão de pessoas altamente criativas e traduzida metodologicamente, surge no seu âmago, como prática fundamental, _o cultivo do pensamento divergente._ Esta nova disciplina chegou para estimular de forma organizada e focada, a opinião diferente, contrária, cultivada ou apoiada em perspectivas “diversas” que somadas, levariam à convergência (foco) à própria criatividade ao gerar valor perceptível e tangível: inovação.

Oras, o pensamento divergente é abundante no “diferente” e raro, em um grupo com profundos laços e enorme identidade. É possível afirmar que em muitas organizações, por décadas, cultivamos apenas o pensamento convergente ou até subserviente.

Assim, historicamente, passamos a ter uma convergência curiosa e muito produtiva: ao abrir os espaços de trabalho para inclusão, nos permitimos:

*  Reduzir nossos padrões rígidos de identidade (de todos os tipos, estéticos inclusive) e;
*  Flexibilizamos o formalismo e incentivamos o cultivo da “discordância” que busque testar a consistência de uma ideia ou a própria inovação (numa síntese simples, mas clara da expressão do pensamento divergente), buscando ampliar e flexibilizar modelos mentais e/ou estimular a inovação.

Nesta nossa contemporaneidade, criamos como nossos desafios organizacionais e pessoais o convívio com aquele que foi historicamente chamado de “diferente” e em ouvir e compreender opiniões e posicionamentos novamente “diferentes” e que víamos como discordância, oposição ou simplesmente inválidos. 

Fácil? Ao contrário. Exige esforço pleno, focado, vigilante e administrado. Por isto, não sobrevive se o cultivo estiver apenas na mobilização do lado “atitudinal”, mas sempre a partir da soma do desenvolvimento de competências e processos dedicados. 

Seguramente, não estamos diante de uma moda, mas de um contexto desenhado historicamente e cujo alcance e efeitos ultrapassam a esfera individual ou mesmo de uma organização. **Os efeitos são da reorganização de referenciais do relacionamento humano, de espaços de execução e realização de valores.**

Novamente: fácil? Não, mas entendo que necessário.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Parte IV – Futuros em prompts: como disputar e construir realidade

Este é o quarto texto da série “Como promptar a realidade” e aprofunda como futuros disputam processamento antes de existir como evidência – mostrando por que narrativas constroem organizações, reescrevem culturas ou colapsam democracias, e como reconhecer (ou escolher) o prompt que está rodando agora.

A era do “AI theater”: estamos fingindo transformação?

Nem toda empresa que fala de IA está, de fato, se transformando. Este artigo expõe o risco do AI theater – quando a inteligência artificial vira espetáculo – e mostra por que a vantagem competitiva está menos no discurso e mais nas mudanças invisíveis de estratégia, governança e decisão.

Parte III – APIs sociotécnicas versus malwares mentais… e como recuperar a soberania imaginal

Este é o terceiro texto da série “Como promptar a realidade”. Até aqui, as duas primeiras partes mapearam o mecanismo: como contextos são instalados, como narrativas disputam processamento e como ficções ganham densidade de real. A partir daqui, a pergunta muda: o que fazer com esse conhecimento? Como reconhecer quando você está sendo instalado – e como instalar, conscientemente, o prompt que você escolhe?

O esporte que você ama mudou – e isso é uma ótima notícia

Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita – sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é

Parte II – Hyperstition: a tecitura ficcional da realidade

Este é o segundo artigo da série “Como promptar a realidade” e investiga como ficções, ao entrarem em loops de feedback, deixam de descrever o mundo para disputar ontologia – reorganizando mercados, política, tecnologia e comportamento antes mesmo de qualquer evidência.

Bem-estar & saúde
19 de abril de 2026 10H00
Ao tornar os riscos psicossociais auditáveis e mensuráveis, a norma força as empresas a profissionalizarem a gestão da saúde mental e a conectá-la, de vez, aos resultados do negócio.

Paulo Bittencourt - CEO do Plano Brasil Saúde

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
18 de abril de 2026 09H00
Este é o quarto texto da série "Como promptar a realidade" e aprofunda como futuros disputam processamento antes de existir como evidência - mostrando por que narrativas constroem organizações, reescrevem culturas ou colapsam democracias, e como reconhecer (ou escolher) o prompt que está rodando agora.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University.

27 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
17 de abril de 2026 15H00
Nem toda empresa que fala de IA está, de fato, se transformando. Este artigo expõe o risco do AI theater - quando a inteligência artificial vira espetáculo - e mostra por que a vantagem competitiva está menos no discurso e mais nas mudanças invisíveis de estratégia, governança e decisão.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Foresight
17 de abril de 2026 09H00
Este é o terceiro texto da série "Como promptar a realidade". Até aqui, as duas primeiras partes mapearam o mecanismo: como contextos são instalados, como narrativas disputam processamento e como ficções ganham densidade de real. A partir daqui, a pergunta muda: o que fazer com esse conhecimento? Como reconhecer quando você está sendo instalado - e como instalar, conscientemente, o prompt que você escolhe?

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University.

11 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
16 de abril de 2026 14H00
Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita - sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é

Marcos Ráyol - CTO do Lance!

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Foresight
16 de abril de 2026 09H00
Este é o segundo artigo da série "Como promptar a realidade" e investiga como ficções, ao entrarem em loops de feedback, deixam de descrever o mundo para disputar ontologia - reorganizando mercados, política, tecnologia e comportamento antes mesmo de qualquer evidência.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University

13 minutos min de leitura
Liderança
15 de abril de 2026 17H00
Se liderar ainda é, para você, dar respostas e controlar processos, este artigo não é confortável. Liderança criativa começa quando o líder troca certezas por perguntas e controle por confiança.

Clarissa Almeida - Head de RH da Yank Solutions

2 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Foresight, Tecnologia & inteligencia artificial
15 de abril de 2026 08H00
Este é o primeiro artigo de uma série em quatro partes que propõe uma microtese sobre futuros que disputam processamento - e investiga o papel insuspeito de memes, programação preditiva, hyperstition, cura de traumas, strategic foresight e soberania imaginal no ciclo de inovação que já começou.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University

23 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
14 de abril de 2026 18H00
Este artigo propõe analisar como a combinação entre pressão por velocidade, talento autónomo e uso não estruturado de AI pode deslocar a execução para fora dos sistemas formais- introduzindo riscos que não são imediatamente visíveis nos indicadores tradicionais.

Marta Ferreira

4 minutos min de leitura
Liderança
14 de abril de 2026 14H00
Este é o primeiro artigo da nova coluna "Liderança & Aikidô" e neste texto inaugural, Kei Izawa mostra por que os líderes mais eficazes deixam de operar pela lógica do confronto e passam a construir vantagem estratégica por meio da harmonia, da não resistência, da gestão de conflitos e de decisões sem ego em ambientes de alta complexidade.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...