Liderança, Cultura organizacional

Antes de demitir, converse

Por mais difícil que seja, um processo de demissão sempre pode ser pior quando gestores e colaboradores não constroem uma relação genuína de conversas com o colaborador
Global CHRO da Minerva Foods e Board Member das startups DataSprints e Leo Learning. Sócio Fundador da AL+ People & Performance Solutions, empresa que atuo como Coach Executivo de CEOs formado pela Columbia University, Palestrante e Escritor. Conselheiro de Empresas certificado pelo IBGC, Psicólogo com MBA pela Universidade de São Paulo e Vanderbilt University com formação em RH Estratégico Avançado pela Michigan University. Executivo sênior com passagens em posições de Liderança Global e América Latina de áreas de Pessoas, Cultura, Estratégia e Atendimento ao Cliente em empresas como Neon, Dasa, Itaú Unibanco e MasterCard. Professor de Gestão de Pessoas do Insper e Professor convidado do MBA da FIA/USP. Colunista das revistas HSM Management e da Época Negócios.

Compartilhar:

Num período de pandemia, temos muitos aprendizados e reflexões para levar na bagagem para 2021. Um exemplo é como lidar com o fim de uma relação. Já disse Vincius de Morais que um relacionamento deveria ser infinito enquanto durasse.

No entanto, e quando o amor perde força, a fidelidade se desfaz e a relação chega naquele ponto em que cada um deve seguir seu caminho? Vale uma DR nesse momento ou basta jogar a cópia das chaves por debaixo da porta, para não ter motivos de pensar numa volta, como naquela música do Ivan Lins?

No mundo corporativo, o fim do relacionamento entre uma empresa e um colaborador sempre esteve à sombra, meio escondido. Ninguém gosta de falar sobre demissão, seja por justa causa ou outra. É um tema, em alguns lugares, tabu e envolve, geralmente, muita dor, ressentimento e mágoa.

Em alguns casos, imagino, até pode haver uma sensação de livramento – mas só quando a relação chegou ao ponto de ser tóxica. Seja como for, temos de falar mais sobre demissão.

## Seu gestor está pronto para conversas difíceis?

Muitas empresas tiveram de demitir funcionários ao longo da pandemia. Imagino a dor em muitos amigos de RH que tiveram de cumprir essa missão. Isso porque muitas vezes o gestor deixa essa tarefa para o time de recursos humanos.

Ninguém quer encarar esse momento, sair mal na foto como o carrasco. Falta coragem? Não. Faltam preparo, empatia. Falta humanização. E como “se humaniza” um processo como esse? Como minimizar a dor de quem está sendo [demitido em meio a uma pandemia](https://www.revistahsm.com.br/post/saude-corporativa-beneficio-ou-estrategia)?

Não basta apenas oferecer uma ajuda na recolocação, no aumento de prazo do plano de saúde. Isso ajuda, é o básico, mas não resolve.

Não adianta falar também que a pessoa é excelente, uma ótima profissional, que em breve vai encontrar outra oportunidade. Se ela é tão boa assim, por que a relação deixou de ser infinita? Um discurso como esse, na última hora, é uma falsa ideia de humanização. Serve mais como uma espetada numa alma já dolorida.

## O gestor humanizado dialoga com o colaborador

A humanização protege mais a pessoa e deve ser colocada em prática muito antes desse processo. Aliás, de todos os processos de gestão de pessoas. Isso não significa, também, fazer algo como avisar que o gato subiu no telhado. Significa criar um fluxo de conversas (muitas vezes difíceis) entre o gestor e o colaborador.

Por meio desse relacionamento mais próximo, aberto e verdadeiro, que se estabelece um vínculo mais consistente entre a empresa e colaboradores.

[Preparar o gestor ](https://www.revistahsm.com.br/post/caracteristicas-dos-ceos-na-era-pos-digital)para dar os feedbacks necessários, para traçar com o colaborador sua trajetória na empresa, atendendo seus anseios, desejos, dúvidas e problemas é a vacina para evitar mais dores numa demissão. É a criação de anticorpos contra a mágoa que vem da surpresa.

Quando a relação é franca e recíproca, não há traição. Como toda boa conversa, essas devem ser de mão dupla, pois há profissionais que também “demitem” a empresa – quer dizer, muitas vezes demitem mais o chefe, justamente por falta de diálogo e de relacionamento mais concreto.

## Porque todos nós podemos voltar

Quando ouvimos que uma demissão foi feita em cinco minutos de conversa, devemos sempre procurar saber quantas horas de conversas existiram antes. Cabe perguntar ainda como cada ator estava se preparando, e preparando o outro, para esse fim de soneto.

Se a relação foi sadia, genuína, sem uma aparência artificial de discursos bonitos para a alta liderança ler nos relatórios de fim de ano, certamente a conversa em que o funcionário é demitido pode ser proveitosa para todos. Ou seja, ela se torna um momento de ajuste de ciclos.

Para as pessoas que ficam na empresa, esse processo de demissão, se bem conduzido – e construído de maneira humanizada – indica que a [organização trata e valoriza seus colaboradores](https://www.revistahsm.com.br/post/apenas-falar-de-saude-mental-nao-e-o-suficiente) – e mostra às pessoas como elas serão tratados um dia, no chamado “depois”. É um baita recado que a empresa passa, que desnuda a cultura e que pode ajudar (ou não) na experiência do empregado.

Para o profissional que está saindo, é o momento de rever os pontos básicos que foram conversados, entender mais suas competências e no que elas não atendem mais àquela empresa – mas que outras podem querer ou precisar.

Para a empresa, é a chance de mostrar o seu grau de maturidade para reconhecer, de fato, suas necessidades em termos de pessoas, para ajudar verdadeiramente seus profissionais. Sem esquecer de acompanhar, mesmo que a distância, um talento que está saindo.

Porque todos nós temos talentos. Porque todos nós podemos ser demitidos. Além disso, nós podemos, um dia, encontrar uma cópia da chave e voltar para a empresa que um dia nos demitiu, e assim viver mais uma relação infinita, enquanto durar.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Organizações vivas: o que o levain ensina a quem lidera?

Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Inovação farmacêutica brasileira: um ponto de inflexão nas análises do setor

Este é o quinto artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira. Após examinarmos a posição global do país, o acesso a medicamentos e a capacidade científica e industrial, a conversa com Norberto Prestes, da Abiquifi, amplia a investigação para as conexões entre empresas, pesquisadores, universidades e financiamento.
Como avaliar investimentos e resultados com informações pouco comparáveis? Entre orçamentos de P&D, incentivos acadêmicos e descobertas de pequenas equipes, buscamos parâmetros para examinar como o conhecimento se converte em aplicações, capacidade econômica e benefícios para a população.

O cliente não compra tecnologia. Compra conforto.

Recursos avançados, aplicativos e conectividade impressionam, mas raramente são o motivo principal de uma decisão de compra. O que as pessoas realmente buscam é uma solução capaz de tornar a vida mais simples e agradável. O artigo explora por que o sucesso de produtos inteligentes depende menos das funcionalidades e mais da capacidade de entregar uma experiência intuitiva e consistente.

Autoridade não se mede em decibéis

Em um momento em que denúncias de assédio, investigações internas e crises de liderança ganham cada vez mais espaço nas organizações, cresce a necessidade de diferenciar autoridade de poder. O texto analisa por que líderes que dependem do cargo ou da imposição para obter resultados acabam comprometendo justamente aquilo que mais precisam preservar: pessoas, confiança e performance.

Hyper-growth: o desafio não é acelerar, é sustentar a velocidade

O artigo propõe uma reflexão sobre como energia, bem-estar, desenvolvimento de lideranças e autonomia deixaram de ser temas periféricos para se tornarem elementos centrais da infraestrutura necessária para escalar negócios sem esgotar os recursos humanos que tornam esse crescimento possível.

Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de outubro de 2026 14H00
Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

11 minutos min de leitura
Estratégia
19 de outubro de 2026 08H00
Este é o quinto artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira. Após examinarmos a posição global do país, o acesso a medicamentos e a capacidade científica e industrial, a conversa com Norberto Prestes, da Abiquifi, amplia a investigação para as conexões entre empresas, pesquisadores, universidades e financiamento. Como avaliar investimentos e resultados com informações pouco comparáveis? Entre orçamentos de P&D, incentivos acadêmicos e descobertas de pequenas equipes, buscamos parâmetros para examinar como o conhecimento se converte em aplicações, capacidade econômica e benefícios para a população.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
18 de outubro de 2026 15H00
Recursos avançados, aplicativos e conectividade impressionam, mas raramente são o motivo principal de uma decisão de compra. O que as pessoas realmente buscam é uma solução capaz de tornar a vida mais simples e agradável. O artigo explora por que o sucesso de produtos inteligentes depende menos das funcionalidades e mais da capacidade de entregar uma experiência intuitiva e consistente.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor responsável técnico da Hotfloor

5 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de outubro de 2026 09H00
Inclusão não se resume ao acesso ao emprego. Ela envolve reconhecimento, desenvolvimento, representatividade e perspectivas reais de carreira. O artigo reflete sobre os avanços conquistados, os desafios que persistem e o papel das organizações na construção de ambientes onde todas as pessoas possam prosperar.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
17 de outubro de 2026 15H00
Em um momento em que denúncias de assédio, investigações internas e crises de liderança ganham cada vez mais espaço nas organizações, cresce a necessidade de diferenciar autoridade de poder. O texto analisa por que líderes que dependem do cargo ou da imposição para obter resultados acabam comprometendo justamente aquilo que mais precisam preservar: pessoas, confiança e performance.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Estratégia
17 de outubro de 2026 09H00
O artigo propõe uma reflexão sobre como energia, bem-estar, desenvolvimento de lideranças e autonomia deixaram de ser temas periféricos para se tornarem elementos centrais da infraestrutura necessária para escalar negócios sem esgotar os recursos humanos que tornam esse crescimento possível.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

6 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
16 de outubro de 2026 15H00
Algoritmos, preferências pessoais e vieses cognitivos influenciam diariamente a forma como enxergamos o mundo, muitas vezes sem que percebamos. Em tempos de polarização, excesso de informação e mudanças rápidas, cultivar curiosidade, escuta ativa e abertura para pontos de vista diferentes pode ser um diferencial importante para quem deseja construir decisões mais inteligentes e sustentáveis.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de outubro de 2026 09H00
Entre previsões apocalípticas e promessas de produtividade ilimitada, os dados mais recentes sobre inteligência artificial publicados pela Gartner, MIT e Frontiers contam uma história mais complexa.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
15 de outubro de 2026 14H00
Inspirado pela trajetória de Rafael Nadal retratada no documentário Rafa, o artigo propõe uma reflexão sobre a forma como empresas constroem seus planejamentos estratégicos.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

5 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
15 de outubro de 2026 08H00
Processos, políticas e estratégias não surgem sozinhos. Eles são resultado das escolhas feitas diariamente por quem exerce liderança e influencia decisões. Embora tenham sido concebidos há mais de dois mil anos, os Niyamas oferecem reflexões surpreendentemente atuais para organizações que desejam construir culturas mais conscientes, coerentes e alinhadas aos desafios do presente.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução