Diversidade, Liderança

As empresas devem investir na saúde organizacional

Fala-se muito nas habilidades que as pessoas precisarão ter, mas o que as empresas precisam oferecer? O especialista Patrick Lencioni tem uma resposta simples

Compartilhar:

Patrick Lencioni, eleito um dos dez novos gurus que você precisa conhecer pela revista Fortune, garante saber qual é “a maior vantagem que uma empresa pode obter” para atrair e reter os melhores talentos no futuro do trabalho. E mais: segundo ele, essa vantagem tem sido consistentemente ignorada pela maioria dos líderes, embora seja “simples, gratuita e disponível para qualquer um que a queira”.  

O leitor ficou curioso? Segundo o autor do livro A maior de todas as vantagens, é na saúde organizacional que todas as empresas deveriam estar investindo para se diferenciar e atingir seus objetivos estratégicos. 

Confira a seguir trechos da entrevista concedida por Lencioni durante o evento HR Conference, realizado em São Paulo pela HSM em março último, em que ele explica o que é esse novo e interessante conceito. 

**O QUE É SAÚDE ORGANIZACIONAL E O QUE AS EMPRESAS GANHAM AO PROMOVER UM AMBIENTE CORPORATIVO SAUDÁVEL?**

Uma organização insalubre é aquela que é cheia de políticas, confusão, problemas morais e boas pessoas indo embora. Enquanto isso, uma organização saudável é aquela em que as pessoas realmente querem estar, a experiência é ótima, elas sabem o que precisa ser feito, e há uma noção geral das pessoas trabalhando juntas para realizar as coisas. Alguns executivos consideram isso permissivo, mas não é. Na verdade, é uma enorme vantagem competitiva, eis o porquê: se sua organização for saudável, ela vai descobrir como ser inteligente, porque as pessoas vão trabalhar bem juntas e resolver problemas. Se ela não for saudável, ela vai deteriorar. Organizações saudáveis sempre têm um desempenho melhor do que as insalubres. O problema é que muitos CEOs estão muito focados nas coisas intelectuais, achando que tudo tem a ver com estratégia, marketing, tecnologia, finanças etc. E, por mais que essas coisas sejam importantes, se você não está saudável, você não conseguirá alavancá-las.

**QUE TIPO DE COISAS UM LÍDER DEVE DOMINAR PARA DESENVOLVER A SAÚDE ORGANIZACIONAL?**

Há certos vieses e tendências que os executivos têm na forma de pensar, que dificulta o processo de eles abraçarem a saúde organizacional. Uma é que eles acham que tudo precisa ser muito sofisticado, então olham para algo simples e dizem: “Não pode ser poderoso se for simples”. Em segundo lugar, eles acham que precisa ser implementável do dia para a noite. Por exemplo: “Eu quero um sistema de software em que eu possa conectar e desconectar, e que vai mudar a minha organização”. A saúde organizacional não é assim; trata-se de um processo que envolve comportamento humano ao longo do tempo – semanas ou meses. O terceiro viés que as pessoas têm é achar que é preciso medir exatamente quais serão os benefícios, o tal do retorno do investimento. E nós dizemos que é tão grande que não é possível medir discretamente. Se um executivo disser: “Não precisa ser super quantitativo, não precisa ser ridiculamente sofisticado, e não precisa ser implementável da noite para o dia”, ele estará pronto para receber. Mas se tiver esses vieses, será preciso mudar seu mindset. 

**A CULTURA DE APRENDIZADO E A SELEÇÃO “MAGIC”**

De que competências sua empresa precisará para ter sucesso no futuro? Kelly Palmer, que já foi diretora de aprendizado do LinkedIn e do Yahoo, faz essa pergunta com certa regularidade a CEOs e executivos de empresas de diferentes portes e segmentos. Como na maioria das vezes a resposta é “não sei”, ela decidiu, com David Blake, escrever o livro The Expertise Economy: How the Smartest Companies Use Learning to Engage, Compete and Succeed.

Na visão dos autores, as empresas que possuem uma cultura de aprendizado já estão preparadas para esse futuro que, apesar de incerto, oferece uma boa dose de certeza de que aprimorar-se (upskilling) e requalificar-se (reskilling) será mandatório para quem deseja ter sucesso.

“Os gestores, e as pessoas em geral, ainda têm uma visão míope sobre o que é aprender, pois conectam o tema do aprendizado com matricular-se em um curso ou frequentar sala de aula”, afirma Palmer. 

Segundo a autora, elas precisam olhar para o ato de aprender como parte do dia a dia, pois o aprendizado ocorre lendo revistas, assistindo vídeos curtos, ouvindo podcasts, fazendo mais perguntas em reuniões, entre outras atividades que também trazem novos insights. 

Se uma competência-chave do novo mundo é a cultura de aprendizagem, outra tem a ver com o que era antigamente conhecido como “processo de recrutamento e seleção”. Nos últimos anos, o que faz uma pessoa escolher e se manter em um emprego mudou radicalmente, não é? Nesse contexto, o departamento de RH deve virar de ponta-cabeça os processos de seleção e retenção, que precisam ser urgentemente substituídos por estratégias de atração e engajamento. 

O engajamento deve receber atenção especial, inclusive. Segundo Tracy Maylett, coautor do livro Magic: Five Keys to Unlock the Power of Employee Engagement , criar e manter uma equipe engajada depende de cinco fatores, que formam o acrônimo Magic, em inglês: significado; autonomia; crescimento; impacto; e conexões.

Qualquer organização que deseja prosperar nesse futuro incerto deve investir na oferta desses elementos, para Maylett, e, sobretudo, investir em engajamento, que o autor define como “o estado emocional no qual sentimos paixão, energia e comprometimento com o nosso trabalho. (G.T.)

**O QUE AS EMPRESAS E OS LÍDERES PRECISAM FAZER PARA TORNAR SEUS AMBIENTES MAIS SAUDÁVEIS?**

Gostamos de dizer que, se você quer construir uma organização saudável, você precisa fazer quatro coisas muito bem. Primeiro você precisa se certificar de que a equipe de liderança tenha um comportamento coeso. Eles precisam confiar uns nos outros, participar de bons conflitos, comprometer-se com suas decisões, cobrar uns aos outros e concentrar-se no bem coletivo da equipe. Depois, essa equipe deve estar intelectualmente alinhada acerca das mesmas respostas para perguntas importantes sobre por que a empresa existe, qual é o diferencial, como nos comportamos, o que é mais importante. Em terceiro lugar, essa equipe precisa se comunicar exaustivamente. Ela precisa repetir constantemente as mesmas mensagens para as pessoas na organização, trazendo clareza e alinhamento constante. 

E, por fim, ela precisa implementar as estruturas básicas para reforçar essa cultura: como contratamos? Como demitimos? Como tomamos decisões? Como fazemos reuniões? 

**COMO CONSTRUIR UM TIME EM QUE AS PESSOAS CONFIAM UMAS NAS OUTRAS?**

A confiança é a base da saúde organizacional. Sem confiança você não consegue construir um bom time. Para que uma equipe se torne realmente boa, seus membros precisam se tornar vulneráveis. O que é vulnerabilidade? É quando você pode dizer a alguém: “Eu cometi um erro, eu não sei como fazer isso, você pode me ajudar?”. Ou: “Me desculpe por ter sido rude com você, eu não tenho uma boa desculpa para isso”. 

É só quando as pessoas conseguem ser verdadeiras e, portanto, vulneráveis, que se constrói confiança, pois uma vai saber que a outra admitirá um erro quando for esse o caso e que será capaz de reconhecer que uma ideia alheia é melhor do que a sua. Se não há esse tipo de confiança, tudo é infrutífero, político e frustrante. Você precisa desenvolver esse tipo de confiança, porque essa confiança permite que você participe de conflitos saudáveis, porque, se eu e você sabemos que confiamos um no outro, nós podemos debater sem nos sentirmos mal por causa disso. Já se não houver confiança, nós não vamos querer debater nunca .

Compartilhar:

Artigos relacionados

IA como álibi das decisões não pensadas

Será que as empresas, focando a agilidade das entregas com assistência de inteligência artificial, deixaram em segundo plano a qualidade do raciocínio? E quais são os riscos disso?

O problema não começa no canteiro. Só fica visível nele.

Atrasos, mudanças de escopo e disputas contratuais costumam ser tratados como falhas da execução. O artigo argumenta que, na maioria dos casos, os conflitos já estavam contratados desde o início, em escopos incompletos, riscos mal distribuídos e orçamentos desconectados da realidade do projeto.

Executivos estão estudando contabilidade para chegar ao C-level. Eu fiz o caminho inverso.

O artigo reflete sobre a evolução da carreira financeira e sobre o papel da contabilidade como ferramenta de gestão, mostrando que lucro, sozinho, raramente conta a história completa de uma empresa. Mais do que interpretar demonstrações financeiras, entender balanços, fluxo de caixa e capital de giro tornou-se uma competência essencial para líderes que desejam crescer de forma sustentável, tomar decisões mais consistentes e enxergar riscos e oportunidades antes que eles apareçam nos resultados.

Cultura organizacional, Estratégia
31 de outubro de 2026 08H00
Conselhos, mentorias, projetos estratégicos, participações societárias e posições temporárias estão redesenhando o papel dos executivos mais experientes.

Renata Fabrini - Sócia-fundadora da Plongê

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de outubro de 2026 15H00
O artigo reflete sobre os riscos das chamadas “câmaras de eco algorítmicas” e sobre o papel da IA na construção de decisões mais robustas e menos complacentes.

Ricardo Scheffer - CEO da SONDA do Brasil

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
30 de outubro de 2026 08H00
Ferramentas generativas estão acelerando a produção de conteúdo nas áreas de comunicação e relações públicas. O desafio é que rapidez não substitui contexto, discernimento nem responsabilidade.

Ana Paula Soares - Diretora-fundadora da Encaso Comunicação

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
29 de outubro de 2026 15H00
Pesquisas recentes indicam que o envelhecimento biológico pode ser medido, acompanhado e, em determinadas dimensões, influenciado. A partir dessa nova compreensão, cresce o interesse por abordagens capazes de identificar riscos precocemente e promover trajetórias de saúde mais duradouras ao longo da vida.

Natalia Gonçalves - Superintendente Pesquisa & Desenvolvimento e Diretora Instituto de Ensino e Pesquisa (IEPD) da Dasa

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
29 de outubro de 2026 08H00
A evolução da manutenção preditiva está levando a inteligência artificial para além da detecção de falhas. Sistemas multiagentes especializados começam a atuar como apoio para diferentes perfis profissionais, conectando análises técnicas, indicadores operacionais e recomendações de ação em um único fluxo de trabalho. O resultado é uma tomada de decisão mais rápida, contextualizada e alinhada às necessidades da operação.

Bernardo Murta - Principal Engineer da Dynamox

3 minutos min de leitura
Estratégia
28 de outubro de 2026 15H00
Quando compreendemos que nossas decisões impactam pessoas que ainda nem nasceram, o futuro deixa de ser uma ideia abstrata e passa a exigir compromisso concreto. A partir de uma visão inspirada nos saberes indígenas e na interdependência entre pessoas, comunidades e natureza, o texto defende a construção de respostas coletivas para problemas que exigem uma compreensão mais ampla e integrada da realidade.

Alexandre Farias Benjamim, - Sociólogo e membro do Conselho Fiscal da Sustentalli

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de outubro de 2026 08H00
A trajetória dos lubrificantes automotivos acompanha os principais marcos da indústria automotiva brasileira. Com a chegada de motores mais eficientes, exigências ambientais mais rigorosas e a expansão da eletrificação, o setor precisou inovar continuamente para atender novas demandas e permanecer relevante em um cenário de transformação da mobilidade.

Marcelo Martini - Gerente de Vendas do Aftermarket da FUCHS

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de outubro de 2026 15H00
O debate sobre videomonitoramento e inteligência artificial não se limita aos benefícios dessas ferramentas. Ele também envolve questões como governança, controle de acessos, transparência e proteção de dados. O artigo analisa como incidentes e questionamentos recentes reforçam a importância de mecanismos de supervisão capazes de garantir que tecnologias de segurança operem de forma confiável e responsável.

Afonso Morais - Fundador do escritório Pardi e Morais Consultores Jurídicos e Criador e apresentador do podcast Falando de Fraudes

6 minutos min de leitura
Estratégia
27 de outubro de 2026 08H00
Na teoria, cada contato acontece no momento certo e segue o fluxo previsto. Na prática, volume, prioridades e limitações operacionais exigem adaptações constantes. O desafio das empresas não é criar estratégias perfeitas, mas garantir que elas resistam às pressões do dia a dia sem perder seu propósito original.

Guilherme Busch - VP da Paschoalotto

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de outubro de 2026 15H00
Quando a visibilidade se transforma em critério implícito de reconhecimento, profissionais podem passar a priorizar projetos que geram exposição em detrimento daqueles que realmente precisam ser feitos. O artigo explora como o loud working pode afetar a colaboração e a dinâmica das equipes.

João Paulo Batistella - Fundador e CEO da Eleva Technologies,

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

CAPA_HSM_30_ANOS-1_pages-to-jpg-0001

Acesse agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #175

EDIÇÃO ESPECIAL DE 30 ANOS DA HSM MANAGEMENT