Inteligência artificial e gestão

As oportunidades de IA para o varejo brasileiro

A inteligência artificial terá o seu futuro garantido no Brasil se os varejistas a colocarem como prioridade e estratégia, para navegar e inovar no digital. A IA generativa pode destravar um novo nível de produtividade na força de trabalho do setor e de satisfação e fidelidade entre os clientes
Marcelo Toledo é diretor de estratégia e desenvolvimento de negócios para varejo e consumo na Salesforce América Latina, empresa de softwares que foca na solução de gerenciamento de relacionamento para aproximar empresas e pessoas.

Compartilhar:

A alta da inflação e as mudanças bruscas de hábitos de consumo pressionaram o varejo brasileiro durante e após a pandemia. Segundo o recente estudo *Connected Shoppers Report*, os dois fatores ainda são considerados os principais desafios do setor por seus tomadores de decisão. Para superá-los, os executivos ouvidos enxergam três caminhos como boas oportunidades: apostar mais no e-commerce, melhorar a prestação de serviços e hiper personalizar (ainda mais) as ofertas.

As maneiras de navegar nessas três frentes são inúmeras. Vão depender da natureza do negócio, do perfil de consumidor, do segmento varejista e de uma infinidade de variáveis. Como atacar todas ao mesmo tempo e com eficiência? Por hora, uma possível resposta é a inteligência artificial (IA) e sua recém-popularizada capacidade generativa para impulsionar o crescimento rentável e ao menor custo possível de operar e servir seus consumidores.

Executivos do setor têm se dado conta de que a IA generativa pode destravar um novo nível de produtividade na sua força de trabalho e de satisfação e fidelidade entre os clientes – não por acaso, 96% afirmam que estão investindo mais do que nunca na tecnologia.

Em termos práticos, os operadores do varejo podem melhorar a gestão de estoques, gerar e traduzir descrições e promoções de produtos, definir metas e criar orientações para alcançá-las. Os clientes ganham com recomendações de produtos mais personalizadas e assistentes de compras muito mais eficientes. Antever necessidades será mais fácil; tomar decisões, também.

Vale destacar o processo de automação de marketing com IA, que tornou muito simples a produção de conteúdo de anúncios (imagens, texto, vídeos etc.) que sejam relevantes para cada consumidor individualmente. Outro ângulo relevante é a possibilidade de segmentação dinâmica, ou seja, a identificação de comportamentos de consumidor que permitam conhecer melhor seus hábitos e de outros consumidores semelhantes. Isso permite direcionar mensagens mais adequadas e relevantes para estas pessoas.

Mas saber que a IA é relevante para os negócios é diferente de colocá-la em prática. Essa integração não será da noite para o dia. As novidades serão graduais, conforme evoluem as soluções e o uso ético da tecnologia é estudado e endereçado para respeitar as boas práticas de privacidade e confiabilidade de dados.

O paralelo que traço é com a chegada do Pix, em novembro de 2020. De cara, a novidade foi muito popular nas transações entre pessoas físicas, mas demorou para engrenar nas vendas do varejo. Sua integração aos sistemas empresariais não era simples, sobretudo para as grandes empresas. Agora que os obstáculos foram superados, as vendas de pessoas jurídicas para pessoas físicas da modalidade subiram de 6% do total de transações em dezembro de 2020 para 34% em setembro deste ano, de acordo com dados do Banco Central.

Duas diferenças importantes entre a adoção do Pix e o uso da IA generativa são a velocidade de crescimento da base de usuários e o alcance. Disponível globalmente, o ChatGPT popularizou a IA generativa e chegou a 100 milhões de usuários em apenas dois meses. O brasileiro Pix, esta ferramenta de pagamento incrível que mudou a rotina dos consumidores e do varejo por aqui, levou dez meses para alcançar a mesma marca.

O lado positivo é que, se depender só dos consumidores, a IA tem o seu futuro garantido no Brasil. Quase um terço (31%) já usa a tecnologia para inspirar compras no País versus 17% no resto do mundo. Mais de dois terços (69%) tem a intenção de usar a função para inspirar compras de roupas e 77% para adquirir eletrodomésticos e eletrônicos.

O Brasil também tem uma força consumidora apta para o digital. “Social selling” (venda social, na tradução) é comum por aqui, com 71% afirmando que já comprou nas redes sociais. A taxa é praticamente o dobro dos 36% registrados na última edição da pesquisa, em 2021, e bem acima da média global de 59%.

Até o final do ano, estima-se que 69% das transações do País aconteçam em canais digitais. Em 2025, o número vai chegar a 75%. São dados animadores, mas que deixam um recado claro: boas experiências vão depender de como o varejista vai endereçar IA, essencial para navegar no digital e inovar daqui em diante. Sem ela na mesa de estratégia, o resultado ficará aquém do esperado.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O cliente ainda precisa de vendedores?

A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

76% das organizações já têm um Chief AI Office (CAIO). E agora, qual é o papel do CEO?

Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Empresa familiar sem governança é refém do fundador; com governança, vira legado

O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

A NR-1 perguntou sobre o trabalho. A empresa respondeu sobre as pessoas.

A norma exige que as empresas avaliem fatores como jornada, ritmo, metas, autonomia e organização do trabalho. Em nenhum momento a NR-1 fala sobre diagnósticos individuais. Ainda assim, grande parte das organizações respondeu com pesquisas de saúde mental e mapeamentos de sintomas. Agora, com a suspensão temporária das multas pelo STF até setembro, surge uma oportunidade rara: abandonar as respostas equivocadas e voltar à pergunta original que a norma sempre fez sobre o trabalho, e não sobre as pessoas.

A equipe de marketing do futuro pode caber em uma pessoa

Freelancers, consultores, creators e pequenas agências estão redesenhando a lógica de crescimento no marketing digital. Em vez de ampliar estruturas, apostam em tecnologia para expandir capacidade, ganhar eficiência e aumentar resultados. O desafio agora não é apenas fazer mais em menos tempo, mas construir operações capazes de escalar com inteligência, previsibilidade e qualidade.

Inovação & estratégia
18 de agosto de 2026 14H00
Em mercados cada vez mais competitivos, escolher uma máquina apenas pelo menor preço pode significar abrir mão de produtividade, automação e eficiência operacional. O artigo propõe uma mudança de perspectiva: substituir a lógica do custo inicial pela análise do valor que o investimento é capaz de gerar para a empresa ao longo dos anos.

Fábio Kreutzfeld - CEO da Delta Máquinas Têxteis

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de agosto de 2026 08H00
Os profissionais de finanças foram treinados para dominar processos, consolidar informações e produzir análises complexas. Mas, em um mundo onde a inteligência artificial faz isso em segundos, a vantagem competitiva passa a estar em outro lugar: na capacidade de transformar informação em contexto, formular perguntas estratégicas e tomar decisões que nenhuma máquina consegue assumir sozinha.

Talita Braga - Diretora Executiva de Finanças da Infor na América Latina

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
17 de agosto de 2026 18H00
Profissionais maduros seguem acumulando repertório, capacidade de julgamento e conhecimento organizacional, mas frequentemente enfrentam uma perda silenciosa de reconhecimento e pertencimento. Ao abordar o conceito de envelhescência, o artigo discute como profissionais experientes podem perder espaço simbólico mesmo permanecendo altamente qualificados e por que reconhecer, valorizar e integrar o repertório acumulado se tornou um desafio estratégico para empresas que desejam preservar conhecimento, fortalecer a sucessão e construir culturas verdadeiramente intergeracionais.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Finanças
17 de agosto de 2026 14H00
Hiperpersonalização, agentes inteligentes, analytics em tempo real e IA generativa já deixaram de ser tendências isoladas e começam a formar uma nova arquitetura para o setor financeiro. O desafio das lideranças passa a ser transformar essas tecnologias em capacidades organizacionais escaláveis, seguras e conectadas aos objetivos estratégicos do negócio.

Diego Souza - Principal Technical Manager no CESAR, e Maria Tereza Nagel - Gerente de Projetos no CESAR

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de agosto de 2026 08H00
À medida que algoritmos passam a influenciar decisões cada vez mais relevantes, cresce uma questão que conselhos e lideranças não podem mais ignorar: quanto poder está sendo delegado à inteligência artificial sem supervisão adequada? O artigo propõe uma reflexão sobre a necessidade de incorporar a IA à agenda de governança corporativa.

Eliana Camejo - Vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli e conselheira de Administração pelo IBGC

3 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças
16 de agosto de 2026 15H00
O envelhecimento populacional, a incorporação de novas tecnologias e o aumento das demandas assistenciais estão pressionando os custos da saúde em níveis inéditos. Mais do que analisar despesas, entender a formação do orçamento hospitalar tornou-se uma competência estratégica para operadoras que buscam conciliar qualidade assistencial, eficiência operacional e sustentabilidade de longo prazo.

Anderson Farias - CEO da TopSaúde Hub

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
16 de agosto de 2026 10H00

Denise Joaquim Marques - Consultora internacional de negócios, especialista em Vendas e Marketing

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
15 de agosto de 2026 14H00
Sistemas desconectados, estoques imprecisos e perdas recorrentes tornam o hortifrúti uma das operações mais complexas do varejo alimentar. Ao contrário das promessas de transformação total, a inteligência artificial vem demonstrando valor justamente onde consegue reconstruir informações, prever demanda e apoiar decisões com impacto direto sobre vendas e desperdício.

Marco Perlman - CEO da Aravita

3 minutos min de leitura
Estratégia, Ecossistema
15 de agosto de 2026 08H00
Embora a maioria das empresas reconheça o potencial dos ecossistemas de parceiros para gerar receita e ampliar mercados, poucas conseguem transformar essa ambição em resultados consistentes. O artigo explora por que a construção de um ecossistema eficaz vai muito além da criação de um canal comercial, exigindo arquitetura, governança, ativação e uma estratégia capaz de conectar parceiros aos objetivos de crescimento do negócio.

Juliana Tubino e Nara Vaz Guimarães - Cofundadoras do Ecossistema Octo e coautoras do best-seller Ecossistema de Parceiros: Método Octo.

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing
14 de agosto de 2026 13H00
Ao visitar um dos vinhedos mais renomados de Bordeaux, o autor encontrou uma reflexão que ultrapassa o universo do vinho e alcança empresas, famílias e instituições. A decisão do Château Lafleur de abandonar uma denominação de origem histórica revela um dilema cada vez mais presente nas organizações: como preservar princípios e identidade em um mundo que exige adaptação constante?

Antonio Carlos Matos da Silva - Conselheiro independente associado ao IBGC

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo