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As próximas 2 horas e a Geração Flux

Um número cada vez maior de especialistas acredita que o futuro dos negócios é puro caos. Para uma empresa sobreviver e prosperar nesse ambiente, os executivos terão de saber deixar fluir –e flutuar
A reportagem é de Robert Safian, editor da revista Fast Company.

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> **Vale a leitura porque…**
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> …traz à luz um dos maiores problemas atuais: a maioria de nossas instituições não está preparada para lidar com o fluxo de informações que pode levar uma atividade a ser reestruturada da noite para o dia. E mostra como ele vem sendo enfrentado pela chamada “geração flux de executivos”.

Depois de fracassar em matemática na escola e de fazer faculdade só para ficar com a namorada, DJ Patil aplicou a ciência da computação para ajudar o Departamento de Defesa dos Estados Unidos a enfrentar as ameaças de armas biológicas, trabalhou no eBay com segurança digital e se tornou pesquisador de tendências meteorológicas da University of Maryland. Ele aprendeu duas lições: que ser flexível é preciso e que “às vezes não é possível fazer previsão do tempo nem para as duas horas seguintes”. 

O clima corporativo atual é parecido; ingressamos na era da “cultura das próximas duas horas”. O ritmo das transformações econômicas e culturais se acelera, propulsionado pelas novas tecnologias, e o futuro fica mais imprevisível. Um exemplo é a telefonia celular. Há cinco anos, três empresas controlavam 64% do mercado mundial de smartphones: a Nokia, a RIM e a Motorola. Hoje, quem lidera o setor são a Samsung e a Apple, mudança inédita para um negócio multibilionário. 

**PROSPERAR NO CAOS**

Ter êxito nesse cenário exige novos perfis de pessoas. As que mais tendem a vencer nesse contexto parecem ser as que integram a chamada “geração flux”, marcada pela aceitação da instabilidade e capaz de tolerar a redefinição das profissões, dos modelos de negócio e das diretrizes. Segundo nossa investigação, essas pessoas têm ao menos quatro aspectos em comum: perderam o medo do novo, mudam constantemente, mudam sem copiar os outros e seguem uma missão.

**Perder o medo Aprender** 

Coisas novas pode ser assustador, só que a agitação constante é uma realidade crescente, e não apenas em empresas como Facebook e Google. Ninguém podia prever que a General Motors pediria falência –e que voltaria com vigor ainda maior do que a Toyota. Até o robusto mundo das leis sofre ameaça de empresas como a LegalZoom, que vende serviços jurídicos online. A gigante General Electric (GE) é uma que sente a pressão da agitação constante. “Em uma indo rápido o bastante, porque começamos com uma ideia e logo esse cenário desaparece”, diz Beth Comstock, diretora de marketing da GE. 

A executiva acredita que “as equipes convencionais são lentas demais”. Se até empresas como a GE sentem a pressão, imagine as pessoas. Apavoram-se! Elas estão preparadas para identificar uma ideia ou produto de sucesso e replicá-lo, esperando estabilidade e segurança nesse processo, não para correr riscos e encarar um futuro incerto. (E é especialmente cruel ter de fazer isso em um momento em que a economia patina.) “O maior problema é que o medo paralisa as pessoas”, opina Raina Kumra, vice-diretora de inovação do Broadcasting Board of Governors, que cuida de toda a comunicação não militar do governo dos Estados Unidos. 

Como pessoas de carne e osso iguais a nós perderam o medo? Talvez sendo expostas à mudança. Kumra, por exemplo, começou sua vida profissional fazendo documentários científicos. “Sempre que voltava de uma viagem, os programas de edição tinham mudado”, conta. Então, ela entrou no mercado da publicidade, formou-se em design em Harvard, lecionou na University of Amsterdam e montou uma ONG chamada Light Up Malawi. 

Hoje, essa variedade de experiências de Kumra a prepara para o futuro, além da paixão que desenvolveu por coisas novas. Beth Comstock, da GE, perdeu o medo com uma trajetória menos diversificada, pois já está há mais de duas décadas na mesma empresa, só mudando de departamento. 

Ela e seu pessoal se beneficiaram de levar colaboradores ultracriativos para a corporação, desses que renovam as ideias e os processos. “Estamos nos cercando de gente que sabe empreender, o que cria tensão, mas gera energia”, diz Comstock. A executiva assina as iniciativas Ecomagination e Healthymagination, que têm ajudado a reconfigurar a empresa. Ainda é cedo para medir os ganhos da Healthymagination, mas a divisão Ecomagination já gera uma receita de US$ 85 bilhões. 

Como o humorista Baratunde Thurston lidou com o medo? Ele não saiu de casa quando cobriu a atuação da polícia no Occupy Wall Street; usou o computador. “Acompanhei os vídeos postados em tempo real, os relatos da polícia e as declarações do prefeito. Pelas mídias sociais, vi o que as pessoas contavam”, diz. Por três horas, juntou tudo e retransmitiu –por vias digitais. Thurston, que se define como “um comediante do futuro, porque ativo politicamente e ligado na tecnologia”, tem boa variedade de experiências também: faz stand-up, é autor de livros, estudou programação e filosofia. “As pessoas dizem que preciso de foco, mas gosto é dessa miscelânea.”

> **A GERAÇÃO FLUX É…**
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> … um grupo de pessoas com a mentalidade aberta à instabilidade e capaz de tolerar a redefinição das profissões, dos modelos de negócio e das diretrizes em geral. Elas ligam-se a missões e têm todas as idades; trata-se de definição mais psicológica do que demográfica.

**Mudar constantemente**

Outro ponto-chave é saber mudar constantemente, como Bob Greenberg, que comanda a R/GA, agência digital que às vezes cresce mais de 20% em um ano. Em 2014, Greenberg teve de aumentar seu quadro de colaboradores de 1.000 para 1.200 pessoas, e, para isso, precisou contratar 500 profissionais novos, compensando a alta rotatividade. Muitos CEOs ficariam apavorados com o desafio, mas Greenberg manteve a calma, porque ele acredita que o futuro será assim mesmo, sempre instável. 

Calma não é sinônimo de imobilidade, no entanto. Mesmo com o intenso crescimento de sua R/GA, o executivo promoveu uma reorganização radical nela –quinta tentativa de modificar seu modelo de negócio, integrando 12 novas ofertas de serviços em seu portfólio, de eventos ao vivo ao desenvolvimento de produtos. 

A flexibilidade da R/GA é um exemplo para empresas grandes e pequenas. Outros são o Facebook e a Apple, regularmente citados. Um dos inegáveis motivos do sucesso do Facebook, por exemplo, é a mudança constante, realidade que Mark Zuckerberg impôs desde a fundação. Steve Jobs adotava filosofia parecida na Apple; recusava-se, por exemplo, a criar produtos novos para sistemas operacionais antigos. Como diz Pete Cashmore, fundador e CEO do site Mashable –um fenômeno de crescimento–, a necessidade de mudança permanente pode ter chegado primeiro a empresas mais ligadas a tecnologia, mas atingirá todas as indústrias. 

> **ELES SÃO FLUX**
>
> **DJ Patil, 37** – cientista de dados da Greylock Partners, foi pesquisador do laboratório de Los Alamos (do Departamento de Energia dos EUA), fellow do Departamento de Defesa dos EUA, responsável pela segurança do eBay, líder do time de dados do Linkedin. sua frase-chave é: “Não tenho planos. Olhar muito além do horizonte é perda de tempo”. 
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> **Beth Comstock, 51** – Diretora de marketing da GE, atuou como repórter de tV antes de se tornar uma potência do marketing. Ela explica o ambiente a nossa volta assim: “hoje todo mundo se sente sem controle das coisas e algumas pessoas dizem que fracassaram. Mas elas estão é desistindo, em vez de abraçar as mudanças”. 
>
> **Bob Greenberg, 63** – cEo e fundador da agência de publicidade e marketing digital R/GA, que montou para produzir os efeitos visuais de filmes como Alien, o Oitavo Passageiro e Zelig. cria programas inovadores para a Nike, Nokia e hP. Para ele, “as pessoas falam sobre mudança e adaptação, mas o substantivo que elas encarnam é competição”. 
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> **Raina Kumra, 34** – codiretora de inovação do Broadcasting Board of Governors (BBG), responsável  pela comunicação não militar do governo dos EUA, foi estrategista da agência de publicidade Wieden+kennedy e fundou a oNG Light Up Malawi. Ela diz: “tenho uma missão de mudar o mundo. É missão, não cargo ou carreira”. 
>
> **Baratunde Thurston, 34** – Ator de stand-up  e ex-diretor digital do site humorístico the onion, estudou filosofia em Harvard, virou consultor e, depois, comediante e escritor. A frase de divulgação de seu livro How to Be Black o revela: “Se não comprar o livro, você é racista”. 
>
> **Danah Boyd, 34** – Principal pesquisadora da Microsoft Research, estudou na Brown, no Mit Media Lab e em Berkeley. Chamada de “suma sacerdotisa da internet” pelo Financial Times, foi consultora da intel, Google, Yahoo! e atuou na V-Day, oNG que combate a violência contra as mulheres. Escreveu o livro It’s Complicated, sobre adolescentes conectados. Seu segredo é: “A questão é não ter medo”. 
>
> **Pete Cashmore, 26** –  Fundador de um blog tech escocês que virou o site Mashable, com mais de 20 milhões de usuários por mês e 2 milhões de seguidores no twitter, ele diz: “Não tenho problema em jogar fora o passado; isso dá chance aos outros”.

> **Brasileiros em sintonia**
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> Os mais jovens lideram a mudança comportamental aqui, segundo a agência de pesquisas box1824
>
> o CEO da Box1824, Rony Rodrigues, costuma dizer que as pessoas, no mundo inteiro, estão trocando o conceito de emprego pelo ideal de trabalho. isso se percebe na nova lógica de atuar por projetos, na mentalidade guiada por desafios e recompensas –como em um game–, na busca de trajetórias com começo, meio e fim. 
>
> E faz sentido: a relação com o trabalho alinha-se com os tempos digitais que vivemos. E os brasileiros? Nós estamos acompanhando esse movimento global, embora ainda principalmente os mais jovens. Da década de 2000 para cá, vida profissional e pessoal já se fundiram em um único estilo de vida e, no futuro próximo, emprego, projetos pessoais e também trabalho voluntário tendem a fluir inteiramente juntos; nenhuma separação fará sentido mais. com isso, naturalmente, empresas que refletem propósitos individuais e trabalhos que causam impacto social tornam-se os mais desejados. 
>
> por André Oliveira, diretor de tendências da Box1824, agência de pesquisas de tendências comportamentais.

**Mudar por conta própria**

Muitas empresas já estão lutando para recriar suas estratégias, mas os executivos geralmente buscam modelos organizacionais de sucesso para imitar. Deveriam? Talvez não. Talvez seja preciso criar um a partir do zero. Em um mundo mutante, o que funciona em uma empresa ou setor pode não valer para outros –e, se funcionar, talvez seja por tempo limitado. As organizações precisam, na verdade, encontrar (e desenvolver) a estrutura, o sistema e a cultura que mais lhes deem competitividade ante a mudança. Uma fonte de inspiração vem do mundo do software. Em seu livro Building Data Science Teams, DJ Patil lembra como os programas de computador eram desenvolvidos: “Uma equipe projetava, outra criava mock-ups e os engenheiros construíam conforme as especificações”. Trata-se do processo em cascata. Esse sistema foi substituído pelo “desenvolvimento ágil”, que Patil define como “a capacidade de adaptar e repetir processos durante o ciclo de vida do produto”. Da mesma forma, a empresa deve tornar-se ágil.

**Ter clareza sobre a missão**

Falando em mudar constantemente, perguntamos ao CEO da Nike, Mark Parker, se ele vislumbra sua marca em instituições e atividades associadas à saúde, já que a prática esportiva visa a saúde. Sua resposta? Não. Por mais tentadora que seja a possibilidade, ele não vê a intersecção como foco da empresa. Foco ainda existe, no sentido de que a Nike tem total clareza quanto a sua missão. Isso não significa que ela evitará colocar o pé em novas áreas, pois já o coloca, como mostram dois exemplos:

• Uma startup sua dedica-se à operação de esportes digitais, concentrada em recriar a forma de treinamento dos atletas ocasionais, seus mecanismos de motivação e de conexão com os demais. 

• Mais de 5 milhões de pessoas interagem no site Nike+, conectado a sensores instalados nos tênis, telefones ou relógios, a fim de obter dados relacionados com o ritmo dos treinos e com a frequência cardíaca. 

No entanto, nesses dois casos, a Nike cria ferramentas para reforçar a experiência, a identidade e a missão da marca.

Em um mundo em movimento, a missão parece adquirir mais importância do que nunca. O episódio do Netflix com o fracassado Qwikster [serviço de streaming por e-mail que o Netflix tentou vender separadamente] serve de exemplo. A missão da empresa –de oferecer uma experiência melhor, mais simples e mais barata– foi traída, pois ela passou a atuar quase como um player de tecnologia avançada. 

**LIÇÕES FLUX**

Nossas instituições estão ultrapassadas, a carreira longa morreu e regras sólidas perderam o sentido, sendo constantemente repensadas. Qualquer coisa estabelecida tornou-se vulnerável. Descrito assim, o caos é perturbador, mas há outra maneira de descrevê-lo: como uma explosão de oportunidades para quem quiser mudar. Foi mais ou menos isso que aconteceu quando houve a transformação de uma sociedade majoritariamente agrária para uma urbana. O fluxo de informações (e mudanças) foi igualmente acelerado. Enfim, como previu Charles Darwin há 150 anos, “não será o mais forte ou o mais inteligente que sobreviverá, e sim aquele com maior capacidade de adaptação”.

> **Você aplica quando…**
>
> …desenvolve a habilidade de adquirir novas habilidades, entendendo quatro lições: é preciso perder o medo, mudar constantemente, mudar por conta própria sem copiar os outros e ter clareza sobre sua missão.

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