Carreira

As semelhanças entre a medicina e a carreira executiva

Como médico, digo com propriedade: é preciso ir além das hard skills
CoFundador do MISSÃO COVID, cardiologista com títulos de especialista pelas Sociedade Brasileira de Cardiologia e Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista. Foi Coordenador do Núcleo da Cardiologia do Hospital Samaritano Higienópolis 2019-2020. The Innovative Health Care Leader: From Design Thinking to Personal Leadership - Graduate School of Business Stanford 2019; MBA em Gestão em Saúde pela Fundação Getúlio Vargas - 2017/2018; Imersão na Singularity University 2017; Missão Health Silicon Valley Startse 2019

Compartilhar:

Não me recordo exatamente o momento em quem recebi o chamado para ser um médico, mas essa vocação veio à tona na minha adolescência, apesar de nenhum familiar usar o famoso jaleco branco. O que eu tinha como certeza é que queria ser um excelente profissional capaz de entregar os quatros grandes pilares assistenciais: promoção/prevenção da saúde, diagnóstico e tratamento das doenças. Mal eu sabia que, para entregá-los, seria necessário muito mais do que dominar esses tradicionais pilares da medicina. Seria preciso desenvolver soft skills.
Vivemos em uma era em que há grande ineficiência dos processos, desperdício de recursos e um sistema de saúde reativo e centrado nos hospitais. Um grande player desse ecossistema é o profissional médico que está envolvido desde o gemba, ou seja, na ponta do operacional (pronto-socorro) até o cargo executivo e de liderança, com a responsabilidade de tomar decisões estratégicas. As habilidades necessárias para que sejamos profissionais altamente produtivos, proporcionando uma alta performance do sistema de saúde vão muito além do conhecimento da medicina assistencial.
No início da minha jornada médica, quando dava plantão no final de semana enquanto fazia a residência de cardiologia, perguntei para a coordenadora da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) o motivo de ter abandonado a medicina, já que tinha feito um MBA em gestão hospitalar e assumido um cargo de administradora. Mal sabia que mesmo eu, que era um “mero” plantonista, otimizaria muito as operações da unidade, inclusive a assistência dos pacientes, caso estivesse conectado com o mundo da gestão. Naquele momento, exames complementares eram desperdiçados e protocolos subotimizados por falta desse conhecimento. Segundo um estudo do Instituto de Estudos da Saúde Suplementar (IESS), em 2017 houve um desperdício de 12 bilhões de reais por exames laboratoriais equivocadamente solicitados.
O gestor em saúde precisa ter vivido na pele, previamente, as dores da sua equipe e em um cenário ideal, com uma formação acadêmica nessa área. Na grande maioria dos casos, o gestor ocupa também ums posição de liderança e aí entramos em um cenário que exige novas habilidades do profissional. O médico se capacita ao longo da sua carreira, com habilidades técnicas e mensuráveis, adquiridas desde o vestibular, até chegar nas provas de título de sua especialidade. Conhecidas como hard skills, está no core de todos os médicos, sendo fundamental para que conquiste todos os certificados e diplomas que serão exibidos na parede de seu consultório. Porém entramos na era em que as soft skills, famosas no mundo corporativo, são praticamente obrigatórias para nos garantir uma melhor performance, influenciando diretamente na qualidade da experiência do paciente.
Essas habilidades, chamadas de comportamentais, são essenciais para um profissional que lida tanto com o ser humano. Ela não é mensurável em provas, como nas de residência, nem aprendida em cursos ou livros, mas sim desenvolvida durante a nossa jornada, com experiências vividas. É fundamentada basicamente na inteligência emocional, exigindo que o indivíduo mergulhe no mundo do autoconhecimento e desenvolvimento pessoal.
Ser um médico com amplo conhecimento científico e acadêmico é uma premissa básica da profissão. Liderança, gestão de conflito e de tempo, networking, ética profissional, empatia, resiliência, capacidade de resolver um problema e de se comunicar eficientemente, são algumas das soft skills que tornarão o médico acima da média.
Médicos, em geral, conquistam posições por suas hard skills, mas se destacam e recebem promoções por suas habilidades comportamentais, quando prestam um serviço humanizado, eficiente e centrado no paciente. E a semelhança com o universo executivo não é mera coincidência. Vivemos uma era singular e de grande disrupção de mentalidade e de tecnologia, acelerada ainda mais com essa pandemia. O sistema de saúde precisa de médicos versáteis, humanos e dotados de visão inovadora.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quando tudo vira conteúdo, o que ainda forma pensamento?

A inteligência artificial resolveu a escala do conteúdo – e, paradoxalmente, tornou a relevância mais rara. Em um mercado saturado de vozes, o diferencial deixa de ser produzir mais e passa a ser ajudar a pensar melhor, por meio de curadoria, experiências e comunidades que realmente transformam.

Fornecedores, riscos e resultados: a nova equação da competitividade

Em um mundo em que pandemias, geopolítica, clima e regulações desmontam cadeias de fornecimento inteiras, este artigo mostra por que a gestão de riscos deixou de ser operação e virou sobrevivência – e como empresas que ainda tratam sua cadeia como “custo” estão, na prática, competindo de olhos fechados.

Apartheid climático: Quando a estratégia ESG vira geopolítica

A capitulação da SEC diante das regras climáticas criou dois mundos corporativos: um onde ESG é obrigatório e outro onde é opcional. Para CEOs de multinacionais, isso não é apenas questão regulatória, é o maior dilema estratégico da década. Como liderar empresas globais quando as regras do jogo mudam conforme a geografia?

Inovação & estratégia
23 de março de 2026 14H00
Entre inovação, sustentabilidade e segurança regulatória, o modelo de concessões evolui para responder aos novos desafios da mobilidade urbana no Brasil.

Edson Cedraz - Sócio-líder para a indústria de Government & Public Services e Fernanda Tauffenbach - Sócia de Infrastructure and Capital Projects

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional, Inovação & estratégia
23 de março de 2026 08H00
Num setor que insiste em se declarar neutro, este artigo expõe a pergunta incômoda que a tecnologia evita - e revela por que ampliar quem ocupa a mesa de decisões é urgente para que o futuro não repita o passado.

Roberta Fernandes - Diretora de Cultura e ESG do CESAR

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
22 de março de 2026 08H00
Num mundo em que qualquer máquina produz texto, imagem ou vídeo em segundos, o verdadeiro valor deixa de estar na geração e migra para aquilo que a IA não entrega: julgamento, intenção e a autoria que separa significado de ruído - e conteúdo de mera repetição.

Diego Nogare - Especialista em Dados e IA

3 minutos min de leitura
Liderança, ESG
21 de março de 2026 11H00
Entre progressos estruturais e desafios persistentes, o Brasil passa por uma transformação profunda e se vê diante da urgência de consolidar conselhos mais plurais, estratégicos e preparados para os dilemas do século 21.

Felipe Ribeiro - Sócio e cofundador da Evermonte Executive & Board Search

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de março de 2026 06H00
Se a Governança de Dados não engaja a alta liderança, não é por falta de relevância - é porque ninguém mobiliza executivo algum com frameworks indecifráveis, Data Owners sem autoridade ou discursos tecnicistas que não resolvem problema real. No fim, o que trava a agenda não são os dados, mas a incapacidade de traduzi-los em poder, decisão e resultado

Bergson Lopes - Fundador e CEO da BLR DATA e vice-presidente da DAMA Brasil

0 min de leitura
User Experience, UX, Marketing & growth
20 de março de 2026 14H00
Entenda como experiências simples, contextualizadas e humanas constroem marcas que duram.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

9 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
20 de março de 2026 08H00
Este artigo provoca uma pergunta incômoda: por que seguimos tratando o novo com lentes velhas? Estamos vivendo a maior revolução tecnológica desde a internet - e, ainda assim, as empresas estão tropeçando exatamente nos mesmos erros da transformação digital.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

6 minutos min de leitura
Lifelong learning
19 de março de 2026 17H00
Entre escuta, repertório e prática, o que conversas com executivos revelam sobre desenvolvimento profissional no novo mercado.

Rafael Mayrink - Empresário, sócio do Neil Patel e CEO da NP Digital Brasil

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de março de 2026 08H00
Enquanto as empresas correm para adotar IA, pouquíssimas fazem a pergunta que realmente importa: o que somos quando nosso modelo de negócio muda completamente?

Bruno Stefani - Fundador da NERD Partners

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de março de 2026 13H00
Nada destrói uma empresa tão rápido - e tão silenciosamente - quanto um líder mal escolhido. Uma única nomeação equivocada corrói cultura, paralisa times, distorce decisões e drena resultado. Este artigo expõe por que insistir nesse erro não é só imprudência: é um passivo estratégico que nenhuma organização deveria tolerar.

Sylvestre Mergulhão - CEO e fundador da Impulso

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...