Uncategorized

Assumindo o compromisso com os stakeholders

jornalista e sócia da Editora Voo, fundada por Claudia Kubrusly e Joana Mello, além de Multiplicadora B e integrante da Comunidade B do Paraná. A Editora Voo nasceu em 2013 e é especializada em conteúdos de impacto. O projeto Um por Um da editora gera uma contrapartida social para cada livro vendido. Atualmente, a maior parte da contrapartida financia um projeto de incentivo e mediação de leitura com adolescentes em cumprimento de pena socioeducativa. Desde 2018, a Voo possui certificação como Empresa B. Os livros citados no artigo “Manual da Empresa B” (Ryan Honeyman), “Capitalismo Consciente Guia Prático” (Raj Sisodia, Timothy Henry e Thomas Eckschmidt) e “O Essencial da Teoria U” (Otto Scharmer) foram publicados, respectivamente, em 2017, 2018 e

Compartilhar:

“A crise da Covid-19 é um teste decisivo que mostra quem tem ‘andado nu’ apoiando o capitalismo de stakeholders.” A frase é de Klaus Schwab, fundador e diretor do Fórum Econômico Mundial, em um artigo que assina para o Financial Times. Em outras palavras, a robustez das empresas verdadeiramente engajadas com a chamada stakeholder economy está diante de sua prova de fogo.

Para sintonizarmos o discorrer sobre a questão, vamos antes alinhar alguns conceitos. No livro Capitalismo Consciente Guia Prático, os autores definem o modelo de stakeholder com o olhar em todas as entidades ligadas e impactadas pelo negócio: 

* sociedade, comunidades locais, parceiros, investidores, clientes, funcionários, meio ambiente (no âmbito interno); 

* governo, concorrentes, sindicatos, ativistas etc. (no âmbito externo).

E, para entender a cadeia de interdependência desse modelo, cito aqui um trecho importante do livro: “Quando você começa a pensar sobre os negócios dessa maneira, reconhece a inerente interdependência dos envolvidos. No longo prazo – e deve ser sempre no longo prazo –, os investidores não podem lucrar a menos que os clientes estejam realmente felizes e satisfeitos. Os clientes não podem estar verdadeiramente felizes e satisfeitos a menos que os empregados estejam realizados e tenham um senso de significado naquilo que estão fazendo. Você não pode fazer nada a menos que tenha insumos de alta qualidade, que é onde os fornecedores entram. Como nenhum negócio pode florescer como uma ilha de prosperidade em meio a um mar de desespero, a saúde e o bem-estar da comunidade são vitais”.

Quando muitas empresas operavam fielmente no modo gerar lucros para os acionistas (fim), utilizando-se dos outros participantes no sistema (meio), vieram as crises econômicas do século 21 e mostraram a fragilidade dessa visão, atrelada aos resultados de curto prazo. 

Por outro lado, aquelas empresas que já operavam num modelo mais abrangente, em que a tomada de decisões servia não apenas aos interesses dos acionistas, mas também ao bem-estar de todas as partes envolvidas no negócio, foram as que prosperaram. “Grandes empresas perduram porque conseguem que os interesses dos stakeholders estejam alinhados na mesma direção”, disse Edward Freeman, um dos pioneiros no despertar desse modelo.

O que conecta o modelo orientado aos stakeholders à longevidade é justamente **a visão a longo prazo.** Trazendo para o cenário atual, Shwab menciona em seu artigo como empresas que recentemente utilizaram seus lucros para recompra de ações, visando aumentar sua rentabilidade a curto prazo (foco no acionista) sofrem neste momento com a falta de reservas estratégicas.

Em um movimento paralelo, as redes sociais permitem hoje aos consumidores revelar seu desgosto com empresas que optaram publicamente por priorizar seus ganhos econômicos em detrimento de ações responsáveis para com funcionários, comunidades locais e demais partes. 

Juntando todos esses fatores, fica evidente que a visão a curto prazo foi escancarada e revelou que muitos negócios que se diziam da “nova” economia na realidade ainda operam na velha cartilha. 

#### Compromissos reais e mensuráveis

Empresas conscientes têm um entendimento muito claro quanto à interdependência das partes interessadas no negócio, por isso mesmo adotam a visão de gerar valor compartilhado no longo prazo. Mas o engajamento de todas as partes somente floresce em ambientes que cultivam transparência, confiança e ética. E, para isso acontecer, é preciso assumir um compromisso. 

Um dos movimentos mais importantes que surgiu nesse caminho foi o das Empresas B. E tudo começou com o surgimento do B Lab, em 2006, quando seus fundadores trabalharam ao lado de líderes, investidores e advogados de empresas que já despontavam um novo setor empresarial socioambiental para criar um conjunto de requisitos legais e de desempenho para certificar e externalizar a atuação desses negócios.

Como registrado no livro O Manual da Empresa B, essa comunidade precisava de um marco legal, “parâmetros confiáveis que os ajudassem a dar destaque a seu negócio em meio a um mercado abarrotado, onde todo mundo parece afirmar que a sua empresa é “boa’”.

Assim surgia a certificação de Empresa B, uma avaliação que pela primeira vez **mensurava o compromisso da empresa como um todo**: bom para os trabalhadores, bom para a comunidade, bom para o meio ambiente e bom no longo prazo.

Dois pontos dessa certificação são de extrema relevância para a questão levantada no artigo de Schwab: o compromisso estatutário e a recertificação. Não há como “andar nu” quando se tem o compromisso no estatuto social da empresa de que as decisões não levarão em conta apenas o ganho dos acionistas e quando os seus compromissos são reavaliados no intervalo de dois anos.

Esse é só um exemplo, claro, de como as empresas conscientes assumem compromissos com seus stakeholders, cultivando relações de confiança e transparência. As ferramentas e os instrumentos práticos para uma atuação que gere valor compartilhado a todas as partes no longo prazo são muitas e ganham cada vez mais relevância, inclusive em meios até então fechados a inovação.

O ponto é: quem estava apenas surfando a onda desse tal capitalismo de stakeholders terá agora que mergulhar a fundo. Pois a regeneração das empresas começa pelo despertar consciente da liderança. 

Como nos ensina Otto Scharmer, em sua Teoria U, para que a mudança sistêmica ocorra é preciso uma jornada na qual os stakeholders, juntos, passem de um modo de operar antigo, baseado num pensamento egossistêmico, para o modo do pensamento ecossistêmico, consciente do bem-estar coletivo.

#### Despertar a consciência por meio de conteúdos de impacto

Quando a [Editora Voo](https://www.editoravoo.com.br/) nasceu, em 2013, tínhamos o sonho de publicar livros que inspirassem as pessoas a fazer a diferença por um mundo melhor. Era um propósito grandioso para uma editora independente, mas estava tão claro que em pouco tempo nos posicionou no universo onde queríamos estar: o das empresas conscientes. 

Desde o início, era muito natural pautar as decisões no bem-estar de todos os envolvidos, assim como o compromisso de gerar impacto social. O projeto Um por Um nasceu junto da empresa. **Cada livro vendido geraria uma contrapartida social.** Sintonia perfeita com o primeiro título da editora: a história da TOMS Shoes e de como surgiu o conceito One for One.

Com o amadurecimento do negócio, os desafios foram crescendo, mas nossos pilares de sustentação não se abalavam. A tentação de uma impressão barata em locais onde não conhecemos condições de trabalho era vencida pela parceria ganha-ganha com bons fornecedores locais, por exemplo. E tal determinação nos trouxe uma rede de parceiros totalmente alinhada com esses valores. 

Com o crescimento do nosso catálogo, voltamos o olhar ao nosso conteúdo e foi quando, dois anos atrás, despertamos para a evolução do nosso propósito. Afinal, reunir autores como Frederic Laloux, Raj Sisodia, Blake Mycoskie, Otto Scharmer e muitos outros nomes referência na economia regenerativa nos apontava um só caminho: empoderamos agentes de transformação. A partir daí, ficou muito claro para nós o nosso papel nessa nova economia. 

_Somos a Voo e nosso propósito é despertar a consciência por um mundo que funcione melhor para todos._

Compartilhar:

Artigos relacionados

Estamos dispostos a arriscar o futuro da humanidade pelo resultado no curto prazo?

Quando compreendemos que nossas decisões impactam pessoas que ainda nem nasceram, o futuro deixa de ser uma ideia abstrata e passa a exigir compromisso concreto. A partir de uma visão inspirada nos saberes indígenas e na interdependência entre pessoas, comunidades e natureza, o texto defende a construção de respostas coletivas para problemas que exigem uma compreensão mais ampla e integrada da realidade.

O papel dos lubrificantes nos 70 anos da indústria automotiva no Brasil

A trajetória dos lubrificantes automotivos acompanha os principais marcos da indústria automotiva brasileira. Com a chegada de motores mais eficientes, exigências ambientais mais rigorosas e a expansão da eletrificação, o setor precisou inovar continuamente para atender novas demandas e permanecer relevante em um cenário de transformação da mobilidade.

Smart Sampa: vazamento de senhas expõe o desafio de proteger uma cidade monitorada por milhares de câmeras

O debate sobre videomonitoramento e inteligência artificial não se limita aos benefícios dessas ferramentas. Ele também envolve questões como governança, controle de acessos, transparência e proteção de dados. O artigo analisa como incidentes e questionamentos recentes reforçam a importância de mecanismos de supervisão capazes de garantir que tecnologias de segurança operem de forma confiável e responsável.

Estratégia
28 de outubro de 2026 15H00
Quando compreendemos que nossas decisões impactam pessoas que ainda nem nasceram, o futuro deixa de ser uma ideia abstrata e passa a exigir compromisso concreto. A partir de uma visão inspirada nos saberes indígenas e na interdependência entre pessoas, comunidades e natureza, o texto defende a construção de respostas coletivas para problemas que exigem uma compreensão mais ampla e integrada da realidade.

Alexandre Farias Benjamim, - Sociólogo e membro do Conselho Fiscal da Sustentalli

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de outubro de 2026 08H00
A trajetória dos lubrificantes automotivos acompanha os principais marcos da indústria automotiva brasileira. Com a chegada de motores mais eficientes, exigências ambientais mais rigorosas e a expansão da eletrificação, o setor precisou inovar continuamente para atender novas demandas e permanecer relevante em um cenário de transformação da mobilidade.

Marcelo Martini - Gerente de Vendas do Aftermarket da FUCHS

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de outubro de 2026 15H00
O debate sobre videomonitoramento e inteligência artificial não se limita aos benefícios dessas ferramentas. Ele também envolve questões como governança, controle de acessos, transparência e proteção de dados. O artigo analisa como incidentes e questionamentos recentes reforçam a importância de mecanismos de supervisão capazes de garantir que tecnologias de segurança operem de forma confiável e responsável.

Afonso Morais - Fundador do escritório Pardi e Morais Consultores Jurídicos e Criador e apresentador do podcast Falando de Fraudes

6 minutos min de leitura
Estratégia
27 de outubro de 2026 08H00
Na teoria, cada contato acontece no momento certo e segue o fluxo previsto. Na prática, volume, prioridades e limitações operacionais exigem adaptações constantes. O desafio das empresas não é criar estratégias perfeitas, mas garantir que elas resistam às pressões do dia a dia sem perder seu propósito original.

Guilherme Busch - VP da Paschoalotto

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de outubro de 2026 15H00
Quando a visibilidade se transforma em critério implícito de reconhecimento, profissionais podem passar a priorizar projetos que geram exposição em detrimento daqueles que realmente precisam ser feitos. O artigo explora como o loud working pode afetar a colaboração e a dinâmica das equipes.

João Paulo Batistella - Fundador e CEO da Eleva Technologies,

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
26 de outubro de 2026 08H00
De onde vem o termo, o que existe ao redor de um agente e por que transformar capacidade de raciocínio em trabalho confiável é uma decisão de gestão, não apenas de tecnologia.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

10 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Estratégia
25 de outubro de 2026 14H00
À medida que a inteligência artificial transforma funções, processos e competências, cresce a pressão sobre as áreas de Recursos Humanos para encontrar profissionais preparados para um cenário de constante transformação. O desafio não é apenas contratar talentos, mas desenvolver a capacidade de adaptação dentro das organizações.

Daniela Camargo - Head of People & Culture da VOLL

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
25 de outubro de 2026 08H00
Os efeitos das mudanças climáticas já são sentidos em diferentes regiões do planeta e tendem a se intensificar nas próximas décadas. Mais do que reagir aos desastres quando eles acontecem, o texto defende uma abordagem baseada em prevenção, planejamento e uso estratégico da tecnologia para reduzir vulnerabilidades e aumentar a capacidade de adaptação.

Álvaro Trilho - Diretor de Riscos da WTW Brasil

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
24 de outubro de 2026 14H00
A disponibilidade constante passou a ser confundida com produtividade. Mas, enquanto profissionais são cobrados por respostas rápidas, cresce a necessidade de concentração para realizar atividades que exigem análise, criatividade, julgamento e tomada de decisão. O artigo propõe uma reflexão sobre o valor do silêncio digital no trabalho, mostrando por que organizações que desejam melhores resultados precisam aprender a proteger a atenção das pessoas, e não apenas monitorar sua presença online.

Juliana Marinelli - Pesquisadora pHd de bem-estar digital

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
24 de outubro de 2026 08H00
Mais do que proteger ideias, a discussão convida empresas a construírem uma cultura em que o pioneirismo sirva de estímulo para novas criações, e não de atalho para replicar o trabalho de quem inovou primeiro.

Andrea Kohlrausch,- Presidente da Calçados Bibi

2 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução