Desenvolvimento pessoal

Até Hong Kong Precisa Melhorar

Mesmo na vanguarda das smart cities, a cidade chinesa tem déficit de inteligência; ela pode aproveitar melhor o big data, como fazem outras cidades.

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O aumento da capacidade de coletar e analisar grandes volumes de informações, o que se tem chamado popularmente de “big data”, está revolucionando a forma como governos de todo o planeta estão construindo suas políticas públicas, gerenciando o transporte coletivo e administrando o orçamento, entre outras atividades.

Com o advento do big data, mesmo cidades já consideradas inteligentes têm descoberto que precisam evoluir, aprimorando e tornando mais ágeis os processos de tomada de decisão em diversos setores, incluindo até mesmo o sistema de saúde e a previdência social. Aquelas que não fizerem correm o risco de ficar para trás. Esse é o caso de Hong Kong, considerada uma das mais destacadas smart cities do mundo. 

Quem visita Hong Kong logo nota que é uma cidade inteligente, seja ao desfrutar seu aeroporto de primeira classe, seja ao usar seu sistema de transporte altamente integrado e (relativamente) barato. Mesmo no que diz respeito ao uso de big data, o governo local é conhecido por ter implementado um sofisticado sistema de informação para, por exemplo, identificar pontos em que os recursos da saúde podem ser aplicados para monitorar a dispersão da dengue e dos mosquitos transmissores. 

Só que Hong Kong também está sendo desafiada. Seu governo precisa seguir desenvolvendo e integrando suas políticas e sua infraestrutura, ou não viabilizará o compartilhamento de dados pelos diversos departamentos, de modo que os gestores possam compará-los, estabelecer e avaliar correlações e utilizar o dinheiro público de modo mais eficiente. 

A coleta e a análise de dados em maior escala podem fazer com que as experiências dos cidadãos de Hong Kong se tornem mais simples e objetivas na hora de usar serviços públicos – por exemplo, para resolver questões de saúde e previdência. Um formulário único já seria um grande avanço.

**OPORTUNIDADES**

São três as principais áreas em que o big data pode fazer diferença em Hong Kong:

SAÚDE E PREVIDÊNCIA

Esses dois setores essenciais, e de alta visibilidade para a gestão pública, vivem um momento caracterizado pela tensão do crescimento em Hong Kong.

Os custos com saúde estão aumentando e sofrem uma pressão extra devido ao envelhecimento da população. Ao mesmo tempo, os gastos com seguridade social, que já correspondem a 15% do orçamento local, vêm sofrendo ataques de parte da opinião pública por serem considerados ineficientes.

Uma inspiração para resolver o problema vem da Austrália. Seu Department of Human Services (DHS) tem enfrentando questões semelhantes utilizando uma plataforma única para os benefícios sociais e de saúde. Com programas integrados, os gestores têm sido capazes de reunir e cruzar dados de alta qualidade de diversos departamentos, para desenhar benefícios e serviços sob medida para desempregados, crianças e outros segmentos populacionais vulneráveis. 

O big data permitiu, na Austrália, que houvesse uma proteção social customizada. Além de uma economia de mais de US$ 406 milhões entre 2013 e 2015, pesquisas indicam que essa customização viabilizada pelos dados gera melhores resultados, com um sucesso significativo no campo do emprego e um impacto ainda mais expressivo no que diz respeito ao tratamento de doenças mentais.

O cruzamento de dados também tem ajudado os gestores a aprimorar os sistemas de identificação de fraudes.

GESTÃO DO TRÁFEGO

Os custos dos congestionamentos em Hong Kong são altos. Além do aumento do tempo de deslocamento, também há atrasos no atendimento a emergências, maior emissão de gás carbônico, menor qualidade de vida e despesas crescentes para os negócios.

Todos esses problemas vêm minando a atratividade de longo prazo de Hong Kong como centro financeiro. A situação ainda é agravada pela possibilidade limitada de ampliação da infraestrutura de transporte rodoviário e pelo aumento do número de veículos.

Uma solução vinda de Israel pode inspirar Hong Kong: a intervenção nos horários de pico. Uma das principais vias rápidas de Tel Aviv, que faz a ligação da cidade com o aeroporto Ben Gurion, utiliza um sistema de pedágio que calcula a tarifa em tempo real.

O preço do pedágio aumenta quando o trânsito está mais pesado, fazendo com que a operação seja comercialmente mais atraente e, ao mesmo tempo, capaz de conter o excesso de carros no horário de pico. O congestionamento é medido [por meio de internet das coisas] pelo número de carros na rodovia e pelo espaço entre os veículos.

Outro projeto inspirador vem de Singapura: as rotas dos ônibus podem mudar para se adaptar às necessidades dos passageiros e às situações de tráfego. Por meio e um mapa 2D online, os funcionários da companhia determinam para onde enviar ônibus, com base em informações que mostram, em tempo real, onde há mais passageiros e congestionamentos.

HABITAÇÃO

O quadro da habitação em Hong Kong é impactado pelos altíssimos preços dos imóveis – e, portanto, também pelos caros aluguéis. Dessa forma, há uma proliferação de cortiços contemporâneos nos quais a população mais pobre vive, geralmente em espaços extremamente pequenos.

Com problemas semelhantes, Londres pode inspirar nessa área: está lidando com a questão crônica da habitação com o auxílio de uma série de ferramentas desenvolvidas por meio da Housing Association Charitable Trust (HACT).

O programa “Community Insight” da HACT usa dados de vários setores, possibilitando cruzar informações sobre a oferta de imóveis com uma grande quantidade de indicadores do governo e, assim, propor políticas habitacionais mais eficientes.

**EVOLUÇÃO**

Mesmo já sendo uma cidade inteligente, Hong Kong tem lições importantes a aprender com outros programas. Acima de tudo, a lição de que a coleta de informações pelo governo pode ser tornar algo politicamente delicado se o público não for envolvido desde o início.

A possibilidade de consultas públicas e o acesso da população ao big data pode aumentar a compreensão dos motivos pelos quais os dados são coletados e de como serão utilizados pelo bem coletivo. Esse movimento pode incluir campanhas educativas sobre como essas iniciativas podem aumentar a qualidade de vida ou atacar problemas crônicos. Ao mesmo tempo, é importante esclarecer como o governo implementa as medidas necessárias para garantir que as informações coletadas não sejam roubadas ou usadas indevidamente. Muitos dos mais bem-sucedidos programas que envolvem big data fazem do acesso às informações um de seus pilares.

A possibilidade de consultas públicas e o acesso da população ao big data pode aumentar a compreensão dos motivos pelos quais os dados são coletados e de como serão utilizados pelo bem coletivo. Esse movimento pode incluir campanhas educativas sobre como essas iniciativas podem aumentar a qualidade de vida ou atacar problemas crônicos. Ao mesmo tempo, é importante esclarecer como o governo implementa as medidas necessárias para garantir que as informações coletadas não sejam roubadas ou usadas indevidamente. Muitos dos mais bem-sucedidos programas que envolvem big data fazem do acesso às informações um de seus pilares.

Política e protocolos também devem estipular o tipo de informação que pode ser compartilhada ou utilizada nos cruzamentos promovidos pelos diferentes departamentos, os formatos dos bancos de dados e quaisquer outros procedimentos e obrigações.

Como os exemplos mencionados evidenciam, os dados geoespaciais possuem enorme potencial. Novos e inovadores usos de informações geográficas em tempo real vêm sendo aplicados para criar um “circulo contínuo retroalimentado”, com os dados coletados voltando ao público e contribuindo para a melhoria de sua qualidade de vida.  O big data é uma revolução, e está mudando a forma como os governos gerenciam. Nenhuma cidade que olhe seriamente para o futuro pode ignorá-la.

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