Sociedade

Até quando os cansados serão exaltados?

No período que vivemos é essencial distinguir e preservar nossas necessidades pessoais nos ambientes coletivos que mais geram cansaço físico, mental e existencial
É conselheira de empresas, mentora e professora. Durante anos foi executiva de empresas, passando por organizações como Toyota, GE, Votorantim e MSD. É autora de diversos livros, entre os quais está o ‘Emoção e Comunicação - Reflexão para humanização das relações de trabalho’, escrito em parceria com a Cynthia Provedel.

Compartilhar:

Entrei no mercado de trabalho no final da década de 1990. Naquela época, já havia uma piadinha bem estabelecida sobre a quantidade de horas que alguém trabalhava por dia. Algumas pessoas se orgulhavam da quantidade de e-mails recebidos. Outras, da quantidade de reuniões que recebiam o convite para participar. No fim das contas, existia um sentimento de pertencimento em “tanta coisa”, ou em ser uma pessoa tão necessária para a empresa.

Existia um pouco de vaidade nisso. E um pouco de inveja a esses humanos tão “bem-sucedidos e necessários”. Nunca falamos, mas que pensamos… ah, pensamos.

Passados 25 anos, acho que houve uma mínima mudança de direção. No entanto, quase tudo se tornou muito mais intenso.

Continuamos nos gabando (ou querendo nos gabar) de sermos tão necessários para a vida do trabalho, com um senso utilitarista. Embora haja aí um sentimento interessante de fazer parte, também precisamos olhar o outro lado: quando a gente tem mil e-mails, mil reuniões, mil mensagens no WhatsApp para responder, a saúde mental escorre pelo ralo.

Isso ocorre porque oito horas por dia acabam não sendo suficientes para lidar com tudo isso, e a vida do trabalho invade os outros campos do nosso cotidiano mais particular. Deixamos a vida utilitária (como dizia Santo Agostinho) tomar conta de nós. A outra vida, aquela do fruir (nas palavras do mesmo autor), nos escapam pelos dedos. É o mesmo que dizer que deixamos de lado outras coisas que nos dão prazer e que também alimentam nossas ideias, criatividade, capacidade de resolver problemas, aproveitar a vida.

## Exaustão como meta

Numa sociedade que exalta os cansados de diversas maneiras, estamos à beira do precipício. A gente corre o risco de entrar numa espiral sem fim de trabalho e, ao olhar para traz, se arrepender do que recolheu. Podemos ainda olhar para traz e não se lembrar de nada, mergulhados na exaustão que subjugamos em nosso cotidiano.

O cérebro também está exausto e nos causa umas peças: doenças neurológicas, perda de memória, [síndrome de burnout](https://mitsloanreview.com.br/post/revisitando-o-burnout-a-luz-da-covid-19-parte-4-de-4) etc. Atire a primeira pedra quem nunca.

Claro que para toda regra há uma exceção, mas acho válido que a gente não “chegue lá” às escuras, sem refletir de verdade sobre o que precisaremos abrir mão para isso. Sempre é bom lembrar que se a empresa em que você trabalha não é sua, e um dia, sem prévio anúncio, você pode receber um sincero “muito obrigado” e “boa sorte” nos seus próximos desafios. Assim, vale a pena permanecer no modo exausto?

## Pessoal e profissional: demarcações

Meus amigos tiram um pouco de sarro de mim. Explico: nunca deixo nada pessoal nas empresas em que trabalho. Se o “muito obrigado” chegar, estarei pronta para ir, sem ressentimentos.

As razões são várias e podemos nos encontrar em vários outros artigos para esse debate, mas cito os principais: __(1)__ tem hora que grito alto que estou cansada. Grito mais para eu mesma me ouvir do que para qualquer outra pessoa me escutar. Afinal, mudar começa em nós. Meu superpoder atual é dizer “não”; __(2)__ Fui buscando áreas em que posso me destacar, ser feliz e contribuir com coisas que acredito. Isso não me limita à empresa que trabalhe hoje (embora eu ame muito mesmo essa empresa); __(3)__ a vida não é só trabalho. Se essa parte não estiver boa, eu tenho um plano b.

*Gostou do artigo da Viviane Mansi? Confira outros conteúdos como esse assinando gratuitamente [nossas newsletters](https://www.revistahsm.com.br/newsletter) e escutando [nossos podcasts](https://www.revistahsm.com.br/podcasts) em sua plataforma de streaming favorita.*

Compartilhar:

É conselheira de empresas, mentora e professora. Durante anos foi executiva de empresas, passando por organizações como Toyota, GE, Votorantim e MSD. É autora de diversos livros, entre os quais está o ‘Emoção e Comunicação - Reflexão para humanização das relações de trabalho’, escrito em parceria com a Cynthia Provedel.

Artigos relacionados

Parte IV – Futuros em prompts: como disputar e construir realidade

Este é o quarto texto da série “Como promptar a realidade” e aprofunda como futuros disputam processamento antes de existir como evidência – mostrando por que narrativas constroem organizações, reescrevem culturas ou colapsam democracias, e como reconhecer (ou escolher) o prompt que está rodando agora.

A era do “AI theater”: estamos fingindo transformação?

Nem toda empresa que fala de IA está, de fato, se transformando. Este artigo expõe o risco do AI theater – quando a inteligência artificial vira espetáculo – e mostra por que a vantagem competitiva está menos no discurso e mais nas mudanças invisíveis de estratégia, governança e decisão.

Parte III – APIs sociotécnicas versus malwares mentais… e como recuperar a soberania imaginal

Este é o terceiro texto da série “Como promptar a realidade”. Até aqui, as duas primeiras partes mapearam o mecanismo: como contextos são instalados, como narrativas disputam processamento e como ficções ganham densidade de real. A partir daqui, a pergunta muda: o que fazer com esse conhecimento? Como reconhecer quando você está sendo instalado – e como instalar, conscientemente, o prompt que você escolhe?

O esporte que você ama mudou – e isso é uma ótima notícia

Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita – sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é

Parte II – Hyperstition: a tecitura ficcional da realidade

Este é o segundo artigo da série “Como promptar a realidade” e investiga como ficções, ao entrarem em loops de feedback, deixam de descrever o mundo para disputar ontologia – reorganizando mercados, política, tecnologia e comportamento antes mesmo de qualquer evidência.

Bem-estar & saúde
19 de abril de 2026 10H00
Ao tornar os riscos psicossociais auditáveis e mensuráveis, a norma força as empresas a profissionalizarem a gestão da saúde mental e a conectá-la, de vez, aos resultados do negócio.

Paulo Bittencourt - CEO do Plano Brasil Saúde

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
18 de abril de 2026 09H00
Este é o quarto texto da série "Como promptar a realidade" e aprofunda como futuros disputam processamento antes de existir como evidência - mostrando por que narrativas constroem organizações, reescrevem culturas ou colapsam democracias, e como reconhecer (ou escolher) o prompt que está rodando agora.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University.

27 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
17 de abril de 2026 15H00
Nem toda empresa que fala de IA está, de fato, se transformando. Este artigo expõe o risco do AI theater - quando a inteligência artificial vira espetáculo - e mostra por que a vantagem competitiva está menos no discurso e mais nas mudanças invisíveis de estratégia, governança e decisão.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Foresight
17 de abril de 2026 09H00
Este é o terceiro texto da série "Como promptar a realidade". Até aqui, as duas primeiras partes mapearam o mecanismo: como contextos são instalados, como narrativas disputam processamento e como ficções ganham densidade de real. A partir daqui, a pergunta muda: o que fazer com esse conhecimento? Como reconhecer quando você está sendo instalado - e como instalar, conscientemente, o prompt que você escolhe?

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University.

11 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
16 de abril de 2026 14H00
Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita - sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é

Marcos Ráyol - CTO do Lance!

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Foresight
16 de abril de 2026 09H00
Este é o segundo artigo da série "Como promptar a realidade" e investiga como ficções, ao entrarem em loops de feedback, deixam de descrever o mundo para disputar ontologia - reorganizando mercados, política, tecnologia e comportamento antes mesmo de qualquer evidência.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University

13 minutos min de leitura
Liderança
15 de abril de 2026 17H00
Se liderar ainda é, para você, dar respostas e controlar processos, este artigo não é confortável. Liderança criativa começa quando o líder troca certezas por perguntas e controle por confiança.

Clarissa Almeida - Head de RH da Yank Solutions

2 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Foresight, Tecnologia & inteligencia artificial
15 de abril de 2026 08H00
Este é o primeiro artigo de uma série em quatro partes que propõe uma microtese sobre futuros que disputam processamento - e investiga o papel insuspeito de memes, programação preditiva, hyperstition, cura de traumas, strategic foresight e soberania imaginal no ciclo de inovação que já começou.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University

23 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
14 de abril de 2026 18H00
Este artigo propõe analisar como a combinação entre pressão por velocidade, talento autónomo e uso não estruturado de AI pode deslocar a execução para fora dos sistemas formais- introduzindo riscos que não são imediatamente visíveis nos indicadores tradicionais.

Marta Ferreira

4 minutos min de leitura
Liderança
14 de abril de 2026 14H00
Este é o primeiro artigo da nova coluna "Liderança & Aikidô" e neste texto inaugural, Kei Izawa mostra por que os líderes mais eficazes deixam de operar pela lógica do confronto e passam a construir vantagem estratégica por meio da harmonia, da não resistência, da gestão de conflitos e de decisões sem ego em ambientes de alta complexidade.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...