Melhores para o Brasil 2022

Atenção às próximas narrativas

Entenda os efeitos do storytelling sobre o futuro das organizações e os dois modos em que ele deve ser aplicado pelos líderes
Bruno Scartozzoni é consultor e professor especialista em storytelling. Formado em administração pública e pós- -graduado em administração e marketing pela FGV EAESP, Bruno é e cofundador da StoryTalks, empresa especializada em treinamentos para falar em público.

Compartilhar:

Alguns anos atrás assisti a um filme sobre duas sociedades antigas. A primeira acreditava na profecia de um salvador que viria para libertá-la das coisas ruins. Era uma sociedade subdesenvolvida e, no dia a dia, lutava muito para sobreviver. A segunda era o contrário. Era bastante avançada em tecnologia, tinha recursos abundantes e grande poderio militar. Como a profecia na qual as pessoas acreditavam falava que uma maldição acabaria com tudo, todos se preparavam para isso.

O nome desse filme é 10.000 a.C., e eu já adianto que não se trata de nenhuma obra-prima. Ou seja, só veja em caso de extrema curiosidade. Mas essa passagem explica com perfeição a importância das histórias que a gente conta.
No mundo corporativo não há o misticismo, mas encontramos exemplos parecidos aos do filme. As histórias que as empresas contam acabam influenciando o futuro de funcionários e clientes, podendo levar ao sucesso ou ao fracasso. É por isso que o domínio do storytelling é cada vez mais importante – e os líderes que têm (ou querem ter) visão de longo prazo já entenderam isso.

## Ferramenta velha, uso novo
Embora não seja novidade, uma vez que Aristóteles já falava disso há mais de 2 mil anos, o storytelling vem chamando a atenção do mundo corporativo só nos últimos 20 anos.

Demorou. Segundo o psicólogo Jonathan Haidt, “a mente humana é um processador de histórias, e não de lógica”. Diversos estudos, da psicologia à neurociência, mostram que nós, seres humanos, enxergamos o mundo por meio de histórias, não de fatos, dados e números. Portanto, mesmo na era do big data e do analytics, líderes que se comunicam com essas técnicas pegam um “atalho” na mente de seus públicos para transmitir valores e, assim, criar uma cultura comum e um engajamento.

Porém, não é só para isso que as histórias servem. Quando uma empresa como a XP Investimentos adota o storytelling, por exemplo, ela está deixando claros os valores que devem guiar a construção do seu futuro.

E o futuro das empreas é desenhado por suas narrativas individuais e também pelas coletivas, embora estas sejam bem menos percebidas. Observei isso pela primeira vez em meados da década de 2000, quando ainda trabalhava no mercado publicitário. Houve uma hora na qual todas as campanhas que fazíamos estavam ligadas à causa do meio ambiente. Essa onda durou um bom tempo.

Cerca de uma década mais tarde, outra grande narrativa começou a ocupar esse lugar: diversidade. Até hoje, é basicamente impossível não falar sobre isso, e as empresas que tentam ir contra a maré são duramente cobradas.

Meu palpite é que a próxima grande narrativa, que já dá sinais claros, será a da saúde mental. É um tema cada vez mais presente em discussões, ligado à diversidade e que ficou mais urgente em 2020. Recentemente a Ambev anunciou a criação de uma diretoria para cuidar exclusivamente desse assunto, inclusive. (Não se trata de ser volúvel. Como tudo na vida, por mais importante que seja uma história, é natural que ela chegue a um ponto de saturação e abra espaço para algo novo. Isso não significa que a história anterior foi “resolvida”, ou mesmo que seja abandonada, mas acontece uma mudança de discurso.)

Uma coisa é certa: as empresas que sabem construir narrativas individuais e incorporar logo as narrativas coletivas têm muito mais controle sobre o futuro que estão criando, o que constitui uma real vantagem competitiva. Afinal, o psicólogo Jerome Bruner diz que uma ideia tem 22 vezes mais chance de ser lembrada se estiver embrulhada em uma história. Boas histórias são memoráveis, se espalham com facilidade e inspiram ação. Por isso que histórias são tão importantes para a construção do futuro de cada organização.

## Lideranças estão atentas
Certa vez, o diretor de uma companhia multinacional me ligou pedindo por um treinamento rápido e urgente em storytelling. Quando perguntei o motivo da urgência, ele me explicou que estava participando de um processo seletivo para se tornar CEO em uma das filiais, e na semana seguinte passaria por uma série de testes na matriz. Um dos testes passava por fazer uma apresentação no formato de história – já que ele teria de inspirar a empresa em direção ao futuro. De lá para cá surgiram mais clientes com desafios parecidos.

Isso significa que cada vez mais lideranças estão atentas às histórias e a sua utilidade para a construção do futuro. Sua empresa tem uma narrativa dela, individual, para moldar o futuro? Ao longo do tempo, ela tem se engajado nas grandes narrativas coletivas, sobre meio ambiente ou diversidade? Empresas que se engajam logo podem conquistar um papel relevante nessa história. Qual papel sua empresa terá na história da saúde mental?

Compartilhar:

Artigos relacionados

Isolamento nas empresas não é só físico: é cultural

Nem sempre a queda de engajamento está relacionada à falta de motivação individual. Muitas vezes, ela surge em ambientes onde as pessoas deixam de se sentir ouvidas, evitam discordar e aprendem que é mais seguro permanecer em silêncio.

O maior prejuízo de um ataque cibernético raramente está onde as empresas costumam procurar

A maioria das organizações sabe exatamente quanto faturou ontem. Poucas sabem quanto perderiam se amanhã não conseguissem operar. Ao discutir os impactos financeiros da indisponibilidade de sistemas, o artigo propõe uma mudança de perspectiva: cibersegurança não deve ser vista apenas como um investimento em tecnologia, mas como uma estratégia de proteção da receita, da continuidade operacional e da capacidade do negócio de seguir funcionando diante de incidentes cada vez mais frequentes.

Quando a IA assume as tarefas, a liderança ganha espaço para cuidar das pessoas

À medida que a inteligência artificial assume atividades repetitivas e amplia a capacidade analítica das organizações, surge uma oportunidade para redefinir a gestão de pessoas. O artigo mostra como tecnologias aplicadas a remuneração, benefícios e bem-estar podem fortalecer decisões mais inteligentes e personalizadas, sem substituir aquilo que continua sendo exclusivamente humano: empatia, julgamento e liderança.

A comunicação é um teto de vidro que pode afastar as mulheres da liderança

A busca por equidade de gênero não se encerra quando as mulheres conquistam um assento nas mesas de decisão. Ela continua na forma como suas ideias são recebidas, valorizadas e transformadas em influência. Ao discutir comunicação, liderança e protagonismo, o artigo mostra por que fortalecer a voz feminina é também uma estratégia para ampliar diversidade, inovação e resultados nas organizações.

Entre viralizar e ser lembrado: O que acontece quando o algoritmo assume a estratégia?

As plataformas digitais premiam velocidade, engajamento e adaptação constante. As marcas, por outro lado, dependem de consistência, memória e diferenciação para gerar valor no longo prazo. O artigo explora o conflito entre essas duas lógicas e analisa como algoritmos e inteligência artificial estão influenciando a forma como as organizações constroem relevância e identidade.

User Experience, UX, Marketing & growth
2 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a Connected TV se tornou uma peça central na economia da atenção. Em um cenário de audiências fragmentadas, a combinação entre conteúdo de alta qualidade, segmentação baseada em dados e métricas avançadas transforma a televisão conectada em um dos ambientes mais estratégicos para marcas que buscam equilibrar alcance, relevância e performance.

Bruno Almeida - CEO da US Media

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 15H00
Em momentos de retração econômica, cortar custos costuma ser uma resposta imediata. O problema é que algumas das perdas mais importantes não aparecem nas planilhas. Conhecimento acumulado, confiança, experiência e capacidade de inovação formam um patrimônio invisível que pode levar anos para ser reconstruído.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 08H00
O artigo utiliza a clássica fábula dos três porquinhos para mostrar por que organizações que apostam apenas em estruturas robustas, sem capacidade de adaptação, podem se tornar mais vulneráveis justamente quando o ambiente exige flexibilidade e aprendizado contínuo.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

10 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 20H00
Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 18H00
A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de agosto de 2026 14H00
A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.

Valter Roldão - CEO da Luuna

5 minutos min de leitura
Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo