Liderança

#BatalhaDasIdeias: Datamaker X Sensemaker

Na era do Big data, parece emergir uma disputa. Uns enfatizam a importância de processar e organizar quantidades enormes de dados; outros buscam mesmo é dar sentido aos dados. Trata-se realmente de escolher um lado ou outro? A seguir, duas especialistas desenvolvem o assunto

Compartilhar:

No início, éramos “makers”. Produzíamos tudo com as mãos. Muito tempo depois, com a revolução industrial, veio a era dos “serial makers”, resultado da automatização dos processos produtivos. Então, com a tecnologia e a internet, entramos na era dos “datamakers” e nunca produzimos tantos dados. E agora?

 Agora, segundo a especialista em sensemaking Denise Eler, “é hora de juntar tudo isso e nos tornarmos ‘sensemakers’, ampliando nossa capacidade de dar sentido a esses dados”. Ou seja, é hora de desenvolver os pensamentos analítico, sistêmico e criativo a partir dos dados. 

Mas nada disso tem chance de acontecer, é claro, se não for utilizada uma base de dados estruturada como ponto de partida, construída por um cientista de dados. Como lidar com isso no universo da gestão? “Ao entender a demanda da empresa, criamos um produto capaz de organizar os dados e transformá-los em informações relevantes”, explica a cientista de dados Natália Gruber, ligada ao Cappra Institute. 

**UNIDOS OU SEPARADOS?**

Informações extraídas de dados pelos datamakers e interpretações feitas pelos sensemakers são a mesma coisa? Não. Porém, tampouco são coisas opostas. Na verdade, complementam-se. Um datamaker mergulha nos dados e aplica modelagens tecnológicas para trazer à tona insights que façam sentido, e fica a cargo de um sensemaker interpretar esses insights, com seus conhecimentos (da empresa, do mercado e da estratégia de negócios adotada), e sugerir novos caminhos. 

Esses dois makers têm sinergias, portanto. Mais ainda, eles partilham do mesmo objetivo: orientar melhores decisões. “O sensemaker precisa combinar seus conhecimentos com os dados processados pelo datamaker”, diz Gruber. 

Sensemaking é uma competência com demanda crescente na atualidade. Isso ocorre justamente por implicar uma interpretação que ultrapassa a objetividade da tecnologia. “O processo de sensemaking é essencialmente empático: o ponto de partida é o outro, está nos modelos mentais alheios. Uma empresa que investe em sensemaking entende que a comunicação efetiva depende do deslocamento do ‘eu sei’ para ‘como o que eu sei pode ser útil para você’”, explica Eler. Assim, sensemaking não é só ser capaz de entender os dados para tomar uma decisão estratégica, mas também ter a habilidade de comunicar essa compreensão aos outros. “Às vezes, o líder tem uma visão, mas não consegue traduzi-la para o grupo a ponto de mobilizá-lo proativamente para agir. Isso ocorre porque, se não entendemos o propósito de algo, não conseguimos disponibilizar o melhor de nós mesmos para fazê-lo. Grandes líderes têm de ser necessariamente grandes sensemakers.”

**TOMADA DE DECISÃO**

Um datamaker pode ser também um sensemaker? “Sim, considerando que o sensemaker é uma pessoa que quer facilitar a tradução dos dados para quem vai consumi-los”, diz Gruber. Para Eler, a tecnologia – como a inteligência artificial e o machine learning, por exemplo – pode dar caminhos, “mas só o homem, de posse de seu repertório e com seu contexto, frente a uma incerteza ou ambiguidade, é capaz de criar conexões entre dados diferentes para abstrair significados”, diz. 

Ela se refere à forma como interpretamos informações, levando em conta valores pessoais subjetivos, o que a máquina não é capaz de fazer. “Para uma tomada de decisão estratégica, o homem usa sempre sua intuição.” 

**ENTENDER PARA AGIR**

É frustrante a sensação de saber que no meio de uma montanha de relatórios há uma informação relevante que pode impactar o negócio. 

“Estamos em um cenário digital, mas nossa capacidade de lidar com tantos dados ainda é analógica. Em uma sociedade que produz muito ruído e muitos dados, o sensemaker se tornou um recurso imprescindível”, comenta Eler. “A ênfase na inteligência competitiva comprova que o sensemaking hoje é a competência escassa. Mas a boa notícia é que dá para desenvolvê-la”, garante. 

O sensemaking pode ser desenvolvido em duas frentes: (1) capacitação para a liderança com foco em pensamento estratégico, e (2) capacitação para a eficiência operacional, com foco na comunicação. 

“Um dos maiores problemas das organizações”, observa Eler, “é que o planejamento estratégico não é cascateado para os níveis operacionais. Investe-se tempo e energia na liderança, mas os colaboradores continuam sem saber o que é estratégico para o negócio”. O sensemaking, assim, antecede a estratégia, municiando as áreas com os dados “mastigados”. 

**A COMPLEXIDADE PODE SER POSITIVA**

“Não precisa ter medo da complexidade”, avisa Gruber. Muitas vezes é preciso chegar ao complexo para alcançar a resposta que se busca. “É comum subestimar quem vai consumir o dado, mas se essa pessoa participar do processo e construir conjuntamente as variáveis, entendendo o que está sendo mostrado, os ganhos são tremendos”, explica a cientista de dados. 

O sensemaking também ajuda aqui. Por meio de design thinking e ferramentas visuais, como tabelas e infográficos, criam-se formas mais simples e replicáveis de apresentar os dados. Segundo Eler, as imagens reduzem a incerteza à medida que eliminam a necessidade da imaginação. Boas codificações em imagens agilizam o processo de comunicação, e as empresas estão cheias de problemas causados por isso. 

Defensora da frase “Faz diferença quem faz sentido”, Eler destaca que simplificar faz todo o sentido, visto que estabelece um novo modelo mental para a comunicação, seja a leitura de um exame de sangue ou a de um relatório de vendas. 

**CULTURA DE DADOS**

As duas especialistas concordam que o volume de dados só vai aumentar daqui para a frente. A saída então é adotar uma cultura corporativa que pregue a familiaridade com os dados. “Atingir a maturidade analítica requer uma nova forma de olhar para o dado. Não é olhar o relatório com o viés de confirmação, prestando atenção só naquilo que já se sabe, mas estar aberto a fazer parte do processo, criar novas perguntas, e democratizar a informação dentro da empresa”, diz Gruber. “Quanto mais pessoas têm acesso aos dados, mais elas se envolvem na construção das respostas que se busca”, complementa. 

**O “IDIOTA” E A VISÃO DE FUTURO**

“Qualquer idiota pode ter uma visão de futuro”, afirma Eler. “Mas para uma visão de futuro ser assertiva ela precisa ser baseada em dados, na experiência, nos sinais de mudança e percepções pessoais.” Para desenvolver a competência de sensemaking, Eler sugere alguns caminhos: 

1. Duvide de sua própria capacidade de tomar decisões. Lembre-se de que temos vieses (não vemos o mundo como ele é, mas como nós somos), por isso estude o tema, conheça o histórico, correlacione tendências e visões de futuro. Trabalhe com quem pensa diferente, abrace a diversidade e quebre o viés cognitivo. Para encontrar respostas diferentes, tome caminhos diferentes.

2. Avalie o problema sob a óptica de seu repertório particular de influências. Combine informações e conexões para gerar insights.

3. Faça experimentos.

Então, você quer ser um sensemaker? Quanto mais intrincada for sua teia de informações, mais chances você terá de ser sensemaker e de ter uma visão de futuro conectada com a realidade.

**NOTA DA EDITORA**

“Em tempos antigos, ter poder significava ter acesso a dados. Atualmente, ter poder significa saber o que ignorar.” Com a frase de Yuval Noah Harari, historiador israelense e autor do best-seller Sapiens, encerramos assim esta matéria que inaugura a nossa nova hashtag #BatalhaDasIdeias. Vale destacar que, neste espaço, teremos sempre duas premissas importantes: 1. Nossos entrevistados nunca saem perdedores ou vencedores; 

2. Propositalmente, não ofereceremos um texto de conclusão. Com isso, esperamos que o único vencedor seja você, nosso leitor, que enriquece seu repertório e constrói bons argumentos para abordagens mais profundas.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Da produção à curadoria: a nova lógica da relevância digital

O avanço dos vídeos curtos, dos criadores digitais e da inteligência artificial transformou a forma como consumimos informação e entretenimento. O desafio das empresas agora não é apenas alcançar audiências, mas construir confiança, interpretar comportamentos e criar experiências capazes de permanecer na memória das pessoas.

Por que todos os líderes começaram a soar iguais?

A autenticidade virou commodity quando todo mundo aprendeu a soar autêntico do mesmo jeito. Este artigo explora como voz, vivência e consistência podem se tornar os principais diferenciais para líderes que desejam construir influência e confiança de forma genuína.

Live marketing ganha força na era da distração

Logotipos já não são suficientes para conquistar relevância. Em um mercado saturado de mensagens, as marcas que se destacam são aquelas capazes de transformar interações em experiências memoráveis e consumidores em protagonistas de suas histórias.

O futuro das empresas de serviços

Posicionamento claro, gestão comercial estruturada, experiência do cliente, disciplina financeira, desenvolvimento de talentos e capacidade de adaptação formam os pilares de um crescimento sustentável. O desafio das empresas de serviços já não é apenas expandir, mas criar condições para que essa expansão se mantenha saudável e rentável.

Bem-estar & saúde, User Experience, UX
24 de julho de 2026 14H00
Impulsionado pelo avanço do wellness e pela busca crescente por experiências com significado, o setor de turismo enfrenta um novo desafio: deixar de vender viagens para entregar transformação, criando vínculos de longo prazo e novas vantagens competitivas.

João Biancardi - Diretor de Marketing e Experiencia do Cliente do Grupo Mabu

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
24 de julho de 2026 08H00
A preocupação com dinheiro já impacta produtividade, saúde mental e permanência no emprego. Diante desse cenário, organizações começam a repensar seu papel e a buscar formas de apoiar colaboradores sem invadir sua autonomia financeira.

Vivian Pardini - Coordenadora de compliance da Biz

4 minutos min de leitura
Marketing, Estratégia
23 de julho de 2026 14H00
O avanço dos vídeos curtos, dos criadores digitais e da inteligência artificial transformou a forma como consumimos informação e entretenimento. O desafio das empresas agora não é apenas alcançar audiências, mas construir confiança, interpretar comportamentos e criar experiências capazes de permanecer na memória das pessoas.

Ronaldo Fragoso - Chief Growth Officer da Deloitte e Carlos Eduardo Fogarolli - Sócio-líder da indústria de Tecnologia, Mídia e Telecomunicações da Deloitte

3 minutos min de leitura
Comunicação, Liderança
23 de julho de 2026 08H00
A autenticidade virou commodity quando todo mundo aprendeu a soar autêntico do mesmo jeito. Este artigo explora como voz, vivência e consistência podem se tornar os principais diferenciais para líderes que desejam construir influência e confiança de forma genuína.

Amanda Graciano - Fundadora da Trama

5 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia
22 de julho de 2026 14H00
Logotipos já não são suficientes para conquistar relevância. Em um mercado saturado de mensagens, as marcas que se destacam são aquelas capazes de transformar interações em experiências memoráveis e consumidores em protagonistas de suas histórias.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
22 de julho de 2026 09H00
Posicionamento claro, gestão comercial estruturada, experiência do cliente, disciplina financeira, desenvolvimento de talentos e capacidade de adaptação formam os pilares de um crescimento sustentável. O desafio das empresas de serviços já não é apenas expandir, mas criar condições para que essa expansão se mantenha saudável e rentável.

Roberto Vilela - Consultor empresarial, escritor e palestrante

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
21 de julho de 2026 14H00
A desconexão entre pessoas custa bilhões às empresas todos os dias. Ainda assim, muitas organizações seguem tratando cultura como documento, engajamento como métrica e comunicação como ferramenta. Talvez o problema esteja justamente aí.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão"

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de julho de 2026 09H00
A construção civil está deixando para trás práticas marcadas por desperdícios e retrabalhos. O avanço de soluções industrializadas, novas tecnologias e modelos de gestão mais eficientes aponta para um novo cenário: construir com mais qualidade, menor impacto e maior previsibilidade.

Rafael Brizot - Diretor da Max Mohr

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
20 de julho de 2026 14H00
Sem maturidade informacional, a IA não elimina problemas, apenas os torna mais rápidos e mais difíceis de controlar.

Bergson Lopes - Fundador e sócio-diretor da BLR DATA, Vice-presidente da DAMA Brasil

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
20 de julho de 2026 07H00
Quase 80% dos trabalhadores sentem culpa ao tirar férias e muitos continuam respondendo mensagens durante o período de descanso. O artigo discute como essa cultura afeta pessoas e organizações e por que líderes precisam dar o exemplo para transformar a relação com o descanso.

Tatiana Pimenta - Fundadora e CEO da Vittude e autora do livro “Saúde mental é inegociável”

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo