Empreendedorismo
4 min de leitura

Caminhos para transformar a sociedade com igualdade no mercado de trabalho

Trazer os homens para a discussão, investir em ações mais intencionais e implementar a licença-paternidade estendida obrigatória são boas possibilidades.

Compartilhar:

Ao longo da minha carreira, somei experiências que me trouxeram a certeza de que o tema diversidade se trata, acima de tudo, de resiliência. Quem decide ser sponsor de diversidade, tem que ser resiliente porque o trabalho é permanente e deveria sempre ser uma meta das organizações. Alguns ainda têm dúvidas do porquê as coisas devem ser assim, mas para isto servem os dados. Quando a questão é a mulher no mercado de trabalho, a sociedade infelizmente evoluiu pouco, apesar das importantes conquistas alcançadas até aqui.

Em recente levantamento, a FIA Business School ouviu mais de 150 mil funcionários de 150 grandes empresas consideradas “Lugares Incríveis para Trabalhar 2023”, e a proporção de mulheres em cargos de liderança (38%) em 2023 foi a mesma do ano anterior. Nos cargos de direção e C-Level, a presença feminina caiu 5% em relação a 2022.

Minha conclusão é a mesma pensando no Brasil e na Europa, onde vivi por cinco anos como executiva da área de Pessoas e Cultura,  e depois mais um ano atuando na área na Costa Rica. Em diferentes graus, lá fora e aqui, há um desequilíbrio na representatividade de mulheres em cargos de liderança com relação aos homens. Como acontece na maioria das empresas no mundo, a presença feminina diminui significativamente nos níveis mais altos de liderança e senioridade. Não fosse assim, a lista de 2023 das 500 maiores empresas, da revista “Fortune”, não traria apenas 10% de mulheres no comando. E, claro, quando falamos de diversidade existem muitos outros recortes como o de raça e etnia. No Brasil, um país que tem 52% da população negra (pretos e pardos), essa definitivamente não é a representatividade dessa população nas organizações e menos ainda em cargos de liderança.

Tive a oportunidade de trabalhar com mulheres muito fortes e aprendi que, em diversidade feminina, nada funciona se os homens não forem envolvidos na discussão. Isso, para mim, foi um divisor de águas e um aprendizado que eu levo para onde vou. De que adianta um grupo minorizado falando de si para si e os decisores estarem fora, alheios à reflexão? Ou em alguns casos, pessoas que se tornam excessivamente militantes e só querem falar com grupos semelhantes, perdendo a escuta da construção? Temos que sensibilizar o outro quanto à dor que ele não sente, e ouvir sua perspectiva. Só assim é possível conseguir uma conexão e evolução.

Mulheres em posição de liderança, que tiveram contextos mais inclusivos, precisam entender que sua situação não é a realidade da maioria. Muitas delas, com carreiras bem-sucedidas, têm a crença de meritocracia, porém, acredito que, assim como eu, tiveram o privilégio de serem eficientes, terem se diferenciado, num lugar que permitia que a eficiência feminina fosse valorizada e reconhecida. Mas, por acreditarem que ascender na carreira depende majoritariamente de esforço e capacidade, independentemente do gênero, muitas executivas acabam reforçando a falta de representatividade feminina no mercado.

Por isso, as ações precisam ser feitas de forma muito intencional. Na experiência que conduzo atualmente, isso se traduz de várias formas, entre elas, o compromisso da organização com a diversidade. Criamos diversos grupos de afinidade e um comitê de diversidade formado pelos funcionários com o apoio da liderança sênior para trazer guia e referência. Esse comitê é gerido por voluntários, que contam um orçamento para desenhar ações que ajudem a organização a evoluir sobre os assuntos relacionados à diversidade, equidade e inclusão, com autonomia e protagonismo.

É importante estar confortável em ser essa pessoa que abre os espaços e apresenta outras referências que trazem a pauta para incomodar, levantar perguntas difíceis, questionar e trazer novas reflexões. Como representantes da área de Pessoas e Cultura, nunca poderemos deixar de falar e agir de forma intencional sobre o tema da diversidade, qualquer que seja ele.

Quanto menor a diversidade, não só as organizações se tornam menos competitivas e inovadoras, mas também é mais difícil propor pautas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DE&I), pois há um menor conhecimento sobre o quanto é necessária a conscientização, o que faz com que preconceitos seguem existindo. Por isso, acredito na importância de um grande investimento em letramento para a organização, com métricas claras de onde queremos chegar e mais ações intencionais como vagas afirmativas e programa de estágio especialmente para meninas pretas em tecnologia. Mas há muitas outras coisas que podem ser feitas nesse sentido. No caso, como indicadores de sucesso vale considerar a presença de mulheres em posição de liderança sênior e, para isso, é urgente desenvolver mulheres em posições junior e mesmo antes de entrarem oficialmente no mercado de trabalho.

Uma das coisas que acredito, e que me acompanha como crença desde o início da minha carreira, é o caminho da licença-paternidade. Não aquela em que o homem escolhe se adere ou não, mas a que dá a oportunidade para os pais estarem com seus bebês de forma obrigatória porque, sendo opcional, surpreendentemente a iniciativa tende a fracassar.

Pense numa sociedade competitiva como a norte-americana, que oferece 15 dias de férias ao trabalhador. Mesmo sendo um dos menores índices de dias de descanso no mundo, cerca de 50% das pessoas não tiram o total. Uma das principais razões é a competitividade. Quando você está competindo, você tem a oportunidade de decidir se quer ou não fazer uso de um benefício como férias ou licença, ou seja, tem a opção de escolher continuar na “corrida dos campeões” e não se ausentar do trabalho por um determinado período.

Embora eu não seja mãe, por ser líder da área de Pessoas e Cultura, sei que se tanto um homem como uma mulher pudessem ficar com seus bebês pelo mesmo período de licença, e com isso participar ativamente dos primeiros meses de seus filhos, faríamos com que esse período fosse mais leve e único. E, com essa mudança, uma avalanche de mudanças sociais ocorre, entre elas, o fato de que empregadores não precisarão mais fazer a pergunta sobre o anseio de uma mulher em ter filhos, pois mulheres e homens terão a mesma responsabilidade e tempo ausente de dedicação. O contratante não vai privilegiar o homem porque a mulher poderia sair de licença-maternidade, por exemplo. Isso passaria a ser indiferente. O mesmo vale para casais homoafetivos, pois falaríamos de licença-parental. Dessa forma, a sociedade começa efetivamente a ir para um lugar de transformação. Claro que não é o único caminho, mas possivelmente seja um dos mais poderosos.

Do seu lado, as empresas vão ter que aprender a lidar com mais dificuldades, pois será complicado gerir mais pessoas se afastando de seus postos de trabalho. A única certeza é que vamos lidar com problemas mais complexos, com ou sem essa mudança. Assim como as novas gerações, que não querem mais o modelo de trabalho que fez sentido para nós até aqui, temos que buscar novas formas de atrair, reter e desenvolver pessoas. Como profissionais do futuro, vamos ter que descobrir soluções e outras formas de lidar com a volatilidade que uma mudança social implica. Nunca precisamos tanto do olhar humano, da preocupação genuína com as pessoas, que afinal nos é tão peculiar, para questões de diversidade como neste momento. Eu tenho esse papel não só como mulher e líder, mas como profissional de recursos humanos. Todos nós temos, independentemente do gênero, a responsabilidade de dar às mulheres as mesmas oportunidades de atingir cargos de liderança nas empresas, assim como olhamos para outros temas de diversidade e de pessoas, numa organização como um todo. No final, todos ganharemos.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que o marketing precisa sair da própria bolha

As grandes ideias raramente surgem da repetição das mesmas referências. Em uma época de acesso democratizado à informação e às tecnologias, o diferencial competitivo passa a ser a qualidade das perguntas que fazemos. Ao refletir sobre arte, cultura e criatividade, o artigo argumenta que as marcas mais inovadoras serão aquelas capazes de formar pessoas que aprendam a observar, conectar e interpretar o mundo de formas que ainda não foram exploradas.

Por que alguns eventos entram para a história e outros são esquecidos na semana seguinte

Por trás dos maiores eventos do mundo existe um trabalho que começa muito antes da abertura dos portões. Leitura de cenário, curadoria estratégica, construção de comunidade e a capacidade de reunir as pessoas certas explicam por que alguns encontros se tornam plataformas de influência, inovação e negócios, enquanto outros permanecem apenas como eventos.

O fim da guerra fiscal: como a Reforma Tributária pode mudar a logística brasileira

Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Saudável, gostoso e acessível: a equação que desafia a indústria de alimentos no Brasil 

Reduzir açúcar, sódio e gorduras sem comprometer sabor, performance culinária e competitividade de preço tornou-se uma das equações mais complexas da indústria de alimentos. O artigo explora como mudanças regulatórias, comportamento do consumidor e inovação tecnológica estão redefinindo estratégias de produto, marketing, cadeia de suprimentos e crescimento no setor de bens de consumo.

A fadiga de decidir em tempos de excesso

Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.

Quanto custa quando o sistema para? Alguns minutos fora do ar podem custar milhões

À medida que organizações se tornam dependentes de ambientes digitais para sustentar suas operações, a indisponibilidade de sistemas passa a representar muito mais do que uma questão técnica. O artigo mostra por que calcular o impacto real de uma falha exige uma visão integrada entre tecnologia, finanças, operação e governança, e como essa análise pode orientar decisões críticas sobre modernização e resiliência dos negócios.

Inovação & estratégia, Marketing
14 de agosto de 2026 13H00
Ao visitar um dos vinhedos mais renomados de Bordeaux, o autor encontrou uma reflexão que ultrapassa o universo do vinho e alcança empresas, famílias e instituições. A decisão do Château Lafleur de abandonar uma denominação de origem histórica revela um dilema cada vez mais presente nas organizações: como preservar princípios e identidade em um mundo que exige adaptação constante?

Antonio Carlos Matos da Silva - Conselheiro independente associado ao IBGC

5 minutos min de leitura
Liderança
14 de agosto de 2026 08H00
Após mergulhar em uma crise provocada por escândalos que abalaram sua credibilidade, a SOMPO Holdings encontrou na liderança de Mikio Okumura o impulso para redefinir sua identidade. Inspirado por aprendizados adquiridos no Brasil, o executivo promoveu uma transformação que combinou propósito, tecnologia e foco no cliente para reconstruir a confiança e conduzir a seguradora a resultados recordes.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

13 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de agosto de 2026 14H00
Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Marcos Gurgel - Diretor Comercial na divisão Avitum da B. Braun Brasil

4 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Vendas
13 de agosto de 2026 08H00
Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança
12 de agosto de 2026 14H00
Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
12 de agosto de 2026 08H00
O artigo defende que o verdadeiro valor surge quando a IA deixa de operar de forma isolada e passa a integrar toda a jornada de negócio, conectando pessoas, processos, dados e governança em um único sistema de performance.

Guilherme Stefanini - CMO do Grupo Stefanini, CEO da Stefanini Marketing e sócio da W3haus e Gauge.

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo