Diversidade

Chamem os baby boomers

Eles estão deixando o mercado de trabalho e, em vez de discutir impactos e alternativas, as empresas seguem dando as mesmas desculpas. É hora de romper com esse padrão
Jornalista, com MBA em Recursos Humanos, acumula mais de 20 anos de experiência profissional. Trabalhou na Editora Abril por 15 anos, nas revistas Exame, Você S/A e Você RH. Ingressou no Great Place to Work em 2016 e, desde Janeiro de 2023 faz parte do Ecossistema Great People, parceiro do GPTW no Brasil, como diretora de Conteúdo e Relações Institucionais. Faz palestras em todo o País, traçando análises históricas e tendências sobre a evolução nas relações de trabalho e seu impacto na gestão de pessoas. Autora dos livros: *Grandes líderes de lessoas*, *25 anos de história da gestão de pessoas* e *Negócios nas melhores empresas para trabalhar*, já visitou mais de 200 empresas analisando ambientes de trabalho.

Compartilhar:

O ano de 2020 será marcado não apenas pela pandemia causada pelo coronavírus, mas também pelo êxodo de baby boomers do mercado de trabalho. Nascidos entre 1945 e 1960, os representantes dessa geração vêm a cada ano desaparecendo do mapa laboral.

Segundo uma pesquisa do Pew Research Center, think tank americano, a força de trabalho dos boomers vem diminuindo em média 2,2 milhões a cada ano desde 2010, ou cerca de 5.900 diariamente nos Estados Unidos. E a pandemia pode empurrar ainda mais esses profissionais para fora do mercado.

A taxa combinada de desemprego e subemprego – também nos Estados Unidos — para trabalhadores acima dos 65 anos foi de 26% em maio, cerca de 5 pontos percentuais a mais do que a taxa de trabalhadores entre 25 e 54 anos. É a maior diferença desde que se iniciou a série histórica, em 1948.

No Brasil, a situação é semelhante. Segundo análises dos dados da Pnad Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 1,3 milhões de pessoas com 60 anos ou mais deixaram de trabalhar ou de procurar um emprego, na comparação do primeiro trimestre de 2020 com o mesmo período do ano anterior, quando 696,4 mil deixaram emprego.

A saída dessa geração do mercado traz alguns impactos. Um deles é a produtividade. Segundo o Federal Reserve, a aposentadoria dos boomers pode causar um declínio de 2.8 pontos percentuais no crescimento da produtividade entre 2020 e 2040.

Outra consequência é a lacuna histórica que se abre no universo corporativo. Num mundo que muda o tempo todo e cuja velocidade das mudanças assusta, todos parecem estar olhando para o futuro, ignorando aprendizados passados – um risco enorme em qualquer negócio.

A cultura do erro, inspirada pelas startups, tem provocado uma certa confusão no mercado. Uma coisa é punir o erro (errado); outra é exaltar o erro (também errado). “São tantos projetos entregues rapidamente, sem uma análise mais profunda, que os mais experientes precisam ser acionados o tempo todo para consertar os erros e evitar perder mais dinheiro”, me disse no final do ano passado uma executiva de gestão de pessoas.

No mundo ágil, nos permitimos experimentar mais, errar mais, aprender mais e realizar mais. E isso é incrível. Por outro lado, corremos um risco enorme de nos tornamos superficiais. Na ânsia por entregar soluções rápidas, a profundidade e análise vêm perdendo espaço. Como consequência, damos respostas rasas para um mundo que faz perguntas complexas.

O desafio é ser ágil e ser profundo ao mesmo tempo. E por isso, o complemento (e não choque) geracional é tão importante. E por isso, os boomers deveriam ser incluídos e não excluídos do mercado de trabalho.

## Velhos argumentos num novo mundo

Ah, mas eles não querem. Ah, mas eles não conseguem se adaptar à tecnologia. Ah, mas eles são caros. E, a mais recente: ah, mas eles são grupo de risco da Covid-19. Esses argumentos não passam de desculpas que acabam sustentando o status quo das organizações, indo na contramão das mudanças ocorridas no mundo do trabalho.

Enquanto estivermos apegados aos estereótipos acima, vamos seguir com um desequilíbrio gritante no quadro de funcionários: 21% dos profissionais das melhores empresas para trabalhar no Brasil têm até 25 anos; 37% entre 26 e 34 anos; 27% entre 35 a 44 anos; 12% entre 45 e 54 anos e apenas 3% acima dos 55 anos.

## Vamos descontruir esse pensamento linear?

### 1 – Quem diz que eles não querem?

É claro que há uma parcela dentro da geração baby boomer que acredita que agora é o tempo do descanso. Educados numa época em que se dividia claramente a vida pessoal e profissional e que o prazer estava reservado para as anos pós-labuta, eles desejam sim pendurar definitivamente as chuteiras. Mas há uma boa parte de profissionais com 60 anos ou mais que desejam se manter ativos.

Segundo uma pesquisa realizada pelo Employee Benefit Research Institue (EBRI) em 2018, 26% dos trabalhadores diziam planejar trabalhar até os 70 anos de idade e outros 6% afirmaram que não pretendiam parar. Para fins de comparação, um mesmo estudo realizado pelo EBRI em 1991, mostrou que 50% dos trabalhadores esperavam poder se aposentar aos 65 anos.

Outra pesquisa também de 2018 revela que 29% dos baby boomers (entre 65 e 72 anos) estariam trabalhando ou procurando emprego, superando também as estatísticas das gerações anteriores.

Um dos motivos, claro, é a necessidade. Sem uma reserva financeira suficiente para viver mais vinte, trinta e quiçá quarenta anos, dado ao aumento da expectativa de vida, muito profissionais dessa geração precisam se manter na ativa.

Outro motivo, que percebo ao longo de anos estudando essas relações nas empresas, tem a ver com o significado do trabalho. Se em 1991, o trabalho era visto como aquele lugar onde eu tenho de ir para ganhar o pão, no decorrer no tempo, o trabalho muda de status.

Primeiro, ele passa a ser um lugar de realização profissional, em que além de pagar as contas precisava ser legal. Depois, além de ser legal, começou a ter de fazer sentido (propósito). Como consequência, os mais velhos vêm adiando cada vez mais a ideia de parar de trabalhar. Porque é legal e faz sentido.

### 2 – Eles não se adaptam à tecnologia

Tem certeza disso? A pandemia fez com que qualquer profissional – independentemente da idade – se conectasse à plataformas desconhecidas até então. E não só conectasse como descobrisse, na necessidade, todas as suas funcionalidades. O mesmo vale para a interação com aplicativos.

Como disse recentemente Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, hábitos e comportamentos que durariam anos para mudar, irão se consolidar rapidamente. “Serão cinco anos em cinco meses”, afirmou. E isso é geral. Não se restringe apenas aos profissionais X, Y ou Z.

Não ter familiaridade nativa com a tecnologia não significa entrave tecnológico. Eis outra confusão do mercado. Se dizemos o tempo que estamos na era do aprendizado contínuo, por que não incluir a aprendizagem digital entre os mais velhos?

### 3 – Caros?

Dentre as inúmeras coisas que a pandemia acelerou está a flexibilidade. Posso hoje oferecer benefícios flexíveis e estabelecer contratos flexíveis com esses profissionais.

Posso tê-los em jornadas reduzidas ou em contratos temporários. Posso aloca-los em projetos especiais e posso sim tê-los no meu quadro de funcionários sem os símbolos de poder do passado, como automóveis, (que não fazem mais sentido hoje).

Por fim, a desculpa de que os profissionais seniores são alvo da Covid-19 soa mais como puro preconceito do que preocupação genuína. As boas empresas para trabalhar têm afastado seus grupos de risco tanto quanto outros grupos, estendendo a todos uma flexibilidade maior de trabalho – seja em turnos ou na prática do home office. Ou seja, os mais velhos seguem trabalhando, mas em segurança.

Fazer uma lista de corte, colocando os mais experientes na linha de frente não é apenas injusto, é pouco estratégico. Afinal, ao eliminar os poucos representantes da geração baby boomer você aumenta ainda mais a lacuna histórica, minando parte da diversidade importante ao negócio.

Ao que parece é que parte dos baby boomers evoluiu com as transformações do trabalho. Mostram-se flexíveis, adaptáveis, muito mais saudáveis que sua geração anterior, e dispostos a aprender, desaprender e reaprender. Falta agora o mercado evoluir. Nesta relação, sobra maturidade de um lado (boomers) e falta maturidade do outro (mercado).

Compartilhar:

Artigos relacionados

Sua empresa precisa de um cargo ou de uma competência?

Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

O que CEOs e CFOs realmente avaliam nas reuniões de orçamento

Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

Quando a geopolítica entra pela porta da empresa

Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

O mito da falta de qualificação das pessoas com deficiência

Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
29 de agosto de 2026 07H00
Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Ísis P. Fontenele - Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de agosto de 2026 17H00
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

7 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de agosto de 2026 12H00
Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG
28 de agosto de 2026 07H00
O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

Ana Carolina Viana - Vice-Presidente de Operações Industriais da Braskem no Brasil

3 minutos min de leitura
Vendas, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de agosto de 2026 18H00
A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
27 de agosto de 2026 15H00
Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
27 de agosto de 2026 08H00
O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

Jefferson Nesello - Cofundador & Managing Partner na Zaxo M&A Partners e Conselheiro de Empresas

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo