Vale oriental

China e Estados Unidos no pós-pandemia

Uma nova ordem global se estabelece – e impacta diretamente as empresas de todo o mundo
Edward Tse é fundador e CEO da Gao Feng Advisory Company, uma empresa de consultoria de estratégia e gestão com raízes na China.

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Não há dúvidas de que a ordem mundial pós-Covid será muito diferente, e a relação entre as superpotências Estados Unidos e China será redefinida. Como você vê esse futuro? Para mim, há três cenários potenciais atrelados aos resultados da geopolítica e da macroeconomia. O destino das empresas, sejam chinesas, sejam estrangeiras, está ligado a isso.

O primeiro cenário é o isolamento regionalizado. Com o isolacionismo em alta, empresas chinesas serão forçadas a sair do mercado norte-americano, e bloquearão investimentos nos EUA em retaliação. A desassociação pode aumentar para além do setor tecnológico. Ademais, as atitudes dos consumidores chineses em relação a marcas norte-americanas se tornarão mais hostis.

O segundo cenário é aquele de “um mundo, dois sistemas”. EUA e China continuam rivais geopolíticos com enfrentamentos em questões específicas, mas há conciliação quanto a interesses comuns. A competição intensa em alta tecnologia continua. No aspecto econômico, a China deve expandir seu acesso ao mercado a empresas estrangeiras, mas com dados restritos e políticas de segurança. Com inteligência e conectividade se tornando cada vez mais prevalentes, consumidores chineses gravitam em torno de marcas que oferecem experiências digitais sob medida para gostos locais.

O terceiro é o de “coopetição”. EUA e China permanecem rivais, mas colaboram em certas áreas da governança global. Enquanto isso, conforme a economia chinesa cresce com a globalização e seu papel na cadeia de fornecimento global se desenvolve, o país aumenta o acesso de players estrangeiros ao mercado e exercita a soberania de dados com base em princípios reconhecidos. Os consumidores chineses também optam por marcas com experiências digitais sob medida.

Obviamente, a visão de qual cenário pode se manifestar se baseia nas informações que cada um recebe. No momento atual, minha visão é a de que o “isolamento regionalizado” é o cenário menos provável, enquanto “um mundo, dois sistemas” tende a ser o mais provável no curto prazo, especialmente quanto à tecnologia. Uma dissociação completa não é provável, sequer possível. “Coopetição” seria o cenário mais provável em médio prazo, talvez com mais competição no início.

Para CEOs de empresas multinacionais com operações na China, uma decisão sobre a estratégia da empresa no país depende de sua perspectiva quanto a esses cenários. E, é claro, a reação também difere segundo a identidade da companhia.

A importância da China para as finanças das empresas globais e para seu posicionamento competitivo se tornará cada vez mais crítica. E, pela manifestação de seu modelo de desenvolvimento único (mas em evolução) de “dualidade tripartite”, que une as três camadas do governo central, governos locais e empresas, bem como a estrutura econômica dual de empreendimentos estatais e privados, a China continuará a obter grandes progressos especialmente em áreas críticas como tecnologia, infraestrutura e condições gerais de vida da população.

Fazer as apostas certas agora sobre como o futuro do mundo se configura, e o que fazer na China e para a China, pode definir a sobrevivência da empresa.

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