Liderança

Coloque sua empresa no divã

E aproveite para avaliar se estes cinco sintomas, evidenciados pelo distanciamento social, também estão presentes na sua organização
Jornalista, com MBA em Recursos Humanos, acumula mais de 20 anos de experiência profissional. Trabalhou na Editora Abril por 15 anos, nas revistas Exame, Você S/A e Você RH. Ingressou no Great Place to Work em 2016 e, desde Janeiro de 2023 faz parte do Ecossistema Great People, parceiro do GPTW no Brasil, como diretora de Conteúdo e Relações Institucionais. Faz palestras em todo o País, traçando análises históricas e tendências sobre a evolução nas relações de trabalho e seu impacto na gestão de pessoas. Autora dos livros: *Grandes líderes de lessoas*, *25 anos de história da gestão de pessoas* e *Negócios nas melhores empresas para trabalhar*, já visitou mais de 200 empresas analisando ambientes de trabalho.

Compartilhar:

No excelente artigo “[Saindo da crise](https://www.revistahsm.com.br/post/saindo-da-crise)”, publicado na [edição 141](https://www.revistahsm.com.br/edicoes/141-e-141-extra) da HSM Management, Dave Ulrich, professor da Ross School of Business (University of Michigan) e considerado ainda hoje o guru dos RHs, afirma ter identificado na sua consultoria RBL nada menos que 20 vírus organizacionais e convida o leitor a uma faxina corporativa das boas, daquelas que matam qualquer prática mofada responsável pelo adoecimento das organizações.

Quando li o artigo, parei para pensar nas muitas conversas que tenho feito com profissionais de recursos humanos durante esta pandemia e constatei: esta é uma ótima oportunidade de colocar sua empresa no divã.

O distanciamento social convida todos nós a refletir sobre nossa vida – a começar pela nossa própria sobrevivência e prioridades que estabelecemos à valorização ou extirpação das pequenas coisas que nos passavam despercebidas. O mesmo processo de autoconhecimento acontece (ou deveria acontecer) nas empresas. Afinal, todos nós saímos da nossa zona de conforto.

Fomos obrigados a criar um novo ritmo de trabalho, a estabelecer as próprias fronteiras e adotar ferramentas até então desconhecidas. Se o profissional pode reconhecer suas limitações e comemorar seus avanços tecnológicos nesses cinco meses de reinvenção, o que diremos das organizações? 

O primeiro passo para identificar os vírus organizacionais é conhecer os principais sintomas. Abaixo, listei alguns dos mais comuns percebidos e reconhecidos por vários líderes na pandemia.

## 1. Comando e controle 

Sentimento de posse, desejo em controlar os times, busca intensa por documentos que comprovem o trabalho são sinais claros de que sua gestão era pautada no clássico comando e controle. Sem uma equipe presencial, é possível que o líder se sinta perdido e até mesmo angustiado por não saber como trabalhar. 

O reconhecimento de que esse tipo de liderança não serve para o mundo hoje é um passo enorme para a transformação da sua empresa. Alguns líderes somente agora perceberam que não dá mais para fingir que esse comportamento não existia, reconhecendo ainda o quanto ele prejudicava a gestão.

Ao estabelecer – ainda que na marra – relações de confiança com seus times, vejo líderes percebendo que a gestão pode ser mais eficiente, além de aumentar o engajamento da equipe. Voltar ao clássico método capataz, portanto, não faz sentido nenhum. 

## 2. Manda quem pode, obedece quem tem juízo 

Outro sintoma bastante comum da gestão mofada é a evidência de hierarquias acentuadas, quase mini monarquias corporativas em que família real (diretoria) não se mistura à plebe (colaboradores).

Ao jogar todos numa mesma sala de zoom para tornar a comunicação mais fluida e eficiente, você pode sentir esse sintoma de duas formas: um desconforto por estar no mesmo local que seus subordinados mais distantes ou um estalo de lucidez ao perceber que boas ideias e soluções podem vir de qualquer pessoa, independentemente de sua função. 

Por esse motivo, alguns teóricos do mundo do trabalho estão acreditando numa liderança mais humanizada pós-pandemia. Isso porque, ao reconhecer que todos na organização são peças importantes, alguns líderes podem se livrar do mau hábito de se dirigir apenas a mesma panela e plateia durante as reuniões – passando a permitir uma gestão mais inclusiva. 

## 3. Manda por fax 

Sabe aquele papel que precisa da assinatura do chefe do chefe ou a firma reconhecida em cartório? Então, muitos profissionais têm percebido que não é só possível pular as etapas da burocracia, como é também saudável.

Ouvi outro dia de uma diretora de RH que havia tanto processo e etapas para contratar novos funcionários que, num primeiro momento, a empresa suspendeu qualquer contratação – embora fosse de um setor que não retrocedeu com a pandemia.

Até que decidiram pular etapas – A visita à planta da fábrica passou a ser feita por vídeo, por exemplo. A  autorização do departamento *xpto* que demorava dias para chegar por e-mail para liberar o acesso do novo funcionário foi derrubada. Ele já pode começar a trabalhar imediatamente da casa dele, com o devido kit de boas-vindas entregue na sua porta. Nesse momento, você percebe alguns dos vírus organizacionais que podem ser evitados com uma boa dose de eficiência.

## 4. Não tem sala 

As desculpas. Esse talvez seja o vírus mais comum nas empresas. Damos desculpas para tudo: o excesso de trânsito, a falta de tempo, a falta de sala de reunião, o preço da passagem aérea, o RH lento, o jurídico burocrático, o financeiro cruel. De repente, você tem sala de reunião disponível 24 horas por dia; nenhum carro à sua frente, nenhuma viagem programada. 

Perdemos as clássicas desculpas para procrastinar nosso trabalho. Ainda assim corremos, claro, o risco de encontrar outras (e é fácil): a pia está cheia de louça, o filho chamou porque não consegue entrar no link da vídeo-aula; a conexão da internet caiu pela terceira vez. O momento convida ao autoconhecimento e entender que muitas das nossas desculpas podem ser eliminadas quando as reconhecemos.

## 5. Aqui não funciona assim

Por fim, um sintoma que pode saltar neste momento é a famosa resistência. Quem nunca ouviu ou proferiu algumas dessas frases: “nós nunca fizemos isso”; “não vai dar certo”; “os líderes não gostam disso”; “não arrisque”; “o seguro morreu de velho”. Bom, os focos de resistência, receio, medo e pessimismo estão em todas as organizações. 

Se em time que está ganhando não se mexe, em time que está perdendo (e muito) precisa mexer. Nem sempre sabemos como; apenas que é preciso se mover. E foi isso que a pandemia mostrou.

Que devemos testar, experimentar, arriscar independentemente do nosso passado e da nossa história. Ouvi organizações surpresas com o sucesso de suas convenções de venda online (que nunca foram sequer pensadas no passado).

Ouvi cases e cases de empresas que desengavetaram os projetos digitais que ali estavam pois o foco era manter o outro negócio ou porque os vícios burocráticos emperravam. 

As organizações, ao descobrirem que estamos na era da experimentação de forma forçada, entenderam que é preciso mexer sempre – até em time que está ganhando.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O benefício existe. Mas as pessoas têm tempo para usá-lo?

Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

Mobilidade interna: Por que quando o tema é talentos estamos sempre olhando para a grama do vizinho?

A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Sua empresa precisa de um cargo ou de uma competência?

Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

O que CEOs e CFOs realmente avaliam nas reuniões de orçamento

Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 20H00
Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 18H00
A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de agosto de 2026 14H00
A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.

Valter Roldão - CEO da Luuna

5 minutos min de leitura
Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
29 de agosto de 2026 07H00
Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Ísis P. Fontenele - Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de agosto de 2026 17H00
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

7 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de agosto de 2026 12H00
Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo