Uncategorized

Com quem fica o seu filho pequeno?

Perguntas que invadem a privacidade no processo seletivo não fazem a menor diferença na qualidade dos candidatos que são contratados
Luciano possui +20 anos de experiência no mercado digital tendo iniciado sua carreira no portal UOL, trabalhou 10 anos no Google Brasil em diversas áreas e foi diretor no Facebook Brasil a frente de uma equipe de vendas em São Paulo. É escritor e autor do livro "Seja Egoísta com sua Carreira", embaixador da Escola Conquer e faz parte do conselho consultivo da Agile.Inc.

Compartilhar:

*Você é solteira?
Quer ter filhos?
Você é casada?
Tem filhos?
Com quem fica a sua filha pequena?
E se ela adoecer?*

Se você é mulher, eu diria que tem perto de 100% de chances de ter escutado alguma dessas perguntas em um processo seletivo. Há muita gente que torce o nariz para esse tipo de questionamento durante uma entrevista, alguns defendem dizendo que é preciso conhecer o lado pessoal do candidato e outros até declaram, em debates calorosos nas redes sociais, que é direito da empresa perguntar o que quiser para o candidato.

Eu? Bom, eu acho esse tipo de pergunta um absurdo imoral, um abuso com as profissionais que precisam passar por esse tipo de situação e fruto de uma legislação fraca que permite que um empregador faça (e pergunte) o que bem entender para recrutar profissionais. Até temos algumas leis para evitar que isso aconteça, mas na prática elas são ignoradas e entram para a categorias de “leis que não pegaram”, algo comum em nosso país.

Em uma dessas discussões calorosas que eu mencionei, um empresário alegou “precisar” conhecer melhor a candidata e por isso era necessário perguntar sobre a vida pessoal. Minha resposta para ele: sorte sua, e de muitas outras empresas que fazem isso, de estar no Brasil.

Nos Estados Unidos e em muitos outros países europeus, é expressamente proibido fazer qualquer tipo de questionamento pessoal para o candidato. Não pode perguntar idade, religião, orientação política, estado civil e, principalmente, se tem filhos e qual a dinâmica da família. A ideia é proteger o profissional de qualquer tipo de discriminação e as empresas podem ser processadas por isso – e, de fato, muitas vezes são.

## Eu faço essas perguntas porque preciso conhecer melhor o candidato

A desculpa mais comum para “ter” que fazer essas perguntas é a necessidade de conhecer melhor o candidato. Se não for possível saber mais sobre ele, vamos deixar de fora informação crucial para a tomada de decisão. Eu não consigo ver qualquer sentido nessa alegação, e tenho muita experiência sobre o assunto.

Trabalho em empresas americanas há 16 anos, já entrevistei e contratei literalmente centenas de profissionais sem nunca ter feito esse tipo de pergunta. Nunca mesmo. Temos treinamento pesado para não só garantir que essas perguntas não sejam feitas, mas também orientar o candidato que não precisamos falar sobre elas se ele trouxer as informações espontaneamente.

Sabe que diferença isso fez para a qualidade dos profissionais que contratamos? Nenhuma. Ao contrário, tenho orgulho de ter participado da contratação de times incríveis, produtivos e dos melhores que eu tive o privilégio de trabalhar até hoje. Se não submeter o candidato a esse tipo de questionamento pessoal fosse empecilho para a contratação de bons profissionais, empresas como o Google, Amazon, Netflix e outros lugares do sonho para se trabalhar não teriam os times que têm.

Eu até entendo o motivo de muita gente acreditar no mito de que é preciso invadir a privacidade de uma pessoa para conhecê-la melhor antes de uma contratação, mas, quando olhamos para lugares que não praticam isso, a ideia esfarela. Ela não faz sentido algum.

## Preconceito e assédio

Para mim, é muito claro que essas perguntas não trazem qualquer suposto benefício para os processos seletivos, mas de uma coisa eu tenho certeza: trazem muito preconceito, discriminação, filtram pessoas com base em suas vidas pessoais, escolhas e não apenas por sua capacidade ou não de executar o trabalho. Removem novas mães com a ideia de que ela faltará para cuidar dos filhos pequenos, uma mulher solteira com medo que ela case e engravide logo ou qualquer coisa que possa tirar a atenção da profissional do trabalho. De novo: isso não faz sentido. Não existe qualquer pesquisa ou dados que apontem a diferença de produtividade entre pessoas que têm filhos, não têm ou vão ter em um futuro próximo.

Além disso, há um outro lado perverso do questionamento que trouxe no começo deste artigo, ele faz com que milhares e milhares de mulheres passem por situações vexatórias e desconfortáveis durante os processos seletivos. Já recebi centenas de relatos das minhas leitoras, com depoimentos de como se sentiram tristes e frustradas com essas perguntas e até mesmo indignadas com um entrevistador querendo saber a marca do anticoncepcional que ela usa (sinistro, né?) para provar que não estava mesmo tentando engravidar. Isso é absurdo que precisa acabar.

Se você ainda acredita nesse mito e tem o hábito de fazer esses tipos de pergunta em um processo seletivo, repense. Mesmo que você tenha certeza de que nunca vai usar essas informações para prejudicar alguém, está validando e alimentando um sistema em que a maioria irá. Experimente focar apenas no que é o mais importante: se a pessoa tem ou não as habilidades e experiências necessárias para o trabalho.

O resto é mito e alimento para discriminação.

Compartilhar:

Luciano possui +20 anos de experiência no mercado digital tendo iniciado sua carreira no portal UOL, trabalhou 10 anos no Google Brasil em diversas áreas e foi diretor no Facebook Brasil a frente de uma equipe de vendas em São Paulo. É escritor e autor do livro "Seja Egoísta com sua Carreira", embaixador da Escola Conquer e faz parte do conselho consultivo da Agile.Inc.

Artigos relacionados

Gestão de Pessoas
Aprender algo novo, como tocar bateria, revela insights poderosos sobre feedback, confiança e a importância de se manter na zona de aprendizagem

Isabela Corrêa

0 min de leitura
Inovação
O SXSW 2025 transformou Austin em um laboratório de mobilidade, unindo debates, testes e experiências práticas com veículos autônomos, eVTOLs e micromobilidade, mostrando que o futuro do transporte é imersivo, elétrico e cada vez mais integrado à tecnologia.

Renate Fuchs

4 min de leitura
ESG
Em um mundo de conhecimento volátil, os extreme learners surgem como protagonistas: autodidatas que transformam aprendizado contínuo em vantagem competitiva, combinando autonomia, mentalidade de crescimento e adaptação ágil às mudanças do mercado

Cris Sabbag

7 min de leitura
Gestão de Pessoas
Geração Beta, conflitos ou sistema defasado? O verdadeiro choque não está entre gerações, mas entre um modelo de trabalho do século XX e profissionais do século XXI que exigem propósito, diversidade e adaptação urgent

Rafael Bertoni

0 min de leitura
Empreendedorismo
88% dos profissionais confiam mais em líderes que interagem (Edelman), mas 53% abandonam perfis que não respondem. No LinkedIn, conteúdo sem engajamento é prato frio - mesmo com 1 bilhão de usuários à mesa

Bruna Lopes de Barros

0 min de leitura
ESG
Mais que cumprir cotas, o desafio em 2025 é combater o capacitismo e criar trajetórias reais de carreira para pessoas com deficiência – apenas 0,1% ocupam cargos de liderança, enquanto 63% nunca foram promovidos, revelando a urgência de ações estratégicas além da contratação

Carolina Ignarra

4 min de leitura
Tecnologias exponenciais
O SXSW revelou o maior erro na discussão sobre IA: focar nos grãos de poeira (medos e detalhes técnicos) em vez do horizonte (humanização e estratégia integrada). O futuro exige telescópios, não lupas – empresas que enxergarem a IA como amplificadora (não substituta) da experiência humana liderarão a disrupção

Fernanda Nascimento

5 min de leitura
Liderança
Liderar é mais do que inspirar pelo exemplo: é sobre comunicação clara, decisões assertivas e desenvolvimento de talentos para construir equipes produtivas e alinhada

Rubens Pimentel

4 min de leitura
ESG
A saúde mental no ambiente corporativo é essencial para a produtividade e o bem-estar dos colaboradores, exigindo ações como conscientização, apoio psicológico e promoção de um ambiente de trabalho saudável e inclusivo.

Nayara Teixeira

7 min de leitura
Empreendedorismo
Selecionar startups vai além do pitch: maturidade, fit com o hub e impacto ESG são critérios-chave para construir ecossistemas de inovação que gerem valor real

Guilherme Lopes e Sofia Szenczi

9 min de leitura