Marketing e vendas

Como a maternidade altera o consumo da mulher

Comportamento do consumidor: saiba quais são os impactos na cesta de compra depois que uma mulher se torna mãe pela primeira vez
É formada em comunicação social e mestre em comportamento do consumidor pela ESPM (SP). Trabalhou em trade marketing e marketing em empresas multinacionais como Nestlé e Unilever. Atualmente é responsável pelo marketing de produto de sandálias na Havaianas Brasil, na Alpargatas.

Compartilhar:

Ao longo da minha carreira, tive a oportunidade de trabalhar com grandes marcas, e um tema sempre me chamou atenção: o comportamento de compra do consumidor. Essa curiosidade virou tema do meu mestrado profissional. Depois de algumas pesquisas, defini que o foco do meu estudo seria sobre os impactos do nascimento do primeiro filho na cesta de compra das mulheres.

Tudo começou com uma pesquisa da Kantar, na qual dizia que 16% da cesta de compra de higiene e beleza de um lar é destinado ao filho de 0-1 ano de idade. Hoje, no Brasil, há uma população em torno de 5 milhões de mulheres grávidas do primeiro filho, segundo levantamento do IBOPE. No entanto, o que isso significa para o marketing e os negócios?

Nas grandes empresas é comum as áreas serem divididas em unidades de negócios, cada um com suas marcas e gestão financeira. Enquanto as empresas estudam os shoppers isoladamente, baseadas em compras específicas de determinadas categorias, estudos acadêmicos complementam que são nas mudanças de ciclo de vida, após casamento e na maternidade, por exemplo, que o consumidor experimenta novas categorias e marcas.

## Maternidade e consumo, o que muda?

As transições de ciclo de vida do ser humano refletem diretamente em seu comportamento de consumo. Categorias entram e categorias saem da cesta de compra, de acordo com a fase de vida e suas exigências. Rituais de mudanças de vida possuem o papel de romper costumes, crenças e valores dos indivíduos. São nessas fases que os hábitos existentes podem ser mais facilmente quebrados e novos hábitos podem ser espontaneamente formados.

O casamento, primeiro filho, entrar na faculdade, são conhecidas por provocar mudanças na economia familiar, nas práticas de lazer e nas redes sociais.

Dentre todas as fases de vida de um ser humano, a maternidade é a mais disruptiva, principalmente para as mulheres. Nesse momento, não há apenas uma reconstrução de identidade da mulher que se torna mãe, mas há uma reestruturação total da família e, consequentemente, dos gastos financeiros.

O comportamento de compra passa a ser diferente e as prioridades mudam em função da chegada do primeiro bebê na família. A mulher se doa no seu limite, tanto em questão de tempo quanto atenção e gastos, para garantir uma qualidade de vida saudável ao seu filho.

## O que entra e sai na cesta de compras
Fraldas, lenços umedecidos, hidratantes de bebês, mamadeiras e uma série infinita de itens passam a agregar a cesta de compra destas mulheres e da família. No entanto, como mensurar, na prática, as mudanças de consumo antes e depois da maternidade com os gastos financeiros? Se todos esses itens entram na cesta de compra, o que será que sai?

Assim, surgiu a ideia de acompanhar gestantes durante meses. Na prática, oito mulheres grávidas de primeira viagem foram escolhidas para enviarem todos os tickets de compras de categorias pré-definidas por seis meses, sendo três meses antes de dar à luz e três meses após.

Todas seguiam o mesmo perfil: classe A, residentes em São Paulo (SP), mulheres grávidas do primeiro filho, ativas no mercado de trabalho, casadas, com idade de 30 até 35 anos.

O acompanhamento das compras dessas mulheres trouxe os seguintes insights:

__1.__ Há uma diminuição de compra de produtos relacionados para os cabelos das mulheres após o nascimento do primeiro filho, tanto em valor quanto em volume;

__2.__ Há um aumento de compra de produtos relacionados para os bebês durante o período da gravidez, tanto em valor quanto em volume;

__3.__ A base de tickets de compra de produtos para cabelos foi menor que produtos para os bebês, principalmente após o nascimento do primeiro filho. A frequência de compra de produtos para cabelos caiu consideravelmente. Cremes, máscaras e condicionadores quase sumiram da cesta;

__4.__ Não houve indício de troca de marcas, nem locais de compra. Após essas descobertas, foram realizadas entrevistas de profundidade que trouxeram a realidade de mães de primeira viagem nos depoimentos.

## Nova realidade
Dentre todas as atividades que as mães citaram que abriram mão desde o nascimento de seus filhos, o tema “banho” foi o mais apontado. Uma das entrevistadas chegou a declarar: “agora (após o nascimento do bebê) não tenho tempo pra nada, né? Até tomar banho é luxo. Antes ficava um ritual, tomava banho, ficava passando creme. Agora, tomo em 10 minutos, toda descabelada. Outro dia, pensei: ‘Meu Deus, será que eu lavei meu pé’?”.

Após todos os meses de acompanhamento dessas mulheres, constatou-se, qualitativamente e quantitativamente, uma alteração significativa no tempo de duração do banho e nos cuidados com o cabelo. Percebeu-se que a frequência de uso de produtos como shampoo, cremes, entre outros, diminuiu de forma inconsciente.

No momento pós-parto, o bebê é totalmente dependente da mãe e, para a mulher, o banho dela exige que ela se separe do bebê, por isso esse momento do dia, em especial, tem seu significado transformado de “momento de relaxamento e cuidado” para apenas uma questão de higiene. O shampoo que está no seu box continua da mesma marca, porém essa mulher o utiliza menos do que antes. “Não dá tempo para duas lavagens como antes” – disse uma das mães.

## Um olhar novo para essa consumidora

Uma das perguntas feitas para as mulheres do estudo foi: “você percebeu alguma ação de marketing ou propaganda para você nessa fase de maternidade?”. Muitas citaram propagandas em geral que as impactaram no Dia das Mães, porém nenhuma marca foi citada com alta relevância.

Uma delas ainda levantou o tema de que existem propagandas com apelo da gravidez, com a ilustração da barriga ou o bebê recém-nascido, porém que nenhuma fala diretamente com a mulher no momento pós-maternidade, quando ela está frágil, sozinha, cheia de dúvidas e sem tempo para cuidar dela mesma.

Fica a reflexão: será que as empresas estão com foco apenas em suas categorias e unidades de negócios ou será que conseguem compreender a pessoa como um todo e os momentos de ciclos de vida em que seu consumidor está vivendo? Nas grandes companhias, que têm uma série de marcas diferentes, quantas unidades de negócios poderiam se comunicar juntas com o consumidor e se conectar de forma completa e verdadeira?

*Gostou do artigo da Juliana Soncini? Saiba mais sobre marketing e comportamento do consumidor assinando gratuitamente [nossas newsletter](https://www.revistahsm.com.br/newsletter)s e escutando [nossos podcasts](https://www.revistahsm.com.br/podcasts) em sua plataforma de streaming favorita.*

Compartilhar:

Artigos relacionados

O futuro que queremos construir e as conversas difíceis que precisamos ter!

Direto da cobertura do SXSW 2026, este artigo percorre as conversas que dominam Austin: quando a tecnologia entra em superciclo e a IA deixa de ser apenas inovação para se tornar força estrutural, a pergunta central deixa de ser técnica – e passa a ser profundamente humana: como preservar significado, pertencimento e propósito em um mundo cada vez mais automatizado?

Você acredita mesmo na visão que você vende todo dia?

Diretamente da cobertura do SXSW 2026, este artigo parte de uma provocação de Tom Sachs para tensionar uma pergunta incômoda a líderes e criadores: é possível engajar pessoas, construir mundos e sustentar visões quando nem nós mesmos acreditamos, de verdade, no que comunicamos todos os dias?

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
10 de março de 2026
Você entende a lógica da velocidade e urgência terem deixado de ser exceção e virado regra? Muitas vezes, isso é estimulado pelas próprias estruturas de gestão e pelos modelos de cobrança que vêm da alta liderança.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
ESG, Estratégia
9 de março de 2026
Crescimento não recompensa discurso; recompensa previsibilidade. É por isso que governança virou mecanismo financeiro, não vitrine institucional

Darcio Zarpellon - Diretor Financeiro (CFO) e membro certificado do Conselho de Administração (CCA-IBGC | CFO-BR IBEF)

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
8 de março de 2026
Falta de diagnóstico, de planos de carreira, de feedbacks estruturados e programas individualizados comprometem a permanência dos profissionais mais estratégicos nas organizações brasileiras

Maria Paula Paschoaletti - Sócia da EXEC

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
7 de março de 2026
Por que sistemas parecem funcionar… até o cliente realmente precisar deles

Marta Ferreira - Cofundadora e presidente da Spread Portugal

4 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
6 de março de 2026 06H00
A maior feira de varejo do mundo confirmou: não faltam soluções digitais, falta maturidade humana para integrá‑las.

Michele Hacke - Palestrante TEDx, Professora de Liderança Multigeracional

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
5 de março de 2026
Entre respostas perfeitas e textos polidos demais, corre o risco de desaparecer aquilo que nos torna únicos: nossa capacidade de errar, sentir, duvidar - e pensar por conta própria

Bruna Lopes de Barros

2 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
4 de março de 2026 12h00
Com todos acessando as mesmas ferramentas para polir narrativas, o que os diferencia? Segundo pesquisa feita com gestores brasileiros, autoconhecimento, expressão e autoria

Patricia Gibin - Consultora e coach

19 minutos min de leitura
Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
4 de março de 2026 06H00
As agendas do ATD26 e SHRM26 deixam claro: o ano começou exigindo líderes capazes de decidir com IA, sustentar cultura e entregar performance em sistemas cada vez mais complexos. Liderança virou infraestrutura de execução - e está em ritmo acelerado.

Allessandra Canuto - Especialista em Inteligência Emocional e Saúde Mental

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
3 de março de 2026 15h00
O verdadeiro poder está em aprender a editar o que a tecnologia ousa criar. Em outras palavras, a era da IA generativa derruba o mito da máquina infalível e te convida para dialogar com artistas imprevisíveis.

Sylvio Leal - Head de Marketing Latam da Sinch

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
3 de março de 2026 08h00
Quando o ego negocia no seu lugar, até decisões inteligentes produzem resultados medíocres. Este artigo aborda a negociação sob a ótica da teoria dos jogos, identidade decisória e arquitetura de incentivos - não apenas como técnica, mas como variável estrutural na construção de valor organizacional.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB – Global Connections

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...