Conteúdo exclusivo Singularity University

Como a singularidade econômica muda o futuro do trabalho

Os avanços da transformação digital abrem caminho para, no futuro, a economia alcançar um estágio de singularidade, em que a hipereficiência promovida pela hiperautomatização atingirá os próprios trabalhos humanos – materiais e intelectuais –, que passarão a ser realizados por máquinas. No processo até a Singularidade Econômica, o avanço da automatização está transformando as relações trabalhistas e de empregabilidade e valorizando as habilidades genuinamente humanas com alternativas de remuneração como o modelo de partnership.
Especialista em Economia Exponencial na Singularity University Brazil e professor convidado da Escola de Economia de São Paulo. É engenheiro de software, mestre em finanças e criador da iniciativa Exonomics.com.br.

Compartilhar:

Aautomatização de trabalhos humanos tem o objetivo de aumentar a eficiência das indústrias e, em consequência, acaba por melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. Automatização hoje é sinônimo de eficiência e de aumento de produtividade.

Contudo, a automatização avança das fábricas e se expande para os – até então – protegidos trabalhos intelectuais em todas as áreas da economia. Um movimento de hiperautomatização de atividades que se forma e impacta profundamente o mundo do trabalho.

O dilema entre geração de trabalho e alta eficiência não é novo para a economia. Na década de 1950, o Brasil tomou a decisão de investir em rodovias, desfavorecendo ferrovias, para seguir o modelo logístico de estímulo à cadeia automobilística. Acreditava-se que esse setor movimentaria mais a economia e geraria mais empregos. De fato, automóveis e caminhões consomem mais combustíveis, geram mais manutenções, precisam de motoristas, os quais provocam acidentes e mais demandas em hospitais, ou seja, movimentam muito mais a economia do que os monótonos e eficientes trens de carga.

Os carros autônomos devem inevitavelmente mudar esse jogo. A tecnologia embarcada aumenta drasticamente a eficiência dessa indústria, desmonetizando uma cadeia montada há décadas. Combustíveis, manutenções, motoristas e acidentes não movimentarão mais a economia como antes.

## Automatização e desemprego
Embora esse pareça um alarde para os precipitados em dizer que a automatização elimina empregos, não há evidências científicas para justificar tal posição. Pelo contrário, os estudos mostram que países com maior grau de automatização têm menores níveis de desemprego. São países que estão passando pela transição do capitalismo industrial para o capitalismo tecnológico (ou cognitivo), e neles, além de buscar habilidades genuinamente humanas como criatividade, resiliência e comunicação, o mundo do trabalho passa também por uma ressignificação das relações trabalhistas e de empregabilidade.

As gerações Y e Z, nascidas após 1980, representam bem essas mudanças. A primeira vivenciou o nascimento da internet e acompanhou os avanços da globalização, com indivíduos questionadores e de pensamento global. Já a segunda é formada pelos nativos digitais, expostos a redes sociais, que são ativistas dos direitos da sociedade.

São novas visões de mundo e comportamentos que obrigam as empresas a se adaptar, tanto para a retenção de talentos quanto para manter seu market share. É interessante observar que tais comportamentos das gerações mais novas podem ser reflexo do desenvolvimento econômico do capitalismo industrial, vivido à flor da pele pelas gerações anteriores. Gerações estas que passaram a ser influenciadas pelas novas, principalmente pela geração Y, que agora começa a assumir posições de decisão em governos e empresas.

Em uma economia cognitiva e de base tecnológica, na qual todos os agentes são capacitados para inovar, naturalmente recursos básicos como moradia, educação, saúde e segurança se tornam mais abundantes, e por isso é natural que haja espaço para a transformação das relações de trabalho que estamos vivendo – apesar de ser uma transformação assimétrica, ou seja, com velocidades diferentes ao redor do mundo.

O trabalho é a forma que encontramos para distribuir riquezas: sem o trabalhador não há mercado consumidor, e sem consumo não há economia. Portanto, quaisquer que sejam os modelos futuros, eles passarão pelos corretos incentivos ao trabalho e pela adequada distribuição de riquezas.

Com o capitalismo cognitivo, simbolicamente representado pelas empresas de tecnologia do Vale do Silício, o modelo de distribuição de riquezas que mais se expandiu foi o de partnership. Nele, as habilidades cognitivas humanas são recompensadas pela participação nos lucros das empresas.

Em nossa sociedade, ainda consideram-se trabalhos cognitivos como trabalhos mais “nobres”, e por isso tais modelos são reservados para reter talentos estratégicos. Mas, em uma economia hiperautomatizada, eles possivelmente serão a grande parte dos empregos existentes. Como fazer a distribuição de riquezas necessária para continuar movimentando a economia? Todos teriam participação nos lucros? Talvez.

No caso automobilístico, por exemplo, fabricantes centenários como Volkswagen e Ford tentam adaptar suas fábricas às inovações capitaneadas no setor pela Tesla, bem como criar modelos de partnership em que os incentivos estejam presentes tanto para retenção de talentos quanto para fomento das redes de fornecedores. A Tesla evidencia uma matemática de colaboração que se sobrepõe – e gera mais lucro – à matemática da competitividade quando decide abrir mão de patentes e chamar todo o setor para inovar em conjunto em sua plataforma.

Com as gerações mais novas vivenciando períodos de maior abundância econômica, alguns outros pontos, como propósito e impacto, também entraram na equação. Questões de governança – corporativa, social e ambiental – passaram a fazer parte das agendas de governos e empresas, na famosa sigla ESG.

O próximo passo de uma economia hiperautomatizada seria então saber se atingiremos uma hipereficiência econômica, em que trabalhos humanos – manuais e intelectuais – não seriam mais necessários para corrigir ineficiências e poderiam ser substituídos por trabalho de máquina, cenário que podemos chamar de singularidade econômica.

Esse seria o momento em que os trabalhos humanos e os trabalhos de máquina teriam a mesma função de valor na sociedade, ou seja, não haveria diferenças significativas entre empregar recursos humanos ou tecnológicos nas linhas de produção, que se tornam autossuficientes. Assim, elas se tornariam cada vez menos dependentes de capital e trabalho – com uso de tecnologia –, sejam linhas de produção industriais, sejam digitais.

Talvez uma singularidade de toda economia pareça ainda distante, mas pense nas transformações dos postos de trabalho na pandemia. Quantos processos e perfis de trabalho que tinham o humano como middle-man para garantir sua eficiência foram automatizados e hoje acontecem sem intermediários?

Muitas tecnologias exponenciais estão sendo empregadas para tornar cadeias de produção inteiras autossuficientes. Nesses contextos microeconômicos, podemos considerar que minissingularidades já estão acontecendo e devem continuar se expandindo ainda mais, mudando toda a economia e o mercado de trabalho.

é importante perceber que análises detalhadas do futuro do trabalho dependem do contexto econômico em que cada governo e cada empresa estão inseridos. Mas uma coisa é certa: esse futuro passará, cedo ou tarde, pela ressignificação do trabalho humano e pela hiperautomatização de atividades econômicas, no caminho de transição para a economia exponencial.

Hologramas incorporam sensação
de toque a avatares

por Maria Clara Lopes

Apesar da forte tendência de o metaverso ser protagonista na criação de ambientes imersivos de trabalho, outras tecnologias despontam para humanizar as relações A distância

Realidades imersivas, como o metaverso, são uma tendência que busca integrar o trabalho a distância e a necessidade de pertencimento e criação de cultura dos seres humanos. Mas é a única tecnologia para isso?

Em artigo no Singularity Hub, o professor de eletrônica e nanoengenharia da University of Glasglow Ravinder Dahiya mostra que, além da visão, os hologramas poderão agregar uma nova camada de experiência aos usuários: o tato. A partir dos estudos de tecnologias de detecção e eletrônica dobráveis, os pesquisadores criaram um sistema de hologramas que usa uma nova técnica, a Aerohaptics, que cria a sensação de toque a partir de jatos de ar. Sem a necessidade de vestir luvas, a experiência é muito mais natural.

Segundo o artigo, com o tempo esse sistema pode evoluir e permitir que as pessoas estejam em contato com o avatar de um colega – que está fisicamente do outro lado do mundo – e realmente sentir seu aperto de mão (e sem precisar de álcool em gel!). Ao abrir mão de vestir os equipamentos (a atual geração de realidade virtual é baseada em dispositivos “vestíveis”), esse modelo dá um passo além na experiência de feedback tátil para o usuário.

E, no futuro, é possível ir além. A tecnologia, que usa peças acessíveis e disponíveis no mercado para emparelhar gráficos digitais com os jatos de ar, pode vir a liberar aromas e incluir o olfato na experiência sensorial do usuário.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que o marketing precisa sair da própria bolha

As grandes ideias raramente surgem da repetição das mesmas referências. Em uma época de acesso democratizado à informação e às tecnologias, o diferencial competitivo passa a ser a qualidade das perguntas que fazemos. Ao refletir sobre arte, cultura e criatividade, o artigo argumenta que as marcas mais inovadoras serão aquelas capazes de formar pessoas que aprendam a observar, conectar e interpretar o mundo de formas que ainda não foram exploradas.

Por que alguns eventos entram para a história e outros são esquecidos na semana seguinte

Por trás dos maiores eventos do mundo existe um trabalho que começa muito antes da abertura dos portões. Leitura de cenário, curadoria estratégica, construção de comunidade e a capacidade de reunir as pessoas certas explicam por que alguns encontros se tornam plataformas de influência, inovação e negócios, enquanto outros permanecem apenas como eventos.

O fim da guerra fiscal: como a Reforma Tributária pode mudar a logística brasileira

Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Saudável, gostoso e acessível: a equação que desafia a indústria de alimentos no Brasil 

Reduzir açúcar, sódio e gorduras sem comprometer sabor, performance culinária e competitividade de preço tornou-se uma das equações mais complexas da indústria de alimentos. O artigo explora como mudanças regulatórias, comportamento do consumidor e inovação tecnológica estão redefinindo estratégias de produto, marketing, cadeia de suprimentos e crescimento no setor de bens de consumo.

A fadiga de decidir em tempos de excesso

Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.

Quanto custa quando o sistema para? Alguns minutos fora do ar podem custar milhões

À medida que organizações se tornam dependentes de ambientes digitais para sustentar suas operações, a indisponibilidade de sistemas passa a representar muito mais do que uma questão técnica. O artigo mostra por que calcular o impacto real de uma falha exige uma visão integrada entre tecnologia, finanças, operação e governança, e como essa análise pode orientar decisões críticas sobre modernização e resiliência dos negócios.

Marketing & growth, Inovação & estratégia
23 de agosto de 2026 13H00
As grandes ideias raramente surgem da repetição das mesmas referências. Em uma época de acesso democratizado à informação e às tecnologias, o diferencial competitivo passa a ser a qualidade das perguntas que fazemos. Ao refletir sobre arte, cultura e criatividade, o artigo argumenta que as marcas mais inovadoras serão aquelas capazes de formar pessoas que aprendam a observar, conectar e interpretar o mundo de formas que ainda não foram exploradas.

Rui Piranda - Sócio-fundador da ForALL

4 minutos min de leitura
Marketing & growth
23 de agosto de 2026 08H00
Por trás dos maiores eventos do mundo existe um trabalho que começa muito antes da abertura dos portões. Leitura de cenário, curadoria estratégica, construção de comunidade e a capacidade de reunir as pessoas certas explicam por que alguns encontros se tornam plataformas de influência, inovação e negócios, enquanto outros permanecem apenas como eventos.

Evandro Monteiro - CEO da Origami Marketing e Eventos.

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
22 de agosto de 2026 14H00
Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Caio Navarro - Fundador e CEO da consultoria Hand

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Bem-estar & saúde, Marketing & growth
22 de agosto de 2026 07H00
Reduzir açúcar, sódio e gorduras sem comprometer sabor, performance culinária e competitividade de preço tornou-se uma das equações mais complexas da indústria de alimentos. O artigo explora como mudanças regulatórias, comportamento do consumidor e inovação tecnológica estão redefinindo estratégias de produto, marketing, cadeia de suprimentos e crescimento no setor de bens de consumo.

Mayara Marcon - Head de Marketing na Lightsweet

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
21 de agosto de 2026 18H00
Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.

Rose Kurdoglian - Fundadora da RK Mentoring Hub

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de agosto de 2026 14H00
À medida que organizações se tornam dependentes de ambientes digitais para sustentar suas operações, a indisponibilidade de sistemas passa a representar muito mais do que uma questão técnica. O artigo mostra por que calcular o impacto real de uma falha exige uma visão integrada entre tecnologia, finanças, operação e governança, e como essa análise pode orientar decisões críticas sobre modernização e resiliência dos negócios.

Philippe Rosa - Diretor de Inovação e Novos Negócios da TQI

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
21 de agosto de 2026 08H00
Por que a metáfora mais repetida do momento também é a mais mal compreendida pelas lideranças

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

8 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
20 de agosto de 2026 14H00
Ao reduzir distorções tributárias que incentivavam a internalização de atividades, o novo sistema tende a estimular terceirizações, fortalecer o mercado B2B e abrir espaço para novos modelos de negócio, criando oportunidades para empresas capazes de se posicionar como parceiras estratégicas de seus clientes.

Frederico Turolla - Sócio Fundador da Pezco Economics, Presidente do PSP Hub e Coordenador do Comitê de Economia e Infraestrutura da SWISSCAM - Câmara de Comércio Suíço Brasileira.

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
20 de agosto de 2026 08H00
Embora as máquinas assumam atividades repetitivas e analíticas, competências como liderança, criatividade, pensamento crítico, negociação e julgamento continuam sendo essencialmente humanas. O desafio das empresas será criar ambientes em que essas capacidades atuem de forma integrada para impulsionar inovação e crescimento.

Ricardo Scheffer - CEO da SONDA no Brasil

3 minutos min de leitura
User Experience, UX, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de agosto de 2026 14H00
Consumidores estão mais exigentes, mais conectados e menos tolerantes a experiências frustrantes. Ao mesmo tempo, os avanços em inteligência artificial estão permitindo que startups evoluam da simples automação para modelos capazes de interpretar contexto, tomar decisões e resolver demandas de forma autônoma. O resultado é uma nova lógica de crescimento baseada na qualidade da resolução, e não apenas na velocidade do atendimento.

Alan Schulte - Vice-presidente de Vendas para Startups e PMEs da Zendesk na América Latina.

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo