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Como a Trader Joe’s lida com os millennials

Uma jovem profissional conta que trabalhar na varejista lhe ensinou muito sobre o valor da autonomia e da colaboração.
Millennial e ex-funcionária da Trader Joe’s, é hoje coordenadora de desenvolvimento de negócios do projeto The Last Mile, ONG que promove a reintegração de presos na Califórnia, EUA.

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Quando fui contratada pela rede de supermercados Trader Joe’s aos 16 anos, eu nem era legalmente autorizada a ter um registro. Disseram-me que fui selecionada com base na minha personalidade, mesmo sendo quase uma inútil. Na época em que saí, sete anos depois, eu tinha trabalhado em seis lojas diferentes. E não sei como conseguem, mas eles têm os melhores gerentes, sistematicamente.

A organização do trabalho na Trader Joe’s é totalmente diferente da hierarquia de todos os demais lugares em que trabalhei. Cada loja é gerenciada por um capitão, com uma equipe de oito a 12 oficiais. Todos os demais são tripulação. E, sim, tudo se baseia no tema marinheiro-barco.

Em princípio, imaginei que tantos gestores médios seriam um problema, mas descobri que isso é bom para todo mundo. A supervisão dos turnos de abertura e fechamento é distribuída de forma uniforme, e as tarefas e atribuições são rotativas durante a semana, o que signifi ca que ninguém acompanha o descarregamento do caminhão congelado todo dia às 4h da manhã, ou desliga todos os computadores toda noite à meia-noite. Talvez seja por isso que os gerentes conseguem se manter tão agradáveis conosco.

E se você não se sente confortável ao se dirigir a um gestor sobre um problema ou questão pessoal? Tudo bem, você tem outros dez com quem conversar. Na última loja em que trabalhei, um colega estava passando por um momento difícil em sua vida pessoal e a frustração começava a fi car patente no trabalho. Vimos o gerente levá-lo para trás, supostamente para uma conversa dura. Mas o chefe entregou a ele uma caixa de ovos quebrados retirada do carrinho que recolhia os produtos vencidos, cobriu uma parede com o plástico que embalava um pallet da doca de carregamento, e orientou-a a jogar os ovos na parede até se sentir melhor. Funcionou. 

 Da mesma forma, ouvi uma história sobre colegas que doaram parte de seu tempo remunerado para ajudar uma integrante da equipe a cuidar do pai antes de uma cirurgia de coração, garantindo assim que ela tivesse horas sufi cientes para ter direito ao seguro saúde. Os gerentes observaram que ela estava em uma situação em que ou perderia o seguro ou não conseguiria cuidar do pai, e decidiram que era responsabilidade deles resolver o problema.

Quase todos os gestores que tive me fi zeram sentir que eu podia contar tudo a eles, fosse pessoal ou profissional – mesmo que não tivéssemos grandes afinidades, uma vez que eram em sua maioria homens, brancos e mais velhos. Eles ouviam muito e davam abertura para quase todo tipo de conversa, perguntando o que eu pensava e comentando o que eu dizia. Sempre senti que confiavam em mim. Por exemplo, se você fosse encarregado de fazer o pedido de vinhos, então todas as decisões sobre a seção eram tomadas por você: reorganizar as prateleiras, decidir o que deixar em destaque, propor um letreiro criativo para divulgação ou uma mudança total de prateleiras, porque as atuais logo pareciam estar vazias aos sábados à noite, ou porque havia muitas garrafas de Charles Shaw [a marca própria da Trader Joe’s]. Eles esperavam que nos responsabilizássemos por nossos erros e acertos, mas atendiam com alegria aos pedidos de ajuda ou orientação. Os oficiais mantinham uma atitude de “há mil maneiras de fazer alguma coisa” que fazia com que tanto novos funcionários quanto veteranos da tripulação se sentissem seguros ao fazer sugestões ou mudar de métodos sem se preocupar se os egos de nossos gerentes se sentiriam ameaçados. 

Em uma loja, me deixaram “recorrer aos universitários” quando as provas fi nais começaram a me atropelar. Estava no segundo ano da faculdade, e queria acreditar que seria capaz de conciliar a carga de um curso inteiro, dois empregos de meio período e um estágio, além de não gostar da ideia de ter de abrir mão do meu pagamento para conseguir fazer as provas. Porém, meus limites humanos foram atingidos e me vi hiperventilando 18 horas por dia antes do início dos exames, ainda não tendo encontrado tempo para terminar os trabalhos, trabalhar, tomar banho, comer, dormir e estudar para a semana que vinha. 

Estressada e envergonhada, fui à loja e expliquei minha situação. Não precisei de muito convencimento. “Sim, é duro”, disse o ofi cial, e puxou nosso cronograma. “Tudo bem, você quer folga só amanhã ou depois de amanhã também?” Quando pedi desculpas por não planejar melhor minha própria vida, deixando a equipe em situação difícil, ele simplesmente disse: “Nós damos um jeito. Tire A, OK?” e me deu tchau com um high fi ve. Às vezes eu ainda não consigo acreditar que isso realmente aconteceu. 

Empresas costumam gostar de colocar várias pessoas juntas em uma sala e dizer que você faz parte da família, mas isso é realmente verdadeiro na Trader Joe’s. Lá encontrei melhores amigos, pais postiços e inspirações divertidas da vida real – e o sentimento de família perpassava a empresa inteira. Se você for a qualquer loja e pedir seu desconto de funcionário no caixa, o oficial que vem digitar a autorização o cumprimenta como a um parente que não via há tempos. Eles costumam até segurar você um pouquinho, fazendo perguntas cotidianas sobre seus planos de vida, e então você aproveita para contar histórias divertidas sobre os oficiais com quem os dois já trabalharam. É como se investissem em você.

Durante o tempo em que trabalhei na Trader Joe’s, tive 11 outros empregos e estágios. Mas foi só quando me vi em outros ambientes – escritórios acelerados e famosos, nos quais escrevia para jornais, era estagiária de políticos – é que suspeitei que podia estar trabalhando para alguém menos qualificado do que eu. E não ajudava que meu gerente desestimulado fosse menos perceptivo, menos flexível e menos respeitoso quanto à minha contribuição. Trabalhei em lugares demais nos quais os gerentes conversavam com mulheres como se fossem bichinhos de estimação, ou passavam a maior parte do tempo se pavoneando em vez de administrar, ou me tratavam como consumidora de tempo em vez de parte contribuinte da equipe. 

Em dias especialmente estressantes, você frequentemente ouvia o gerente da Trader Joe’s dizer: “São só alimentos”. Não conheço nenhuma outra rede de supermercados que dê aos funcionários permissão para se sentirem assim. Não se trata de desprezar a dignidade ou o valor do que fazemos, mas de lembrar a todos que nosso bem-estar mental está acima do nosso trabalho. Todos são gratos por estar ali. Todos sabemos que é muito melhor do que o que se pode encontrar em qualquer outro lugar no varejo.

**SAIBA MAIS SOBRE A REDE TRADER JOE’S**

Celebrando 50 anos em 2018, a varejista Trader Joe’s foi fundada em Pasadena, Califórnia, sob o nome de Pronto Markets, como uma pequena rede de lojas de conveniência similar à 7 Eleven. Em 1967, o fundador, Joseph “Joe” Coulombe, mudou o conceito da loja e rebatizou-a com seu apelido. Além de ter um espaço maior, o novo modelo explicitou a descontração, com os funcionários usando camisas havaianas, por exemplo. Logo fi cou famosa por localizações “irreverentes”, como em um antigo banco no Brooklyn, Nova York, ou um antigo teatro em Houston.

Em 1979, o empreendedor alemão Theo Albrecht adquiriu a Trader Joe’s, que hoje pertence a seu truste de herdeiros. Segundo a revista BusinessWeek, o faturamento anual estimado da rede fi ca em torno de US$ 13, 7 bilhões, o dobro da Whole Foods, o que colocou a rede no 21º lugar entre os varejistas do país. Ela brilha também em outros rankings: em 2013, ocupou a 3ª posição no ranking do Greenpeace por tirar das prateleiras peixes ameaçados de extinção. A maioria dos produtos de seu mix é, de fato, amigável ao meio ambiente. No índice de satisfação dos consumidores da Market Force Information, em 2017, ficou em 2º lugar, só perdendo a primeira posição para a rede regional Wegmans e para a Publix, que empataram – registrou 76% de satisfação, ante 77% das líderes.

Isso é impressionante por conta de seu tamanho e de seu ritmo frenético de expansão. A Trader Joe’s tem mais de 474 lojas, em 43 estados dos EUA, mais de 38 mil funcionários e abre, em média, 23 lojas por ano (em 2017, abriu 14).

Sua identidade é forte: além de amiga do meio ambiente, apoia-se nos conceitos de multiculturalismo e diversidade. É famosa pelas comidas prontas de marca própria– que vão de mexicana a asiática –, e pelas cozinhas vegetariana, orgânica, gourmet e alternativa – até biscoitos de maconha.

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