Sustentabilidade, Diversidade, Gestão de pessoas

Como o ESG está relacionado com a gestão de pessoas?

O mercado brasileiro dá sinais de que está atento a essas questões e daqui para frente, boas práticas vão pesar cada vez mais na análise de valor das empresas
CEO e fundador da Companhia de Estágios. Graduado em administração pela Fecap, com pós-graduação em gestão de pessoas pelo Mackenzie, possui mais de 20 anos de experiência na área de RH. Linkedin:

Compartilhar:

Falar sobre responsabilidade social, governança e meio ambiente não é novidade. Pelo contrário. Esses temas estão em pauta há décadas. Agora, porém, o assunto ganha nova abordagem, impulsionado em parte pelo impacto das mudanças climáticas e a urgência em reduzir as emissões de gases do efeito estufa.

Enquanto os governos reforçam os compromissos selados na Agenda 2030 da ONU, e querem antecipar as promessas feitas no Acordo de Paris para neutralizar o carbono, grandes nomes do mercado financeiro aumentam a pressão sobre as empresas para que estas tenham estratégias e práticas robustas para melhorar seus indicadores ambientais e sociais.

Um exemplo emblemático é Larry Fink, presidente da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo. Com mais de US$ 7,4 trilhões sob administração, ele vem endereçando o tema ESG de maneira insistente — e quando alguém desse calibre diz algo assim, o mercado se dispõe a escutar.

Em carta recente aos CEOs, Fink escreveu: “companhias que ignoram stakeholders terão mais e mais dificuldades para atrair consumidores e talentos, à medida que os jovens cada vez mais esperam que elas espelhem e compartilhem de seus valores. Quanto mais sua empresa puder demonstrar seu propósito em entregar valor aos clientes, colaboradores e comunidades, melhor será sua capacidade de competir e entregar lucros duradouros”. Repare como ele destaca a questão dos talentos.

É verdade que os jovens estão muito mais exigentes hoje em dia. Testemunhamos todos os dias, em conversas com estudantes, o quanto eles procuram trabalhar em uma empresa que, além da bolsa-auxílio, ofereça propósito, desenvolvimento pessoal e orgulho de pertencer. Candidatos a vagas de estágio e trainee, a maioria deles da geração Z (nascidos entre 1995 e 2010), não querem se dedicar a uma organização que maltrata o meio ambiente, ignora pautas sociais e não cuida dos funcionários. Hoje, antes de aceitar uma proposta, eles questionam as práticas da companhia.

Por aqui, o mercado brasileiro dá sinais de que está atento a essas questões. Ainda que não exista um órgão oficial que ateste se uma empresa é ou não ESG, a B3, bolsa de valores oficial do Brasil, tem dois índices relacionados ao tema — o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) e o Índice Carbono Eficiente (ICO2).

Daqui para frente, boas práticas vão pesar cada vez mais na análise de valor das empresas. E as organizações sabem disso. Uma das ações mais recentes foi a da Gol, que anunciou o primeiro voo no País com emissões de carbono zero. Pegou bem, assim como o fato de Ifood estar compensando, desde julho, as emissões de carbono das suas entregas.

## PMEs precisam se preparar

Por enquanto, ESG está mais na pauta das corporações com mais de 500 colaboradores, com capital aberto na bolsa. No entanto, é uma questão de tempo para que qualquer empresa, independentemente do tamanho, seja cobrada. Isso porque, em breve, toda a cadeia será avaliada em critérios de como impacta o meio ambiente, de boa governança e de retorno positivo à sociedade.

Perguntas como “de que forma vocês cuidam de seus funcionários?”; “têm diversidade e equidade de gênero na companhia?”; e “possuem iniciativas de sustentabilidade e boas práticas na gestão do negócio?” vão fazer parte do processo de análise de um novo fornecedor, por exemplo.

Quem não tiver consistência, estará fora da lista de fornecedores. A boa notícia é que uma parte das pequenas e médias empresas já têm alguma ação, mesmo sem saber. Alguns exemplos: um supermercado de bairro que acolhe um projeto de futebol para crianças carentes está atuando no pilar social; uma empresa que passa por um processo de auditoria, já tem um pilar de governança. Você utiliza redutores de água nas torneiras, faz reciclagem do lixo, tem elevadores que regeneram energia no prédio? São medidas ligadas ao meio ambiente. É claro que ESG é muito mais complexo do que isso, mas pequenas realizações como essas sinalizam um bom primeiro passo.

Neste sentido, é importante organizar a casa, entendendo quais ações já são feitas e em que vertical do ESG se encaixam. Conseguir comunicar internamente para gerar engajamento é o próximo passo; isso vai gerar motivação e alinhamento entre as pessoas. Muitas empresas pulam essa etapa e vão direto para a estratégia de marketing. Embora todo mundo possa se dizer ESG, o preço que se paga por uma afirmação vazia é alto para a reputação. Uma derrapada do tipo pode fazer com que a empresa ganhe o rótulo de “greenwashing” — “lavagem verde” ou “pintado de verde”, em tradução do inglês. Isso queima (muito) a imagem de um negócio.

## Construção de indicadores

As pessoas falam muito da dificuldade em ter indicadores. Afinal, reduzir 10% de carbono no escritório é uma coisa, já na indústria, é outra. E o momento é de entender as métricas para dimensionar os avanços nos temas de ESG. Entretanto, existe uma área em que as métricas estão mais claras: a de pessoas. Aqui, faço referência aos indicadores de diversidade no quadro de funcionários.

Não dá mais para uma companhia ignorar que o escritório não tem negros ou que há assimetrias de gênero entre os diferentes níveis hierárquicos. Nesses casos, as métricas para resolver o problema não são nada subjetivas.

O Pacto Global da ONU, por exemplo, estipula 30% de mulheres na alta liderança até 2025 — ou 50% até 2030. SAP Brasil, Grupo Boticário e Uber são algumas das companhias que assumiram esse compromisso e estão engajadas em aumentar a presença de mulheres na alta liderança. A cervejaria Heineken, setor tipicamente masculino, anunciou a meta de 50% de mulheres na liderança da companhia nos próximos cinco anos.

Há outros exemplos importantes: na Companhia de Estágios, 9 em cada 10 programas de estágio têm metas de diversidade que variam de 30% a 100%. Cada cliente tem uma abordagem. A Klabin, por exemplo, lançou no ano passado um programa de estágio voltado para diversidade com foco em baixa renda. A renda familiar dos aprovados deveria ser de até três salários-mínimos; uma série de outras diversidades foi abarcada graças à iniciativa. A Gerdau selecionou trainees mulheres e a OLX seguiu a mesma linha com um programa de estágio tech voltado para meninas. Programas de entrada, como os de estágio e trainee, são fundamentais para ampliar a diversidade.

E a hora é essa. Se você acha que não é com você, deixo um alerta: quando menos esperar, talvez você esteja sendo cobrado por práticas de ESG. Isso porque, toda a cadeira deverá ser ESG. Em pouco tempo, consumidores só vão querer comprar de marcas que mensuram o impacto de seus negócios, assim como talentos só vão querer trabalhar em companhias éticas e responsáveis. Negar essa realidade não é mais uma opção.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Sharenting: o limite entre compartilhar e expor

Em tempos de exposição digital permanente, o compartilhamento de fotos e informações de crianças nas redes sociais exige uma reflexão cada vez mais necessária: até que ponto registrar memórias é diferente de tornar a infância pública? O fenômeno do sharenting convida pais e responsáveis a repensarem os limites entre afeto, privacidade e responsabilidade no ambiente online.

Tudo que aprendi sobre a gestão da nova hotelaria nos últimos cinco anos

Mais conectado, informado e exigente, o consumidor de hoje compara sua experiência de hospedagem com os melhores serviços que encontra em qualquer setor. Em um mercado cada vez mais competitivo, o futuro dos hotéis dependerá da combinação entre inovação, eficiência e de pessoas que tenham a capacidade de criar experiências memoráveis

O SaaSpocalypse chegou? Talvez a pergunta esteja errada.

A pergunta tem aparecido cada vez mais nas reuniões de orçamento. O desafio é que a resposta raramente está no código. Mais do que anunciar o fim do SaaS, a nova onda tecnológica está redefinindo onde o valor do software realmente está, quem o captura e quais capacidades as organizações escolherão desenvolver ou contratar.

O cérebro é um velcro para críticas e um teflon para elogios

Um erro pesa mais do que dez acertos! A ciência mostra que experiências negativas exercem um impacto desproporcional sobre nosso comportamento. Nas organizações, essa tendência pode fazer com que líderes se tornem especialistas em apontar falhas e deixem invisíveis os comportamentos que fortalecem resultados, aprendizado e colaboração.

O líder como jardineiro: a vantagem competitiva que cresce como um jardim

Inspirada na filosofia dos mestres jardineiros japoneses, o autor analisa a trajetória centenária da Omron e questiona um dos pilares da gestão tradicional: e se o papel do líder não fosse controlar resultados, mas cultivar o ambiente onde inovação, autonomia e crescimento acontecem naturalmente?

Direito, Regulação & Compliance
16 de setembro de 2026 08H00
Em tempos de exposição digital permanente, o compartilhamento de fotos e informações de crianças nas redes sociais exige uma reflexão cada vez mais necessária: até que ponto registrar memórias é diferente de tornar a infância pública? O fenômeno do sharenting convida pais e responsáveis a repensarem os limites entre afeto, privacidade e responsabilidade no ambiente online.

Ana Bia Medeiros - Líder em Educação na Kiddle Pass

4 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
15 de setembro de 2026 14H00
Mais conectado, informado e exigente, o consumidor de hoje compara sua experiência de hospedagem com os melhores serviços que encontra em qualquer setor. Em um mercado cada vez mais competitivo, o futuro dos hotéis dependerá da combinação entre inovação, eficiência e de pessoas que tenham a capacidade de criar experiências memoráveis

Rodrigo Miluzzi - Diretor de Operações do Grupo Mabu

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
15 de setembro de 2026 08H00
A partir de uma conversa com Rogério Almeida, principal executivo do Cristália, este artigo discute como investimentos de longo prazo em pesquisa, tecnologia e capacidade produtiva podem contribuir para a construção de maior autonomia científica e industrial no Brasil.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

23 minutos min de leitura
Tecnologia e inovação, Estratégia
14 de setembro de 2026 18H00
A pergunta tem aparecido cada vez mais nas reuniões de orçamento. O desafio é que a resposta raramente está no código. Mais do que anunciar o fim do SaaS, a nova onda tecnológica está redefinindo onde o valor do software realmente está, quem o captura e quais capacidades as organizações escolherão desenvolver ou contratar.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

13 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
14 de setembro de 2026 14H00
Um erro pesa mais do que dez acertos! A ciência mostra que experiências negativas exercem um impacto desproporcional sobre nosso comportamento. Nas organizações, essa tendência pode fazer com que líderes se tornem especialistas em apontar falhas e deixem invisíveis os comportamentos que fortalecem resultados, aprendizado e colaboração.

Valter Bahia Filho - Autor e consultor educacional de Neurociência e Comportamento, Psicologia Positiva, Comunicação, Artes e Gestão de Pessoas.

12 minutos min de leitura
Liderança
14 de setembro de 2026 08H00
Inspirada na filosofia dos mestres jardineiros japoneses, o autor analisa a trajetória centenária da Omron e questiona um dos pilares da gestão tradicional: e se o papel do líder não fosse controlar resultados, mas cultivar o ambiente onde inovação, autonomia e crescimento acontecem naturalmente?

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

11 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
13 de setembro de 2026 17H00
Modelos de inteligência artificial estão cada vez mais baratos, disponíveis e semelhantes em desempenho. O desafio das organizações não é apenas automatizar processos, mas definir onde a decisão deve continuar sendo humana e como transformar discernimento em vantagem competitiva.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Estratégia e Execução
13 de setembro de 2026 14h00
Os movimentos recentes de Art’G e Belmont Emeralds revelam estratégias de geração e captura de valor

Adriana Salles Gomes

0 min de leitura
Inovação & estratégia
13 de setembro de 2026 08H00
Enquanto os ciclos tecnológicos se tornam cada vez mais curtos, organizações enfrentam um desafio permanente: transformar inovação em resultados concretos e que gere valor para o negócio no longo prazo.

Andréia Rengel - CEO e sócia da AMcom

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
12 de setembro de 2026 14H00
Em um ambiente empresarial cada vez mais orientado por dados, o people analytics permite que o RH amplie sua influência nas decisões corporativas.

Gabriela Resende - Diretora de Operações de Recursos Humanos da Propay

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução