Gestão de Pessoas

Como o RH pode estar à frente das pautas ESG e outras estratégias?

Quebrar paradigmas e entender seu novo papel é fundamental para a área de gestão de pessoas
Clarice Martins Costa preside o Conselho Deliberativo do Instituto Lojas Renner, além de ser membro dos Comitês de Pessoas de Copersucar, Piccadilly e Grupo Panvel, no qual também é conselheira independente, assim como do CIEE/RS.

Compartilhar:

Quando compartilho minha experiência como diretora de gente e sustentabilidade da Lojas Renner ao longo dos últimos 29 anos, muitas pessoas se admiram, ainda hoje, do fato de uma profissional de recursos humanos ter incorporado também temas da pauta ESG em suas atribuições. Estou falando de 2008, época da criação do Instituto Lojas Renner, quando a importância dessa agenda não estava tão em evidência nas organizações, mas já se falava bastante sobre responsabilidade social.

Naquele momento, percebemos que as equipes de diversas lojas começaram a se mobilizar espontânea e regularmente para arrecadar doações de roupas para as comunidades e entidades de sua região. Em geral, recorriam à área de recursos humanos para saber sobre como proceder com aquelas doações e os gerentes, naturalmente, desejavam compartilhar aquele entusiasmo de seus times conosco.

Por conta dessas iniciativas, entendemos que havia um desejo genuíno e latente na empresa de ajudar, de colaborar, porém os esforços eram dispersos. Em paralelo às doações, atuávamos também como mantenedores do Projeto Pescar, um programa pioneiro de formação sócio-profissionalizante para jovens. Começamos, então, a pensar sobre como organizar todas as ações em andamento para que gerassem, de fato, o maior impacto social.

## Mapeamento de ações e demandas
O primeiro passo foi mapear o que as lojas já faziam isoladamente. Ficamos surpresos em descobrir tantas atividades interessantes que não eram documentadas de forma padronizada. Analisamos todas as iniciativas com as lentes da cultura de encantamento da empresa, e levamos em conta o público-alvo preferencial de Lojas Renner: as mulheres.

Com base em todo esse conjunto de informações, levantado a partir de um comportamento detectado nas lojas, a área de recursos humanos apresentou para a diretoria o projeto de criação do Instituto Lojas Renner. Ele nascia, nesse contexto, com o propósito claro de apoiar ações sociais empreendedoras, desenvolvidas por organizações da sociedade civil, que contribuíssem de forma eficaz para a qualificação e inclusão da mulher, bem como para o desenvolvimento das comunidades próximas à empresa. Vale dizer que, nessa época, a Lojas Renner atuava há três anos como uma organização de capital aberto e, portanto, o “G” da governança já estava ancorado.

O “S” do social surgia, dessa forma, como uma demanda interna, sem a pressão do mercado ou de investidores. A iniciativa de criar uma agenda social alinhada ao negócio e ao público da empresa poderia ter sido uma iniciativa da área de marketing, de operações ou ainda de relacionamento com investidores? Poderia. Nesse caso, no entanto, o RH quebrou o paradigma de ser apenas uma área de apoio a outros segmentos da organização, para estruturar, de fato, esta agenda, e ajudar a empresa a adotar uma nova postura, dar um passo importante e estratégico no mercado.

## Ímpeto ESG
Com a criação do Instituto Lojas Renner, novos projetos foram agregados e ajudaram a ampliar o impacto social da empresa, por meio de iniciativas que estimulam a geração de renda, o empreendedorismo e a formação profissional de mulheres. Importante frisar que, ao mesmo tempo em que definimos as prioridades de alcance externo por meio do instituto, contemplamos também nossos stakeholders internos, promovendo, por exemplo, o censo da empresa, para conhecer e atuar sobre a diversidade no time de colaboradores, assim como o desenvolvimento e a formalização de boas práticas com nossos fornecedores.

Implementamos ainda uma política de direitos humanos e mantivemos, com regularidade, a pesquisa de satisfação de colaboradores, para entender nossas vulnerabilidades e tomar as melhores decisões em relação à equipe no menor tempo possível. O “S”, semeado pela área de recursos humanos, rendeu vários frutos ao longo do tempo.

Em 2013, o “E” do ambiente (environment, em inglês) foi contemplado também. Nessa ocasião, começamos a fazer a logística reversa dos frascos de perfume e embalagens de maquiagem, um projeto bem amplo, que envolveu toda a cadeia e incluiu a educação e a adequação dos fornecedores ao processo.

## Mobilização e engajamento constantes
Em 2016, o Instituto Lojas Renner atualizou sua missão, que foi orientada para o empoderamento econômico e social de mulheres na cadeia têxtil, e desdobrada em quatro frentes alinhadas ao negócio: matéria-prima, produção, varejo e pós-consumo. Dada a dimensão e ramificação de todas essas iniciativas, fica claro que a área de recursos humanos não fez tudo sozinha e, tampouco, avançou sobre as atividades de outras áreas. Coube ao RH identificar um comportamento latente na empresa e mobilizá-lo em uma direção interessante para todos.

No decorrer de todo esse processo, contamos, conforme o projeto, com patrocinadores de diferentes áreas: compras, logística, operações etc. Da mesma forma, apoiamos os projetos de outros setores da empresa sempre que envolviam questões comportamentais, novos olhares e atitudes. Mais do que abordar as atribuições de cada área em projetos transformadores, o ponto central, aqui, é mostrar que a gestão de pessoas também pode ser uma área estratégica, inovadora, disruptiva e assumir o protagonismo e a mobilização de ações de maior impacto.

Um RH estratégico sabe ler a organização, as tendências, o mercado. Um RH estratégico se prepara para conversar com a alta gestão, para engajar seus pares, para defender projetos e iniciativas que, em última instância, irão contribuir para o desenvolvimento das pessoas e, consequentemente, do negócio e da sociedade.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Pressão econômica leva Geração Z ao consumo compartilhado

Quando viver sozinho deixa de ser viável, o consumo também deixa de ser individual – e isso muda tudo para as marcas. Este artigo mostra como a Geração Z está redefinindo consumo, pertencimento e a forma como as empresas precisam se posicionar.

Todos nus com a mão no bolso

Não é a idade que torna líderes obsoletos – é a incapacidade de abandonar ideias antigas em um mundo que já mudou. Este artigo questiona o mito da liderança geracional e aponta qual o verdadeiro divisor de águas.

Marketing & growth
15 de maio de 2026 13H00
Quando viver sozinho deixa de ser viável, o consumo também deixa de ser individual - e isso muda tudo para as marcas. Este artigo mostra como a Geração Z está redefinindo consumo, pertencimento e a forma como as empresas precisam se posicionar.

Dilma Campos - CEO da Nossa Praia e CSO da Biosphera.ntwk

3 minutos min de leitura
Liderança
15 de maio de 2026 07H00
Não é a idade que torna líderes obsoletos - é a incapacidade de abandonar ideias antigas em um mundo que já mudou. Este artigo questiona o mito da liderança geracional e aponta qual o verdadeiro divisor de águas.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento Empresarial

0 min de leitura
Marketing
14 de maio de 2026 15H00
Executivo tende a achar que, depois de um certo ponto, não é mais preciso contar o que faz. O case da co-founder do Nubank prova exatamente o contrário.

Bruna Lopes de Barros

4 minutos min de leitura
Liderança
14 de maio de 2026 08H00
À luz do Aikidô, este artigo analisa a transição da liderança coercitiva para a liderança que harmoniza sistemas complexos, revelando como princípios como Wago, Awase e Shugi‑Dokusai redefinem estratégia e competitividade na era da incerteza.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

10 minutos min de leitura
Liderança
13 de maio de 2026 15H00
Em um mundo dominado pela urgência e pelo excesso de estímulos, este artigo provoca uma reflexão essencial: até que ponto estamos tomando decisões - ou apenas reagindo? E por que recuperar a capacidade de pausar, escolher e agir com intenção se tornou um diferencial crítico para líderes e organizações.

sabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

7 minutos min de leitura
Finanças, Inovação & estratégia
13 de maio de 2026 08H00
Entre pressão por resultados imediatos e apostas de longo prazo, este artigo analisa como iniciativas de CVC podem sobreviver ao conservadorismo corporativo e construir valor além do retorno financeiro.

Rafael Siciliani - Gerente de New Business Development na Deloitte

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
12 de maio de 2026 14H00
O que antes era visto como informalidade agora é diferencial: este artigo explora como a cultura brasileira vem ganhando espaço global - e se transformando em ativo estratégico nas empresas.

Bell Gama - Sócia-fundadora da Air Branding

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
12 de maio de 2026 08H00
Enquanto agendas lotam e decisões patinam, este artigo mostra como a ascensão dos agentes de IA expõe a fragilidade das arquiteturas de decisão - e por que insistir em reuniões pode ser sinal de atraso estrutural.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

6 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
11 de maio de 2026 15H00
A troca no comando da Apple reacende um dilema central da liderança: como assumir um legado sem se tornar refém dele - e por que repetir o passado pode ser o maior risco em qualquer processo de sucessão.

Maria Eduarda Silveira - CEO da BOLD HRO

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
11 de maio de 2026 08H00
Vivara, Natura, Blip, iFood e Endeavor já estão usando o Open Talent para ganhar agilidade e impacto. Este artigo revela por que a liderança por projeto e o talento sob demanda estão redesenhando o futuro do trabalho.

Cristiane Mendes - CEO da Chiefs.Group

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão