Gestão de Pessoas
4 min de leitura

Compliance não está no parecer ser, mas nas ações de fato e direito dentro das empresas

A adoção de políticas de compliance que integram diretrizes claras de inclusão e equidade racial é fundamental para garantir práticas empresariais que vão além do discurso, criando um ambiente corporativo verdadeiramente inclusivo, transparente e em conformidade com a legislação vigente.
Advogada, sanitarista, com proficiência em Política Públicas de Saúde, pós-graduanda pela PUCRS em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global, Membro do GERAGE - Grupos de Estudos de Gênero, Raça e Ética da UNICAMP/SP. Liderança Negra e Alas, Caminhos da Fundação Tide Setúbal (SP), e consultora jurídica da Singuê. Participou da construção da Lei de Cotas para cargos de direção dentro da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e das análises técnicas sobre o impacto da reforma da previdência na população negra junto ao Senado.

Compartilhar:

A promoção de inclusão, equidade e diversidade dentro das empresas, órgãos públicos ou organizações do terceiro setor é mais do que um fator de melhoria para a cultura organizacional, mas uma obrigação respaldada por códigos como a Constituição, o Estatuto da Igualdade Racial, a Lei nº 9.029/1995 – que proíbe práticas discriminatórias em admissões ou na permanência do trabalho -, e outras leis e dispositivos de promoção de igualdade. Por isso, mais do que promover campanhas e programas de inclusão, estas organizações que adotam essas práticas precisam considerar a aplicação disso em seus acordos com funcionários e clientes. O compliance é um caminho.

Por ser um conjunto de práticas e políticas aplicadas pelas empresas para estar em conformidade com as leis, mas também para ter uma descrição objetiva da cultura, processos e objetivos, o compliance é cada vez mais popular entre as organizações brasileiras. O aumento da busca por sua implementação passa a existir principalmente após a promulgação da Lei Anticorrupção (Lei nº 12.846/2013), que responsabiliza as empresas por atos de corrupção. Estas diretrizes, no entando, podem ser de efeito amplo e tratar de questões caras ao negócio, como boas práticas com grupos minorizados, negros, mulheres, indígenas, LGBTQIAPN+ e outros. 

Fato é que o compliance não fica da porta pra dentro, mas se expande para toda a sociedade e grupos que se relacionam com a empresa. Justamente por isso, não pode apenas parecer ser, mas precisa estar nas ações de fato e de direito  promovidas pela empresa e também no discurso de seus porta-vozes, desde cargos terceirizados ou de manutenção – como seguranças e profissionais de serviços gerais -, até o discurso presente na alta gestão. 

É preciso estarem sempre bem estabelecidos e atualizados todos os limites e diretrizes estabelecidos nos relacionamentos interpessoais e profissionais esperados pela empresa. Só desta forma haverá segurança nos processos ligados a desligamentos ou sanções por comportamentos discriminatórios, sem dizer que há julgamento por parte da empresa.

As organizações devem adotar uma abordagem proativa, desenvolvendo políticas objetivas, transparentes e abrangentes que definem comportamentos aceitáveis e não aceitáveis. Essas políticas devem ser documentadas e comunicadas de maneira acessível a todos os funcionários, abrangendo tópicos como assédio, discriminação, e respeito às diferenças culturais, religiosas, raciais e de gênero. Junto a isso, é essencial realizar treinamentos regulares sobre diversidade e inclusão, criar canais seguros para denúncias de comportamentos inadequados e garantir que as políticas sejam aplicadas de forma justa e consistente.

Programas afirmativos de desenvolvimento de profissionais implementados por empresas com apoio da Singuê são notáveis iniciativas voltadas para a inclusão racial e promoção da equidade no ambiente corporativo. Estas iniciativas são parte de um compromisso mais amplo com a igualdade racial, alinhadas à promulgação da Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância em 2022 e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), incluindo o ODS 18, que visa combater as desigualdades étnico-raciais.

Uma grande empresa do varejo, após episódios que destacaram a necessidade de uma política interna mais eficaz contra o racismo, implementou uma série de medidas, como programas de capacitação para profissionais negros e cotas para posições de liderança. Outra do segmento de aço lançou iniciativas semelhantes, focadas no recrutamento, desenvolvimento e promoção de profissionais negros em diversos níveis da organização, resultando em maior representatividade.

Essas empresas, com seus exemplos práticos liderados pela consultoria da Singuê , demonstram que o compromisso institucional com a diversidade e a igualdade racial, reforçado por tratados internacionais e metas globais de desenvolvimento sustentável, tem impactos significativos na cultura corporativa e nos resultados organizacionais.

Assim, quando ocorrerem incidentes relacionados à diversidade, a empresa poderá agir rapidamente e com transparência. Primeiro, ao investigar o caso de forma imparcial e ao  garantir que todas as partes envolvidas sejam ouvidas. Dependendo da gravidade, medidas disciplinares, que podem variar desde advertências até demissões, devem ser aplicadas. É fundamental a revisão das políticas e procedimentos internos para evitar reincidências e, se necessário, buscar aconselhamento jurídico para garantir que todas as ações sejam realizadas em conformidade com a legislação trabalhista e de direitos humanos.

Antes de todas as ações que eu trouxe neste texto, as empresas precisam se reconhecer como parte de uma estrutura racista, machista e heteronormativa. Portanto, especificações no compliance sobre termos raciais e de outros grupos minorizados são tão importantes na adoção de um papel antidiscriminatório e antirracista que parte da consciência do grupo dominante sobre seus privillégios e dos demais de seu lugar de luta coletiva por uma cidadania mais democrática. 

Compartilhar:

Artigos relacionados

Como celebrar o dia das mulheres

Depois do Carnaval, março nos convida a ir além das flores e mimos: o Dia Internacional da Mulher nos lembra que celebrar mulheres é importante, mas abrir portas é essencial – com coragem, escuta e propósito.

Inovação & estratégia
26 de fevereiro de 2026
Diante dos desafios crescentes da mobilidade, conectar corporações, startups, parceiros e especialistas em um ambiente colaborativo pode ser o caminho para acelerar soluções, transformar ideias em projetos concretos e impulsionar a inovação nesse setor.

Juliana Burza - Gerente de Novos Negócios & Produtos de Inovação no Learning Village

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de fevereiro de 2026
No novo jogo do trabalho, talento não é ativo para reter - é inteligência para circular.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
25 de fevereiro de 2026
Enquanto o discurso corporativo vende inovação, o backoffice fiscal segue preso em planilhas - e pagando a conta

Isis Abbud - co-CEO e cofundadora da Qive

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
24 de fevereiro de 2026
Estudos recentes indicam: a IA pode fragmentar equipes - mas, usada com propósito, pode ser exatamente o que reconecta pessoas e reduz ruídos organizacionais.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

9 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
23 de fevereiro de 2026
Com bilhões em recursos não reembolsáveis na mesa, o diferencial não é ter projeto - é saber estruturá‑lo sem tropeçar no processo.

Eline Casasola - CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89

5 minutos min de leitura
ESG
22 de fevereiro de 2026
Depois do Carnaval, março nos convida a ir além das flores e mimos: o Dia Internacional da Mulher nos lembra que celebrar mulheres é importante, mas abrir portas é essencial - com coragem, escuta e propósito.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
21 de fevereiro de 2026
A autêntica transformação cultural emerge quando intenção e espontaneidade deixam de ser opostas e passam a operar em tensão criativa

Daniela Cais – TEDx Speaker, Design de Relações Profissionais

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
20 de fevereiro de 2026
A verdadeira vantagem competitiva agora é a capacidade de realocar competências na velocidade das transformações

Cristiane Mendes - CEO da Chiefs.Group

4 minutos min de leitura
Liderança, Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de fevereiro de 2026
A crise silenciosa das organizações não é técnica, é emocional - e está nos cargos de poder.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
18 de fevereiro de 2026
Quando 80% não se sentem realizados, o problema não é individual - é sistêmico.

Tatiana Pimenta - CEO da Vittude

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança