Dossiê HSM

Consciência, a nova eficiência na era da IA

O debate em torno da inteligência artificial começa a ter um efeito ainda pouco percebido: a defesa da inteligência humana. Aos poucos, nas empresas, veremos o foco em responsabilidades ESG, que hoje cabe a um departamento específico, transcender o silo e, assim como a eficiência, a consciência vai dando o tom
Adriana Salles Gomes é diretora-editorial de HSM Management.

Compartilhar:

É possível que o leitor já tenha visitado o Coliseu em Roma. Mas é pouco provável que tenha se feito uma pergunta que o filósofo americano e professor de Harvard Michael Sandel costuma fazer a seus alunos: “Em uma análise custo-benefício, o prazer da maioria dos romanos da plateia compensaria a dor e a morte da minoria de cristãos devorados pelos leões nos circos da Roma Antiga, certo?”.

Líderes e gestores das empresas em teoria chegariam a essa conclusão, na visão de Sandel. De muitas maneiras, é assim que as empresas e o capitalismo são operados hoje: as decisões de negócios se pautam pela análise custo-benefício de cada situação em conseguir criar valor. Elas são baseadas, portanto, na busca de eficiência, um raciocínio que remonta à filosofia utilitarista de Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873), para os quais maximizar o bem maior é a única forma de moralidade.

Não é difícil perceber como a automação crescente dos processos empresariais e, mais recentemente, a explosão da inteligência artificial elevam esse utilitarismo a um patamar sem precedentes. Não por acaso, cada vez mais, o discurso é pela “inteligência artificial responsável”, não pela inteligência artificial pura e simplesmente. Talvez por isso esteja começando a haver uma espécie de ricocheteio da análise custo-benefício, traduzida primeiro no discurso ESG (sigla em inglês que remete a responsabilidades ambientais, sociais e de governança das empresas).

Ao mesmo tempo que as pessoas do meio corporativo estão tratando de aprender a “engenheirar prompts” – ou seja, a fazer melhores solicitações nos modelos de geração de linguagem e imagem como ChatGPT, Midjourney e afins (com exemplos, comparações e símiles de raciocínios) –, elas estão, às vezes sem perceber, flertando com a ideia de substituir os parâmetros de eficiência pelos parâmetros de consciência em suas decisões. Consciência essa que não se limita mais ao jurídico, ao compliance e ao departamento de sustentabilidade, mas é transversal à organização.

Isso tem aparecido de maneira mais acintosa em quatro frentes:

– busca ativa de conselhos de administração mais conscientes;
– evolução do foco em experiências de “funcionários” e “consumidores” pela ideia de experiência de “pessoas”;
– gestão de uma evolução da web para web3 marcada por um foco em consciência;
– mudança gradual nos modelos mais admirados pelos profissionais do meio corporativo, passando de empresas do velho capitalismo para aquelas que se aproximem do modelo Teal, desenhado por Fréderic Laloux em *Reinventando Organizações.*

É dessas frentes que trata o presente *Dossiê* desta edição.

## Dilui-se a identidade moral
Não é difícil entender por que a explosão da inteligência artificial está acelerando isso mais do que, por exemplo, a emergência climática ou mesmo a pandemia – embora as coisas estejam todas conectadas. Julian Friedland, professor de ética na Trinity Business School do Trinity College, em Dublin, Irlanda, explica isso num artigo da *MIT Sloan Management Review*: é bem real o risco de os humanos se perderem na era da IA, maior até do que o risco mais discutido sobre a IA se tornar senciente.

Isso porque o que nos é atraente na tecnologia da IA é a promessa de ela lidar com os aspectos mundanos da vida, possibilitando-nos mais tempo e atenção para atividades mais recompensadoras. “A IA facilita a realização de tarefas rotineiras, sem dúvida. Mas a repetição do processo faz com que nossas ações se tornem cada vez mais automáticas e menos reflexivas”, diz o especialista. Por outro lado, vivenciar atritos (esses que a IA vai retirar da nossa vida) é o que muda o jeito como reagimos a estímulos diversos e faz nossa identidade moral evoluir. Friedland vê seis tendências humanas preocupantes a partir disso:

1. Maior passividade; em vez de protagonistas, podemos ser cada vez mais espectadores.
2. Distanciamento das reações emocionais das outras pessoas.
3. Participação menor nas decisões.
4. Responsabilidade menor pelas decisões tomadas.
5. Ignorância maior em relação a tudo – para que conhecer uma região se a IA vai nos guiar ali?
6. Perda de habilidades que deixam de ser utilizadas.

As seis tendências juntas “multiplicam as ocasiões em que vivemos no piloto automático, afrouxam nossos laços sociais, exacerbam conflitos e dificultam o progresso moral ao diminuir o pensamento autocrítico”. Por isso, a consciência precisa contra-atacar.

__Leia também: [Um conselho de administração sempre em evolução](https://www.revistahsm.com.br/post/um-conselho-de-administracao-com-consciencia)__

Artigo publicado na HSM Management nº 156.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O cliente ainda precisa de vendedores?

A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

76% das organizações já têm um Chief AI Office (CAIO). E agora, qual é o papel do CEO?

Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Empresa familiar sem governança é refém do fundador; com governança, vira legado

O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

A NR-1 perguntou sobre o trabalho. A empresa respondeu sobre as pessoas.

A norma exige que as empresas avaliem fatores como jornada, ritmo, metas, autonomia e organização do trabalho. Em nenhum momento a NR-1 fala sobre diagnósticos individuais. Ainda assim, grande parte das organizações respondeu com pesquisas de saúde mental e mapeamentos de sintomas. Agora, com a suspensão temporária das multas pelo STF até setembro, surge uma oportunidade rara: abandonar as respostas equivocadas e voltar à pergunta original que a norma sempre fez sobre o trabalho, e não sobre as pessoas.

A equipe de marketing do futuro pode caber em uma pessoa

Freelancers, consultores, creators e pequenas agências estão redesenhando a lógica de crescimento no marketing digital. Em vez de ampliar estruturas, apostam em tecnologia para expandir capacidade, ganhar eficiência e aumentar resultados. O desafio agora não é apenas fazer mais em menos tempo, mas construir operações capazes de escalar com inteligência, previsibilidade e qualidade.

Vendas, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de agosto de 2026 18H00
A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
27 de agosto de 2026 15H00
Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
27 de agosto de 2026 08H00
O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

Jefferson Nesello - Cofundador & Managing Partner na Zaxo M&A Partners e Conselheiro de Empresas

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
26 de agosto de 2026 14H00
A norma exige que as empresas avaliem fatores como jornada, ritmo, metas, autonomia e organização do trabalho. Em nenhum momento a NR-1 fala sobre diagnósticos individuais. Ainda assim, grande parte das organizações respondeu com pesquisas de saúde mental e mapeamentos de sintomas. Agora, com a suspensão temporária das multas pelo STF até setembro, surge uma oportunidade rara: abandonar as respostas equivocadas e voltar à pergunta original que a norma sempre fez sobre o trabalho, e não sobre as pessoas.

Claudia Cavallini - Psicóloga, psicanalista e professora convidada da HSM

8 minutos min de leitura
Marketing & growth, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de agosto de 2026 08H00
Freelancers, consultores, creators e pequenas agências estão redesenhando a lógica de crescimento no marketing digital. Em vez de ampliar estruturas, apostam em tecnologia para expandir capacidade, ganhar eficiência e aumentar resultados. O desafio agora não é apenas fazer mais em menos tempo, mas construir operações capazes de escalar com inteligência, previsibilidade e qualidade.

Renan Caixeiro - Cofundador e CMO do Reportei

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
25 de agosto de 2026 14H00
O artigo mostra que inovação não é um destino nem um grande projeto isolado, mas um processo contínuo de testar hipóteses, aprender com evidências e evoluir com intenção estratégica.

Thomas Rebergue - Chief Business Officer da GINGA

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
25 de agosto de 2026 08H00
O artigo demonstra que a criatividade deixa de ser atributo exclusivo da inovação e passa a ocupar um papel central na capacidade das organizações de compreender problemas complexos e construir soluções que gerem valor no longo prazo.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up, futurista e especialista em sustentabilidade e live marketing.

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, User Experience, UX
24 de agosto de 2026 14H00
A antiga disputa entre e-commerce e lojas físicas perdeu sentido. O consumidor atual transita naturalmente entre ambientes digitais e presenciais, esperando uma experiência única, integrada e sem atritos. O artigo mostra por que o sucesso no varejo já não depende da força de um canal específico, mas da capacidade de conectar dados, tecnologia, atendimento e conveniência para construir jornadas fluidas e relevantes em todos os pontos de contato com a marca.

André Seibel - CEO do Circuito de Compras

3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
24 de agosto de 2026 08H00
Existe uma crença silenciosa nas empresas de que profissionais experientes precisam ter opinião sobre tudo e discordar de quase todos. O problema é que posicionamento não é sinônimo de oposição. Neste artigo, o autor provoca uma reflexão sobre como a necessidade de marcar território pode comprometer relacionamentos, confiança e crescimento na carreira, e por que profissionais verdadeiramente influentes são aqueles que contribuem para a qualidade das decisões, independentemente de quem trouxe a ideia para a mesa.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento Empresarial

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Inovação & estratégia
23 de agosto de 2026 13H00
As grandes ideias raramente surgem da repetição das mesmas referências. Em uma época de acesso democratizado à informação e às tecnologias, o diferencial competitivo passa a ser a qualidade das perguntas que fazemos. Ao refletir sobre arte, cultura e criatividade, o artigo argumenta que as marcas mais inovadoras serão aquelas capazes de formar pessoas que aprendam a observar, conectar e interpretar o mundo de formas que ainda não foram exploradas.

Rui Piranda - Sócio-fundador da ForALL

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo