Estratégia e Execução

Contagem regressiva com Malcolm Gladwell

O maior best-seller da gestão recente revela o tema de seu próximo livro – fraude, mentira, desonestidade – e discute desde a visão-padrão do executivo até a essência da inovação

Compartilhar:

**Você vem de uma sequência inacreditável de best-sellers. Qual será o próximo?**

Ainda não comecei a escrevê-lo. Tenho algumas ideias, mas ainda vagas. Eu me interesso muito por fraudes; as verdades e as mentiras, como as diferenciamos, como lidamos com a fraude, como estruturamos o mundo para que a honestidade seja a melhor política são coisas em que eu penso no momento. 

**O timing desse tema é perfeito, ao menos para o Brasil. Para quem você escreve seus livros? Todos eles são para os executivos? Por quê?**

Sim, meus leitores são principalmente as pessoas que trabalham em empresas. É que elas têm obrigação de estar focadas no trabalho e busco possibilitar que tenham uma visão maior. O que tento fazer é falar de temas amplos que lhes permitam enxergar fora do campo estreito dos negócios. Entrego-lhes o conteúdo que não encontrarão em uma escola de negócios. 

Na verdade, minha ambição é iniciar conversas entre os executivos, de uns com os outros, fazendo com que consigam falar sobre as coisas do mundo, inclusive sobre muitas ideias que já conheciam, mas que não lhes haviam sido colocadas da maneira persuasiva e útil que eu coloco. Grande parte da estratégia dos negócios tem a ver com empresários conversando com outros empresários, e isso é muito útil. Incluir nessa conversa uma perspectiva não empresarial para propósitos empresariais, como eu faço, pode ser ainda mais útil.

**Países têm padrões culturais, você já escreveu sobre isso. Pergunto: existem padrões de grupos de pessoas como o meio executivo?** **Você já chegou a uma conclusão sobre como os gestores veem o mundo?** 

É difícil generalizar, mas eles tendem a ver recursos, tecnologias e habilidades como únicos determinantes do sucesso. Eu quero que entendam que há muita coisa além disso; quero fazê-los perceber que suas atitudes e psicologia são ferramentas tão importantes para eles quanto essas coisas mais tangíveis. Mas tenho feedback de que isso está mudando. 

Por exemplo, a mensagem sobre a urgência de se preparar para enfrentar Davis, dada em meu livro mais recente, foi bem captada por um grupo de especialistas em segurança da internet, que têm de lidar com ameaças de hackers. Eles entenderam que não precisavam de mais funcionários ou orçamentos maiores, e sim de uma mudança de atitude – e que essa era a parte mais difícil do desafio. 

> **E se Gladwell fosse executivo?**
>
> Processar o mundo por meio de paradigmas é um jeito útil de “navegar pela vida”, disse-me Malcolm Gladwell. Ele fala de paradigmas, princípios, regras e leis como qualquer outro autor de gestão que dá receita para o sucesso. 
>
> Só que faz isso utilizando as ciências sociais, e alguns cientistas sociais não o perdoam – criticam-no duramente, acusam-no de simplificação imprópria. O que acontece, na verdade, é que Gladwell já pensa com a cabeça do executivo que é seu leitor. Ele explica: “Quando falo em lei, não significa que aquilo seja uma verdade absoluta ou que não possa ser alterado mais tarde; é apenas uma forma de dizer: ‘Dê um passo para trás para uma teoria interessante que pode ajudá-lo a ver algo de um jeito novo e bem mais poderoso’”. 
>
> Um executivo não diria melhor. Se fosse sintetizar o que Gladwell faz em seus livros, eu diria que ele encontrou sua própria receita, com três ingredientes: cruzar fronteiras temáticas, pôr a história em primeiro lugar (e a ciência em segundo) e se dedicar a entender a experiência comum. Gladwell me confirmou esse diagnóstico. “Acredito que sejam regras muito boas de fato, inclusive para um executivo seguir. A inovação vem de cruzar fronteiras, de misturar coisas que nunca foram misturadas. 
>
> A contação de histórias é fundamental, porque uma das principais responsabilidades do gestor é a comunicação, e podemos fazer muito mais com histórias do que com qualquer mídia; histórias têm poder, desarmam, dão mais espaço para interpretação. E focar a experiência comum permite ao gestor se conectar intimamente com as pessoas com quem está falando.” 
>
> Sobre a simplificação, Gladwell admite que, ao escrever um livro popular de não ficção, sintetiza uma enorme quantidade de pesquisa e que, assim, pode acabar indo muito longe na simplificação do que é complexo. Por isso, dá as boas-vindas a críticas bem-intencionadas. “Mas tento escutar tanto meus críticos como meus fãs, para descobrir onde devo ficar.” Outro conselho bom para gestores. (ASG)

**Inovação virou um padrão, ao menos no discurso dos gestores. Como você os surpreende nesse tema?**

Meu principal recado é que, enquanto houver espaço entre uma invenção tecnológica e o entendimento de seu uso, haverá espaço para muitas pessoas inovarem. Inovação não tem a ver com ser o primeiro a criar algo, mas com ser o primeiro a entender algo, o que é muito diferente. 

O Google foi o sexto ou sétimo buscador a ser criado, mas ele entendeu o mecanismo de um jeito diferente; o Facebook foi a quarta rede social a aparecer, e aconteceu o mesmo. 

Entender comportamentos ajuda a entender o uso. Eu me interesso muito pelo modo como o passado ajuda a entender o presente e olho para trás tanto quanto olho para frente, o que acho muito útil. Como seres humanos, nós seguimos padrões, e nossa natureza fundamental é a mesma há milhares de anos. 

> **Saiba mais sobre Malcolm Gladwell**
>
> Quem é: Jornalista que colabora para a revista The New Yorker e autor de uma série de best-sellers que encantam executivos do mundo inteiro. 
>
> Best-sellers: Fora de Série – Outliers, O Ponto da Virada – The Tipping Point, Blink, Davi e Golias, O que se Passa na Cabeça dos Cachorros. 
>
> Principais conceitos: a lei dos poucos, o conector, as três regras da epidemia, a vantagem do azarão (underdog), as 10 mil horas de prática, a importância do timing, entre outros.

**Com a crise climática, os terroristas, o tropeço das economias emergentes e tantas outras coisas, você consegue ser otimista?**

Acredito que conseguiremos solucionar esses problemas. Há grandes vantagens. Uma é a demográfica; vocês são mais jovens do que muitos países mais poderosos. Outra é começar mais perto do zero; países como Brasil e Índia não estão presos a uma série de hábitos ruins. 

Você sabia que a Índia tem paradoxalmente um dos sistemas de previdência social de mais alta tecnologia do mundo porque começou do zero? Eles estavam livres para tentar todos os tipos de novas ideias. Vocês precisam aproveitar essa liberdade de país em desenvolvimento para serem Davis lutando contra Golias. 

Minha história também é essa, de certo modo: eu sou do Canadá, um país que tem de competir com um vizinho muito maior. Isso vale para países e para empresas pequenas ou iniciantes competindo com as grandes ou maduras.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A natureza da liderança: o que os patos, as formigas e as árvores podem nos ensinar?

A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza?

Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

RoT ou HoT: a métrica que vai separar os projetos de IA que geram valor dos que apenas consomem orçamento

Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

As empresas não estão tendo resultados com IA. E a culpa é toda delas! 

Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Nem todo problema precisa de inteligência artificial

A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Villain Era: a oportunidade das marcas para escutar quem cansa de agradar

Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Executivo, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança.

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de agosto de 2026 08H00
A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Marcelo Paiva - Diretor de Operações da Formel D

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
9 de agosto de 2026 14h00
Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Estela Brunhara - Sócia e Diretora de Consumer Behavior & Estratégia da FutureBrand São Paulo

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
9 de agosto de 2026 08H00
Ao recorrer a pensadores como Foucault, Hannah Arendt e Kant, o artigo mostra por que cultura, ética, reflexão crítica e capacidade de julgamento continuam sendo ativos indispensáveis para líderes e organizações que desejam tomar melhores decisões em um mundo cada vez mais automatizado.

Denilson Shikako - CEO e fundador da Fábrica de Criatividade

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Inovação & estratégia
8 de agosto de 2026 14H00
Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Flávio Pinheiro Neto - Sócio-fundador do escritório Flávio Pinheiro Neto Advogados

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
8 de agosto de 2026 08H00
A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
7 de agosto de 2026 14H00
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo