Uncategorized

Contagem regressiva com Odino Marcondes

Mais de 80% das maiores empresas do Brasil têm missão, visão e valores genéricos e nada motivadores, afirma o autor de O Poder de uma Visão Inspiradora

Compartilhar:

> **S****AIBA MAIS SOBRE  ODINO MARCONDES**
>
> Quem é: Fundou e preside a Marcondes Consultoria, expert em transformação cultural, gestão de mudanças e desenvolvimento organizacional. 
>
> +Livros: Você Tem os Defeitos de Suas Qualidades, Como Chegar à Excelência em uma Negociação.

**O que o inspirou a fazer a pesquisa sobre a cultura das empresas brasileiras, que é tema do livro o poder de uma visão inspiradora ?**

Há muitos anos assessoro empresas em processo de transformação cultural, e a definição ou revisão dos marcos filosóficos – visão, missão e valores – é parte importante desse processo.  Ao longo do tempo, fui constatando que os marcos filosóficos repetem padrões e contêm sérios erros conceituais e formais. Decidi estruturar uma pesquisa com a base de dados das maiores empresas do ranking Melhores e Maiores da revista Exame. 

**Quais as principais descobertas?**

De imediato, descobri que muitas organizações não têm os marcos filosóficos completos, com as declarações contendo os três componentes, o que as fragiliza.  Tive de pesquisar 140 empresas para achar 100 marcos filosóficos completos. As descobertas, porém, foram várias e graves. Infelizmente, constatei que as visões do futuro, na maioria, são de uma mesmice atroz e tão genéricas que poderiam ser usadas em qualquer empresa. 

Usando como critérios de análise os sete níveis de consciência de Richard Barrett, percebi que as visões são muito autocentradas e, por isso, nada inspiradoras: 81% das organizações têm enunciados que olham para o próprio umbigo em vez de visarem a transformação de algo ou o bem comum. São visões do tipo “ser a empresa mais rentável”, “ser a mais admirada”, “ser a mais eficiente”. 

Essas organizações parecem acreditar que seus funcionários acordarão todos os dias muito entusiasmados para ajudá-las a cuidar do umbigo. As empresas perdem a oportunidade de motivar sua gente. Por exemplo, um banco de investimentos poderia definir que quer alavancar o crescimento do Brasil em vez de ser o mais rentável. Isso inspiraria mais seu pessoal. Também percebi erros formais, co mo o fato de a maioria das visões come çar com verbo quando deveria começar com substantivo, pois a visão é uma realidade imaginada, não uma ação. Parece detalhe, mas o verbo dá às pessoas a desculpa de que é um processo em andamento. 

Tirando o verbo, a visão impõe uma urgência para todos. Constatei ainda que muitos marcos filosóficos não integram visão, missão e valores, que deveriam sempre conversar entre si. 

Outro ponto é o número de valores declarados: algumas empresas declaram mais de dez valores e então não fazem o que falam. Os valores realmente centrais são de três a cinco. Marcos filosóficos servem para dar um sentido ao trabalho. Tais problemas tiram esse sentido e mostram a incongruência entre o discurso e a prática da empresa, o que gera desconfiança, os silos e as panelinhas, a burocracia, tudo o que é tóxico em uma cultura.

**Qual é o resultado disso?**

São custos invisíveis, difíceis de mensurar, mas um estudo feito por Richard Barrett estima que essa entropia cultural chegue a custar 40% do faturamento de uma organização. 

E o custo é repassado aos consumidores. Sabe aquele princípio de comércio exterior de não exportar impostos, porque os compradores de fora não se beneficiarão dos serviços prestados pelo Estado no país exportador? A burocracia desnecessária de uma empresa é um imposto que os consumidores pagam sem se beneficiar dela. Em cada produto que compramos, pagamos não só por essa burocracia, mas pelas lutas de poder, pelas idiossincrasias dos líderes, pela insegurança que reforça a hierarquia, pelo ciúme do fornecedor. Como dizia Peter Drucker, “a cultura come a estratégia no café da manhã”.

**Como transformar uma cultura?**

Diz a tradição que basta definir o rumo e as pessoas entrarão no barco e remarão com vigor e motivação. Depois de acumular alguns fracassos, desenvolvi uma abordagem mais heterodoxa, que consiste em primeiro trabalhar as relações no grupo de líderes, sem discutir ainda rumo algum, para que tenham coesão e saibam resolver conflitos. 

Isso é necessário porque mudar uma cultura é mudar sua liderança. Muitas vezes, é a preguiça da liderança que impede a mudança ou o fato de se querer evitar a dor. 

Preguiça é delegar a elaboração dos marcos filosóficos a uma agência de publicidade, por exemplo. Evitar a dor é recusar-se a questionar valores e crenças, a abandoná-los quando preciso. Além de trabalhar o grupo da liderança para transformar a cultura, trabalho a organização como um todo e os indivíduos, dando coaching a eles.

**Como garantir a evolução contínua de uma organização?**

Não se garante isso por normas, que não dão conta de orientar todas as decisões de uma organização. Às vezes, o certo – definido por normas – não é o bom – definido por valores. 

É necessária uma ética transgressora, em que as pessoas têm a coragem de correr riscos e desrespeitam uma norma inadequada em nome de um valor. Esse contexto forma a chamada “cultura do erro”, na qual errar honestamente, querendo acertar, é aceitável. 

Só com essa cultura há inovação. Também importante na evolução será a mudança cultural causada pela internet das coisas, uma vez que, para se beneficiar de informações sobre o uso de seus produtos, as empresas precisarão permitir que seus fornecedores tenham acesso a suas informações estratégicas.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Acordo Mercosul e União Europeia representa um novo ciclo de crescimento para o franchising brasileiro

A entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia inaugura um novo cenário para as redes de franquias brasileiras. Com redução gradual de tarifas, acesso mais facilitado a tecnologias e insumos, além da possibilidade de expansão para novos mercados, o franchising passa a enxergar na internacionalização uma oportunidade concreta de crescimento. Ao mesmo tempo, a chegada de concorrentes europeus exigirá das marcas nacionais mais inovação, eficiência e capacidade de adaptação para competir em um ambiente cada vez mais globalizado.

As edtechs brasileiras aprenderam a crescer sem investimento. Mas até onde isso pode levá-las?

Dois terços das edtechs brasileiras nunca receberam investimento externo. Ainda assim, muitas já superaram a fase inicial, conquistaram clientes e validaram seus modelos de negócio. O artigo propõe uma reflexão sobre como a escassez de capital ajudou a formar startups mais resilientes e eficientes, ao mesmo tempo em que levanta uma questão estratégica para o próximo ciclo do setor: como transformar capacidade de sobrevivência em escala, internacionalização e crescimento sustentável.

Eleitor 70+: o valor do repertório em uma sociedade que envelhece

À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de repensar o papel da experiência nas organizações e na sociedade. Tomando o comportamento do eleitor 70+ como ponto de partida, o artigo questiona o que faz alguém continuar contribuindo quando já não é obrigado a fazê-lo e por que essa pode ser uma das perguntas mais importantes para empresas que desejam se preparar para a era da longevidade.

A publicidade não disputa mais audiência. Disputa atenção.

O artigo mostra por que a Connected TV se tornou uma peça central na economia da atenção. Em um cenário de audiências fragmentadas, a combinação entre conteúdo de alta qualidade, segmentação baseada em dados e métricas avançadas transforma a televisão conectada em um dos ambientes mais estratégicos para marcas que buscam equilibrar alcance, relevância e performance.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
17 de agosto de 2026 18H00
Profissionais maduros seguem acumulando repertório, capacidade de julgamento e conhecimento organizacional, mas frequentemente enfrentam uma perda silenciosa de reconhecimento e pertencimento. Ao abordar o conceito de envelhescência, o artigo discute como profissionais experientes podem perder espaço simbólico mesmo permanecendo altamente qualificados e por que reconhecer, valorizar e integrar o repertório acumulado se tornou um desafio estratégico para empresas que desejam preservar conhecimento, fortalecer a sucessão e construir culturas verdadeiramente intergeracionais.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Finanças
17 de agosto de 2026 14H00
Hiperpersonalização, agentes inteligentes, analytics em tempo real e IA generativa já deixaram de ser tendências isoladas e começam a formar uma nova arquitetura para o setor financeiro. O desafio das lideranças passa a ser transformar essas tecnologias em capacidades organizacionais escaláveis, seguras e conectadas aos objetivos estratégicos do negócio.

Diego Souza - Principal Technical Manager no CESAR, e Maria Tereza Nagel - Gerente de Projetos no CESAR

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de agosto de 2026 08H00
À medida que algoritmos passam a influenciar decisões cada vez mais relevantes, cresce uma questão que conselhos e lideranças não podem mais ignorar: quanto poder está sendo delegado à inteligência artificial sem supervisão adequada? O artigo propõe uma reflexão sobre a necessidade de incorporar a IA à agenda de governança corporativa.

Eliana Camejo - Vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli e conselheira de Administração pelo IBGC

3 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças
16 de agosto de 2026 15H00
O envelhecimento populacional, a incorporação de novas tecnologias e o aumento das demandas assistenciais estão pressionando os custos da saúde em níveis inéditos. Mais do que analisar despesas, entender a formação do orçamento hospitalar tornou-se uma competência estratégica para operadoras que buscam conciliar qualidade assistencial, eficiência operacional e sustentabilidade de longo prazo.

Anderson Farias - CEO da TopSaúde Hub

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
16 de agosto de 2026 10H00

Denise Joaquim Marques - Consultora internacional de negócios, especialista em Vendas e Marketing

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
15 de agosto de 2026 14H00
Sistemas desconectados, estoques imprecisos e perdas recorrentes tornam o hortifrúti uma das operações mais complexas do varejo alimentar. Ao contrário das promessas de transformação total, a inteligência artificial vem demonstrando valor justamente onde consegue reconstruir informações, prever demanda e apoiar decisões com impacto direto sobre vendas e desperdício.

Marco Perlman - CEO da Aravita

3 minutos min de leitura
Estratégia, Ecossistema
15 de agosto de 2026 08H00
Embora a maioria das empresas reconheça o potencial dos ecossistemas de parceiros para gerar receita e ampliar mercados, poucas conseguem transformar essa ambição em resultados consistentes. O artigo explora por que a construção de um ecossistema eficaz vai muito além da criação de um canal comercial, exigindo arquitetura, governança, ativação e uma estratégia capaz de conectar parceiros aos objetivos de crescimento do negócio.

Juliana Tubino e Nara Vaz Guimarães - Cofundadoras do Ecossistema Octo e coautoras do best-seller Ecossistema de Parceiros: Método Octo.

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing
14 de agosto de 2026 13H00
Ao visitar um dos vinhedos mais renomados de Bordeaux, o autor encontrou uma reflexão que ultrapassa o universo do vinho e alcança empresas, famílias e instituições. A decisão do Château Lafleur de abandonar uma denominação de origem histórica revela um dilema cada vez mais presente nas organizações: como preservar princípios e identidade em um mundo que exige adaptação constante?

Antonio Carlos Matos da Silva - Conselheiro independente associado ao IBGC

5 minutos min de leitura
Liderança
14 de agosto de 2026 08H00
Após mergulhar em uma crise provocada por escândalos que abalaram sua credibilidade, a SOMPO Holdings encontrou na liderança de Mikio Okumura o impulso para redefinir sua identidade. Inspirado por aprendizados adquiridos no Brasil, o executivo promoveu uma transformação que combinou propósito, tecnologia e foco no cliente para reconstruir a confiança e conduzir a seguradora a resultados recordes.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

13 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de agosto de 2026 14H00
Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Marcos Gurgel - Diretor Comercial na divisão Avitum da B. Braun Brasil

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo