Finanças

Cooperativismo democrático e seus resultados

Em todos os anos, até o final de abril, ocorre um dos principais eventos no cooperativismo: o princípio da gestão democrática é exercido de forma plena, direcionando os rumos das cooperativas; além desse tema, neste artigo mostro como é realizada a distribuição das sobras financeiras entre os cooperados
Dirigente da Sicoob Credisul no Norte do Brasil, conselheiro fiscal do Sescoop/RO e presidente estadual da JARO - Junior Achievment/RO. Engenheiro de produção, com MBA em gestão empresarial e gestão do agronegócio, mais de 20 anos de experiência profissional, sendo 16 em grandes instituições financeiras nacionais e internacionais, atuando no estado de São Paulo.

Compartilhar:

Uma simples pergunta é capaz de revelar muitas histórias, aprendizados e realidades que muitas vezes parecem distantes da maioria das pessoas no cotidiano. Dessa forma, comecemos com uma questão: aquela história de que um cooperado é igual a um voto é real? Sim, pois as cooperativas são organizações democráticas, controladas pelos seus sócios, que participam ativamente na formulação das suas políticas e na tomada de decisões. As pessoas, eleitas como representantes dos demais membros, são responsáveis perante esses.

Nas cooperativas de primeiro grau, os associados têm igual direito de voto, independentemente da quantidade de cotas que possuam (um sócio, um voto). Significa dizer que a sociedade cooperativa, quanto à sua governança, deve guiar-se pelos princípios próprios da democracia, que pressupõe a atuação responsável de todos os membros. Votar e ser votado, de acordo com as condições estatutárias, constituem direitos e, por consequência, deveres basilares do associado.

Um dos pontos altos de toda essa democracia ocorre durante a assembleia geral ordinária (AGO). Essa assembleia é realizada, no máximo, em até quatro meses após o encerramento do exercício. O encontro tem como finalidade tomar as contas dos administradores, examinar, discutir e votar as demonstrações financeiras. Essa assembleia ainda tem a finalidade de deliberar sobre a destinação das sobras do exercício e, se for o caso, eleger o conselho de administração e membros do conselho fiscal.

No encontro, pode ocorrer, inclusive, a convocação e realização cumulativa de assembleia geral ordinária e extraordinária (AGO/E), desde que convocadas simultaneamente e realizadas no mesmo local, data e hora, além de instrumentalizadas em ata única. Como já colocado anteriormente, em ambas, todos os acionistas podem participar e têm o direito ao voto.

Nas cooperativas maiores, os cooperados são divididos de forma regionalizada e passam a ser representados por delegados, eleitos pelo voto dos próprios associados. Nesse caso, essas cooperativas promovem além das assembleias gerais, também as pré-assembleias, reuniões de cooperados que antecedem a Assembleia Geral Ordinária de uma cooperativa. As pré-assembleias são mecanismos formais de governança cooperativa, visto que um de seus principais objetivos é garantir transparência e prestação de contas ao cooperado, dono da cooperativa, sobre as condições econômico-financeira e social da organização.

Um dos itens mais esperados durante a assembleia, e para alguns o ápice dela, é a deliberação sobre a destinação das sobras. Com a consolidação das cooperativas, amadurecimento dos sistemas, profissionalização das administrações e fiscalizações muito bem executadas pelos órgãos responsáveis, cada vez mais as cooperativas têm tido a satisfação de levar para apreciação dos seus sócios as sobras advindas de uma boa gestão.

Nesse tipo de deliberação, normalmente se tem um direcionamento sugerido pelo conselho de administração, porém a última palavra acontece mesmo quando os sócios ou seus representantes votam, após é claro, do momento aberto para de discussão, para críticas ou sugestões.

## Olhar atento aos deveres

Não posso deixar de citar que estamos falando de uma sociedade privada, onde os sócios possuem não só direitos, mas também deveres, e isso se aplica no caso de uma situação de resultado negativo. Quando isso ocorre, o trâmite assemblear é o mesmo, só que ao invés de se discutir como serão distribuídas as sobras, se faz necessário deliberar sobre como deverá ocorrer o saneamento da instituição.

Para se ter uma ideia de como o [cooperativismo de crédito](https://www.mitsloanreview.com.br/podcasts/marco-almada-cooperativismo-solucoes-criativas-digitais-gestao-de-risco-na-crise) vem se desenvolvendo fortemente, e se consolidando cada vez mais, em 2020, os dois maiores sistemas, Sicredi e Sicoob, alcançaram, juntos, um resultado da ordem de R$ 6,4 bilhões, e grande parte desse valor retornou diretamente aos seus associados. Isso reforça a máxima que estamos trabalhando com muito empenho, onde afirmamos que você pode ser realmente dono de uma instituição financeira e participar ativamente de seu dia a dia.

Em uma publicação recente, o CEO do Sicoob, Marco Aurélio Almada, nos apresentou um dado muito importante obtido através de um estudo realizado pelo Sicoob. Ele mostrou que os cooperados deixaram de gastar R$ 8,3 bilhões em juros, taxas e tarifas somente ao fazer negócios com a sua própria instituição financeira cooperativa.

Segundo Almada, isso ocorre principalmente porque nós não visamos lucro. Portanto, já praticamos os melhores preços. Além desse valor economizado, ainda foram distribuídos mais R$ 3,2 bilhões em sobras. Fazendo uma divisão desses valores pela média de cooperados ativos, chegamos a mais de R$ 3 mil economizados por cooperado durante o ano de 2020.

Já abordamos em artigos anteriores temas como a [evolução tecnológica das cooperativas](https://www.revistahsm.com.br/post/cooperativismo-high-tech), a inovação de produtos e serviços, a proximidade dos cooperados com cada vez [mais pontos de atendimentos](https://www.revistahsm.com.br/post/minha-agencia-bancaria-fechou-e-agora) e é claro, o interesse pela comunidade com ações sociais, inclusão financeira, disponibilidade de linhas de crédito, entre outros fatores, fomentando, assim, o famoso círculo virtuoso onde os recursos giram na economia local, promovendo uma aceleração no desenvolvimento econômico.

Agora mostramos, além de tudo isso, que realmente o sócio participa efetivamente da sociedade e seus resultados. Em um momento em que se fala tanto de propósito, humanização das relações num mundo virtual, distribuição de renda, alta tecnologia, enfim, deixo aqui um questionamento. Por que você ainda não veio para o cooperativismo de crédito?

*Gostou do artigo do Renato Zugaibe Doretto? Saiba mais sobre cooperativismo financeiro assinando gratuitamente [nossas newsletters](https://www.revistahsm.com.br/newsletter) e escutando [nossos podcasts](https://www.revistahsm.com.br/podcasts) em sua plataforma de streaming favorita.*

Compartilhar:

Artigos relacionados

74% das marcas poderiam desaparecer – e ninguém sentiria falta

No ritmo do mundo, só permanece quem sabe se adaptar. Este artigo mostra por que a relevância das marcas não depende mais de presença ou investimento, mas da capacidade de interpretar o tempo, integrar diversidade e transformar propósito em ação concreta.

Inovação & estratégia
31 de maio de 2026 09H00
Este artigo revela por que a competitividade no setor automotivo está migrando da produção para a capacidade de prever, integrar e governar dados com precisão.

Lorena França - Account manager da A3Data

4 minutos min de leitura
Estratégia, User Experience, UX
30 de maio de 2026 14H00
Com o avanço do PL 5605/2019, este artigo mostra como a gestão de garantias e o pós-obra ganham nova centralidade no setor imobiliário, exigindo mais organização, rastreabilidade e maturidade operacional para reduzir conflitos e fortalecer a confiança do cliente.

Jean Ferrari - Engenheiro civil e CEO da FastBuilt

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
30 de maio de 2026 08H00
Este artigo mostra que o problema não está na tecnologia, mas na manutenção de estruturas organizacionais inchadas e pouco preparadas para extrair valor da nova lógica do trabalho.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Empreendedorismo
29 de maio de 2026 15H00
O problema não é a falta de empreendedoras, é um sistema que ainda não foi feito para elas. Este artigo mostra por que a formalização ainda é um obstáculo estrutural - e como redesenhar o sistema para transformar negócios invisíveis em motores reais de desenvolvimento econômico.

Ana Fontes - Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora e Instituto RME, VP do Conselho do Pacto Global da ONU

6 minutos min de leitura
Marketing, Inovação & estratégia
29 de maio de 2026 12H00
No ritmo do mundo, só permanece quem sabe se adaptar. Este artigo mostra por que a relevância das marcas não depende mais de presença ou investimento, mas da capacidade de interpretar o tempo, integrar diversidade e transformar propósito em ação concreta.

Pedro Del Priore - CEO da Agência Ginga

4 minutos min de leitura
Estratégia, Marketing
29 de maio de 2026 08H00
Este artigo revela por que o diferencial das marcas deixou de ser produção e passou a ser sensibilidade - a capacidade humana de interpretar cultura, criar significado e, sobretudo, ser lembrada.

Maurício Mansur - Fundador da IAMKT

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de maio de 2026 17H00
Este é o segundo artigo de uma série que explora o setor farmacêutico brasileiro, suas capacidades industriais, dependências e posição na nova corrida global da saúde. Para sua elaboração, foram consideradas contribuições de Reginaldo Braga Arcuri, presidente executivo do Grupo FarmaBrasil, entidade que reúne algumas das principais fabricantes nacionais de medicamentos. Recomenda-se também a leitura do primeiro artigo da série.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

20 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
28 de maio de 2026 13H00
IA sem operação é só experimento caro. Este artigo revela por que a maioria das iniciativas ainda não gera impacto real - e como o verdadeiro desafio não está na tecnologia, mas na capacidade de estruturar, governar e operar processos em escala.

Daniel Torres - CEO da Roboteasy

3 minutos min de leitura
Estratégia, ESG
28 de maio de 2026 08H00
Este artigo mostra como o mercado voluntário de carbono foi da narrativa ambiental para a lógica de investimento - e por que empresas que ainda tratam o tema como reputação estão ignorando uma nova infraestrutura de valor global.

Eduardo Joaquim da Silva - Coordenador do Comitê Estratégico e Expansão de Negócios da Sustentalli

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
27 de maio de 2026 17H00
Este artigo traz um compilado dos principais insights que emergiram da edição do ATD Summit 2026. Realizada em Los Angeles, entre os dias 17 e 20 de maio, as reflexões desse evento global precisam entrar, com urgência, na agenda de líderes e organizações.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão