Melhores para o Brasil 2022

Copiar também é inovar

Devemos nos preparar para aceitar a imitação como uma etapa do processo de inovação. trata-se de uma “copinovação“

Compartilhar:

Quem copia aprende.
Entendo que essa frase possa soar como uma heresia no ambiente empresarial atual, de busca incessante de inovação. A surpresa é que, em um mundo inundado de informações e estímulos, devemos nos preparar para aceitar a imitação como uma etapa do processo de inovação. Ao reproduzir, descobrimos e assimilamos conhecimentos. E não há mal nenhum nisso: inovação não é necessariamente ineditismo. Ao tentar replicar uma solução existente, seja para reduzir custos, seja para adaptá-la a uma nova realidade, sempre será necessário entender-se com a engenharia de novos materiais, fornecedores inusitados, componentes que nunca usamos antes, processos de fabricação diferentes. Pronto: é de desenvolvimento de tecnologia e inovação que este artigo trata.

As provas estão por aí; não vê quem não quer. No início do século 20, a indústria cinematográfica americana mudou-se da Costa Leste para o estado da Califórnia com o intuito de escapar das muitas ações judiciais movidas pelo empresário e inventor Thomas Edison (1847-1931). Entre outras engenhocas, Edison desenvolveu o projetor de cinema e lutava para preservar suas patentes – sinal evidente de que na América se copiava, e muito. Ainda assim, dessa “fuga” adveio uma indústria poderosa, que influenciou o cinema no mundo inteiro e impulsionou o desenvolvimento de um estado inteiro. Cópia resultando em inovação, que, por sua vez, acelera o progresso.

A universidade internacional de negócios de Wuhan, no “Vale do Silício” da China, replicou em seu campus algumas da principais construções do mundo, como o Arco do Triunfo e a Casa Branca. A maioria de nós tende a olhar para isso com certo desprezo. “São cópias”, pensamos, o que faz arderem em nós emoções ligadas ao orgulho, à vaidade e à honra. O problema é que, ao repudiá-las, inescapavelmente negamos a inovação. Para os chineses, exímios copiadores, é apenas parte de sua história de inovação e desenvolvimento. E, provavelmente, sentem grande orgulho ao contá-la.

Atire a primeira pedra o inovador que nunca copiou. A inovação não é lampejo. É processo evolutivo e construtivo que parte sempre de bases conhecidas e alimenta-se de referências. A falsa ideia do momento mágico só serve para nos deixar a todos complexados.

Na escola, esqueceram de nos contar sobre as muitas etapas que os grandes inovadores percorreram antes de fazer e anunciar suas descobertas. Personagens como Arquimedes e Newton estavam havia anos trabalhando antes dos momentos de eureca na banheira, ou da maçã caindo na cabeça, respectivamente. Futuramente deve ocorrer o mesmo com Elon Musk: passará à história só o episódio do desembarque em Marte – sem detalhes sobre quantas vezes ele copiou, tentou e explodiu foguetes até chegar lá.

## Da conotação negativa às startups clones
A conotação emocional negativa do copiar deriva de um paradigma vigente há centenas de anos: o da competição à moda antiga, na qual os mercados eram defendidos palmo a palmo com o controle das variáveis preço e quantidade.
Era o modelo mental da escassez.

No mundo atual, o desordenamento da competição, os saltos promovidos pela disponibilidade de todo tipo de conhecimento na web e o surgimento das organizações exponenciais empurraram-nos para um novo paradigma: copiar bem e rápido, e construir ainda mais inovação sobre a cópia, tornou-se competência e constitui diferencial competitivo. É o modelo mental da abundância.
Lembro-me perfeitamente das reações de surpresa das pessoas quando, há cerca de dez anos, estruturamos os primeiros processos de inovação aberta misturando startups e corporações. Era um ambiente novo de desregramento e liberdade no que se referia ao compartilhamento de informações, muitas delas estratégicas. Houve desconfiança inicialmente – sobretudo por parte das grandes empresas. Mas, aos poucos, isso foi dando espaço a uma atmosfera positiva de doação. Jovens criadores de startups com peito e mente abertos lideraram isso, ao apresentarem alegremente suas ideias às corporações e a outras startups concorrentes. Faziam isso com duas certezas: a de que seriam copiados e a de que era a sua forma de contribuir para a evolução do ecossistema. Ficou evidente que era uma grande mudança.

Assim, chegou ao fim o horror a imitações, embora alguns ainda se debatam com isso. Nos jogos vorazes dos negócios, os players passaram a dizer: “Pode me copiar, sim, porque estarei à sua frente quando você terminar”. Copiar e ser copiado tornou-se parte da nova realidade de doar com senso de coleguismo e de pertencimento, sem as emoções mesquinhas típicas da era da escassez.
Por isso, hoje já se fala com naturalidade em startups clones, como a brasileira RD Station, empresa de automação de marketing com mais de 6 mil clientes, cerca de 400 funcionários, atuação internacional e que, em março de 2021, foi adquirida pela Totvs por R$ 1,8 bilhão. A inovação da RD Station“clonou” a pioneira do setor, a americana HubSpot. [Segundo os especialistas, a RD foi estabelecendo suas distinções, como oferecer menos funcionalidades, preços mais baixos e um atendimento mais ágil.]

## De 1995 para cá
Copiar sempre foi parte do processo de inovar, desde os tempos mais remotos. O Império Romano, a mais próspera e admirada organização de todos os tempos, tinha como uma de suas práticas centrais a absorção sistemática do conhecimento alheio. Um exemplo é o gládio, arma romana que acabou dando nome aos gladiadores, que inicialmente era uma cópia da espada hispânica.

A diferença é que, mais recentemente, houve uma naturalização da “copinovação”, com o surgimento do modelo mental de abundância. O leitor talvez questione: como falar em abundância quando temos imensa desigualdade social, biodiversidade ameaçada e crise climática? O conceito foi formulado por Stephen Covey em 1995. Olhar através da lente da abundância é acreditar que há mercado, espaço para novidades e dinheiro para todos, algo bem distinto do paradigma “nós ou eles”, no qual o bolo é de tamanho fixo e quem tiver a fatia maior suprime as possibilidades do outro. No ambiente da abundância, o bolo não precisa parar de crescer, e esse crescimento advém não de esgotar os recursos naturais ou explorar pessoas, mas do compartilhar entre pessoas e empresas.

Dez anos depois de Covey, Chris Anderson sugeriu a “economia da abundância”, uma nova era caracterizada por infinitude. Ele estava vendo com os próprios olhos o comércio eletrônico, que tirava o limite de espaço das prateleiras do varejo. Via múltiplas formas de distribuir produtos e de transmitir informações que estavam surgindo.

Na década de 1980, Robert Camp, considerado o pai do benchmarking, na verdade fazia muito mais do que simples comparações entre empresas e seus produtos: buscava escancaradamente elementos de desenvolvimento e inovação. Mais tarde a engenharia reversa ocupou esse espaço. Foi por meio dela que o Japão adquiriu boa parte de sua tecnologia ao final da Segunda Guerra, desmontando e replicando peças de produtos americanos e alemães em um claro processo de “copinovação”. Agora, Japão e inovação não mais se dissociam.

Hoje, a inovação aberta ocupou, em certa medida, o lugar do benchmarking. Por que você acha que, entre agosto de 2019 e agosto de 2020, 1.635 empresas firmaram contratos com startups, segundo o Estadão Conteúdo? É pouco provável que o verdadeiro motivo para essas corporações se interessarem pelas startups seja uma vontade incontrolável de investir nelas; é, sim, querer absorver conhecimento, cultura, soluções. Se isso não for uma forma de copiar, não sei o que é.

## Cópias diferentes
Existem cópias fiéis, imitações, réplicas e outras classificações, variando de acordo com o nível de inovação que se imprime à solução. Aumentam também os atributos até a ruptura [veja quadro acima]. Obviamente, não nos referimos à pirataria ou a falsificar/plagiar produtos.

As margens mais significativas não serão atingidas com produtos parecidos com os que já existem; é preciso uma criatividade mais radical. No entanto, no caminho até ela, copiar será quase obrigatório. Sem constrangimentos.
Copiar e reconhecer que se aprende com isso exige humildade. Há que se ser pequeno para conseguir, só depois, tornar-se grande. No Brasil, perdemos tempo e oportunidades demonizando o ato de reproduzir e o resultado é que seguimos até os dias de hoje muito pouco inovadores.

Enquanto isso, países como Japão, China e Coreia se tornaram potências criativas ao “copinovar”. Lembre-se: imitar alguém é o mais sincero dos elogios.

![Imagens-28](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/P0tLMu70T9BUIFF3pIKxQ/451d017aac3bfd140bcec68f2190f94e/Imagens-28.png)

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que a Odisseia pode ensinar às empresas sobre liderança e crise

Christopher Nolan levou a Odisseia de volta às conversas contemporâneas. Este artigo aproveita a trajetória de Odisseu para discutir um dos desafios mais invisíveis das organizações: reconhecer quando estratégias que garantiram sobrevivência no passado passaram a limitar confiança, aprendizagem e crescimento no presente.

A confiança é a nova infraestrutura da velocidade

Por que relações saudáveis deixaram de ser apenas uma questão de clima organizacional para se tornarem um fator estratégico de competitividade? O artigo mostra como a confiança entre pessoas e áreas influencia diretamente a velocidade de execução dos negócios.

Quanto vale uma franquia da Omie?

Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Como a inteligência artificial pode destravar R$ 2,5 trilhões em crédito

Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Nem toda empresa precisa de um C-level

Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Liderança
3 de agosto de 2026 14H00
Christopher Nolan levou a Odisseia de volta às conversas contemporâneas. Este artigo aproveita a trajetória de Odisseu para discutir um dos desafios mais invisíveis das organizações: reconhecer quando estratégias que garantiram sobrevivência no passado passaram a limitar confiança, aprendizagem e crescimento no presente.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
3 de agosto de 2026 08H00
Por que relações saudáveis deixaram de ser apenas uma questão de clima organizacional para se tornarem um fator estratégico de competitividade? O artigo mostra como a confiança entre pessoas e áreas influencia diretamente a velocidade de execução dos negócios.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
2 de agosto de 2026 13H00
Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Sthefano Scalon Cruvinel - Doutrinador do Direito, Auditor Judicial com atuação no STJ e CEO da EvidJuri

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de agosto de 2026 08H00
Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Fernando Wosniak Steler - Co-Fundador e CEO da Delend

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, ESG
1º de agosto de 2026 14H00
Impulsionadas pelas exigências de investidores, certificações ambientais e adaptação climática, as edificações sustentáveis consolidam-se como ativos estratégicos para empresas que buscam eficiência, resiliência e geração de valor de longo prazo.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor e responsável técnico da HotFloor

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de agosto de 2026 08H00
Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Roberto Vilela - Consultor empresarial, estrategista de negócios, escritor e palestrante 

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de julho de 2026 14H00
Mais contatos, mais mensagens, mais reuniões e menos impacto. Em uma economia movida por redes e ecossistemas, a vantagem competitiva não está em estar conectado o tempo todo, mas em construir conexões capazes de gerar confiança, influência, inovação e transformação ao longo do tempo.

Tássia Galvão - Fundadora e CEO da Konne

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de julho de 2026 08H00
Este artigo propõe uma reflexão sobre por que atenção, presença, pensamento crítico e conexão humana podem se tornar os ativos mais valiosos de uma era cada vez mais dominada pela tecnologia.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

6 minutos min de leitura
Cultura organizacional
30 de julho de 2026 14H00
Tecnologias, processos e estratégias podem mudar rapidamente. O que diferencia organizações resilientes é a capacidade de preservar os princípios que orientam decisões e comportamentos, transformando a cultura em um elemento de coerência em meio à mudança contínua.

Diego Alegre - CEO do Arquipélago "Culturas que transformam"

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de julho de 2026 07H00
A agricultura é uma das grandes forças econômicas do Brasil, mas seus mecanismos de inovação ainda são pouco compreendidos fora do setor. Este artigo parte de uma conversa com Jonas Hipólito, CEO da Biotrop, para observar como ciência, bioinsumos, biodiversidade, dados e competição global começam a redesenhar a próxima etapa da produtividade agrícola.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

21 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo