Dossiê HSM

CPO, propósito e coragem

Os cargos dos executivos seniores evoluem, ganhando valores e responsabilidades em sintonia com os novos tempos. Todos visam dar um significado ao trabalho e empoderar pessoas para uma gestão mais descentralizada e ágil – isso passa por inspirar coragem
Hugo Bethlem é chief purpose officer da Bravo GRC, foi cofundador e presidente do Instituto Capitalismo Consciente Brasil.

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A humanização das organizações, após tanto tempo considerando pessoas como recursos, tem modificado também a forma como nomeamos os cargos executivos. Simon Sinek, um dos porta-vozes da importância da humanização, do propósito e do cuidado com as pessoas nos negócios, sugeriu mudar a sigla CEO, que designa o presidente-executivo em inglês, para CVO, executivo-chefe de visão, pois os líderes deveriam oferecer mais do que apenas tarefas para as pessoas executarem; deveriam dar algo para elas acreditarem. Na Bravo GRC, a tarefa de inspirar as pessoas é compartilhada pelo CEO e por mim, no papel de CPO, ou chief purpose officer.

Outras siglas vêm ganhando espaço no mercado, como o CHO, ou executivo-chefe de felicidade. Mas, particularmente, gosto mais de chief purpose officer, pois além de guardião do propósito e dos valores da empresa, ele também busca alinhar as soft skills de cada colaborador com sua própria razão de ser. Somente assim, essa pessoa poderá ser ela mesma no dia a dia. O despertar das pessoas para a necessidade do propósito no trabalho foi justamente o que proporcionou tração e relevância para o surgimento do cargo de CPO.

Por isso, antes de detalharmos as funções e as responsabilidades do chief purpose officer, é relevante definir o que é o propósito tanto para a vida pessoal quanto nas empresas. E, ainda mais importante, como os dois se cruzam e geram impacto fundamental um no outro.

## O propósito pessoal
Ele é definido como a busca de sua razão de ser. Como disse o escritor americano Mark Twain (1835-1910), “os dois dias mais importantes de sua vida são o dia em que você nasceu e o dia em que você descobre o porquê”. Isso porque muitos vivem suas vidas por acidente, de acordo com os acontecimentos, mas a realização só surge quando encontramos nosso propósito.

E aqui cabe um grande senão: um propósito não precisa ser grandioso. Ele deve ser, sim, aquilo que nos dá sentido para viver, o que nos motiva a levantar da cama todos os dias e, ao dormir, nos faz sentir plenos e realizados.
O filósofo Friedrich Nietzsche disse: “para enfrentarmos nossos o quês, temos de ter nosso porquê”. Por isso, identificar nosso propósito tem tanto valor: ele é nosso porquê.

As pessoas devem viver por seu propósito e seus valores essenciais. Para isso, cultive a presença como seu estado-padrão. Seja assumidamente você e tenha uma atitude positiva, seja o protagonista e o motorista de sua vida, e não a vítima e o passageiro. Tenha laços saudáveis e saiba dizer “não”.

Mas a empresa deve também ter o próprio propósito, que deve responder uma simples questão: “qual a dor da humanidade que nosso negócio se propõe curar?”. Alinhar a visão estratégica e gerar impacto social positivo para todos os stakeholders.

Um estudo da McKinsey denominado *A busca pelo propósito no trabalho*, de junho de 2021, afirma que mesmo o propósito sendo algo pessoal, as empresas têm um papel fundamental em como o expressamos e vivemos nossas vidas: “70% das pessoas dizem que definem seu propósito pessoal por meio do trabalho que será seu chamado de vida”.

## O propósito corporativo
Do lado corporativo, a busca pelo propósito não pode ser uma campanha publicitária, pois não é algo que se encomenda ou se contrata. Ele emana da alma e do coração dos fundadores.

Em março de 2020, eclodiu a pandemia do coronavírus, grande divisor de águas na história do Brasil e de muitos países, obviamente atingindo em cheio a relação da sociedade com as empresas. A crise sanitária escancarou as desigualdades de nosso País, impondo enormes desafios no papel social das empresas. Veio uma enorme necessidade de as empresas encontrarem e viverem seus propósitos, pois aumentaram muito as expectativas de todos stakeholders, principalmente colaboradores e clientes, cobrando ações sociais e ambientais das empresas.

O que se espera dos líderes nesses momentos de provação? Líderes conscientes não levam as pessoas nas costas nem fazem as coisas por elas; devem levar as pessoas no coração e mostrar os caminhos a seguir, sendo seus mentores. Propósito faz os líderes empoderarem as pessoas para fazerem diferente. Reforço: o propósito nasce e emerge das práticas disciplinadas dos valores dos fundadores da companhia, mas tem de fazer sentido com aquilo que somos e acreditamos.

É muito importante deixar claro que não deve haver o dilema propósito OU lucro. É possível transformar essa relação em harmonia entre propósito & lucro. Não deve existir conflito de escolha, pois os dois devem andar sempre juntos, uma vez que o propósito colabora para a empresa se tornar mais bem-sucedida financeiramente, e uma empresa saudável, por sua vez, ajuda a alcançar o propósito.

__#TBT para assinantes: [Gestor(a) de futuro](https://revistahsm.com.br/post/gestor-a-de-futuro)__

## A importância do CPO
Mas onde entra o papel de um CPO na empresa? Na prática, esse cargo vem para garantir que o trabalho tenha significado e que as pessoas entendam o significado por trás do trabalho. A função existe para educar e orientar as equipe e seus membros em todos os níveis hierárquicos para agirem de acordo com missão, visão e valores da empresa. Uma vez que um propósito compartilhado é infundido em todos os aspectos de um negócio, as funções finais do CPO são manter todos voltados para esse porquê e ter certeza de que o mundo sabe disso.

Novos C-levels catalisam coragem
Cargos como o CPO, tema deste artigo, inspiram os colaboradores a ousar

Se você está no mercado corporativo há pelo menos dez anos, já deve ter se surpreendido mais de uma vez com uma nova sigla de gestor C-level. Um modo de enxergar o fenômeno é como resposta evolutiva à transformação que as organizações vivem, e que foi acelerada pela pandemia. Outra maneira de entendê-lo é como um catalisador das próximas mudanças que se farão necessárias – mudanças essas que, cada vez mais, não acontecem se não houver envolvimento e coragem da parte dos colaboradores.

A cadeira de CPO, que Hugo Bethlem ocupa na Bravo GRC, assim como as outras citadas em seu artigo – executivo-chefe de felicidade e executivo-chefe de visão – parecem cumprir exatamente esse papel de responsáveis pela catálise e inspiração das pessoas rumo às transformações. E peloo menos mais duas carreiras contemporâneas se encaixam nessa definição: executivo-chefe de confiança (CTrO, na sigla em inglês) e chief of staff (CoS).

Executivo-chefe de confiança. O CTrO também surge dentro de um contexto global de negócios em que a confiança corporativa passou a ser vista como um dos mais valiosos – se não o mais valioso – ativo de marca, e já foi classificada neste Dossiê como um dos pilares da coragem. O CTrO é o responsável por garantir a integridade da empresa em uma economia digital, já que qualquer falha pode ser divulgada e amplificada exponencialmente pelas mídias sociais, em pouquíssimo tempo.

Uma das organizações que tem um CTrO é a Salesforce. “Cada ano que passa, percebemos mais e mais a importância da confiança para um negócio. Por isso criamos esse cargo, e para quantificar a confiança e traduzi-la como métrica, algo que poucas empresas conseguem fazer”, conta Daniel Hoe, head de marketing da Salesforce para a América Latina. “O CTrO é o profissional responsável por supervisionar os esforços de confiança em áreas como compliance, ética, diversidade e inclusão, reportar resultados e alinhar a atuação de todas as equipes da empresa com esse valor.”

Chief of staff. Nomenclatura comum nos gabinetes estatais, o CoS agora avança no mercado privado, como HSM Management mostrou na edição nº 144. Cuidando de vários aspectos de gestão tática e operacional do C-level, ele colabora com a descentralização do poder e dissemina a liderança compartilhada e horizontal – que acontece ao mesmo tempo que a disseminação da coragem. (Redação HSM Management)

Esse profissional constrói um propósito comum com suas equipes, em vez de apenas oferecer empregos, tarefas ou metas. Ele fornece às pessoas aquilo que mais desejam: significado para suas vidas, uma bandeira, uma razão de existência. Um CPO tem como responsabilidade principal colocar em prática os pilares do propósito, mas também tem o papel de ser inspiração para equipes, conector com os stakeholders, tomador significativo de decisões e, sobretudo, ser um agregador de pessoas {veja os detalhes no quadro abaixo}.

Atribuições de um CPO
Eis as atividades que diferenciam o Chief Purpose Officer dos demais C-levels – na bravo GRC

Ativador do propósito
O CPO deve colocar em prática os pilares do propósito, orientando todos os colaboradores a agir de acordo com visão, missão e valores da empresa, a partir de duas perguntas: “qual dor da sociedade nosso negócio quer curar?” e “como alinhar os propósitos à visão estratégica da companhia e gerar impacto social positivo?”.

Inspiração para equipes
As pessoas buscam trabalhos com mais significado para além do lucro, e o CPO deve inspirar as equipes.

Conector com stakeholders
O CPO é um conector da organização com os stakeholders – colaboradores, clientes, fornecedores, comunidade, acionistas, investidores etc., pois é o propósito que os une à marca.

Tomador significativo de decisões
O CPO também tem o papel de um tomador significativo de decisões que reflitam seus valores e seu propósito. Faz um filtro ao garantir que a marca mantenha consistência, autenticidade e a confiança dos stakeholders.

Agregador de pessoas
O CPO é o mensageiro e guardião da visão proporcionada pelo propósito maior da organização. Quando as pessoas acreditam em uma mesma visão, elas se conectam e trabalham muito melhor umas com as outras para alcançá-la.

Qual é o propósito de sua companhia? E como você tem alinhado suas atitudes com este propósito? Pensando nisso e para sustentar o crescimento da companhia para outros mercados com foco em governança dentro de ESG, a Bravo GRC decidiu me convidar para liderar essa nova área, dedicada exclusivamente a reforçar o propósito dentro e fora da organização. Decidi aceitar o desafio em junho de 2021, após mais de 40 anos de vivência como executivo C-level em diversas empresas de grande porte e multinacionais, justamente para reforçar os pilares e o propósito da empresa de “desenvolver a governança hoje para você revolucionar o amanhã”. Além de zelar pelo futuro posicionamento da companhia, o CPO lidera as áreas de desenvolvimento humano, marketing e comunicação, planejamento estratégico e a nova área dedicada à consultoria em ESG.

Acredito que é preciso coragem para ser um CPO. Não aquela de uma pessoa destemida, mas a de alguém resiliente. Em minha visão, a resiliência se soma a outras qualidades fundamentais para esse profissional executar seu propósito: humildade, empatia, respeito à diversidade, escuta ativa, saber cuidar e amar.

O TRABALHO DO CPO NÃO GERA VANTAGEM COMPETITIVA, como alguns gestores ainda esperam que aconteça. Seu diferencial, isto sim, é colaborativo e cooperativo. E por isso convido todas as empresas que queiram implantar um cargo de CPO a conversar comigo; juntos podemos mudar o jeito de se fazer investimentos e negócios no Brasil, levando a uma gestão mais humana, mais ética e mais sustentável.

__Leia mais: [Por que a coragem muda o jogo](https://www.revistahsm.com.br/post/por-que-a-coragem-muda-o-jogo)__

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