Uncategorized

Cuidado com os conselhos que você dá

Alguém pode levá-los a sério.
Marcelo Nóbrega é especialista em Inovação e Tecnologia em Gestão de Pessoas. Após 30 anos no mundo corporativo, hoje atua como investidor-anjo, conselheiro e mentor de HR TechsÉ professor do Mestrado Profissional da FGV-SP e ministra cursos de pós-graduação nesta e em outras instituições sobre liderança, planejamento estratégico de RH, People Analytics e AI em Gestão de Pessoas. Foi eleito o profissional de RH mais influente da América Latina e Top Voice do LinkedIn em 2018. É autor do livro “Você está Contratado!” e host do webcast do mesmo nome. É Mestre em Ciência da Computação pela Columbia University e PhD pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Compartilhar:

Eu ainda estava no segundo ano da universidade, quando um professor visitante veio dar aula de computer algorithms. Naquela época, não tínhamos ideia de como a palavra algoritmo viria a fazer parte do nosso cotidiano e dividir o mundo (já assistiram ao documentário ‘O dilema das redes sociais’? Em outro momento, a gente fala sobre isso).

Voltando ao professor, ele era o Daniel Cohen – médico, cientista da computação, escritor. Sujeito brilhante. Falava oito idiomas, tinha o raciocínio muito veloz, um cara realmente sagaz. Cativava a todos com apresentações que eram desafios intelectuais. 

Dr. Cohen fez algo inusitado: convidou cada aluno para reuniões individuais. Lembro de ter pensando: ele ficará aqui por apenas um semestre. Por que se dar ao trabalho de nos conhecer fora da sala de aula? Na nossa conversa, ele perguntou o que eu pretendia fazer depois de formado. Eu tinha apenas 18 anos e estava me divertindo com a recém-obtida liberdade da vida universitária. A resposta foi algo como ‘Ainda está muito cedo para pensar nisso!´.

Olhando bem fundo nos meus olhos semi-adolescentes, o mestre disparou: `Se você não sabe onde quer chegar, vai ser difícil ser bem-sucedido!’. Foi uma sacudida. Desde então, mantenho uma lista de objetivos pessoais que reviso regularmente. E mais importante: planejo e executo as ações para chegar lá.

Meu primeiro trabalho foi em um banco de investimento. Lá conheci o Zé Baixinho (naquela época chamá-lo assim não era bullying). Que personagem! Em um ambiente de alta performance e pressão por resultados, estava sempre com um sorriso no rosto e um comentário irônico engatilhado. Todos gostavam dele. Era da área comercial e tinha os melhores resultados, mesmo mal sabendo usar uma calculadora. Trabalhávamos em open space e, um dia, o colega apontou para a sua mesa, onde havia apenas um computador e um rolodex (dá uma googlada aí para ver o que era).

No encosto da cadeira, o paletó. Ele abriu as gavetas. Vazias. Sobre a mesa, nenhum item pessoal, nem uma única foto. Foi quando Zé Baixinho se virou para mim e comentou, apontando pro rolodex: `O dia que eu encher o saco daqui, pego o meu item mais valioso e vou pra casa.´

Um desapego total ao sobrenome corporativo. Uma autoconfiança e clareza do que realmente lhe ajudava a ser bem-sucedido: a sua rede de relacionamentos. O episódio me fez olhar para o trabalho sob uma nova perspectiva, a da independência.

E tem ainda uma terceira história sobre conselhos que impactaram a construção do meu futuro corporativo. Normam me levou para ser diretor de RH. Seis meses depois de eu ter começado na British Petroleum, ele me telefona num sábado. Ferrou, pensei. Era uma época em que não se tratava de assuntos ligados a trabalho aos finais de semana.

Ele se desculpou pela ligação: ‘Só para dizer que acabo de fazer 50 anos e vou me aposentar. Estou voltando para os EUA e vou viver no meu rancho no Colorado’. Foi um choque. Cedo assim? E toda aquela gente à minha volta trabalhando até morrer, e na mesma empresa…

## Fast forward para o momento presente.

Há duas semanas, eu e Jederson Beck reencontramos a Mariana. Nesse dia, minha amiga de longa data comentou detalhes da nossa última conversa, há quase três anos. Ela se lembrava das palavras exatas que havíamos trocado. E eu? Sequer me recordava do nosso encontro. Mas ela me relembrou que eu havia contado sobre planos futuros.

Rimos (eu, de nervoso) ao perceber que tinha alcançado exatamente o que planejei. Está aí um entre os muitos benefícios de ter amigos: são guardiões de pedacinhos da sua história. Formam o mosaico da sua vida.

Dias depois, a conversa marcante foi com o Joseph. Havíamos encontrado com um novo amigo, mais velho do que eu. E me impressionou a quantidade e variedade de realizações do sujeito. ´Ele já fez tanta coisa na vida´, foi a minha reação. Aí o Joseph me manda essa: ´Em 20 anos, pensa em quanta coisa mais você vai ter para contar!”. É isso! Fiquei bem animado com as próximas décadas.

O grande barato dessas guinadas que marcaram minha trajetória é a possibilidade de escolher o que eu quero fazer, com quem quero estar, onde vou investir o meu tempo. Um privilégio libertador!

Ao tentar colocar um ponto final neste texto, me dou conta de que é, de certa forma, uma homenagem às pessoas que contribuíram com a minha caminhada. Por sorte, foram e serão muitas.

Não é sobre a linha de chegada, mas a jornada. Se o Marcelo de hoje encontrasse com o Marcelo de ontem, certamente diria a ele: pare de olhar para trás e trate de curtir mais o caminho!

Saudações sabaticosas.

Compartilhar:

Marcelo Nóbrega é especialista em Inovação e Tecnologia em Gestão de Pessoas. Após 30 anos no mundo corporativo, hoje atua como investidor-anjo, conselheiro e mentor de HR TechsÉ professor do Mestrado Profissional da FGV-SP e ministra cursos de pós-graduação nesta e em outras instituições sobre liderança, planejamento estratégico de RH, People Analytics e AI em Gestão de Pessoas. Foi eleito o profissional de RH mais influente da América Latina e Top Voice do LinkedIn em 2018. É autor do livro “Você está Contratado!” e host do webcast do mesmo nome. É Mestre em Ciência da Computação pela Columbia University e PhD pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Artigos relacionados

Live marketing ganha força na era da distração

Logotipos já não são suficientes para conquistar relevância. Em um mercado saturado de mensagens, as marcas que se destacam são aquelas capazes de transformar interações em experiências memoráveis e consumidores em protagonistas de suas histórias.

O futuro das empresas de serviços

Posicionamento claro, gestão comercial estruturada, experiência do cliente, disciplina financeira, desenvolvimento de talentos e capacidade de adaptação formam os pilares de um crescimento sustentável. O desafio das empresas de serviços já não é apenas expandir, mas criar condições para que essa expansão se mantenha saudável e rentável.

O Brasil precisa enfrentar o desafio de construir com mais eficiência

A construção civil está deixando para trás práticas marcadas por desperdícios e retrabalhos. O avanço de soluções industrializadas, novas tecnologias e modelos de gestão mais eficientes aponta para um novo cenário: construir com mais qualidade, menor impacto e maior previsibilidade.

Marketing & growth, Comunicação, Estratégia
3 de julho de 2026 08H00
Se a sua mensagem interna viralizar amanhã, você sustentaria o que disse?

Ana Paula Soares - Fundadora e diretora-geral da Encaso Assessoria

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
2 de julho de 2026 14H00
A digitalização do pós-obra pode transformar operações, reduzir custos e fortalecer a experiência do cliente no setor imobiliário. Este artigo mostra que as construtoras podem transformar o momento da entrega das chaves em inteligência, eficiência e vantagem competitiva.

Jean Ferrari - CEO da FastBuilt

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
2 de julho de 2026 08H00
Seu maior risco digital pode estar no bolso do seu colaborador. Este artigo revela por que a gestão da frota móvel deixou de ser uma questão operacional e passou a ser uma decisão estratégica de segurança e eficiência.

Stephanie Peart - Head da Leapfone

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de julho de 2026 15H00
A liderança centrada no controle está perdendo espaço. Este artigo mostra como a capacidade de desenvolver autonomia será o principal diferencial das organizações do futuro.

Marcelo Neri - CEO, Mentor Executivo, Palestrante Internacional e Escritor

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
1º de julho de 2026 08H00
Muito além do debate entre humano e IA, este artigo expõe o verdadeiro problema do atendimento moderno: não é quem responde, mas quem tem poder para decidir, e por que a falta de autoridade na ponta continua destruindo experiências e confiança.

Átila Persici Filho - COO da Bolder, Professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação

8 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Estratégia
30 de junho de 2026 15H00
A partir dos sinais do Web Summit Rio 2026, este artigo mostra como a saúde mental deixou de ser benefício periférico para se tornar uma variável crítica de negócio, impactando investimento, regulação e a própria sustentabilidade das empresas.

Weber Stival - Fundador e CEO da Unolife.

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
30 de junho de 2026 08H00
A NR-1 mudou a regra: cuidar da saúde mental agora exige gestão. Este artigo mostra como a nova norma transforma riscos psicossociais em variável estratégica, exigindo das empresas organização, método e accountability na gestão do ambiente de trabalho.

Erich Silva - COO e Head de Talentos da Lecom

3 minutos min de leitura
Liderança
29 de junho de 2026 16H00
Ao revisitar a história de Francisco Serrão, este artigo propõe uma inversão rara na lógica da liderança contemporânea: talvez a verdadeira coragem não esteja em continuar a todo custo, mas da capacidade de definir limites.

François Bazini - CMO e Consultor

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
29 de junho de 2026 08H00
Ao contrastar o poder das big techs ocidentais com a força industrial e estrutural do Oriente, este artigo amplia a leitura sobre inovação e revela que o futuro da economia global não será definido por empresas isoladas, mas pela interação entre ecossistemas tecnológicos interdependentes.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de junho de 2026 15H00
Com Sérgio Frangioni e a Blanver como pontos de observação, o terceiro artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira investiga como decisões empresariais, PDPs, IFAs e produção local podem aproximar inovação farmacêutica da vida concreta dos pacientes.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

13 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo