Cultura organizacional

Cultura ágil e desafios comportamentais

Para adquirir a cultura ágil é insuficiente formar as pessoas no método. É necessário criar espaço para uma transformação de atitudes e comportamentos compatíveis com os valores do manifesto Ágil.
Thiago é economista pela UFCG e Université Pierre Mendès France, e mestre em Administração de Empresas pela FGV-EAESP. Tem mais de 10 anos de atuação profissional em empresas de grande porte no Brasil, Argentina e Equador e consultorias de referência em gestão como a Falconi Consultores e Instituto Aquila. Vera é administradora pela EAESP – FGV, mestra em Sustentabilidade e Governança. Tem especialização no PIM na HEC e no Diversity Program da INSEAD na France. Possui 25 anos de vivência internacional em cargos de liderança (França, Brasil, Argentina, Chile) no Groupe Renault France.

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A necessidade de Agilidade vem ganhando relevância na área de gestão. O cotidiano enfrentado pelas empresas com a pandemia da Covid-19 fez o tema ganhar notoriedade e entrar definitivamente na pauta. 

Os paradigmas tradicionais da gestão organizacional são cada vez mais desafiados. Eles são fundamentalmente construídos no que chamamos de atributos masculinos, mais habituados com comportamentos de comando e controle do que com a incerteza e a interdependência.

## O que é agilidade?

Afinal, o que é agilidade? Segundo o Guia Ágil do PMI – *Project Management Institute*, “as abordagens ágeis e os métodos ágeis são termos guarda-chuva que abrangem uma variedade de frameworks e métodos”. Ainda segundo esse mesmo guia, muitas dessas práticas já eram utilizadas anteriormente por meio da filosofia *lean*, que tem suas origens na Toyota na década de 1950. 

![](https://lh6.googleusercontent.com/Zpm1eAT-fLCz0EpQul62f2ne25iq3CUE0sgzu8xu8ucxoGaJYxf-RRR-wbFajCT6O2y6YBKzjiBI1BDg4Kkud3aO2wgxW1IpqT2X0tbPlroUTyRemA2zAnhwZsAcgXloG7GevKnz)

Podemos definir agilidade como um conjunto de abordagens, frameworks ou métodos que tem como base o Manifesto Ágil, elaborado em 2001 por 17 profissionais vanguardistas na gestão de projetos. Devemos considerar como frameworks/abordagens/métodos ágeis apenas aqueles que respeitem os quatro princípios do movimento ágil:

![](https://lh3.googleusercontent.com/P1gfGCZ3dpAl7cY7ZlDdgotXME9x0Cdjl9TCksQ-9QO6fqm1rH-AXV_GsYr8HhjnkUIiUv9XwI_1z19uxyuoALeGFWr6SeYoq4TfoSIF24QcFQoLhGS7JKVzP1Ip10bIHs5yz74z)

Depois de duas décadas de existência e com a ampliação do uso desta abordagem nas empresas, ONGs e órgãos governamentais, novos desafios estão surgindo, principalmente quando falamos da escalabilidade destas abordagens dentro das organizações. 

O ponto crucial na prática do método Ágil é a construção de um mindset Ágil. Ele depende da vontade de evoluir das pessoas envolvidas. Para adquirir a cultura ágil é insuficiente formar as pessoas no método. É necessário criar espaço para uma transformação de atitudes e comportamentos compatíveis com os valores do manifesto Ágil. 

O atual modelo educacional continua funcionando no mesmo molde de educação em massa tão importante na criação das primeiras universidades pela Igreja Católica na Europa. 

Apesar de ter sido um modelo fundamental para disseminação de conhecimento para uma grande quantidade de pessoas, tão crucial para a evolução intelectual da humanidade, este modelo acaba construindo um mindset individualista do desempenho. 

Baseado no comando controle, na competição insana, no medo do erro, entre outros, esquece de valorizar o desempenho do grupo (equipe) e tem um foco significativo na conformidade dos padrões, inibindo assim a criatividade. 

Atualmente, uma série de inovações tecnológicas vem auxiliando a criação de [novos métodos de ensino](https://revistahsm.com.br/post/a-reinvencao-da-educacao-corporativa). A Singularity University e grandes pensadores no tema acreditam que as principais tendências para a educação nos próximos anos serão: 

– Aprender em pequenas doses.

– Retornar à **criatividade** na sala de aula.

– Mudar os **métodos de ensino** (PBL, etc).

– **Personalizar** o ensino com o auxílio da tecnologia (AI, ML, etc).

– Utilizar ensino **online** e **tecnologia**s emergentes.

– **Computação/Tecnologia** e **Filosofia/Ética** poderão ser assuntos tratados em todos os cursos de graduação (ex: MIT, FGV – EAESP).

– Evoluir para o movimento do Ensino/Aprendizado **continuado**.

Desta forma, o papel da escola e das universidades passa a ser muito mais de criar um capital social para os estudantes e provocá-los a co-construir conhecimento com a instituição e professores. Esta mudança vem ao encontro da necessidade de evitar o papel muitas vezes passivo no processo de aprendizagem. A educação passará a ser muito mais um processo de evolução do que um processo linear, onde o erro será visto como uma oportunidade de aprendizado, ao invés de algo passível de punição. 

Será um espaço onde as incertezas se transformam em oportunidades, o complexo em fonte de inspiração, o vulnerável em possibilidade de crescimento e o ambíguo em motivo de inclusão.

Enquanto nossa educação evolui, as organizações que querem agilidade precisam incorporar uma cultura organizacional que inclua essas [novas atitudes e comportamentos](https://revistahsm.com.br/post/a-importancia-das-portable-skills-para-sua-carreira). As organizações precisam fazer o necessário para evoluírem engajando suas colaboradoras e colaboradores. 

Importante reforçar que os estudos de Toro e Werneck e de Richard Barrett demonstram a necessidade de se fazer um convite claro em torno de um propósito comum para mobilizar as pessoas em uma mudança de mindset. 

Assim, é fundamental criar espaço para promover uma conexão com os valores e crenças que expressam o conteúdo motivacional e afetivo do indivíduo para que esta evolução se concretize pela expressão de novos comportamentos. 

## O modelo InnovAGILE

O modelo InnovAGILE foi criado para contribuir com a construção da cultura Ágil nas organizações. O método vem agregar a capacitação que motiva e promove atitudes e comportamentos essenciais ao funcionamento do movimento Ágil a partir da evolução pessoal. 

Como demonstramos no quadro abaixo, é necessário desenvolver comportamentos que reflitam valores essenciais para que o método Ágil funcione.

![Une image contenant texte, carte Description générée automatiquement](https://lh5.googleusercontent.com/PyjnxThp1d9TA687nWo0dpPZelrVN_sgOS0zl0L3qP_sPsgkb6B4jt7XXHhizjtZIHtdWUbSarI37VRbEkBJrYob0e8VRbg5o3uPMMBklKBpDwWF-9JYQJXpBSG_MmeymD37uLc7)

Observando o funcionamento das diferentes organizações, identificamos que seu principal desafio não é escolher o modelo A, B ou C, e sim fazer evoluir o mindset da liderança para criar uma cultura e ambiente ágil. Muitas empresas vêm fracassando na obtenção dos benefícios prometidos pelo movimento ágil por negligenciarem a cultura. 

Toda mudança cultural requer investimento em capacitação em três níveis: individual, coletivo e estrutural. Esta evolução deve fazer parte da estratégia da organização e ser acompanhada pelo *Board*, assim como foi feito com a implementação da cultura LEAN no Ocidente no começo da década de 90. 

Além disso, para provocar o desenvolvimento dos(as) colaboradores(as) em relação aos valores Respeito, Confiabilidade, Coragem, Desenvolvimento Pessoal, Comprometimento, Abertura, Foco no cliente e Pensamento Sistêmico, precisamos trabalhar a motivação nos mesmos níveis: individual, coletivo e estrutural. 

Viver os valores que trazem agilidade exige autorreflexão para consolidar a capacidade de suprir necessidades básicas e promover a maturidade emocional. Estamos falando em tornar relacionamentos ágeis e, ao mesmo tempo, prazerosos. 

Precisamos trazer para o nível da consciência individual a visibilidade dos valores e competências analisando como eles se alinham ao contexto VUCA (Vulnerável, Incerto, Complexo e Ambíguo). O método Ágil está alinhado com a era das relações que exige atributos femininos, atributos estes até então negados pela Era industrial. 

O modelo InnovAGILE pressupõe uma maior equidade de gênero nos relacionamentos para uma plena convivência dos valores femininos e masculinos. Precisamos sair da polarização em função do sexo biológico e:

– Viver a vulnerabilidade ao invés de evitá-la e assim permitir a utilização dos erros como forma de aprendizado e inovação.

– Incentivar a abertura para apreciar o novo e as diferentes visões, criando novas soluções.

– Aceitar a interdependência para viver a conexão que leva à colaboração plena. 

– Acolher e cuidar mais de cada membro de um squad/time scrum para assegurar comprometimento com o propósito comum.

– Desenvolver empatia e foco nos relacionamentos para favorecer a confiança necessária para as entregas de excelência, assim como a coragem para ousar e se desenvolver.

![Une image contenant réfrigérateur, nombreux, ordinateur, gens Description générée automatiquement](https://lh5.googleusercontent.com/20y2qwm4ouRznD1BZ4jUDwRcbg-UuQyBbn9HiYCxWHGT0xRSK8gvtwk3pwl0md_D0qtMJ_g5Mpjc8R_Mp3vzWFEoYoCLw233r2kSJwUwNPujzEK6Dd8z0bttChCpmovdXo_ODgAx)

A integração destes valores femininos promove a construção de equipes multidisciplinares e autogerenciáveis, favorecendo um ambiente baseado em relações de confiança e responsabilidade individual. Dessa forma, os reflexos do paradigma do comando e controle e a construção de silos gerenciais tendem a desaparecer. 

Conceitos baseados no agregar grandes quantidades de colaboradores como critério de sucesso de um(a) líder são substituídos por outros, onde prevalecem ambientes ágeis com estruturas fluídas e orgânicas. O controle gerencial é cada vez menor e a informação circula mais rápido e de forma transparente e eficiente. 

O gestor moderno gosta de se relacionar e acolhe a diversidade para assegurar multidisciplinaridade de habilidades e conhecimentos e pluralidade de pontos de vista e visão de mundo. Sem estes, como demonstram estudos recentes da Mckinsey, a performance fica reduzida quando comparada com empresas que asseguram a diversidade.

Agilidade permite a boa vivência do conflito de ideias, tão necessário à inovação. Sem diversidade, as equipes de sua organização serão uma cópia mental do líder que vive sempre com as mesmas ideias e com reflexos do comando controle.

Então, caso você seja um executivo ou líder de equipe que quer e ousa escalar a agilidade, ou ainda um colaborador que deseja influenciar sua organização para entrar em uma jornada ágil, não ignore as questões culturais, por mais brilhante tecnicamente que seja sua equipe ou a maioria das equipes de projetos. 

Parafraseando Peter Drucker, uma cultura apoiada em comportamentos de comando e controle devora a agilidade no café da manhã. Ouse ter a coragem necessária para abordar as incertezas com confiança na interdependência.

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