Cultura organizacional

Cultura, EVP, employer branding e uma nota sobre valores

Os componentes da identidade organizacional se ramificaram em tantos pedaços que realmente ficou difícil entender como eles se conectam. Que tal fazer uma tentativa?
Atua como consultora em projetos de comunicação, employer branding e gestão da mudança pela Smart Comms, empresa que fundou em 2016. Pós-graduada em marketing (FGV), graduada em comunicação (Cásper Líbero) e mestranda em psicologia organizacional (University of London), atuou por 13 anos nas áreas de comunicação e marca em empresas como Johnson&Johnson, Unilever, Touch Branding e Votorantim Cimentos. É professora do curso livre de employer branding da Faculdade Cásper Líbero, um dos primeiros do Brasil, autora de artigos sobre o tema em publicações brasileiras e internacionais e co-autora do livro Employer Branding: conceitos, modelos e prática.

Compartilhar:

Este texto é a reprodução (levemente editada para fins de compreensão) de um texto publicado no livro Employer Branding: mais conceitos, mais modelos, mais práticas, de Bell Gama, Bruna Mascarenhas e Viviane Mansi, lançado em julho de 2023.

Perguntas sobre a relação entre cultura organizacional, valores, EVP (proposta de valor ao empregado, na tradução da sigla) e employer branding surgem com muita frequência no dia a dia de aulas e consultoria de marca empregadora. Às vezes, elas surgem no cenário de organizações que estão desenvolvendo um projeto de cultura e acreditam que os diagnósticos e leituras sejam suficientes para a construção de um EVP. Em outros casos, surgem quando os pilares de cultura estão prontos e as lideranças acreditam que divulgá-los seria suficiente para posicionar a marca empregadora. Já aconteceu até de, durante uma apresentação de EVP, as lideranças trazerem a ideia de “trocar” os valores organizacionais pelos pilares do EVP porque eles parecem mais fiéis à realidade da organização.

## Confundi tudo, será que não sei nada?
Confundir esses elementos é normal e justo – isso porque não contemplamos aqui outros elementos como propósito, missão, visão, essência. Se na Academia ainda há discussões acaloradas e profundas sobre definições e limites desses temas, por que teríamos respostas incontestáveis na prática?

Todos esses componentes de uma identidade organizacional se ramificaram em tantos pedaços que realmente ficou difícil entender como eles se conectam e quem cuida de cada pedacinho. Muitos (nós também, vocês vão ver a seguir) tentaram sistematizar essas relações em modelos, mas, na realidade, a maneira como esses pedaços se relacionam funciona de uma forma no modelo de um livro e de outra, bem diferente, nas organizações, quando são adicionados os detalhes de design organizacional, hierarquia, política e outros aspectos que não estão escritos, mas ditam muito de como a coisa realmente funciona na vida real e dentro da realidade de cada organização.

Dito tudo isso, vamos nos ater a uma tentativa de conectar cultura, EVP e employer branding de forma simplificada. Entre as muitas definições de cultura organizacional, aquela descrita no trabalho seminal de Edgar Schein, em 1990, propõe que ela é um conjunto de premissas básicas criadas, encontradas ou desenvolvidas por um grupo, para lidar com problemas de adaptação externa ou integração interna e que funcionaram suficientemente bem para serem considerados válidas e repassadas a novos membros do grupo como a melhor forma de enfrentar tais problemas. Schein também propõe que a cultura pode ser notada em três níveis: pressupostos básicos, valores compartilhados e artefatos, sendo que apenas estes últimos são fenômenos que podem ser vistos, ouvidos e sentidos, mesmo que difíceis de decifrar.

Composta por tantos elementos complexos de especificar e até descrever, especialmente para quem não está inserido na cultura em questão, não surpreende que até hoje seja um desafio para as organizações o trabalho de definir e disseminar uma cultura organizacional— nos perguntamos, inclusive, até que ponto isso é possível em termos tão cartesianos como “definir”. Também não surpreende que, quando convidados a refletir sobre como comunicar elementos de cultura, todos nós tenhamos algum nível de dificuldade para ir além do que se escreve num cartaz ou slide de apresentação. “É mais do que isso”, parecemos sentir — e é mesmo.

## A cultura que pode ser contada, explicada e exemplificada
Aí entra o tema do EVP. Desde o primeiro livro que publicamos, em 2020, defendemos que não é mandatório ter uma proposta de valor definida para fazer um bom trabalho de gestão da marca empregadora, mas que tê-lo facilita e melhora muito o caminho. Isso porque na construção de um EVP, é preciso fazer o exercício difícil e enriquecedor de ler a cultura pelos olhos de quem a vivencia todos os dias, entendê-la e transformá-la, dentro do possível, em elementos organizados e comunicáveis interna e externamente. É preciso ouvir e destilar o que se escuta ao ponto de conseguir traduzir o pilar X, Y ou Z da cultura em vivências tangíveis, que se expressam em falas como “aqui sou cobrado por…”; “aqui as pessoas são reconhecidas por…”; “aqui dá certo e é feliz quem é…”.

Muitas vezes, expor a distância entre o que aparece na apresentação de cultura da empresa e o que emerge nas falas dos funcionários é um dos momentos mais desconfortáveis na construção de um EVP. Na nossa experiência, na maioria dos casos, isso não acontece porque o que está na apresentação é mentiroso, mas porque uma apresentação, ou qualquer outro tipo de documento, não tem a capacidade de descrever como as pessoas vivem a organização. E a forma como as pessoas vivem a organização, de um jeito mais específico, detalhado e orgânico, é o que precisa estar presente em uma proposta de valor ao talento (EVP).

## Cultura: essencial, mas apenas um dos componentes da proposta de valor ao talento
Apesar de ser central para um EVP, a cultura não é tudo. É preciso que ele contenha também aspectos do negócio, do contexto em que a organização está inserida, o que se espera do talento e o que se oferece a ele em troca. Aqui, a gente compartilha um modelo nosso que pode ajudar a ilustrar a relação entre cultura, EVP e employer branding – lembrando sempre do mantra de que “todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis”. Isso foi dito pelo estatístico George Box para lembrar a gente de que modelos simplificam a complexidade, ou seja, devem ser vistos como úteis, não como verdades indiscutíveis.

![Figura](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/2ackHhHriMNxGy4RiCPPp0/454485c87550a14aed66678463612042/Figura.png)

Crédito: Air Branding & Smart Comms

## Uma nota sobre valores
Assim como cultura, valores são elementos centrais da identidade de uma empresa. Eles descrevem os princípios que guiam e direcionam a organização em todas as suas atividades e devem, idealmente, servir como uma bússola moral para a empresa e seus empregados. Se o propósito fala sobre o porquê, os valores são fortemente ligados ao como.

Durante a estruturação dos valores de uma empresa, as perguntas centrais são: o que deve guiar as operações da nossa empresa? Que tipo de conduta nossos empregados devem adotar? Valores são, em grande parte, conectados à esfera da ética e, frequentemente, detalhados até o nível de procedimentos, como em códigos de ética, documentos que podem descrever como esses valores devem ser colocados em prática. Os pilares de uma marca empregadora devem ser mais voltados a como as pessoas trabalham para realizar, entregar e viver o que os valores propõem. Nessa esfera, é preciso ser mais específico em relação à forma como eles influenciam o trabalho das pessoas.

Um exemplo? Uma empresa do setor farmacêutico pode ter entre seus valores a excelência. Isso pode ter vários significados: para uma pessoa pesquisadora, que atuará na área de pesquisa e desenvolvimento, isso pode se manifestar no dia a dia nos protocolos a serem seguidos em testes clínicos para o desenvolvimento de uma nova medicação e no quanto ela pode esperar de flexibilidade em relação a sua forma de conduzir a rotina de trabalho. Para alguém da área de marketing, pode significar restrições e prazos mais longos para poder colocar uma campanha no ar ou etapas adicionais de validação de peças de divulgação para um congresso médico, porque o setor é extremamente regulado.

## Conclusão – se é que dá para chegar a apenas uma
Vejam que, no exemplo anterior, já começamos a destilar os valores — amplos — para como eles podem se manifestar na experiência de trabalhar em uma determinada organização. Isso vale para todos esses outros elementos estruturantes da identidade organizacional quando falamos de marca empregadora: eles formam base, mas precisam ser somados a contexto e comunicação cuidadosa para responderem à pergunta central de qualquer trabalho de marca empregadora: por que o talento deve entrar e ficar na organização?

Compartilhar:

Artigos relacionados

Empresas preparadas para a próxima década não usam IA. Elas se reorganizam ao redor dela.

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

O que separa empresas inovadoras das que apenas fazem inovação

Programas de startups, laboratórios de inovação e investimentos em inteligência artificial tornaram-se comuns nas grandes organizações. O problema é que poucas conseguem transformar experimentação em resultado de negócio. O artigo discute como estruturar processos que convertam conhecimento externo em decisões estratégicas capazes de gerar crescimento, adaptação e vantagem competitiva.

Pare de tentar prever o mundo. Construa uma empresa que aguenta vários.

Tarifas, conflitos geopolíticos, rupturas nas cadeias de suprimentos e mudanças regulatórias expõem uma fragilidade comum em muitas organizações: a dependência de um único cenário de futuro. Ao analisar os efeitos recentes do tarifaço sobre produtos brasileiros, o artigo argumenta que a verdadeira vantagem competitiva não está em prever corretamente o próximo choque, mas em construir operações capazes de se adaptar rapidamente a diferentes realidades sem comprometer resultados.

Contratar, promover ou buscar fora: a decisão que separa o líder do gestor

Promover talentos internos, contratar no mercado ou recorrer a executivos por projeto são decisões cada vez mais frequentes em empresas que crescem e se transformam. Mas a escolha mais importante acontece antes disso: compreender qual problema realmente precisa ser resolvido. O artigo discute por que muitas organizações se concentram em preencher posições rapidamente, quando deveriam dedicar mais tempo a entender a natureza, a duração e a complexidade dos desafios que enfrentam.

Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
7 de agosto de 2026 14H00
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de agosto de 2026 09H00
Programas de startups, laboratórios de inovação e investimentos em inteligência artificial tornaram-se comuns nas grandes organizações. O problema é que poucas conseguem transformar experimentação em resultado de negócio. O artigo discute como estruturar processos que convertam conhecimento externo em decisões estratégicas capazes de gerar crescimento, adaptação e vantagem competitiva.

Roberta Barros - Gerente de Strategy, Innovation & Ventures na Deloitte.

7 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
6 de agosto de 2026 17H00
Tarifas, conflitos geopolíticos, rupturas nas cadeias de suprimentos e mudanças regulatórias expõem uma fragilidade comum em muitas organizações: a dependência de um único cenário de futuro. Ao analisar os efeitos recentes do tarifaço sobre produtos brasileiros, o artigo argumenta que a verdadeira vantagem competitiva não está em prever corretamente o próximo choque, mas em construir operações capazes de se adaptar rapidamente a diferentes realidades sem comprometer resultados.

Átila Persici Filho - CINO, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação.

12 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
6 de agosto de 2026 08H00
Trinta e cinco anos após a criação da Lei de Cotas, a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho continua sendo medida principalmente pelo número de contratações. O desafio agora é outro: garantir experiências de trabalho dignas, acessíveis e capazes de promover desenvolvimento, pertencimento e crescimento profissional.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
5 de agosto de 2026 14H00
Promover talentos internos, contratar no mercado ou recorrer a executivos por projeto são decisões cada vez mais frequentes em empresas que crescem e se transformam. Mas a escolha mais importante acontece antes disso: compreender qual problema realmente precisa ser resolvido. O artigo discute por que muitas organizações se concentram em preencher posições rapidamente, quando deveriam dedicar mais tempo a entender a natureza, a duração e a complexidade dos desafios que enfrentam.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
5 de agosto de 2026 08H00
A mobilização que o maior evento esportivo do mundo desperta revelou algo poderoso sobre os brasileiros: nossa capacidade de nos unir em torno de um objetivo comum. Mas por que essa mesma energia raramente se traduz em avanços estruturais para o país?

Laura Jane Pereira de Souza - Administradora de empresas, consultora e mentora

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
4 de agosto de 2026 14H00
O retorno obrigatório ao trabalho presencial tem sido defendido como uma solução para desafios de gestão, colaboração e produtividade. O artigo propõe uma reflexão: organizações de alta performance gerenciam pessoas pela presença ou pelo valor que entregam?

Marta Ferreira

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Estratégia
4 de agosto de 2026 de 2026
Durante um dos maiores congressos de RH do mundo, uma provocação ganhou destaque: o futuro da área não será definido por sua capacidade de justificar sua relevância, mas por demonstrar, com dados e resultados, o impacto que gera para o negócio. Em um cenário marcado por inteligência artificial, novas formas de trabalho e pressão crescente por resultados, o RH é chamado a assumir um papel cada vez mais estratégico.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

3 minutos min de leitura
Liderança
3 de agosto de 2026 14H00
Christopher Nolan levou a Odisseia de volta às conversas contemporâneas. Este artigo aproveita a trajetória de Odisseu para discutir um dos desafios mais invisíveis das organizações: reconhecer quando estratégias que garantiram sobrevivência no passado passaram a limitar confiança, aprendizagem e crescimento no presente.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
3 de agosto de 2026 08H00
Por que relações saudáveis deixaram de ser apenas uma questão de clima organizacional para se tornarem um fator estratégico de competitividade? O artigo mostra como a confiança entre pessoas e áreas influencia diretamente a velocidade de execução dos negócios.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo