Tecnologia e inovação

De onde vem o alimento?

Tecnologias permitem ao consumidor final ser um agente ativo de mudanças estruturais no mercado de alimentos
Técnico Agrícola e administrador, especialista em cafeicultura sustentável, trabalhou na Prefeitura Municipal de Poços de Caldas (MG) e foi coordenador do Movimento Poços de Caldas Cidade de Comércio Justo e Solidário. Ulisses é consultor de associações e cooperativas e certificações agrícolas.

Compartilhar:

Por muitos anos, a preocupação da população, principalmente urbana, era saber se teria comida na mesa para suas refeições diárias. Essa era considerada uma das necessidades mais básicas e um constante desafio para as famílias. 

Embora no Brasil e no mundo muitas pessoas ainda tenham que enfrentar esse desafio, outras preocupações se tornaram ainda mais desafiadoras quando o assunto é alimentação. Uma delas é saber a origem do alimento.

Para muitos, não basta apenas ter o alimento na mesa. Tão importante quanto é saber se esse alimento é saudável, se foi produzido de forma sustentável e qual o impacto que a produção, distribuição e consumo desse alimento tem na sociedade como um todo. 

## Barreiras complexas

No início, essa preocupação se restringia a um nicho do mercado. No entanto, cada vez mais pessoas de diversas classes sociais estão entendendo que o ato de consumir alimentos pode gerar impacto positivo ou negativo, a depender das escolhas que fazem. 

Entretanto, não é uma tarefa fácil saber de onde vem o alimento. Muitas pessoas ainda têm dificuldade para fazer escolhas com base em informações detalhadas. Mesmo que consigam realizar essa tarefa no dia a dia, é difícil para a maioria das pessoas consumir alimentos identificando e conhecendo a fundo a origem de cada produto.

Isso ocorre porque a [cadeia agroalimentar](https://revistahsm.com.br/post/como-sera-o-agricultor-do-futuro) é extremamente complexa. Além disso, a economia tem um peso importante quando o assunto é alimentação. Muitas vezes, na decisão de compra em um supermercado, por exemplo, o fator preço determina a escolha das pessoas.

## Mudanças em curso 

Mas as famílias, preocupadas com a saúde e pela busca por produtos diferenciados, estão começando a ter cada vez mais opções de escolha. Produtores rurais, empresas e regiões de olho nessa necessidade estão desenvolvendo ferramentas que facilitam o acesso do consumidor à rastreabilidade do produto, aderindo à certificações que atestem boas práticas ambientais, sociais e produtivas. 

Além disso, hoje é possível delimitar e conhecer a origem dos produtos, e de boa parte da cadeia produtiva, com base em indicações geográficas. Através dessa mudança cultivada pelo consumir, a distância entre quem produz e quem consome é reduzida.

Essas tendências estão sendo alavancadas graças às [tecnologias digitais](https://revistahsm.com.br/post/agroecologia-high-tech-e-possivel-parte-i) e o acesso cada vez mais amplo às informações que empoderam o consumidor, passando este a ser o principal responsável pelas transformações no mercado.

Assim, cada vez mais o consumidor de alimentos está deixando de ser um elo passivo da cadeia produtiva (que recebe o alimento na sua mesa e não faz perguntas) para ser um agente ativo e propulsor de mudanças. 

## Um novo mercado para novos comportamentos 

Na linguagem de gestão, a demanda por alimentos tende a ser cada vez mais *pull*, saindo do tradicional *push* que sempre a caracterizou. Com essa alteração, estamos vendo o crescimento de alguns seguimentos do agronegócio se destacar, principalmente aqueles ligados à agricultura local, familiar, produtos certificados e gourmet. Em síntese, produtos que detêm indicações de procedência e são feitos por pequenos negócios.

Para quem produz, essas transformações implicam na necessidade de trabalhar de maneira mais ampla com a sustentabilidade produtiva, e ainda de sair dos limites da propriedade e ser reconhecido pelo mercado, muitas vezes agregando valor à produção.

Para a indústria, essa tendência significa repensar toda a cadeia de fornecimento e distribuição. Assim, não basta só entregar um produto. Os produtores precisam oferecer alimentos que realmente cumpram seu papel em todos os aspectos esperados pelo consumidor. Essa perspectiva é discutida em [outro artigo](https://www.revistahsm.com.br/post/agroecologia-high-tech-e-possivel-parte-iii). No texto,  aponto que o setor produtivo não deve impor regras e precisa reconhecer as necessidades do consumidor como base para a tomada de decisões. 

## Reações institucionais

Para o consumidor, embora essa transformação em curso implique numa maior complexidade na relação com o alimento, as mudanças permitirão segurança na escolha dos produtos. Bem informado e ciente da origem do produto, o consumidor poderá valorizar cada vez mais os alimentos produzidos, pensando no bem-estar de todos que com ele se relacionam. 

Neste sentido, os órgãos de apoio ao consumidor, médicos, nutricionistas, escolas e influenciadores que trabalham com produção, distribuição, industrialização, preparo e consumo de alimentos buscam mostrar que os consumidores e toda a cadeia produtiva só têm a ganhar quando se sabe de onde vem os alimentos.

Para líderes de empresariais ligados ao agronegócio, [os cenários são claros](https://www.revistahsm.com.br/post/agroecologia-high-tech-e-possivel-parte-ii). Pesquisas da Nielsen apontam que as pessoas passaram a buscar hábitos mais saudáveis, adotando uma relação mais preocupada com a saúde e o meio ambiente. Consequentemente, isso impacta nas estratégias e nas vendas da indústria e do varejo brasileiro. 

Diversas são as iniciativas e grandes players do mercado na busca pela redefinição de suas estratégias. No entanto, nesse novo cenário, cabe espaço ainda aos empreendedores, aos pequenos negócios e às startups, que são, por natureza, mais ágeis na busca por soluções que atendam melhor os clientes.

Por fim, para quem ainda é crítico a essas mudanças, recorro à nutricionista e apresentadora Bela Gil, que em uma frase resumiu bem o que estamos vivendo: “Muitos questionam porque incentivo os meus filhos a comerem alimentos saudáveis. Mas todos, após descobrirem que estão com algum tipo de doença crônica, fazem uma mudança radical na alimentação”. Essas mudanças, a meu ver, funcionam como uma prevenção em primeiro lugar.

Compartilhar:

Artigos relacionados

74% das marcas poderiam desaparecer – e ninguém sentiria falta

No ritmo do mundo, só permanece quem sabe se adaptar. Este artigo mostra por que a relevância das marcas não depende mais de presença ou investimento, mas da capacidade de interpretar o tempo, integrar diversidade e transformar propósito em ação concreta.

O Brasil na corrida farmacêutica global

Este é o segundo artigo de uma série que explora o setor farmacêutico brasileiro, suas capacidades industriais, dependências e posição na nova corrida global da saúde. Para sua elaboração, foram consideradas contribuições de Reginaldo Braga Arcuri, presidente executivo do Grupo FarmaBrasil, entidade que reúne algumas das principais fabricantes nacionais de medicamentos. Recomenda-se também a leitura do primeiro artigo da série.

Inovação & estratégia
29 de abril de 2026 18H00
Este é o primeiro artigo de uma série de cinco que investiga o setor farmacêutico brasileiro a partir de dados, conversas com líderes e comparações internacionais, para entender onde estamos, como o capital vem sendo alocado e até que ponto a indústria nacional consegue, de fato, gerar inovação e deslocamento tecnológico.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

17 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
29 de abril de 2026 13H00
Sua empresa tem um lab de inovação, patrocina hackathon e todo mundo fala em "mindset de crescimento". Mas o que, concretamente, mudou no seu modelo de negócio nos últimos dois anos?

Atila Persici Filho - CINO da Bolder e Professor FIAP

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
29 de abril de 2026 07H00
Este artigo mostra como empresas de todos os portes podem acessar financiamentos e subvenções públicas para avançar em inteligência artificial sem comprometer o caixa, o capital ou as demais prioridades do negócio.

Eline Casasola - CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de abril de 2026 14H00
Em um mundo onde algoritmos decidem o que vemos, compramos e consumimos, este artigo questiona até que ponto estamos realmente exercendo o poder de escolha no mundo digital. O autor mostra como a conveniência, combinada a IA, vem moldando nossas decisões, hábitos e até a nossa percepção da realidade.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de abril de 2026 08H00
Organizações recorrem a parcerias estratégicas para acessar tecnologia e expertise avançada, como a implantação de plataformas ERP em poucas semanas

Paulo de Tarso - Sócio-líder do Deloitte Private Program no Brasil

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
27 de abril de 2026 15H00
A era da produtividade limitada pelo horário terminou. Enquanto ainda debatemos jornadas e turnos, a produtividade já opera 24x7. Este artigo questiona modelos mentais e estruturais que se tornaram obsoletos diante da ascensão dos agentes de inteligência artificial.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
27 de abril de 2026 07H00
Com a nova regulamentação prestes a entrar em vigor, saúde mental, riscos psicossociais e gestão contínua deixam de ser discurso e passam a integrar o centro das decisões corporativas.

Natalia Ubilla - Diretora de RH do iFood Benefícios

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
26 de abril de 2026 15H00
Da automação total às baterias do futuro, ao longo do festival em Austin ficou claro que, no fim das contas, a inovação só faz sentido quando melhora a vida e o entendimento das pessoas

Bruno de Oliveira - Jornalista e editor de negócios do site Automotive Business

3 minutos min de leitura
Empreendedorismo
26 de abril de 2026 10H00
Este artigo propõe um novo olhar sobre inovação ao destacar o papel estratégico dos intraempreendedores - profissionais que constroem o futuro das empresas sem precisar abrir uma nova.

Tatiane Bertoni - Diretora da ACATE Mulheres e fundadora da DataforAll e SecopsforAll.

2 minutos min de leitura
Lifelong learning
25 de abril de 2026 14H00
Quando tecnologia se torna abundante e narrativas perdem credibilidade, a autenticidade emerge como o novo diferencial competitivo - e este artigo explica por quê.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão